Coleção Histórica Marvel número 100

Acabou passando batido, mas o volume 10 da Coleção Histórica – Paladinos Marvel estrelada por Luke Cage marca o centésimo número do projeto Coleção Histórica Marvel, criado de forma despretensiosa pela Panini Comics em 2012 para aproveitar a febre em torno do lançamento do primeiro filme dos Vingadores no cinema. Uma iniciativa bacana e relativamente barata que resgatava histórias clássicas e fases marcantes dos maiores personagens da Casa das Idéias, permitindo aos novos leitores conhecerem a essência da Marvel Comics ao longo de seus quase 60 anos de vida (considerando o lançamento de Fantastic Four 1, não a fundação da empresa). 

Edição de estreia, seguindo o sucesso dos Vingadores no cinema

O primeiro volume da Coleção Histórica Marvel foi lançado em abril de 2012, trazendo o Capitão América como destaque. Além das históricas antigas do herói, o papel off-set branco já se diferenciava do restante das publicações da editora (geralmente em pisa brite ou couché), mas o grande charme da edição estava na sua capa, cujo fundo sépia e imagem com riscos simulavam algo envelhecido e gasto, passando a ideia de material clássico que a coleção pretendia. A contracapa trazia uma imagem que reunia o Sentinela da Liberdade com seus colegas Vingadores: Thor, Homem de Ferro e Hulk.

Monstro injustiçado: Hulk ficou de fora da coleção original

Esses heróis estrelaram os números seguintes, sendo o Deus do Trovão no segundo volume e o Vingador Dourado no terceiro. O Hulk, no entanto, não estrelou a quarta edição, que foi dedicada aos Vingadores, deixando uma legião de fãs frustrados e considerando uma injustiça o Gigante Verde ter sido deixado de fora, sendo que ele era destaque na imagem traseira. Mas era óbvio que a editora não iria desprezar a oportunidade de faturar em cima da superequipe que estreava aos cinemas.

Pioneirismo nas lombada artísticas.

Outra novidade da coleção é que, com o quarto volume, veio também uma caixa montável para guardar a coleção, tornando os livros um material excelente para os colecionadores. Também vale mencionar que cada volume trazia na lombada uma parte da mesma imagem da contracapa e, colocadas juntas, formava a imagem inteira dos quatro heróis. Isso quando as lombadas artísticas ainda não haviam se tornado moda (a coleção da Salvat só chegaria às bancas em outubro do ano seguinte). Nem precisa dizer que a coleção foi um sucesso e os fãs queriam mais.

Mesmo personagem, temática diferente por volume.

Em vista deste sucesso, o projeto foi reestudado e, ao invés de trazer um personagem diferente por caixa, focou em apenas um. E ninguém melhor para estrear essa nova fase do que o personagem mais carismático e querido da editora: o Homem-Aranha. Mesmo estrelado pelo mesmo personagem, cada edição da CHM Homem-Aranha era focada num inimigo do Amigão da Vizinhança: o volume 1 apresentou os confrontos contra o Duende Verde, o volume 2, contra o Dr. Octopus, o volume 3 foi abrilhantado pelo Lagarto e o quarto volume trazia o Sexteto Sinistro.

A coleção teve uma boa quantidade de HQs inéditas no Brasil, como o caso das publicadas em Supervilões Unidos.

De lá para cá, periodicamente, a Coleção Histórica Marvel aparece nas bancas, sempre com alguma surpresa para os leitores e mantendo o padrão de histórias clássicas – muitas delas, publicadas pela primeira vez no Brasil. Um exemplo bem claro é a Coleção Histórica Marvel – Super-Vilões Unidos, onde praticamente todas as histórias eram inéditas, a grande maioria saídas do título americano Super-Villain Team-Up. A edição do Homem de Ferro também trouxe o título Iron Man and Submariner 1 (1968), uma edição especial publicada para marcar a transição do Vingador Dourado da revista Tales of Suspense (onde ele estreou, na edição 39) para seu próprio título solo. Uma raridade!

Projeto experimental: lançamento sem periodicidade, para sentir o mercado e as vendas.

Há também alguns casos interessantes: a Coleção Marvel Terror – A Tumba de Drácula, além do título diferente, também tinha a capa envernizada, dando um ar mais luxuoso ao título. No entanto, as características da Coleção Histórica estavam evidentes: o fundo sépia com os riscos na imagem da capa, papel off-set e a caixinha a cada quatro volumes. Como a editora não sabia se o título era atrativo aos leitores, A Tumba de Drácula não teve periodicidade definida, para que a empresa pudesse sentir o mercado e o interesse dos fãs, de modo que os quatro volumes demoraram dois anos para fechar a primeira caixa.  A segunda caixa já teve publicação mais frequente.

Edições únicas. Mais uma e dá pra fazer uma caixinha…

No entanto, nem todos os títulos despertaram o mesmo interesse e tiveram apenas uma edição lançada. É o caso do Motoqueiro Fantasma que, inclusive, ficou sem o final da última história da edição, que anunciava uma continuação, mas o volume 2 nunca chegou às bancas, nem qualquer explicação foi dada para o cancelamento.  Tudo leva a crer que as vendas não foram suficientes para a continuidade da série. Mesmo caso da Coleção Marvel Terror – O Lobisomem Ataca, cujo personagem não teve o mesmo apelo do mestre dos vampiros e “morreu” na primeira edição. A Coleção Histórica Marvel – Torneio de Campeões também teve uma única edição, não por baixas vendas, mas sim porque a história se concluiu em um único volume.

Sonhos realizados

Depois de muito tempo, a injustiça cometida contra o Hulk logo na estreia da coleção foi solucionada e, atualmente, o Gigante Verde já tem 12 volumes de seu próprio título, cobrindo uma importante fase de sua carreira, além de uma edição só para ele na Coleção Histórica Marvel – Os Defensores. Outro antigo sonho dos leitores, que era de ver a série do Mestre do Kung Fu republicada no Brasil (as HQs estava sob embargo de direitos autorais e foram liberados por um acordo entre a Marvel e a família do escritor Sax Rohmer), também foi realizado e já conta com 12 volumes, num momento em que o personagem está às vésperas de chegar aos cinemas.

Fake: fãs brincam na Internet e criam suas próprias CHM. Fica a dica, Panini!

Abaixo, uma lista de todos os volumes já publicados da Coleção Histórica Marvel, um dos melhores títulos em banca, atualmente. Uma pena que a falta de zelo da Panini, que publica as capas originais numa edição, para omiti-las na seguinte, deixando os títulos sem uma padronização, somados aos erros gramaticais e ortográficos tirem um pouco do brilho da coleção. Apesar disso, os fãs esperam que outros personagens ganhem sua caixinha e possam abrilhantar essa coleção futuramente, figurando no rol dos grandes heróis e suas inesquecíveis aventuras. Que venham mais 100 volumes! Aproveite e clique aqui para ler nossa resenha sobre os quatro volumes originais, na época em que eles foram lançados.

Título

Quant.
Coleção Histórica Marvel (Capitão América, Thor, Homem de Ferro e Hulk) 4
Coleção Histórica Marvel – Homem-Aranha 12
Coleção Histórica Marvel – Os Vingadores 8
Coleção Histórica Marvel – Os X-Men 8
Coleção Marvel Terror – A Tumba do Drácula 8
Coleção Histórica Marvel – Quarteto Fantástico 4
Coleção Marvel Terror – Motoqueiro Fantasma 1
Coleção Histórica Marvel – Super Vilões Unidos 4
Coleção Marvel Terror – O Lobisomem Ataca 1
Coleção Histórica Marvel – Os Defensores 4
Coleção Histórica Marvel – Guerras Secretas 4
Coleção Histórica Marvel – Wolverine 8
Coleção Histórica Marvel – Torneio de Campeões 1
Coleção Histórica – Paladinos Marvel* 11
Coleção Histórica Marvel – O Incrível Hulk 12
Coleção Histórica Marvel – Mestre do Kung Fu 12
Total 102
Coleção Marvel Terror – Zumbis Marvel** 4

* Até a publicação deste post, o volume 12 da Coleção Histórica Paladinos Marvel, estrelado pelo Cavaleiro da Lua, ainda não havia chegado às bancas, apesar de já ter o lançamento programado para este mês.

** A Coleção Marvel Terror – Zumbis Marvel ficou fora da contagem porque foge dos padrões de capa com fundo sépia e imagem riscada e envelhecida, embora também tenha quatro volumes e caixinha para guardar.

Saído do Forno: Superman – Ano Um

Lendário no mundo dos quadrinhos, o nome de Frank Miller sempre foi sinônimo de grandes obras-primas. Com um estilo único de desenho, que traz influências dos mangás e da linguagem cinematográfica, Miller criou verdadeiras obras-primas, como Batman – O Cavaleiro das Trevas, A Queda de Murdock, Sin City e 300 de Esparta entre outros.  No entanto, nos últimos tempos, seu traço perdeu o vigor e se reduziu a uma arte grosseira que nem de longe lembra sua fase áurea. Nem por isso o autor deixa de lançar novos títulos na expectativa de criar novos clássicos.

Capa alternativa desenhada por Miller. E o motivo pelo qual a arte interna ficou com Romita Jr.

É o caso de Superman – Ano Um, que a Panini acaba de lançar no Brasil. O álbum chega sob o selo DC Black Label, voltado à publicação de minisséries originais ambientadas fora da continuidade, permitindo que os autores possam explorar sua criatividade. Em borda quadrada, capa cartonada e tamanho acima dos padrões (21,5cm X 27,5cm), a obra reconta, pela enésima vez, a origem do Homem de Aço, desde sua vinda do planeta Krypton, passando pela sua juventude em Smallville, até se tornar o herói que conhecemos.

Sim, você já viu essa cena.

Por se tratar de uma história pra lá de conhecida, o chamariz para a publicação é mesmo o nome de Frank Miller e a visão que ele daria para o personagem – lembrando que ele também é o autor de Batman – Ano Um (1987), outro de seus maiores sucessos, que redefiniu o Cavaleiro das Trevas para aquilo que ele é hoje. Com o Superman, porém, isso não vai acontecer. Longe de estar nos seus melhores dias, a releitura de Miller está longe de ser tão épica quanto à que deu ao Homem-Morcego, mas nem por isso, o álbum merece ser desprezado.

Origem diferente: Salve Martha!

Com algumas diferenças da clássica história que já conhecemos – o bebê Kal-El é encontrado apenas por Jonathan Kent, enquanto sua esposa estava em casa; na juventude, o jovem Clark se alistou na marinha, algo que nunca ocorreu na cronologia oficial – Ano Um explora o conflito pessoal do rapaz em ter poderes que não sabe de onde vieram e não poder utilizá-los publicamente, o que se torna bem grave quando um grupo de bullies toca o terror no colégio e nenhuma autoridade toma providências quanto a isso. Como você agiria sabendo que pode fazer a diferença?

Clark enfrenta um pesado fardo na visão de Miller.

A visão mais realista nos apresenta um Clark Kent bastante humano no desenvolvimento de sua consciência, com a ajuda de seus pais adotivos. Martha é apresentada como a mãe superprotetora, enquanto Jonathan é o pai descoladão, que faz piadas incentivando o filho a revidar às provocações para logo em seguida ensinar a importância da responsabilidade no uso de tais habilidades, sem que, para isso, ele necessite ser explorado pelos outros. A carga moral no equilíbrio entre as atitudes é que dão o peso do roteiro de Miller. A arte de John Romita Jr., odiada por uns e idolatrada por outros, também combina com a narrativa e não decepciona.

Momento de revelação: “Não há justiça sem verdade.”

Dividida em três capítulos, a minissérie bem poderia ser publicada numa edição única, o que valorizaria ainda mais o material e não teria um preço exorbitante – ao menos teoricamente – , uma vez que cada volume possui apenas 72 páginas. Os próximos volumes estão previsto para os meses de abril e maio, mas não deve tardar para a editora lançar um encadernado com a história completa, numa edição em capa dura. Enquanto isso não acontece, vale curtir o material isoladamente, numa apresentação simpática e uma trama que, mesmo não tendo ingredientes de clássico atemporal, apresenta uma história vibrante e com importantes conceitos morais, tão relevantes na personalidade do Homem de Aço.

Opinião: Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica

Após quase três anos sem uma produção original (A última foi Viva – A Vida é uma Festa, em 2017. As posteriores, Incríveis 2 e Toy Story 4, são continuações), a Pixar lança o filme Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020), que conta a história dos elfos Ian e Barley, que vivem num mundo de fantasia repleto de criaturas fantásticas – fadas, dragões, sereias, centauros – onde a magia foi extinta há muitos anos, transformando o local num mundo com a rotina bem parecida com a nossa.

Um presente de aniversário é o pivô de toda confusão.

Barley, o irmão mais velho, manteve acesa a chama da magia por meio de seu jogo de RPG, mas não é levado muito a sério pela família nem pelo padrasto, Colt Branco, um centauro policial que considera o enteado um encrenqueiro. Já Ian, o mais jovem, é tímido e avesso a confusões. Sente muita falta do pai, de quem ele mal se lembra, pois morreu quando o garoto ainda era muito jovem. No aniversário de 16 anos de Ian, sua mãe lhe entrega um presente deixado pelo pai para ser entregue quando tivesse maturidade suficiente: um cajado e uma joia que o ativa magicamente.

Um feitiço mal feito traz apenas meio pai para conviver com os jovens.

Com o artefato, eles conseguiriam trazer o pai de volta para viver com eles durante 24 horas, mas algo dá errado e eles só realizam metade do feitiço. Para concluir o encanto, a dupla precisa partir em busca de uma nova joia, oculta em algum lugar distante, enfrentando inúmeros perigos na jornada. É o pretexto para muitas confusões, aventuras e, claro, bom humor, como pede toda produção animada da Disney/Pixar. Dirigido por Dan Scanlon, a história foi baseada na própria infância do diretor, que perdeu seu pai muito cedo e sempre desejou conhecê-lo e se imaginava como ele seria. Por isso, leve seu lenço, pois o final reserva muita emoção.

Gwinever, a van de Barley, é onde a dupla vive grandes aventuras.

A trama começa num ritmo frenético, com diálogos tão acelerados que, por vezes, é até difícil acompanhar – bem no pique das crianças hiperativas de hoje. Conforme a trama se desenrola, a história puxa o freio e passa a ficar mais lenta, ganhando um tom mais emotivo e características de road movie, com belas paisagens para apreciar. O relacionamento entre os irmãos também passa a ser menos conflituoso e se torna mais colaborativo. Afinal, o foco da trama é exatamente valorizar a relação familiar e a importância de se aproveitar os momentos juntos. Não à toa, o título original – Onward – significa “em frente”, “adiante”.

Ciclope lésbica

Antes de ser lançado, o filme já teve uma polêmica por conta de uma personagem que seria a primeira personagem lésbica lançada pela Disney, representada por uma policial. De fato, ela existe, mas, como de praxe, o barulho a respeito de sua homossexualidade foi puro alarmismo para criar antipatia à personagem. O “lesbianismo” se resume a uma única frase: “a filha da minha namorada”, que até passa despercebida no contexto da história. Portanto, senhores pais, podem levar suas crianças despreocupadamente para ver o filme, que nenhuma delas será mal influenciada pela policial degenerada.

Dublagem heroica

A versão original conta com um extra: a voz de Ian é feita por Tom Holland (o Homem-Aranha, do Universo Cinematográfico da Marvel) enquanto que Barley é dublado por Chris Pratt (o Senhor das Estrelas, de Guardiões da Galáxia). Embora tenha sido noticiado que o filme seria precedido de um curta-metragem dos Simpsons, na sessão em que participamos, o mesmo não foi exibido. Uma falta que realmente se fez sentir, pois os curta-metragens que precedem os filmes da Pixar sempre são um show à parte e já fazem valer o ingresso.

Tudo que Ian queria era passar um dia com o pai. As duas metades.

Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica é uma animação com clima positivo e alto astral, que passa a lição de acreditar em si mesmo e aproveitar os momentos, pois a vida não volta atrás. E, claro, a magia deve permanecer sempre viva no coração. Mais um acerto da Pixar, com personagens carismáticos que vão apaixonar crianças e adultos.

Cotação Raio X:

 

PQP – Padrão de Qualidade do Português: Quarteto Fantástico – Zona de Guerra

Hoje em dia, com o sucesso dos filmes da Marvel, as editoras investiram nas aventuras romanceadas dos heróis e o mercado já conta com vários livros lançados por editoras como Novo Século e Excelsior. Mas este tipo de literatura não é novidade: muitos personagens estrearam na literatura e depois foram transformados em personagens de quadrinhos – caso de Conan, que surgiu nas páginas dos pulps escritos por Robert E. Howard, em 1932 e até mesmo os coadjuvantes do Mestre do Kung Fu, que surgiram na literatura do autor Sax Rohmer.

Livros da Marvel lançados pela Panini

Aqui no Brasil, embora haja muitos lançamentos em livros voltados para crianças, a moda de romances estrelados por super-heróis nunca pegou de verdade como vem acontecendo nos últimos anos. Prova disso é que, em 2005, a Panini tentou lançar uma coleção de livros, publicados em papel barato, bem à semelhança dos pulps americanos, mas a iniciativa não deu muito certo e tivemos apenas quatro volumes: Homem-Aranha – Ruas de Fogo (Keith R. A. Decandido), Quarteto Fantástico – Zona de Guerra (Greg Cox), X-Men – Espelho Negro (Marjorie M. Liu) e Wolverine – Arma X ( Marc Cerasini) – estes últimos foram relançados recentemente pela editora Novo Século.  As tramas são muito boas e trazem a essência dos personagens, exatamente como os lemos nos quadrinhos, mas a qualidade do texto dá vergonha alheia.

Quinze anos de publicações desleixadas.

Guardei durante todo esse tempo o livro do Quarteto Fantástico sem ler (leituras acumuladas, qual leitor compulsivo nunca as teve?) e, no começo deste ano, resolvi colocar a obra na meta de leitura. Gostei bastante da história, mas o livro tem uma quantidade tão grande de erros gramaticais e ortográficos que chega a assustar: contei 39. Obviamente, há que se considerar que um livro, com texto corrido, é muito mais passível de erros do que quadrinhos, onde os textos são fragmentados pelos balões. Mesmo assim, não dá pra ser condescendente com um trabalho tão mal feito como esse, vindo de uma editora multinacional.

Fica ainda pior considerando que alguns não são apenas erros de digitação, mas falta de conhecimento básico da língua, pois eles se repetem várias vezes, conforme vamos notar nas fotos abaixo. Como nosso objetivo é prestação de serviço e colaborar para uma melhor qualidade linguística, cada foto traz a correção do erro, com a devida explicação do porquê dele estar errado.

Abordagem errada no uso do termo.

1 – Logo na página de abertura, somos brindados por um “abordo”, palavra que existe se fosse a conjugação da primeira pessoa do presente do indicativo do verbo “abordar” (“o policial aborda o criminoso”, por exemplo) mas que, no caso, tem o significado de estar no interior de um veículo e, por isso, se escreve separado: a bordo. Ok, foi só um errinho de digitação. Vamos em frente.

Colocamos tudo junto pra mostrar que é separado que se escreve.

2 a 6 – Bem, aqui percebemos que não foi “um errinho de digitação”… No decorrer do livro, em vários momentos, aparece novamente o “abordo”. Significa que o tradutor não sabe escrever… e que o revisor e o editor também não sabem.

Parecia que a concordância verbal era uma ilustre desconhecida.

7 – O livro apresenta vários problemas com plural. No exemplo acima, o verbo deveria concordar com “as cores” e ser flexionado no plural, já que elas são o sujeito da frase. “As cores pareciam pertencer a um espectro” é a forma correta.

Patente Panini: a palavra “pro-proparoxítona” e o “algarismo romanumeral”.

8 a 10 – Nesse exemplo triplo, a impressão é que o tradutor tentou criar tendências. Primeiro, modificando a numeração romana para uma mescla entre o algarismo e o numeral. Ficou charmoso (só que não). Em seguida, tentou criar uma palavra “pro-proparoxítona”. Como sabemos (quero crer que sabemos, né?), todas as proparoxítonas são acentuadas (Fan-tás-ti-co, por exemplo), mas “fantasticarro” tem a sílaba tônica na penúltima sílaba e não na “ante-antepenúltima”: Fan-tas-ti-car-ro.  É o mesmo raciocínio da palavra cafezinho, por exemplo. Café tem acento, mas seu diminutivo não, pois a tônica muda de posição.

O texto ficou queimado com esse erro de digitação.

11 – Aqui temos um erro de digitação que poderia passar batido. Quem digita rapidamente, por vezes o próprio software corrige a palavra por uma de grafia próxima. “Poderia”, se fosse só ele. Juntando com todos os outros se torna um trabalho mal feito mesmo… A gente tentou deixar passar, “mas não conseguiu”.

É muito preocupante uma editora deixar passar um erro desses…

12 e 13 – Não bastasse a falta da vírgula após a locução adverbial, ainda temos o desprazer de ver um “preocupa-se” ao invés de “preocupasse”, como pede a conjugação verbal no pretérito imperfeito. E olhe que ainda estou ignorando a separação silábica “Jo-hnny”, um pouco mais abaixo…

Deslize verbal

14 – Neste caso, o erro permite várias interpretações. Primeiro, e o mais óbvio, é que o verbo está conjugado errado. Seguindo a sequência de ações realizadas pelo Sr. Fantástico, tudo leva a crer que o verbo deveria estar no pretérito perfeito: largou (o rifle), retraiu (o braço) e foi (em direção à cela). Mas o verbo também pode estar conjugado certo (no gerúndio), indicando uma ação contínua do herói. Nesse caso, o erro é a conjunção “e”, que estaria sobrando: “Retraindo seu braço, foi em direção à cela”. O primeiro caso indica ações isoladas e feitas uma de cada vez. No segundo, a ação foi contínua: ele caminhou em direção à cela ao mesmo tempo em que retraiu o braço. Porém, em ambos, o texto está errado.

Desta vez, ninguém quis lacrar. Foi erro de concordância mesmo!

15 e 16 – É fato que as publicações da Marvel lançadas atualmente adoram “lacrar”, com heróis representantes de ideologias de gênero, não para representar de fato, o que não haveria problema algum, mas para ser “engajadões” e fazer discurso panfletário. Não é o caso aqui, mas ninguém pode negar que o gênero foi um problema na hora de fazer a concordância nominal. Afinal, o poço estava “lacrado” e não “lacrada”. Na sequência, parece que faltou alguma palavra que explicasse o que o Aniquilador fez nas placas de adamantium. Pisou? Sentou? Chorou de desgosto?

Aposto que eles não sabem o que é aposto.

17 – Aposto é um termo que serve de explicação para o termo ou frase anterior. Gramaticalmente, sempre vem entre vírgulas. Mas claro que o redator do texto não sabe disso, porque engoliu a segunda vírgula após “Carniceiros”, que explica quem são “os leais servos do Aniquilador”.

Até os cavalos ficaram com vergonha desta.

18 – O termo estaria correto se o Coisa tivesse jogado o guarda em cima de um cavalo que estivesse disponível. Mas não foi isso que aconteceu: ele o jogou mesmo num recinto utilizado para prender criminosos – que estavam fugindo, aliás, indicando que não tem nenhum quadrúpede nessa história – ao menos, teoricamente.

A mim, parecia que os editores não entendiam nada de plural.

19 – Mais um caso de erro de concordância. “Machos e fêmeas pareciam…”: Substantivos no plural exigem o verbo também no plural. Simples assim. Mas que parecia um bicho de sete cabeças para o autor desse texto.

Já não existem erros o suficiente neste livro?

20 – Aqui temos um artigo definido “o” sobrando. Acredito que não houve tempo suficiente para uma revisão apropriada.

Os controles obedecem a um público bem restrito. Mas não tanto assim.

21 – Os problemas de plural continuam. Uma equipe como o Quarteto Fantástico tem vários amigos e aliados, mas alguém deve achar que eles têm apenas um único aliado.

A situação está ruim, a ponto de precisarem de profissionais mais qualificados.

22 – Mais um erro de digitação que, provavelmente, foi corrigido pelo software de edição de texto. Poderia ter sido pego pelo revisor, mas…

Mais um erro de plural com o verbo “parecia/pareciam”.

23 – Mais um caso de concordância verbal mal feita. E com o mesmo verbo. Acho que é implicância – ou, como no caso do “abordo”, desconhecimento das normas mesmo…

Nem vou legendar essa imagem.

24 – Mas de novo, Panini? O canhão parecia ser um inútil aborrecimento, mas os canhões pareciam ser aborrecimentos. Bem como essa quantidade absurda de erros, né?

Eu também anseio por ver uma revista sem erros.

25 – Faltou o sujeito da frase. A filha, a jovem, a alienígena, a pessoa, a criatura – qualquer coisa que o valha –  anseia por ver os pais novamente. E os leitores anseiam por uma edição mais bem editada.

Não, isso não é encenação. É trabalho mal feito mesmo.

26 – Aqui houve a troca do substantivo “encenação” pelo gerúndio do verbo “encenar”. E os leitores ficaram com a impressão de estar num palco sendo enganados pelos atores desta tragédia.

Na verdade, quem tem vontade de fugir pra algum lugar bem longe somos nós, leitores.

27 – As pessoas tentavam fugir para a segurança das ruas. É compreensível que, na hora de digitar, algumas letras sejam omitidas. Também é compreensível que um ou outro erro acabe passando. Mas não é compreensível, tampouco aceitável, que uma quantidade tão grande de deslizes aconteçam no mesmo livro. O leitor está pagando por ele e tem direito a um produto de qualidade.

Faltou a crase, sobrou o artigo e tropeçou no plural (de novo!).

28 a 30 – Locuções femininas, sejam elas adverbiais ou prepositivas, pedem a crase. Nesse caso, indica que o módulo estava sempre em vantagem com relação aos raios, e não apostando corrida até tomar a dianteira (nesse exemplo, não ocorre a crase: o carro passa a frente do seu oponente). É o que acontece na sequência, onde a ideia é colocar distância entre os heróis e seus atacantes. O problema é que tem um artigo sobrando e o pronome no singular não concorda com o substantivo no plural.  Tá feia a coisa…

Ficar em frente à TV e não estudar dá nisso…

31 e 32 – Mais um erro de crase seguido de outro de digitação: a regra básica da crase é que ela é usada apenas diante de palavras femininas e, por definição, ela acontece quando a preposição “a” encontra o artigo feminino “a”. Assim, um macete para identificar se ocorre a crase é substituir o substantivo feminino por outro masculino. Se a substituição resultar em “ao” (preposição a + artigo o), ocorre a crase. Assim, se o Tocha Humana reclamasse que perdeu sua noite em frente ao rádio, concluímos que em frente à TV pede crase. No erro seguinte, o verbo no subjuntivo está conjugado errado: que eu saia, que a gente saia… supondo que eles saibam conjugação verbal, claro!

Alguém mais tem problemas com crase além dos editores da Panini?

33 a 38 – Tá, já deu, né? Ao invés de citar um por um, vamos fazer um apanhado de erros de crase: mais seis, ao longo do livro. Em todos, o mesmo erro primário: bastava substituir a palavra feminina por uma masculina. Assim, a câmara de acesso ao portal da Zona Negativa, os Carniceiros não tinham iniciativa para se juntar aos invasores; Johnny poderia perguntar ao seu cunhado; o Coisa correu em direção ao inimigo e Reed lutava para resistir ao desejo de correr para o portal. Apenas um deles é o mesmo raciocínio já citado nos itens 28 a 30, onde o herói se preparava para o que ia enfrentar à frente (locução adverbial). Ufa!

Não aconteceu nada àquela criança. Ao português, no entanto… pobrezinho!

39 – Neste fica comprovado que o tradutor não entende de crase, pois saberia que a preposição “a” + o pronome demonstrativo “aquela” podem ser aglutinados numa mesma palavra craseada: àquela.

Unidos contra o desleixo editorial

Esta seção foi criada com o objetivo de apontar os defeitos encontrados nas HQs, prezando pela qualidade linguística, uma vez que, enquanto lemos, assimilamos de forma inconsciente a grafia das palavras, pontuações e afins, complementando a teoria aprendida nos bancos escolares. Quanto vemos textos mal escritos, principalmente vindos de empresas que, teoricamente, deveriam primar pelo perfeccionismo, temos também a desvalorização da língua. As editoras precisam lembrar de sua função principal e jamais colocar a ideologia política e o lucro como prioridades, caso contrário só colaboram para que nossa sociedade fique mais e mais ignorante.

Se você encontrar algum erro de ortografia ou gramática e quiser mandar pra PQP, fotografe ou escaneie e envie para nós pelo email que está na nossa página “Sobre mim”. Clique neste link para acessar. Vamos prezar pela qualidade da nossa língua, que é nosso maior patrimônio cultural.

Opinião: Aves de Rapina

O ano de 2020 é o ano das heroínas no cinema. Já começou com a princesa Elsa em busca de suas origens em Frozen II em janeiro e continua a representatividade feminina este mês, na estreia da semana: Aves de Rapina – Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey, 2020). O longa-metragem traz a atriz Margot Robbie de volta ao papel da eterna namorada do Coringa após sua estreia em Esquadrão Suicida (2016), no qual roubou a cena com seus diálogos insanos e bem-humorados.

Estreia das Aves de Rapina nos quadrinhos, em 1995.

Considerando a quantidade de problemas do longa-metragem de estreia da Arlequina, o estúdio optou por investir no carisma da atriz e da personagem em um filme estrelado por ela, mesmo que divida a cena com outra superequipe de segundo escalão – as Aves de Rapina. Para quem não sabe, a equipe foi criada em 1995, por Chuck Dixon (roteiros) e Gary Frank (desenhos) para o especial Black Canary/Oracle: Birds of Prey. No início, era formada apenas pela Canário Negro e a hacker Oráculo – a ex-Batgirl Bárbara Gordon, que ficou presa a uma cadeira de rodas após ser baleada pelo Coringa no clássico A Piada Mortal (1988), de Alan Moore.

Aves de Rapina ganharam até uma série de TV.

Já que não podia mais combater o crime fisicamente, a jovem passou a agir fornecendo informações privilegiadas que conseguia invadindo o sistema de computadores de Gotham. Como as HQs das heroínas caíram no agrado do público, elas ganharam seu próprio título a partir de 1999. A partir da edição 57 (2003) a dupla ganhou o reforço de Helena Bertinelli, a Caçadora, uma anti-heroína que viu sua família ser assassinada pela máfia quando criança e jurou vingança, tornando-se uma vigilante. Em 2002, as heroínas ganharam uma série de TV que pecou pela pobreza de roteiros e durou apenas uma temporada com 13 episódios.

“Como assim, ‘tentaram copiar o meu filme’??”

A Warner aproveitou a popularidade da Arlequina para apresentar a nova equipe – ligeiramente diferente no cinema, com a detetive Renne Montoya no lugar da Oráculo – ao seu universo cinematográfico, ao mesmo tempo em que atraía o público feminino num filme estrelado exclusivamente por mulheres com uma pitada de humor insano, copiando a fórmula que deu tão certo em Deadpool (2016). Tinha tudo para dar certo, se fosse bem executado. “SE”, porque não é. Como de praxe, o estúdio ainda não sabe o que fazer com os super-heróis da DC Comics e o resultado é mais uma produção dispensável, com cenários pobres, personagens rasos e piadas que não funcionam em momento algum, que já começa ruim a partir do seu título, extenso demais.

O Coringa de Jared Leto não está no filme.

O filme começa com Arlequina narrando sua infância para explicar os eventos que levaram ao rompimento de seu romance com o Coringa (Jared Leto, que interpretou o Palhaço do Crime em Esquadrão Suicida, não participa do filme devido à rejeição do público à sua encarnação do vilão. Além disso, segundo consta, Leto não gostou da Warner por ter feito o filme solo do palhaço com Joaquin Phoenix, o que estremeceu suas relações com o estúdio). A partir daí, na condição de ex e sem a proteção do seu “pudinzinho”, passa a ser perseguida pelos criminosos que têm os mais diversos motivos para eliminá-la.

“Sério, não sei o que viemos fazer nesse filme…”

Ao mesmo tempo, uma misteriosa vigilante chamada Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) inicia uma cruzada contra os mafiosos de Gotham, matando-os violentamente, o que chama a atenção da detetive Reneé Montoya (Rosie Perez). Ela passa a investigar o caso, tendo como informante a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell), a Canário Negro, que também é motorista particular de Roman Sionis (Ewan McGregor), um chefão do crime conhecido pela alcunha de Máscara Negra. Este, por sua vez, está atrás de um diamante que dá acesso à fortuna da família Bertinelli, mas que foi roubado pela adolescente rebelde Cassandra Cain (Ella Jay Basco).

Um diamante roubado provoca toda ação.

Fechando o círculo, Cassandra é vizinha de Dinah, que passa a protegê-la, mas a Arlequina faz um acordo com o Máscara Negra para capturar a garota e trazer-lhe o diamante em troca de ter sua vida poupada. Não bastasse o roteiro confuso, cheio de reviravoltas, com ritmo frenético e diálogos ágeis, a trama ainda é permeada de vários flashbacks narrados pela voz infantilizada da ex do Coringa, embolando ainda mais o entendimento da história.

“E eu que pensava que meu fundo do poço tinha sido Em Star Wars…”

Preocupada em enfiar um diálogo engraçadinho a cada cena, a roteirista Christina Rodson esqueceu de desenvolver a personalidade de cada personagem, um detalhe fundamental em qualquer filme, mas principalmente no universo do Batman, onde os vilões são caracterizados por seus perfis psicológicos. O insano Victor Zsasz (Chirs Messina), por exemplo, é um psicopata que sente prazer em mutilar o próprio corpo a cada morte provocada e, no filme, esse perfil é mostrado superficialmente, relegando o vilão ao papel de leão-de-chácara do Máscara Negra, este mesmo, um personagem afetado que “odeia mulheres”, mas tem um carinho especial por sua motorista Dinah.

Para o caso da Warner resolver fazer uma continuação, disponibilizamos as onomatopeias para uso no filme. De nada!

A impressão que dá é que o orçamento de US$ 84,5 milhões foi todo gasto no irritante recurso de apresentar, a cada novo personagem, o nome e a motivação deles em matar a Arlequina. O investimento poderia ter sido voltado para melhorar os cenários, constrangedores de tão pobres. O clímax da história acontece num parque de diversões que mais se parece com um terreno baldio com um único prédio no meio, onde a ação acontece. Além disso, as lutas parecem saídas do seriado do Batman dos anos 1960, onde os bandidos esperam sua vez para bater nos heróis. Só faltou mesmo as onomatopeias. Na série, pelo menos, a gente sabia que aquilo era proposital.

Vergonha alheia: a cadeia é um galpão com gaiolas ao invés de celas.

Como se não fosse suficiente o filme ser repleto de situações absurdas – como uma invasão à delegacia onde Arlequina, sozinha, domina dezenas de policiais armados e treinados que não deram um tiro sequer; uma cadeia que mais parece um galpão com gaiolas ao invés de celas e até uma cena que faz apologia à cocaína – a diretora Cathy Yan ainda fez questão de destacar sua visão feminista radical: todos os homens do filme – todos mesmo! – estão lá para explorarem as mulheres. Até mesmo um simpático chinês a la Sr. Miyagi se mostra um aproveitador das personagens femininas.

Ohhhhh, eu vivo num mundo de masculinidade tóxica!

Num mundo em que nenhum homem presta, joga-se no ralo a luta pela igualdade de direitos que é o objetivo principal do verdadeiro movimento feminista e cria-se uma estúpida inversão de valores que só consegue despertar antipatia pela causa – e quem discordar disso, é rotulado como machista. Mulheres de verdade devem sentir vergonha dessa postura e mais ainda de um filme que em nada acrescenta à suas conquistas. Nem mesmo a trilha sonora, que geralmente costuma salvar uma produção ruim, tem canções marcantes. Nesse sentido, Esquadrão Suicida dá de dez a zero.

Empoderadas, não! Desqualificadas.

Com tudo isso, a melhor classificação para Aves de Rapina é dada pelo destino do diamante, no final da história. Trata-se da mais perfeita autocrítica onde um “diamante” (o grupo de heroínas) vai parar… bem, sem spoilers! Mas calma, meninas: o ano de 2020 ainda tem Mulan (25/3), Viúva Negra (30/4) e Mulher-Maravilha 1984 (4/6) para mostrar o verdadeiro valor feminino. Com Aves de Rapina, a única coisa que conseguiram foi provar que, em se tratando de adaptações de histórias em quadrinhos, a Warner/DC dá um passo para a frente e três para trás. Dá até saudades da série de TV…

Cotação Raio X:

PQP – Padrão de Qualidade do Português (Biblioteca Histórica Homem-Aranha)

Há alguns meses, a Panini resolveu lançar um tijolão com quase 500 páginas compilando as primeiras histórias do Homem-Aranha de autoria da dupla Stan Lee/Steve Ditko. Apesar do preço proibitivo (R$ 150), o encadernado teve público dirigido e foi uma ótima iniciativa para aquele colecionador das antigas ter, num único volume e em capa dura, uma coletânea da história do mais popular personagem da Marvel. O tipo de publicação para guardar como um grande tesouro, não fosse a baixa qualidade editorial, que trouxe os já tradicionais erros gramaticais e de digitação, além do absurdo de ter um balão em branco, problema que, dado o alto investimento, não poderia jamais ter acontecido.

Use sua criatividade e imagine o que o Tocha Humana está dizendo!

O material provocou uma chuva de reclamações na editora, que chegou a fazer recall do produto e lançar uma nova edição, com o balão devidamente consertado (não sei dizer se os demais erros de digitação também foram corrigidos, mas quero crer que sim). No entanto, não pensem vocês que esses erros ocorreram apenas nesta “edição definitiva”. A primeira iniciativa da Panini em trazer essas histórias, na finada Biblioteca Histórica Marvel, publicada entre 2007 e 2012 já tinha uma quantidade absurda de erros para um encadernado com preço elevado (já naquela época).

O redator não decidiu ainda qual o nome correto da personagem.

A edição número 2, por exemplo, lançado em outubro de 2008, apresenta seis erros de digitação entre grafias erradas de nomes de personagens, ausência de palavras, repetição de termos e separação de sílaba incorreta. O que torna o problema mais grave é que – como de praxe – uma revisão não muito apurada pegaria tais falhas. Por exemplo, o erro no nome da personagem Betty Brant, que saiu grafada como “Brand” numa fala de J. Jonah Jameson. No mesmo quadro, Peter Parker menciona a secretária por seu nome correto. Só pra reforçar: no mesmo quadro.

Kraven não quis dar entrevista para um jornalista que não sabe separar sílabas.

2) Erros em separações de sílaba são bastante comuns na hora de fazer diagramações. O software não sabe efetuar as separações seguindo as normas gramaticais, mas sim de acordo com o espaço disponível e quem tem que prestar atenção é tanto o diagramador quanto o revisor e o editor. Exatamente pela facilidade com que ocorrem, dever-se-ia ter uma atenção redobrada nesses casos, para evitar que aconteçam. (Só para deixar claro, a separação correta é SE-NHOR.)

Um erro para quem quiser ver.

3) A fala de Flash dizia que ele tinha grandes novidades, mas o leitor não esperava que fosse uma “engolida” na letra M no final da palavra “quem”. E o erro estava lá, para quem quiser ver (E não nos critiquem por sermos exigentes: foi Stan Lee quem mandou ler cuidadosamente a história!).

O Demolidor tem o quê mais desenvolvidos? Exercite sua memória.

4) Numa história detalhando os poderes do Homem-Aranha, o roteiro exalta os sentidos superdesenvolvidos do herói e os compara com os do Demolidor. O problema é que “esqueceram” de explicar o que o Aranha tinha de tão apurado. E o texto ficou assim, faltando uma informação.

Não! Não! Não!!!

5) Em outro quadro, o narrador explica que o Homem-Aranha não tem sido visto, mas deu uma “gaguejada” na hora de explicar e deixou um “não” sobrando no meio da fala, ensinando como NÃO se deve fazer uma revisão.

Preposições são palavras que ligam dois elementos de uma frase. Sim, elas fazem falta.

6) Por fim, a edição traz uma história engraçadinha estrelada por Stan Lee e Steve Ditko explicando como os autores criam as HQs do herói aracnídeo. Lee é tão chato que Ditko pede a sua secretária que não quer atender as ligações DE um cara chamado Lee. Mas a edição brasileira “comeu” a preposição. Será que estavam digitando o texto na hora do almoço?

Não seja burro! Quadrinhos também formam leitores. Respeite a língua!

Esta seção foi criada com o objetivo de apontar os defeitos encontrados nas HQs, prezando pela qualidade linguística, uma vez que, enquanto lemos, assimilamos de forma inconsciente a grafia das palavras, pontuações e afins, complementando a teoria aprendida nos bancos escolares. Quanto vemos textos mal escritos, principalmente vindos de empresas que, teoricamente, deveriam primar pelo perfeccionismo, temos também a desvalorização da língua. As editoras precisam lembrar de sua função principal e jamais colocar a ideologia política e o lucro como prioridades, caso contrário só colaboram para que nossa sociedade fique mais e mais ignorante.

Se você encontrar algum erro de ortografia ou gramática e quiser mandar pra PQP, fotografe ou escaneie e envie para nós pelo email que está na nossa página “Sobre mim”. Clique neste link para acessar. Vamos prezar pela qualidade da nossa língua, que é nosso maior patrimônio cultural.

Xeretando: A primeira versão de Jabba, o Hutt

Star Wars encerrou sua terceira trilogia em dezembro passado e, mesmo com as inúmeras críticas negativas e algumas centenas de fãs furiosos, ninguém pode negar que a franquia modificou a história do cinema. É bem verdade que, enquanto o avanço da tecnologia permitiu uma melhoria na qualidade dos efeitos especiais, essenciais para a saga espacial, por outro lado, houve uma considerável queda nos roteiros, que não conseguiram manter o clima da trilogia original. Mas isso não impediu a franquia de ultrapassar as gerações e fazer fãs (e “fã-náticos”) ao redor do mundo.

A Força está com eles.

Mesmo com os parcos recursos do final dos anos 1970, George Lucas criou uma história apaixonante, mágica, cheia de metáforas e, incontestavelmente, inesquecível. Graças aos episódios IV – Uma Nova Esperança (1977), V – O Império Contra-Ataca (1980) e VI – O Retorno do Jedi (1983), estamos ainda hoje, consumindo Star Wars em todas as mídias: cinema, literatura, animações, quadrinhos, games e onde mais o logotipo da série puder ser impresso.

George Lucas e o elenco da trilogia original.

Obviamente, quando idealizou sua saga espacial, Lucas não tinha nenhuma previsão do que ela iria se tornar e sua pretensão era, como qualquer cineasta, fazer um filme que divertisse a plateia e, claro, arrecadasse uns “trocados” (no caso de SW, elevados à enésima potência). Sem saber que seu filme seria um sucesso estrondoso, o diretor criou uma trama aberta para uma possível continuação, mas fechada em sua história, com a vitória final dos mocinhos contra os vilões. Alguns personagens nem foram totalmente desenvolvidos e até cortados na montagem final por restrições de orçamento.

Na cena original deletada, Jabba era humano. Na remontagem de 1997, já tinha sua tradicional cara de lesma.

É o caso de Jabba, o Hutt, que hoje sabemos se tratar de um alienígena parecido com uma enorme lesma, com olhos enormes e corpo gelatinoso. Mas originalmente, Jabba foi idealizado como um humano, interpretado pelo ator Declan Mulholland, que filmou uma cena para o Episódio IV, na qual aparece dialogando com Han Solo (Harrison Ford) para cobrar sua dívida com o mercenário. A ideia do diretor era substituir o ator por um personagem feito em stop motion na edição final, mas por conta do tempo e orçamento curtos, a cena foi deletada. Em 1997, Lucas lançou uma nova versão da saga, acrescida de novos efeitos digitais, ele incluiu a cena na nova versão do Episódio IV.

Jabba, o Hutt, na interpretação de Howard Chaykin.

Star Wars ganhou uma versão em quadrinhos pela Marvel apenas dois meses depois de sua estreia no cinema, baseada no roteiro original de George Lucas, onde consta a cena do diálogo entre Jabba e Solo. A curiosidade é que, como o personagem ainda não estava bem definido, o desenhista Howard Chaykin o fez com a aparência de um macaco misturado com morsa, trajando uma farda militar. A imagem foi publicada em Star Wars 2 (agosto de 1977).

Segunda aparição de Jabba nos quadrinhos.

Ele tornou a aparecer em Star Wars 28 (outubro de 1979) para depois cair no limbo do esquecimento. Para a trama, o personagem nem tinha tanta importância: era apenas um credor a quem Solo devia uma quantia em dinheiro e a questão ficou meio resolvida ali mesmo, no Episódio IV: Solo matou Greedo, capanga de Jabba que veio fazer a cobrança, e fugiu, deixando a dívida pendente, como qualquer mercenário esperto faria. No cinema, porém, a história da dívida foi sendo trabalhada e Jabba fez sua primeira aparição em O Retorno do Jedi, já com a aparência que conhecemos. A quadrinização do filme também mostra Jabba com o mesmo visual do cinema.

Jabba em uma HQ dos X-Men? Ah, então está explicado: ele é um mutante capaz de mudar de aparência!

Mas o que aconteceu com o personagem com cara de macaco-morsa? Sofreu uma plástica? Metamorfose? Mutação genética? Tanto a Marvel quanto George Lucas fazem cara de paisagem, fingindo que nada aconteceu e deixando uma curiosa e divertida caracterização de um personagem numa das mídias que expandiram o universo de Star Wars além das telas. Uma última curiosidade: ele fez uma breve aparição ao lado de Bobba Fett na revista X-Men 245 (junho de 1989), durante uma reunião de raças alienígenas que preparavam uma invasão ao planeta Terra. Trata-se de uma homenagem do roteirista Chris Claremont à saga espacial que atravessou as décadas e permanece como uma das marcas mais lucrativas do mundo do entretenimento.

(Agradecimentos ao amigo Júnior Batson pela sugestão da pauta. Que a Força continue sempre com você!)