Crítica: O Justiceiro

O Justiceiro nunca foi um dos meus personagens preferidos. Aliás, tenho minhas reservas quanto a um herói (ao menos, é esse o conceito das HQs, não? “Quadrinhos de super-heróis”?) que mata impiedosamente e sem reservas. No entanto, é fato que o personagem tem certo charme que conquista o leitor de suas aventuras. Talvez pela sua história trágica, que justifica seus atos, ou pelo fato de fazer justiça a qualquer preço e só atacar bandidos, nunca inocentes (algo que, verdade seja dita, todos nós, pobres mortais, temos vontade às vezes).

Encarnações anteriores não fizeram justiça ao personagem

O fato é que o público gosta do Justiceiro. Motivo pelo qual ele já foi levado três vezes ao cinema – em 1989, na pele de Dolph “He-Man” Lundgreen, num filme que descaracteriza totalmente o personagem (exceto pelo fato dele matar mafiosos); em 2004, interpretado por Thomas Jane (na minha opinião, a melhor caracterização do anti-herói), mas com um roteiro fraco que não emplacou; e, finalmente, em 2008, num longa violento e fiel aos quadrinhos, mas que também não teve grande repercussão – talvez pelo fato do ator Ray Stevenson (o Volstagg, da trilogia de filmes do Thor) pouco lembrar o personagem, embora ele não estivesse ruim no papel.

Justiceiro roubou a cena na segunda temporada de Demolidor.

Quando parecia que a Marvel finalmente tinha desistido de nos empurrar goela abaixo um personagem que pode até ser legal nos quadrinhos, mas pouco tem de apelo no cinema (já temos vários filmes de fuzileiros linha dura que se revoltam e decidem detonar os inimigos. Bruce Willis, Sylvester Stallone, Kurt Russell, Arnold Schwarzenegger e afins que o digam!), a Netflix decide incluí-lo numa participação na segunda temporada da série do Demolidor. Frisson entre os fãs. Veremos o Justiceiro numa série de TV! Agora vai! E foi. A breve, mas marcante participação do anti-herói na pele do ator Jon Bernthal era a deixa que a Marvel precisava para dar um sinal verde para a produção de uma série de TV. No cinema não emplaca, mas uma série, talvez funcione.

Jon Bernthal e sua cara de mau. “I’m Batm… não, pera…”

Não funciona. Feita às pressas, fora da programação original do canal streaming (que não previa nem a segunda temporada do Demolidor, aliás), a série O Justiceiro (The Punisher, 2017) explora o passado de Frank Castle (Bernthal) desde o tempo em que ele atuava como fuzileiro naval ao lado de Billy Russo (Ben Barnes) e Curtis Hoyle (Jason R. Moore). Vale lembrar que a série do Demolidor já mostrou o assassinato de sua família, que o motivou a declarar guerra contra o crime, então era preciso ir além.

Madani e seu parceiro Sam: investigação proibida.

É revelado que Frank cometeu uma atitude pouco louvável no Afeganistão, muito embora ele a tivesse feito seguindo ordens superiores (soldados não discutem, apenas fazem o que lhes mandam, sabe como é.) Isso o coloca na mira da investigadora Dinah Madani (Amber Rose Revah) que vem para Nova York atrás dos responsáveis por tal ato, mas ela é impedida de prosseguir seu objetivo pelo delegado Carson Wolf (C. Thomas Howell), que, ao que tudo indica, tem muito a esconder sobre o caso.

Microchip – ou simplesmente Micro: bons soldados nunca lutam sozinhos.

Nesse meio tempo, Castle elimina todos os responsáveis pela morte de sua família, destrói o equipamento do Justiceiro e tenta levar uma vida normal, sob a identidade de Pete Castiglione, trabalhando numa obra. No entanto, ele é descoberto por um misterioso hacker chamado Micro (Ebon Moss-Bachrach), que o convoca para lutar contra o Sistema, já que ambos perderam suas vidas graças à corrupção no Governo.

O ritmo é semelhante a fazer uma escultura: muitos detalhes e pouco avanço

Esses três parágrafos resumem os três primeiros capítulos da série – que, como de praxe, assistimos para fazer esta crítica – dos treze disponíveis. Ou seja, em três capítulos, não tem muita coisa para dizer, diferente das outras séries da Netflix, onde a trama já estava bem construída e se desenrolando. Em O Justiceiro, o ritmo é lento, muito lento. Imagens em flashback de sua esposa, na cama, acordando-o pela manhã são mostradas a cada 10 minutos. Cenas com os filhos, a cada 15. Se, por um lado, isso é válido, pois mostra a personalidade psicótica do Justiceiro, por outro, se torna maçante, uma vez que não dá espaço para a trama principal.

Curtis (Esq.) e Russo, amigos de Castle. Nos quadrinhos, Russo é o criminoso conhecido como Retalho.

Já sabemos que Castle perdeu sua família e se culpa por isso. Já sabemos que ele se tornou obcecado em acabar com a criminalidade. Vamos andar? Não, vamos dar mais flashbacks para a investigação de Madani (que também caminha a passos lentos. Parece até a Justiça Brasileira resolvendo os casos de corrupção do Governo). Frank visita seu amigo Curtis, cujo único trabalho é pendurar cadeiras após a reunião dos Fuzileiros Neuróticos Anônimos, ou algo do tipo, para falar sobre nada. Também se encontra com Karen Page (Deborah Ann Woll), que veio direto da série do Demolidor, fazendo uma participação quase romântica. Depois disso, Frank descobre a identidade de Micro e passa um episódio inteiro fazendo três ou quatro perguntas (respondidas com mais flashbacks) para virarem amigos ao final e Castle decidir voltar à ativa.

Conferindo se a caveira está bem desenhada.

A série não tem ritmo – ou tem, mas é vagaroso e sonolento. A investigação (que, invariavelmente revela aquilo que já sabemos: o Governo é corrupto e alguém precisa fazer uma limpeza) não tem nenhum elemento intrigante, que nos faça querer saber mais. Bernthal, que estava tão bom no Demolidor, parece ligado no piloto automático: só fazendo cara feia e tendo pesadelos com a esposa. Isso sem mencionar algumas cenas de dar vergonha alheia, como o Justiceiro acertar um tiro a quilômetros de distância e o bandido em pé conseguir ler um nome num documento caído no chão a mais de 10 metros dele. Ok, é ficção, mas sem forçar demais a barra, né?

Estreia do anti-herói: “nasci coadjuvante; deveria continuar coadjuvante”.

Apesar disso, como só vimos três episódios (equivalente a 23% da série), a esperança é que a trama engate (principalmente porque o terceiro capítulo termina com um gancho que indica isso). Caso melhore, faço questão de voltar aqui e retificar a crítica. Mas vale lembrar que uma série que não conquista logo no início, a tendência é que o público não siga até o final. Como disse no início, o Justiceiro nunca foi um dos meus personagens favoritos. Mesmo assim, ainda tenho um pouco de boa vontade para com ele. A Marvel também deveria ter e perceber, de uma vez por todas, que o personagem simplesmente não funciona em live-action. Melhor deixá-lo nos quadrinhos. Seria muito mais justo. 

Cotação: 

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Crítica: Liga da Justiça

Quinto filme do “Universo estendido” da DC, o filme Liga da Justiça (Justice League, 2017) estreia amanhã, 16 de novembro, já provocando polêmica e divisão entre os fãs dos personagens. Os trailers exibidos mostravam que os mesmos erros de Batman Vs. Superman (2016) seriam repetidos – cenas escuras, personagens mal desenvolvidos e descaracterizados, câmeras lentas usadas à exaustão, duração excessiva – e os críticos (este que vos escreve, inclusive) não pouparam comentários negativos à produção, já prevendo o baixo nível de qualidade.

Primeiras imagens mostravam cenas escuras e ação forçada.

No entanto, como fã de quadrinhos e dos personagens, é muito bom poder admitir que cometemos um erro. Liga da Justiça é um filme que mostra a salvação da DC no cinema – algo que já começou com Mulher-Maravilha, em junho, mas que tinha na Liga da Justiça a sua esperança definitiva de redenção. Afinal, tratava-se da maior equipe de super-heróis dos quadrinhos, que reúne os maiores ícones da editora, o equivalente aos Vingadores para a Marvel (e sabemos que o primeiro filme dos Vingadores é praticamente uma unanimidade entre os fãs como o melhor filme da Marvel Studios).

Zack Snyder ganhou o reforço de Joss Whedon na produção.

Não dá pra negar que parte do mérito desta qualidade do filme se deve à chegada de Joss Whedon (o diretor dos dois filmes dos Vingadores) à produção. Com a tragédia da morte de sua filha no início do ano, o diretor Zack Snyder se afastou da produção e deixou Whedon em seu lugar para finalizar a edição do longa-metragem. Com isso, o filme ganhou mais leveza e dinamismo, perdendo aquele tom pesado e mal humorado de BvS e aproximando-se mais das histórias em quadrinhos.

Batman reúne a equipe para honrar da morte do Superman.

Claro que a marca de Snyder ainda está lá, principalmente no início, onde a trama é mais sombria – afinal, o mundo ainda está lidando com a morte do Superman, causada pelo Apocalypse no filme anterior. Abalado com a morte do maior herói do planeta, Batman (Ben Affleck) tenta fazer a diferença no combate ao crime, mas a aparição de estranhos alienígenas voadores chamam a atenção do Homem Morcego para uma possível invasão. Assim, ele convoca a Mulher-Maravilha (Gal Gadot) para buscar os heróis descobertos nos vídeos roubados de Lex Luthor (Jesse Eisenberg) para formar uma equipe.

Lobo da Estepe: de vilão mequetrefe a ameaça invencível.

No entanto, a Princesa Amazona alerta que uma ameaça muito maior se faz presente: o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), um tirano vindo de outro planeta, que já havia tentado dominar o planeta há 5000 anos mas fora rechaçado pela atuação conjunta das amazonas, atlantes, deuses e outros aliados (atenção a esta cena!), está de volta, em busca de três caixas maternas espalhadas pelo mundo, para retomar seus planos de conquista. Mais poderoso do que nunca, Lobo da Estepe consegue recuperar a primeira caixa em posse das amazonas em Themyscira e parte em busca das outras duas.

Mundo colorido: Superman volta inspirador, heroico, sorridente… e azul brilhante!

Assim, Batman e Diana recrutam Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher) para honrar o legado do Homem de Aço e impedir o vilão. Em meio a tudo isso, o Superman (Henry Cavill)também volta à vida e se junta ao grupo (um retorno já esperado, mas não vamos dizer como isso acontece para não revelar spoilers. Apenas vamos dizer que a trama difere totalmente dos quadrinhos). O herói retorna muito mais inspirador, sorridente e com uniforme com cores muito mais vivas que o azul e vermelho apagados das produções anteriores. Esse, sim, é o Superman em sua essência (muito embora a interpretação de Cavill ainda deixe a desejar)!

Flash é um bobão… mas tem seus poderes muito bem caracterizados no filme.

A equipe tem um bom entrosamento e o filme tem algumas piadas, a maioria facilmente identificáveis como marca registrada de Joss Whedon, que funcionam dentro do contexto e não são gratuitas nem excessivas – como aconteceu em Thor: Ragnarok. Aliás, o corte de cerca de uma hora de cenas, que indicava que o filme perderia seu ritmo e se tornaria uma colcha de retalhos, nem é sentido (muito embora a mudança de tom nas cenas reescritas e gravadas por Whedon seja explícita). Mesmo o Flash de Ezra Miller, cujas previsões apontavam que seria um fiasco – principalmente com o simpático personagem que acostumamos a ver na série de TV, interpretado por Grant Gustin – se mostrou um personagem bacana. A única coisa que permaneceu foi sua personalidade abobalhada e infantil, quase um Jar Jar Binks velocista.

 

Cyborg é uma grata surpresa no filme, apesar do visual Transformer.

Uma agradável surpresa foi ver a atuação de Cyborg, que se mostrava o estranho no ninho – nem nos quadrinhos, o personagem tem grande relevância – mas teve um bom desenvolvimento e participação fundamental dentro da equipe, com a carga dramática de sua situação muito bem explorada. Já o Aquaman, que parecia ser a grande revelação do longa é um herói apagado, que tem suas cenas importantes e cumpre seu papel nelas, mas só. Não tem qualquer destaque nem nada que mereça ser elogiado.

Aquaman deixou a desejar.

Algumas cenas em CGI ainda deixam a desejar. O Lobo da Estepe está melhor em tela grande do que nos clipes vistos pelo computador, mas deixa uma impressão de personagem mal desenhado. O bigode do Superman, tão comentado nas redes sociais (o ator Henry Cavill filmava Missão Impossível 6 simultaneamente e foi obrigado, por contrato, a manter um bigode), também tem marcas visíveis, mas nem tanto quanto se esperava, de modo que só quem sabe do “acessório” vai perceber a falha.

Falta gente na equipe. Mas já estão por aí…

O roteiro consegue até mesmo suprir a ausência de um “filme de origem” para Aquaman, Flash e Cyborg, de modo que o público conhece suas histórias de forma resumida no decorrer da trama e que, provavelmente, serão melhores exploradas nos longa-metragens vindouros (Aquaman estreia em 2018, enquanto que Cyborg e Flashpoint estão agendados para 2020). Há, sim, um vácuo que se faz sentir, mas o público em geral vai compreender perfeitamente os papéis desses heróis no contexto. O filme não tem muitas referências nerd, mas tem algumas participações que vão agradar os fãs, principalmente nas duas cenas pós-crédito. Não saia do cinema antes, senão vai perder cenas que não são meras piadinhas sem sentido.

Sob as bênçãos de Themis, a deusa grega da Justiça

Enfim, Liga da Justiça é um filme otimista, que tem seus problemas, um clímax pouco inspirado que denota a pressa em encerrar a produção nos 120 minutos exigidos pelo estúdio, mas mesmo assim, aponta que a DC finalmente encontrou o rumo para suas produções. Não é um filme perfeito, mas dentro de tudo que vem sendo mostrado desde 2013, é muito bom poder ver que os maiores heróis dos quadrinhos ganharam um longa-metragem com roteiro definido, ritmo e que não nega suas origens dos quadrinhos. Você não pode salvar o mundo sozinho, mas pelo menos, já pode dormir em paz, sabendo que a Liga da Justiça foi bem representada no cinema.

Cotação: 

Leituras da Semana – Novembro (2)

Tivemos uma semana morna de leituras, com destaque para o primeiro capítulo de Guerra Civil II, que chegou às bancas com dois meses de atraso (data da edição de setembro). Outra que também chegou atrasadíssima (ao menos, tinha sido anunciada desde março) é o encadernado Magneto: Infame. Mas esta fica pra semana que vem. Vamos às desta semana.

Nova megassaga da Marvel

Guerra Civil II 1 (set/2017) – A edição traz três histórias que mostram os eventos que levaram ao cisma entre a Capitã Marvel e o Homem de Ferro. Um inumano com o poder de prever o futuro é a causa dos desentendimentos, que causam a morte de um herói e a discussão sobre a ética de se antecipar crimes e evitar que aconteçam ou deixar as coisas seguirem o seu rumo. Como primeiro capítulo, a trama é bem empolgante e coloca bem clara as motivações dos personagens, cada um com suas razões corretas. A única que se contradiz é a Mulher-Hulk, que começa a edição fazendo um discurso sobre a inocência de quem não cometeu um crime apenas presumido e termina defendendo a previsão do futuro para proteger a humanidade. No decorrer da história os fatos a fizeram mudar de opinião? Pode ser… mas é bem pouco provável, levando em conta que ela é uma advogada e tem suas convicções bem definidas. Apesar disso, a temática é interessante e promete esquentar a briga. O maior problema está mesmo nas lacunas que há na narrativa, que se completam com as várias tramas paralelas, espalhadas pelos vários títulos da editora, o que torna esses megaeventos pouco atrativos para leitores eventuais – muito embora a minissérie, lida isoladamente, é compreensível. Já passou da hora da Marvel repensar esse formato, que já venceu o prazo há um bom tempo (tanto que muita gente prefere esperar o lançamento de encadernados para ler a saga completa). 

Nada demais

Doutor Estranho 11 (out/2017) – Uma edição corriqueira do Dr. Estranho, com a conclusão do arco anterior, onde o mago tem que enfrentar Dormammu sem a ajuda de seus poderes místicos e a continuação da história dos Magos Supremos, que destaca a descoberta da biblioteca de Merlin e o confronto com a criatura chamada O Esquecido. Não é ruim, mas também não tem o mesmo ritmo das primeiras edições – e ainda nem completou um ano de publicação!

Superverso

Superman 8 (nov/2017) – A presença do Superman da nossa dimensão no universo dos Novos 52 provocou uma anomalia que precisa ser consertada. Para isso, o Monstro do Pântano, o protetor da vida, tem que ajustar o corpo do Homem de Aço à frequência vibracional do planeta. Na outra história, tem início o arco Multiplicidade, onde vários Supermen de várias dimensões estão sendo caçados e o Homem de Aço se une a outros heróis do Multiverso para proteger seus iguais. Parece meio confuso, mas não é.

Culpado por um crime que vai cometer?

Action Comics 8 (nov/2017) – A conclusão do arco Homens de Aço traz Luthor e Superman resolvendo suas diferenças para fugir do planeta onde foram levados pelo Assassino dos Deuses para que Luthor fosse julgado por crimes que ainda vai cometer. Não é a saga Guerra Civil II, mas a temática é parecida.

Leituras da Semana – Novembro (1)

Iniciamos um novo mês e temos algumas novidades nesta semana, fugindo um pouco (mas só um pouco!) da dobradinha Marvel/DC. O bom é que foram materiais diferenciados, que merecem destaque pela qualidade dos roteiros e da edição.

Confronto insano

Groo Versus Conan (2013) – Desde o lançamento, há quatro anos, tinha vontade de ler esse crossover e a oportunidade surgiu com uma promoção no site da editora, por um precinho bem camarada. Achei a história um pouco “enrolada”, misturando a realidade dos criadores Mark Evanier e Sérgio Aragonés com a fantasia de Conan e Groo, com similaridades entre as histórias e os bárbaros se envolvendo nelas. Ao meu ver, o roteiro meio que se perdeu por não focar em um ponto específico e em todos ao mesmo tempo. Os bárbaros eram amigos, começam a lutar do nada e, em determinado momento, não se sabe o que é a história e o que é a narração do povo que presenciava a luta. Totalmente sem sentido. Em resumo: totalmente Groo. Era exatamente o que se podia esperar do personagem e não dá mesmo pra exigir coerência. Mas Groo já teve HQs melhores. Mesmo assim, dá pra se divertir. Vale destacar a diferenciação dos universos, com Conan e os seus compatriotas sendo desenhados com realismo por Thomas Yeates, enquanto que o lado de Groo é cartunizado por Aragonés.

Herói das antigas (bota antiga nisso!)

O Aranha – O Terror da Rainha Zumbi (2013) – O conceito de super-heróis começou em 1938, quando foi lançado o primeiro número da revista Action Comics, trazendo o Superman na capa. A partir daí, uma série de personagens superpoderosos trajando máscaras e roupas coloridas começaram a pipocar nos quadrinhos e permanece até hoje. Mas heróis mascarados já existiam bem antes do Superman. O Aranha (ou Aranha Negra, como já foi chamado no Brasil) é um deles, criado em 1933 por Harry Steeger para os quadrinhos “pulp” (feitos com papel barato) norte-americanos. A Mythos ressuscitou esse obscuro personagem e o atualizou para o século 21, numa HQ de aventura, espionagem e mistério, mas sem perder o clima dos anos 1930. É um encadernado bem bacana de um herói meio Batman (sem poderes, cheio de engenhocas, implacável com criminosos), meio Dick Tracy, que se completa com um cinco páginas de comentários do autor David Liss explicando cada página da primeira história e seu processo para trazer o herói de volta à era contemporânea. Fora isso, ainda tem esboços de Alex Ross e galeria de capas. Edição caprichada e recomendada.

Chico vive o mesmo dia de novo. E de novo. E de novo.

Chico Bento Moço 50 (out/2017) – Chico Moço chega à 50ª. edição se reencontrando com a Turma da Mônica Jovem numa história que traz um roteiro (escrito por Flávio Teixeira de Jesus) até bem manjado, sobre ficar preso num looping temporal. No entanto, a genialidade da trama está na lição implícita sobre o que o uso exacerbado do celular está fazendo com as pessoas e na solução simples encontrada pelo personagem para fugir desse looping e quebrar sua “maldição”. Uma edição “cinquentona” com tripla comemoração: pela numeração, pela participação da TMJ e pela mensagem da história. Sensacional!

Adivinhem quem voltou…

Mulher-Maravilha 7 (out/2017) – Gostei desta edição de Mulher-Maravilha, principalmente pela arte deslumbrante da primeira história (que veio sem os créditos, mas pelas edições anteriores, foi desenhada por Nicola Scott com uma página dupla de cair o queixo). Além da arte, o texto também é muito bom e traz a Princesa Amazona encontrando um velho inimigo. O mesmo não acontece com a segunda HQ, passada nos tempos atuais (a anterior faz parte do arco Ano Um), mais vagarosa e com uma arte não tão elegante. Não que Renato Guedes desenhe mal, mas o estilo do artista não combina com a leveza do traço exigido pela mais bela das amazonas. Opinião pessoal, claro. Independente de qualquer coisa, a revista da Mulher-Maravilha é uma das melhores da nova fase da DC e sempre vale a pena.

Herói contra herói, apenas.

Coleção Histórica Marvel – Torneio de Campeões 1 (out/2017) – Aparentemente, este é mais um caso de edição única, a exemplo do que aconteceu com o Motoqueiro Fantasma em 2015. Primeiro porque a edição veio sem a tradicional caixa-arquivo. Segundo, porque a lombada não tem a tradicional figura partida no rodapé, que se completa ao juntar as quatro edições. Por fim, porque a minissérie Torneio de Campeões se encerrou no mesmo volume. Existe material para mais um número – a minissérie Contest of Champions II (1999), em cinco edições – mas mesmo assim, ainda faltaria os outros dois volumes da coleção. Sobre a história, reconhecida como a primeira minissérie da Marvel (anterior à Guerras Secretas), ela tem um roteiro bem bobinho e alguns momentos absurdos, como o fato de gastarem oito páginas para mostrarem a convocação dos heróis (são 30 cenas repetidas, algo totalmente desnecessário) e mais 15 quadros (duas páginas e meia) com as apresentações de um herói para outro. As batalhas também são infantis e previsíveis e há um erro no placar que passou despercebido pelos autores e outro erro de continuidade – Gavião Arqueiro ficar sem flechas numa história e aparecer com a aljava cheia na outra – que é risível, quando visto com a mentalidade atual. Obviamente, nada disso tira o mérito da edição, que conseguiu reunir a maior quantidade de super-heróis Marvel – exatamente TODOS – já mostrada numa única história e ainda tem dois anuais que complementam a minissérie. Vale como curiosidade, pelo valor histórico e por, apesar dos defeitos, ainda ser garantia de boa diversão.

Starlin em toda sua grandeza cósmica

Coleção Oficial de Graphic Novels Salvat – Clássicos XXXII – Warlock – Parte 1 (out/2017) – Um personagem de pouca exposição no Universo Marvel, mas que teve sua relevância na chamada Saga de Thanos e fez parte do contexto cósmico criado por Jim Starlin. Foi ele, aliás, quem pegou o personagem originalmente idealizado por Lee e Kirby como coadjuvante de uma HQ dos Vingadores e o transformou em protagonista, dando-lhe uma personagem amargurada e reflexiva, quase uma nova versão do Surfista Prateado, mas com a diferença que, enquanto o arauto de Galactus amava e valorizava a vida, Warlock estava em eterna crise, tentando buscar o sentido da sua existência. Impossível não simpatizar com o herói e, principalmente, com sua analogia à criação humana (chamá-lo de Adam, ou Adão, em tradução para o português, não é mera casualidade). Obviamente, alguns detalhes das histórias, lidos hoje, tornam-se risíveis, mas no contexto geral, as aventuras de Adam Warlock só mostram o quanto a criação de Jim Starlin é especial e como permanece genial mesmo passados mais de 40 anos.

A Loucura do Guerreiro atinge o ex-deus do trovão

Thor 9 (out/2017) – O Indigno Thor continua sua busca pelo martelo – que já se tornou obsessiva – com a ajuda de Bill Raio Beta (e os leitores continuam querendo saber qual foi o pecado que tornou um personagem tão nobre e glorioso dos tempos idos em uma sombra do que era), enquanto que a Thor enfrenta a Guarda Imperial de Shiar, que invade Asgard em busca dela (e os leitores continuam querendo saber até quando vão arrastar essa história do câncer de Jane Foster). Boas histórias, com ritmo empolgante, mas daquelas que a gente esquece assim que fecha a revista.

Leituras da Semana – Outubro (5)

Esta última semana do mês se caracterizou pela leitura das revistas mensais e um encadernado atrasado da Coleção Histórica. A Guerra Civil II, nova saga da Marvel está a pleno vapor e tanto o Homem de Ferro quanto a Capitã Marvel estão recrutando seus times. Infelizmente, o atraso na edição principal da minissérie deixou alguns buracos na leitura das mensais.

Justiça extrema

Coleção Histórica Paladinos Marvel Vol. 4 (ago/2017) – Estrelado pelo Justiceiro, o último volume desta Coleção Histórica traz a primeira aparição do personagem, nas páginas da revista do Homem-Aranha e sua primeira minissérie solo, que depois gerou dois títulos mensais, Punisher (1987) e Punisher War Journal (1988), transformando o anti-herói num personagem de grande popularidade. Eu, particularmente, acho isso de gosto duvidoso, já que ele não tem nada de especial: é apenas um criminoso que mata outros criminosos, totalmente o oposto do conceito de super-heróis como Superman, Capitão América e o próprio Homem-Aranha. No entanto, a minissérie tem uma trama muito boa e serviu para mostrar que, apesar de seus métodos, o Justiceiro é um homem de honra. O capítulo passado na prisão pode muito bem lembrar os episódios da série Prison Break (2005), dado o dinamismo na arte de Mike Zeck e as sequências de ação do roteiro de Steven Grant (coincidentemente, o roteirista tem o mesmo nome de uma das identidades do Cavaleiro da Lua, o astro da edição anterior). Casa perfeitamente com a temática urbana da coleção histórica e fecha com chave de ouro o compêndio.

Ligações com Guerra Civil II

O Espetacular Homem-Aranha 12 (out/2017) – Quatro histórias relacionadas à saga Guerra Civil II. O interessante é que a Panini não lançou até agora a série principal – e até já anunciou o volume 2! – deixando um vácuo nas tramas desta revista, mas que dá para pegar o contexto e entender as histórias sem problemas. Homem-Aranha Ultimate tem pesadelos com o chamado de Tony Stark para se juntar ao conflito. Homem-Aranha lida com o inumano Ulysses, o pivô da guerra. A edição ainda tem uma história chatinha do Rei do Crime e uma tentativa de fazer graça com o humor do Aracnídeo, mas poderiam nos poupar desse vexame.

Sensação de que falta alguma coisa.

Homem de Ferro 10 (out/2017) – Se a revista do Homem-Aranha não tem grandes repercussões da saga Guerra Civil II, o mesmo não pode ser dito desta edição do Vingador Dourado, que é um dos responsáveis pelo cisma heroico. Aí você está lendo a história e descobre que um personagem morreu, todos os heróis aparecem no velório, com impressões pessoais de cada um e essa história ainda nem foi publicada. A sede da Stark está destruída e ninguém viu quando isso aconteceu. Um erro de programação da editora, que não justificou o atraso em um mês da continuidade do título do Homem de Ferro. Sobre as histórias da edição, são interessantes, especialmente a do Nova, que faz uma parceria com o Homem de Ferro em uma HQ bem família com um final cheio de ternura.

Final apagado

Cavaleiro das Trevas III – A Raça Superior 9 (out/2017) – Último capítulo da minissérie que traz a batalha final do Homem-Morcego, Batgirl, Superman e Lara contra os kryptonianos. Sabe aquele filme que você assiste que tem uma história legal, mas enrola no desenvolvimento e, chega na meia-hora final e tem que resolver tudo às pressas? É isso. Uma série até interessante, mas um clímax apressado e uma solução vazia. Entre mortos e feridos, ao menos esta mini foi melhor que a vexaminosa Cavaleiro das Trevas 2. A miniedição da vez é Action Comics, com a repercussão da saga. Ou seja: é pra ser lida depois da edição grande.

A guerra se espalha além da Terra.

Guardiões da Galáxia 11 (out/2017) – Sempre com histórias descontraídas, os Guardiões chegam à Terra para tomar frente na Guerra Civil, mas um prisioneiro bem conhecido pode causar outra guerra, esta dentro da própria equipe. A série solo do Drax chega ao fim e Rocky Racoon e Groot voltam com a sua, com participação da Gwenpool (como se um Deadpool não fosse suficiente).

Crítica (em vídeo): Thor – Ragnarok

Filme que fecha a trilogia do Thor no cinema, o filme Thor – Ragnarok estreia esta semana com a promessa de elevar o nível dos filmes do Deus do Trovão, que são tidos como os mais fracos da Marvel Studios. Será que ele consegue? Veja nossa crítica em vídeo (sem spoilers) e descubra que nem tudo é o que parece.

Cotação: 

Leituras da Semana – Outubro (4)

Mais quadrinhos lidos nesta semana, entre clássicos e atuais. O destaque é pra Coleção Histórica (que perdeu o “Marvel” no título, provavelmente para não repetir com a mesma palavra no nome da coleção), com dois volumes que incluem HQs inéditas no Brasil.

As histórias são boas, mas os personagens…

Thor 8 (set/2017) – Às vésperas da estreia do terceiro filme do Thor no cinema, é interessante ver como o personagem mudou e não tem mais absolutamente nada a ver com o que será visto nas telas. A primeira história desta edição mostra o filho de Odin em busca do martelo de Thor Ultimate com a ajuda de Bill Raio Beta. Ao mesmo tempo, ele descobre o destino de Asgard e também que não é o único interessado no artefato místico, o que vai dar uma bela briga. A segunda história mostra “a” Thor e sua “Sociedade do Anel” lutando para salvar o reino de Alfheim das mãos de Malekith. Para isso, ela deve enfrentar “a” Kurse (sim, o monstro agora também é mulher). Boas histórias, conceitos atravessados e difíceis de engolir. A premissa é “aceita, que dói menos”.

Uma dupla do barulho, segundo a Sessão da Tarde

Coleção Histórica Paladinos Marvel Vol. 2 (jul/2017) – Luke Cage e Punho de Ferro, uma das duplas mais famosas da Marvel são o destaque deste volume, que traz a origem de Luke Cage (que já estreou num título próprio) e a primeira HQ solo do Punho de Ferro (cuja estreia se deu na revista Marvel Premiere e só um ano depois migrou para seu próprio título. Portanto, não se espante da história começar “na metade” e não narrar a origem do herói). As histórias seguintes mostram o início da parceria dos dois heróis e têm uma dinâmica tão boa que a revista Power Man passou a se chamar Power Man and Iron Fist a partir da edição 50. Como é de praxe, o encadernado peca pela falta de padronização: a primeira edição tinha as capas originais, frontispício e editorial e esta não tem nada disso.

As origens do Cavaleiro da Lua

Coleção Histórica Paladinos Marvel Vol. 3 (ago/2017) – Este encadernado tem um valor inestimável para os fãs de clássicos da Marvel. Primeiramente, porque traz, pela primeira vez no Brasil, as HQs de estreia do Cavaleiro da Lua. Muita gente não sabe (eu mesmo, só descobri isso recentemente), mas o personagem estreou como coadjuvante na revista do Lobisomem (um personagem que, por si só, já é coadjuvante, imagine ser coadjuvante do coadjuvante!), publicação de terror que teve relativo sucesso na década de 1970, mas pela sua temática ficou restrita a um público mais maduro. A grande “estreia” do personagem foi na revista Almanaque Premiere Marvel (RGE) – chamado de Cavaleiro de Prata – que passou a publicar o título-solo Moon Knight e que, até agora, nunca tinham sido republicadas em nosso País. Por isso, retomo o que disse no início: um encadernado com valor inestimável para leitores mais antigos conhecerem a primeira aparição do herói e relerem suas primeiras histórias-solo e para o leitor novo conhecer este que é um dos mais interessantes personagens da Marvel. O interessante é notar que, quando surgiu na revista do Lobisomem, o Cavaleiro da Lua teve uma origem bem simples: foi contratado como mercenário por um grupo que lhe deu uma fantasia e até ganhou superpoderes provenientes da lua e do fato de ter sido mordido pelo Lobisomem. Já no título-solo, essa origem foi reformulada e o Cavaleiro da Lua ganhou um tom místico, derivado de sua ligação com o deus egípcio Konshu. A arte de um iniciante Bill Sienkiewicz só melhora o roteiro de Doug Moench e dá ao herói um clima fantasmagórico e sinistro. Leitura indispensável.

O Motorista frente a frente com o Motoqueiro.

Motoqueiro Fantasma 2 (ago/2017) – Neste volume, o Motorista Fantasma (Robbie Reyes) se encontra com o Motoqueiro Fantasma (Johnny Blaze) e é revelado mais sobre o espírito que o possuiu e lhe deu os poderes diabólicos. Sem entregar spoilers, trata-se de um conceito bem esquisito que estraga a essência do herói – aliás, algo bem comum nos quadrinhos atuais da Marvel, que parece ter assumido a missão de descaracterizar todos os seus super-heróis. Também é comum essas “inovações” começarem bem (talvez pelo teor da novidade) e, ao longo do caminho, perderem o fôlego, gerando roteiros pífios e esquecíveis. É o que acontece neste volume, que até tem uma temática interessante, com o conflito de Reyes e seu demônio (ou quase isso) interior, mas que se perde em diálogos infantis, desenhos caricatos e personagens com o carisma de um vidro de óleo de rícino. As duas últimas HQs melhoram o ritmo, mas não a ponto de salvar o título, que foi cancelado em 2015, apenas um ano após sua estreia. O personagem teve uma nova chance este ano, nos Estados Unidos, com o atrativo de ter arte do brasileiro Danilo Beyruth, mas não passou da quinta edição (maio/2017). Seria por uma maldição demoníaca? Não, só roteiristas ruins e conceitos toscos mesmo…