Crítica: Uma Entrevista com Deus

Seguindo uma tendência atual de filmes com temática religiosa, estreia no dia 15 de novembro o drama Entrevista com Deus (An Interview with God, 2018), com Brenton Thwaites (o Robin, da série Titãs) no papel do repórter Paul Asher, um correspondente da Guerra do Afeganistão, que voltou do conflito com sua fé abalada e seu casamento ameaçado. No entanto, uma entrevista com um homem que diz ser o próprio Criador desperta nele várias dúvidas que o faz questionar suas crenças e sua própria vida.

De frente com Gab… hã… pera…

Embora não fuja de certa pieguice e vários clichês do gênero, o filme também surpreende na medida em que nos envolve na história do repórter e no mistério de seu entrevistado. Os primeiros minutos chegam a ser um tanto maçantes, com seu esquema de perguntas e respostas que se estende por um tempo além do necessário. Mas isso faz todo o sentido no desenrolar da trama, pois tem o objetivo de nos introduzir na história pessoal de Paul e ir revelando os segredos que o levaram a um relacionamento fragmentado. Há, inclusive, um personagem misterioso com quem Paul conversa só por telefone, mas ninguém sabe se ele realmente existe ou se faz parte da imaginação do protagonista.

Paul e sua esposa enfrentam problemas de relacionamento.

A entrevista é realizada num período de três dias – meia hora por dia – e, a cada dia, Deus (David Strathairn) responde algumas das dúvidas existenciais da humanidade (Deus existe mesmo? Porque acontecem coisas ruins com pessoas boas? No que consiste a Salvação?), mas sempre de uma forma abstrata que faz o repórter questionar a si mesmo sobre como anda conduzindo sua própria vida e como aquele homem misterioso tem o poder de perturbá-lo tanto. Esse clima se mantém até o final, quando as peças se encaixam e o plano de Deus ao conceder essa entrevista fica claro.

Qual é o papel de Deus no palco da vida?

Sim, o filme é totalmente focado no público cristão. Este é, ao mesmo tempo, a maior virtude e o maior defeito. Ao mirar num público restrito, o longa prova que tem uma pontaria certeira, pois acerta o alvo, incentivando a reflexão sobre a crença em Deus e os próprios fundamentos da religião. Afinal, qual o limite da nossa fé e qual o nosso papel neste mundo se temos um ser superior que o “controla”? Porém, ao trabalhar com uma receita pré-definida e um final mais ou menos esperado (você não acha que o milagre vai deixar de acontecer, acha?), corre o risco de criar antipatia com os mais céticos ou espectadores de outras crenças. Com o devido esclarecimento, o longa é um bom programa para aprofundamento da própria compreensão do Transcendente.

Ninguém quer jogar xadrez comigo só porque eu antecipo seus movimentos…

Nos Estados Unidos, o filme teve uma curtíssima exibição (apenas quatro dias: de 20 a 23 de agosto) com pouca divulgação. Mesmo assim, o boca a boca garantiu que a bilheteria tivesse, a cada dia, um faturamento maior que o dia anterior, acumulando um total de US$ 1,25 milhão, um recorde para o gênero. Esse valor foi totalmente doado pela produtora Giving Films a entidades que apoiam assistência social e serviços de saúde a veteranos de guerra.

Cotação Raio X:

 

 

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Crítica: O Doutrinador

Quando se fala em quadrinhos de super-heróis, logo nos vêm à mente os personagens icônicos da Marvel e da DC, que há tantos anos povoam nosso imaginário com suas histórias fantásticas que, nos últimos tempos, tem levado multidões aos cinemas. Pouca gente tem conhecimento que o Brasil também é uma fonte desse gênero e vários deles com muitos anos de estrada. Esse panorama pode mudar com a estreia de O Doutrinador (idem, 2018), filme nacional que chegou aos cinemas este final de semana, e apresenta um anti-herói criado pelo quadrinhista Luciano Cunha, que combate a corrupção na política.

Poster alternativo traz a primeira data de estreia… e uma realidade na frase.

O filme chega num período bastante propício, em que vivemos a realidade de uma eleição presidencial extremamente complexa, pela falta de opções de um representante que nos seja confiável. Marcado para estrear em 20 de setembro, o longa teve seu lançamento alterado para 18 de outubro e, por fim, mudou novamente para 1º. de Novembro – certamente para ficar fora do período eleitoral, com os novos governantes já escolhidos e evitar comparações ou até mesmo qualquer tipo de apologia à violência – considerando o atentado a um dos candidatos favoritos na eleição antes do primeiro turno, foi uma decisão bastante acertada.

Miguel (dir) prende o governador corrupto… que é logo solto.

A trama mostra Miguel (Kiko Pissolato), um agente da DAE – Divisão Armada Especial – uma unidade de elite da Polícia Federal, sendo vítima de uma tragédia provocada pela corrupção política. Quando o governador Sandro Corrêa (Eduardo Moscovis) é preso mas logo liberado, Miguel vai em busca de vingança e assume a identidade do Doutrinador. Com uma máscara contra gases e um capuz protegendo sua identidade, ele assume uma cruzada particular para eliminar todos os políticos envolvidos em sujeira. Para isso, conta com a ajuda de Nina (Tainá Medina), uma hacker que o auxilia roubando dados dos crimes cometidos pelos parlamentares e nas invasões aos escritórios dos mesmos.

Miguel conta com a ajuda de Nina

Completam o elenco o ator Samuel de Assis como Edu, parceiro de Miguel na DAE, Tuca Andrada como o Delegado Siqueira, que vai investigar as ações do Doutrinador e Carlos Betão, candidato à presidência Antero Gomes, que usa sua retórica para conquistar o eleitorado (qualquer semelhança…). Há também uma breve participação de Marília Gabriela como a ministra Marta Regina, que também não é lá muito honesta.

O anti-herói nasce no meio de uma manifestação

O roteiro é muito bem amarrado e reflete bem a realidade do Brasil, onde todo mundo tem o rabo preso por algum motivo e enriquece às custas dos menos favorecidos, em reuniões regadas de muita zombaria e impunidade. O Doutrinador, embora use métodos pouco aconselháveis, gera identificação com o sentimento do povo brasileiro diante de tanta injustiça a que somos submetidos todos os dias. O clima é dinâmico e a edição, perfeita, com vários cortes na história, que eliminam excessos, deixando apenas o que interessa para contar a história.

Ser ou não ser honesto no Brasil? Eis a questão…

Os diretores Gustavo Bonafé e Fábio Mendonça tiveram o extremo cuidado com a qualidade do longa-metragem, fugindo dos lugares-comum nas produções nacionais, geralmente repletas de favelas, palavrões e cenas de sexo. Em O Doutrinador, tudo é muito bem dosado, resultando num filme que nada deixa a dever às produções hollywoodianas (Justiceiro, morra de inveja!). A boa notícia é que o anti-herói não vai se limitar ao cinema e já existe uma série de TV sendo produzida pela Turner International em parceria com o canal Space, com data de estreia para 2019. A história será a mesma, mas de forma mais detalhada e aprofundamento nas tramas paralelas dos personagens secundários. 

Herói foi criado em 2013, por Luciano Cunha

Nas HQs, o Doutrinador surgiu em 2013, inspirado pela onda de protestos que surgiu no País após o aumento da tarifa de ônibus e os gastos excessivos com a Copa do Mundo de 2014. Inicialmente publicadas pela Internet, o personagem acabou ganhando grande repercussão pela indignação do povo, que via no anti-herói, um representante contra tanta sujeira política. Não tardou para o personagem migrar para uma HQ impressa de forma independente no mesmo ano, que teve mais duas edições em 2015 e 2016. As três revistas foram depois reunidas em um encadernado de capa dura. Para 2019 estão previstos dois novos títulos, pela Guará Entretenimento.

A corrupção tem um remédio.

Espera-se que o filme abra as portas para novas produções nacionais inspiradas em super-heróis do quadrinhos. O Brasil tem vários deles e muito material interessante pode ser adaptado, gerando boas produções. Se todas tiverem o nível de qualidade que vemos em O Doutrinador, o cinema nacional pode estar iniciando uma nova fase em sua trajetória. Tomara que também desperte o interesse das editoras para que haja mais espaço a esses heróis nacionais, que amargam uma luta inglória por espaço nas bancas de revistas e livrarias.

Edição especial da revista Mundo dos Super-Heróis. Nas bancas!

Para mais informações a respeito do personagem, a revista Mundo dos Super-Heróis fez uma edição especial totalmente dedicada à produção, com entrevistas, curiosidades de bastidores e tudo sobre o longa-metragem. Nas bancas ou pelo site da Editora Europa.

Cotação: 

Saído do Forno: Cebolinha – Recuperação

O selo Graphic MSP chega ao seu vigésimo volume trazendo uma história solo de um dos personagens mais carismáticos da Turma da Mônica. Não só isso: o álbum também traz o mais jovem autor a escrever para a coleção. De autoria de Gustavo Borges, de apenas 22 anos (autor de Pétalas, que já resenhamos aqui), Cebolinha – Recuperação traz o garoto usando toda sua perspicácia para desenvolver planos infalíveis que vão bem além de roubar o coelhinho da Mônica.

Cebolinha apronta na escola… e fica de recuperação.

A trama-base mostra Cebolinha na escola – algo até então bem pouco explorado na Turma da Mônica – e, por um descuido dos estudos, ele fica de recuperação. Mas o título da Graphic MSP vai muito além desse fato, explorando todos os significados da palavra “recuperação”, que também significa o saída de uma situação ruim, a caça a um brinquedo perdido ou o resgate da própria autoestima. Conforme a história vai acontecendo, o leitor vai sendo apresentado a esses problemas e percebendo que para tudo há uma segunda chance e uma alternativa.

Será que o Sansão estava escondido nessa mochila?

A rivalidade entre Cebolinha e a Mônica fica em segundo plano nesta HQ. Pelo contrário, eles são muito mais amigos do que rivais. O “vilão” da vez é o esnobe Robertinho, o aluno que está sempre um passo à frente de Cebolinha, mesmo que precise trapacear para isso. Essa situação causa muitos problemas ao Cebolinha, que também precisa lidar com dificuldades familiares. Como o próprio Mauricio de Sousa descreve em seu editorial na edição, a trama possui várias camadas, como uma cebola e – porque não dizer? – como a própria vida.

Problemas familiares também envolvem as crianças.

Borges consegue dosar muito bem uma trama realista e semelhante à vida de qualquer leitor com o lúdico de um personagem infantil sem que este perca suas características. Assim, a história agrada aos pequenos, pela arte caricatural e o humor tão particular dos personagens, mas também agrada os adultos, pelas entrelinhas da história, que mostra que as crianças também se envolvem no universo de gente grande e são afetadas por ele, respondendo com muita sensibilidade.

Cebolinha encontra apoio nos melhores amigos.

Claro que as tradicionais referências ao universo dos personagens não poderiam faltar, incluindo menções a outros títulos da Graphic MSP que os leitores vão se divertir encontrando no decorrer da história. Após 20 volumes, a Graphic MSP continua sendo um dos melhores títulos de quadrinhos no mercado, por apresentar versões bastante diferenciadas de personagens que conhecemos tão bem, em situações fora de seu universo particular. Esse tipo de iniciativa é sempre bem-vinda, principalmente em se tratando do mercado nacional de quadrinhos.

Crítica: Titãs

Ontem foi o aguardado dia da estreia de Titãs, a primeira série de TV produzida pelo novo canal DC Universe, exclusivo para produções de super-heróis da editora do Superman. O canal entrou no ar no final de setembro, exibindo produções antigas, animações  e também disponibilizando quadrinhos para leitura on line. Titãs é a primeira produção própria e um projeto antigo da editora, que vinha sendo planejado desde 2014, mas a falta de entendimento dos produtores com os canais comerciais (no caso, o canal TNT) levou ao adiamento da mesma e, com o advento da Netflix, a ideia de produzir a série por conta própria e exibir no próprio canal.

Chora mais, Ravena!

Finalmente, a série saiu do papel e bem distante do clima descontraído e juvenil que os leitores estão acostumados a ver nos quadrinhos. O produtor Greg Berlanti – o mesmo criador das séries do chamado Arrowverso, exibidas pelo canal CW – optou por uma temática mais adulta, com heróis realistas e sombrios. O problema talvez seja que o roteiro de Akiva Goldsman pesou demais a mão nesse estilo, resultando num programa sem carisma e uma tentativa (mal sucedida) de criar um clima de terror.

Bem que me falaram que era melhor ter ficado na ilha…

A trama começa com a jovem Rachel Roth (Teagan Croft) sendo assombrada por pesadelos e uma apavorante imagem demoníaca de si mesma. Confinada no próprio quarto, cuja porta é forrada de crucifixos (Invocação do Mal, alguém?), Rachel (Ravena, para os íntimos) vive com a mãe e só sai para ir à escola, até que passa a ser perseguida por um homem misterioso. Em sua fuga, conhece o detetive Dick Grayson (Brenton Thwaites, do péssimo A Lagoa Azul – O Despertar) e lhe pede ajuda para controlar seu eu interior. 

O “passarinho” agora voa só.

Grayson, que saiu de Gotham por um desentendimento com Batman, tenta esquecer sua vida de vigilante, mas volta a vestir seu uniforme e agir sozinho (a famosa frase Fuck Batman! está lá, com todas as letras) chamando a atenção da mídia – e da própria delegacia onde trabalha. Ao mesmo tempo, Kory Anders (Anna Diop) acorda no meio da estrada, num acidente de carro sem lembrar quem é ou como foi parar ali e passa a buscar suas origens. O filme termina com um tigre verde roubando um game numa loja e se transformando no jovem Mutano (Ryan Potter), que corre pelado pelo mato (cada vez que ele se transforma, perde as roupas? Sério?). Obviamente, o destino dos quatro irá se cruzar para formarem a equipe teen.

Creia: o visual da Estelar não é o pior da série.

A caracterização dos personagens foi criticada desde que as primeiras fotos de bastidores foram divulgadas, mas não é isso que incomoda. Claro que, à exceção de Robin, perfeito em seu uniforme, os heróis são bem diferentes do visual visto nos quadrinhos, mas adaptações são necessárias e sabemos que nem sempre o que funciona no papel tem o mesmo efeito ao vivo. Não é esse o problema. Nem mesmo os efeitos especiais, muito bem feitos (nem poderia ser diferente, dado o atual avanço tecnológico). A questão está mesmo no roteiro do episódio, que força o clima de terror e mistério, mas não consegue despertar qualquer emoção.

Terror forçado.

São cinquenta minutos de chororô da Ravena, que vê reflexos distorcidos de si mesma com voz de “menina do Exorcista” para onde quer que olhe, um Robin de mal com a vida que acaba aborrecendo também  os espectadores e uma Estelar empoderada que não sabe qual o seu lugar no mundo. Aliás, é uma característica dos heróis Warner/DC, que parece ter medo de criar super-heróis que sorriem e praticam o heroísmo porque é o correto. No universo Warner, todo mundo tem cara de mau e só são heróis porque não tem nada melhor passando na TV, então vamos ali salvar o mundo.

Olha, Warner: os heróis podem sorrir. Até a Ravena!

Falta aos executivos um pouco de conhecimento do produto que vendem (será que, numa empresa tão grande, não tem nenhum profissional de marketing para dizer isso a eles?), pois até no mundo real, cada pessoa tem um perfil diferente, não são todos clones do Batman com voz de catacumba de Christopher Nolan. Falta carisma, identidade, um pouco de “história para contar”, uma simpatia pelos personagens, que prenda a atenção do espectador e o faça se interessar pelo que está sendo contado.

Um sonho realizado ou um pesadelo? Vamos aguardar os próximos episódios.

De qualquer forma, ainda é o primeiro episódio e muito há para ser desenvolvido. Principalmente porque a série mal estreou e a Warner já confirmou a segunda temporada. Os personagens ainda podem crescer e mostrar ao que vieram, se conseguirem segurar a paciência do espectador, claro! A expectativa é que os próximos episódios engatem, pois os Titãs merecem um programa à altura de sua importância no Universo DC. Por enquanto, o que vimos foi apenas uma série aborrecente.

Cotação Raio X: 

Dica Literária: Lembranças Feitas à Mão

Lançado simultaneamente ao livro Playlist – Vidas em Singles (veja nossa crítica aqui), o microlivro Lembranças Feitas à Mão, de Gislene Carvalho, é um projeto bastante inovador da Andross Editora, por meio do novo selo Simbiose, cujo objetivo é criar uma relação diferenciada entre a editora e os autores para desenvolver obras que fujam do lugar-comum e, dessa forma, também tragam uma percepção diferente para o leitor.

Livro cabe na palma da mão.

No caso desta obra, o formato é a grande novidade: com apenas 6 cm de altura, o livro cabe na palma da mão e entra em sintonia com o próprio título, que traz as lembranças da autora em suas vivências pessoais. Segundo a autora relata em seu prefácio, o livro surgiu de um desafio do editor Edson Rossatto à sua antiga professora da universidade, criando uma estranha ironia: a mestra, que avaliava os textos do aluno, tornou-se a autora avaliada por ele, enquanto editor.

A autora, na tarde de lançamento da obra. (Foto: Arquivo pessoal da autora)

Dessa experiência (ou simbiose?) surgiu uma obra que encanta pela sua simplicidade. Os 25 microcontos presentes no livro provam que é possível dizer muito em poucas linhas – às vezes, uma só. Resgatando suas próprias memórias, a autora nos apresenta fragmentos de sua própria história que, na maioria das vezes, convergem com as histórias pessoais dos próprios leitores e prova que, na leveza das palavras, se esconde um universo de sentimentos e significados.

Uma linha, uma história.

Trata-se de um exercício interessante mergulhar nesse universo dos microcontos e ler as entrelinhas, descobrindo que, em um ou dois parágrafos é possível contar uma história cheia de detalhes que a imaginação do leitor vai criando. A leitura do livro é rápida (dependendo da fluência e velocidade de cada leitor, 10 ou 15 minutos é suficiente para ler a obra inteira), mas o interessante é ler cada microconto e “perder tempo” meditando sobre o que a autora quis transmitir por meio de cada personagem – em sua maioria, mulheres. Nesse sentido, a leitura de cada microconto se torna uma experiência bem mais demorada e agradável. 

Lembranças Feitas à Mão é um livro que pode ser comparado às crianças. Pequenos no tamanho, simples nas palavras, mas cujo interior esconde uma grandeza e uma sabedoria tamanha que ninguém consegue alcançar. Não é à toa que a obra tenha sido escrita por uma professora, cujo conhecimento e experiência de vida revelam mais do que as palavras. São lembranças que marcam e permanecem.

Crítica: Venom

A grande estreia da semana é o filme Venom (idem, 2018), baseado  no velho inimigo do Homem-Aranha, mas desligado do universo do aracnídeo – o que, por si só, já gera um certo desconforto nos fãs. O filme é a aposta da Sony em alimentar uma nova franquia e, com isso, manter os direitos desses personagens, que vêm sendo cobiçados pela Marvel Studios já há um bom tempo. Por conta disso, a empresa investiu pesado no marketing, a fim de impulsionar as bilheterias.

Pô, comparar com Quarteto Fantástico é pior que xingar a mãe!

A primeiras exibições nos Estados Unidos não tiveram um resultado muito positivo e a crítica foi bem cruel, chegando a comparar o longa-metragem com dois dos maiores fiascos cinematográficos do gênero super-heróis: Mulher-Gato (2004) e Quarteto Fant4stico (2015) – sobre este último, fizemos uma crítica aqui. É um grande exagero. Venom passa longe, bem longe, dessas duas aberrações, embora tenha lá seus erros.

Dra. Skirth (dir.) e seu chefe, Carlton (de preto), fazendo o mundo melhor (só que não).

A história mostra a chegada do simbionte alienígena numa nave espacial da Fundação Vida, um órgão científico responsável por pesquisar recursos para melhorar a qualidade de vida em nosso planeta. Uma equipe de exploradores (com um astronauta de nome bem familiar aos fãs do Homem-Aranha) captura quatro organismos simbiontes, mas um deles consegue escapar e se esconde no planeta. Os outros são estudados pela Dra. Dora Skirth (Jenny Slate), sob as ordens do implacável líder da fundação, Carlton Drake (Riz Ahmed).

“Sr. Brock, por favor, não me irrite. O senhor não iria gostar de me ver zangado.”

Enquanto isso, o repórter Eddie Brock (Tom Hardy) trabalha num programa televisivo e se prepara para casar com sua noiva Anne Weying (Michelle Willians), mas tudo muda de figura quando ele descobre que a Fundação Vida é mais do que aparenta e tenta colocar Drake contra a parede. Por falta de provas, Eddie perde o emprego, a noiva e passa a lamentar sua vida fracassada, até que a Dra. Skirth o encontra e oferece ajuda. A partir daí, ele tem contato com o simbionte e se torna Venom, passando a ser perseguido pelos capangas da Fundação e atacado pelo simbionte fugitivo Riot, que deseja buscar novos simbiontes para invadir o planeta.

Nada de “E.T. Telefona Casa”. Aqui, os aliens querem é sangue!

Para quem pensava que seria impossível contar a história do monstruoso vilão sem associá-lo ao aracnídeo – nos quadrinhos, o Homem-Aranha encontrou Venom num planeta distante e o trouxe para a Terra achando que fosse um novo traje capaz de obedecer a seus comandos mentais – o roteiro bem escrito prova o contrário. A trama é muito bem desenvolvida e funciona no cinema, com a história da fundação e suas pesquisas e a motivação de Drake para ter o controle dos simbiontes.

Tom Hardy dá um show na interpretação da dualidade de Venom

Tom Hardy também dá muita verossimilhança ao jornalista fracassado e desejoso de vingança contra os que destruíram sua vida. A interpretação de Hardy proporciona vários momentos cômicos na interpretação dúbia do personagem e também carrega nas situações dramáticas com o peso que elas exigem, criando um anti-herói que chega a ser bem mais simpático que nos quadrinhos. O filme também dá várias referências às HQs, cujo desconhecimento por parte do público comum não atrapalha o entendimento da história, mas fará a alegria dos fãs mais antigos.

Personagens gosmentos

O filme é meio lento nos seus momentos iniciais e demora bastante para Brock virar o Venom, mas isso não significa que seja uma trama parada. Pelo contrário, a história flui e a espera faz parte do desenvolvimento do enredo, que é repleto de ação, com cenas de perseguição, lutas e tiroteio. Há alguns furos, como fatos que não se explicam ou se explicam mal e a luta final é bem aquém do esperado, com uma solução fácil demais, mas nada que interfira a diversão. Com certeza, a estratégia de diminuir a classificação etária para atingir o público adolescente se mostrou acertada, pois o personagem tem grande popularidade entre essa faixa etária – que é quem realmente vai impulsionar as bilheterias. 

Aquele sorriso de quem passou no teste difícil.

Por isso, esqueça aquela tragédia anunciada pela crítica internacional, mas também não vá esperando ver uma obra de arte. Convenhamos: do Venom, um personagem de quarto escalão da editora, não dá pra exigir muita coisa. Porém, o que veio é muito bom e presta exatamente àquilo que se espera quando se vai ao cinema: diversão.

Cotação Raio X

Sequência Favorita: Homem de Ferro 2

Nossa Sequência Favorita de hoje traz o que é, para mim, o trecho mais empolgante do filme Homem de Ferro 2 (2010), a sequência que, quando mencionam esse filme, é a primeira que me vem à cabeça. Depois da surpresa que o primeiro longa-metragem do Vingador Dourado causou, pela sua qualidade e fidelidade, além da excelente interpretação do ator Robert Downey Jr. no papel de Tony Stark, a sequência foi feita rapidamente, introduzindo novos elementos na mitologia cinematográfica do personagem.

O veterano Mickey Rourke não encaixou no papel.

É verdade que a sequência deixou a desejar em vários aspectos. Um deles foi o vilão Chicote Negro, interpretado por Mickey Rourke, que não se encaixou tão bem no papel como deveria. No entanto, a primeira cena da luta do vilão contra o Homem de Ferro tem todos os elementos para se tornar inesquecível. Enquanto participava de um evento automobilístico em Mônaco, Tony é atacado pelo Chicote Negro que, com sua arma eletrônica, passa a fatiar o carro dirigido por Stark.

Todo mundo deveria ter uma maleta dessas.

Ao ver o ataque pela TV, Pepper (Gwyneth Paltrow) e Happy (Jon Favreau) correm para entregar ao patrão a maleta com sua armadura, mas são atacados pelo vilão. A sequência, ao mesmo tempo que é tensa, tem muito humor, pois Stark não consegue pegar sua maleta já que Happy tenta prender o Chicote Negro com seu carro enquanto o inimigo distribui chicotadas. Quando a situação parecia fora de controle, Pepper joga a mala pela janela e esta cai aos pés do empresário, que pisa nela, ativando o mecanismo que a transforma na armadura portátil, vermelha e prateada.

Legal, mas nem tanto.

Lembro que, no cinema, a pessoa ao meu lado, bateu os pés no chão de empolgação quando esta cena aconteceu. Uma prova do quanto ela foi emocionante e inesquecível. Uma pena que, a partir do final da luta que se seguiu, o filme começou a decair e perdeu o ritmo. Não a ponto de ser um filme ruim, obviamente (ele tem nota 7 no IMDb, site que lista produções cinematográficas), mas de ser classificado como os piores da Marvel Studios. Veja a cena a seguir e deixe nos comentários qual a sua sequência favorita: