Leituras da Semana – Agosto (3)

Nesta semana, aproveitei para colocar em dia alguns encadernados que estavam atrasados na minha lista. Foram só dois, mas com excelentes histórias entre republicações e um arco inédito e empolgante.

Queda e ascensão do Lanterna Verde

Coleção de Graphic Novels DC Vol. 30 – Lanterna Verde: Crepúsculo Esmeralda/Novo Amanhecer (nov/2016) – Uma das HQs mais memoráveis dos anos 1990, faz parte de uma fase sombria dos personagens. Superman morreu, Batman ficou paralítico e o Lanterna Verde se tornou um vilão. Esta história mostra o processo pelo qual o  herói passou até ser possuído por Parallax (que, até então, ninguém sabia ainda que seria uma entidade com vida própria) e a convocação do novo Lanterna, Kyle Rayner. O curioso é que, sempre que os heróis trocam de identidade, é inevitável a comparação com o predecessor, mas no caso de Rayner, ele conquistou seu espaço e se tornou um grande Lanterna Verde também. E vale citar a famosa cena da geladeira, que causou polêmica na época e, se fosse hoje, decretaria o fim do mundo nas redes sociais.

Arco inédito corrige hiato na carreira do herói no Brasil.

Os Heróis Mais Poderosos da Marvel 51 – Surfista Prateado (fev/2017) – Além da HQ que mostra a origem do arauto de Galactus já publicada no volume XIV da coleção  clássica preta da Salvat, este encadernado traz também um excelente arco do início dos anos 1990 que permanecia inédito no Brasil. Nele, acontece uma reunião de todos os arautos de Galactus – a saber: Surfista Prateado, Gabriel, o Andarilho dos Céus, Senhor do Fogo, Terrax e Nova – para convencer o Devorador de Mundos a voltar atrás em sua decisão de ter escolhido o impiedoso Morg como seu novo auxiliar, uma vez que a criatura é destituída de compaixão e não seleciona planetas sem vida para seu mestre. Com uma história vibrante e muito bem conduzida pelo roteirista Ron Marz, a edição corrige um erro de mais de 20 anos, pois além de trazer a história não contada do herói cósmico, também revela como Nebulosa adquiriu seu visual ciborgue. Num período pouco inspirado e repleto de aventuras de gosto duvidoso dos heróis Marvel, esta fase do Surfista se mostra um oásis no deserto.

Crítica: Os Defensores

Estreou ontem na Netflix a aguardada série Os Defensores, que conclui a primeira fase das séries do canal streaming em parceria com a Marvel Studios. Após duas temporadas de Demolidor (2015-2016) e uma de Jessica Jones (2015), Luke Cage (2016) e Punho de Ferro (2017), a série reúne os heróis numa conspiração criada pelo Tentáculo, organização criminosa que esteve presente nas séries anteriores. O elenco secundário de todas as séries tem participação em algum momento, mostrando uma coesão minuciosamente organizada, para dar aos fãs a sensação perfeita de que os heróis fazem parte do mesmo universo.

Estreia dos heróis unidos pela casualidade

Nos quadrinhos, a equipe dos Defensores estreou na revista Marvel Feature 1 (1971) e é formada pelo Dr. Estranho, Hulk e Namor, que se uniram casualmente para combater uma ameaça comum. Mais tarde, juntaram-se ao grupo o Surfista Prateado, Valquíria e Gavião Noturno. Diferente das outras superequipes, como Vingadores ou X-Men, os Defensores não reúnem numa sede com computadores e dali decidem suas ações heroicas. Cada herói vive sua vida particularmente e eles só se juntam quando a ocasião assim o exige.

Daniel é parceiro de Luke, que ama Jessica, que é defendida por Matt, que luta contra o Tentáculo, assim como Daniel. Nada em comum?

Essa premissa permitiu que a equipe tivesse várias formações diferentes ao longo dos anos e, dessa forma, deu abertura para que ganhasse uma conotação totalmente renovada na TV, unindo os heróis das séries independentes que, teoricamente, nada têm em comum, mas cujas habilidades se completam, como nas HQs. Mais enxuta que as séries anteriores, Os Defensores possui apenas oito episódios (contra treze de cada uma de suas antecessoras) e, para fazermos esta crítica, assistimos os cinco primeiros.

Não, um elevador não é uma boa sede para superequipes

O que vimos foi um roteiro primorosamente escrito, que começa lidando individualmente com cada personagem, criando as ramificações para a união deles. A série começa com o Punho de Ferro (Finn Jones) numa luta com uma assassina misteriosa a serviço do Tentáculo. As pistas o levam a Nova York. Matt Murdock (Charlie Cox), aposentado de sua carreira heroica de Demolidor, atua apenas como advogado. Jessica Jones (Krysten Ritter) é procurada por uma esposa preocupada com seu marido e vai investigar o paradeiro dele após receber uma ligação misteriosa. Luke Cage (Mike Colter) sai da prisão após a ação de Foggy Nelson, advogado e ex-parceiro de Matt, e logo se mete numa investigação do envolvimento de um jovem no que ele pensa ser o tráfico de drogas no Harlem.

Alexandra: vilão com profundidade e boa motivação.

Nesse cenário, surge Alexandra (Sigourney Weaver), uma poderosa líder da organização, que provoca um terremoto na cidade para forçar o Punho de Ferro a se revelar. A confusão provocada pelo abalo sísmico e as investigações particulares de cada herói culminam na reunião casual deles contra os assassinos do Tentáculo e, apesar da apatia inicial, eles logo entendem que precisam se unir se quiserem ser fortes suficientes para desmantelar a seita, principalmente após a chegada de Stick (Scott Glenn), que serve de guru para o grupo. É brilhante a forma como a união acontece, pois tudo se encaixa, como um grande quebra-cabeças, unindo elementos das quatro séries e dando sentido ao contexto.

Stick é o mentor da equipe

A série segue num nível que melhora a cada episódio, com um primeiro capítulo morno, onde os fatos e os personagens são apresentados, um segundo melhor (com o primeiro encontro de Luke Cage e Punho de Ferro, para delírio dos fãs de quadrinhos, já que a dupla formou uma parceria bastante famosa no final da década de 1970), um terceiro melhor ainda e assim por diante. Cada episódio é repleto de bons momentos e ótimas atuações, principalmente pela veterana Sigourney Weaver, que consegue transformar uma personagem insossa e criada exclusivamente para a série numa vilã com motivação e profundidade.

Luta no corredor: uma característica das séries Netflix.

O texto dá espaço para que cada herói tenha o seu momento e o elenco auxiliar também tem sua relevância na história e não estão ali apenas para cumprir um contrato. Um problema que poderia ser melhorado está na descrição das legendas, que muitas vezes utiliza nomes em inglês – caso do vilão Cascavel (da série Luke Cage) que é mencionado com seu nome original, Diamondback – ou mal traduzidos, demonstrando uma falta de pesquisa e conhecimento dos personagens.

Sim, a Marvel vai ressuscitar a equipe nas HQs em sua formação da TV.

As séries individuais dos heróis dividiram as opiniões – exceção feita ao Demolidor, que manteve o alto nível em ambas as temporadas – com alguns problemas na condução das tramas, algumas estendidas demais e outras na caracterização dos personagens. De modo geral, porém, a Marvel e a Netflix apresentaram um bom produto que Os Defensores fecha com chave de ouro. Além da futura série do Justiceiro (marcada ainda para 2017, mas sem data confirmada) e das novas temporadas dos outros personagens, não se sabe o que virá por aí na “Fase 2” da Netflix. Não devemos esperar grandes novidades, mas, em vista do que já foi apresentado, sabemos que virá coisa boa. Material para isso, a Marvel tem.

Cotação: 

 

Leituras da Semana – Agosto (2)

Segunda semana da agosto, comemoramos o Dia dos Pais e também listamos as revistas lidas esta semana, que foram poucas, mas interessantes. A única exceção é a revista do Mickey, que deixou um sentimento de frustração que ainda não consegui superar.

Edição (nada) comemorativa.

Mickey 900 (jul/2017) – Chegar à edição 900 de uma revista em quadrinhos publicada ininterruptamente é uma façanha que poucas vezes se conseguiu no Brasil. Por isso, não mereceria menos do que uma baita edição comemorativa, mas infelizmente, tirando-se a referência na capa e um editorial na última página (sim, na última) que, inclusive já foi até compartilhado na internet antes de sair a revista, a edição 900 da revista Mickey é de uma pobreza de dar dó. Tudo bem que o tamanho da revista (52 páginas) não permite muita coisa, mas a Editora Abril já foi mais “festeira” com edições importantes. Tomara que, quando a revista chegar às 1000 edições, receba algo além de duas míseras histórias e um editorial.

Mistério resolvido

Thor 6 (jul/2017) – O mistério da aparição de Jane Foster e Thor ao mesmo tempo é resolvido nesta edição… e a conclusão é surpreendente e, ao mesmo tempo, frustrante. A história é bacana, mas a invenção de um conceito totalmente novo num personagem tão clássico me desagradou. Principalmente porque, mitologicamente falando, não creio que exista qualquer ligação com o fato narrado e também porque muda completamente a origem de Thor como a  conhecemos (Claro que o Thor clássico também tinha suas liberdades poéticas, mas procurava seguir a mitologia nórdica tão fiel quanto pudesse. Já esse acontecimento, parece-me mais uma invencionice criada para agradar minorias.) Em todo caso, as duas histórias desta edição são interessantes.

Conclusão do arco Mulheres-Aranhas

Aranhaverso 14 (jul/2017) – A conclusão do arco Mulheres-Aranhas reserva bons momentos, com as aracnídeas voltando à nossa dimensão para descobrir que a Teia de Seda da Terra 65 manchou a imagem da nossa Seda, conseguiu uma forma de anular os poderes de Gwen-Aranha e deixou seu agente no apartamento da Mulher-Aranha para ameaçar seu bebê. A série manteve a qualidade e a descontração, garantindo bons momentos (como Jéssica lutando com seu algoz e parando no meio da briga para cuidar do bebê). E ainda tem Homem-Aranha 2099 e a divertida Guerreiros da Teia. Vale a leitura.

Elektra não está contente.

Demolidor 13 (jun/2017) – Sem Mark Waid pilotando o título, o Demolidor teve uma queda na qualidade dos roteiros, mas nada que comprometa o conteúdo. As histórias de Charles Soule são dinâmicas, leves e têm diálogos ágeis, preocupando-se mais em apresentar a ação do que em ficar complicando a cabeça dos leitores com tramas complexas que não levam a nada. As coisas começam e terminam ali mesmo, sem enrolações, o que é um mérito. Esta edição conta com várias participações especiais: Elektra, Homem-Aranha, Eco… Diversão garantida!

 

Sílvio Santos em quadrinhos

Talvez muita gente não saiba, mas Sílvio Santos já foi personagem de quadrinhos mais de uma vez. Como um dos homens mais influentes do Brasil, dono de um império televisivo, o empresário, cujo nome verdadeiro é Senor Abravanel, já foi retratado diversas vezes em publicações de humor, como nas revistas da Turma da Mônica, Aventuras do Didi, Mad e a similar brasileira Pancada. Segundo o site Guia dos Quadrinhos, foram sete publicações (sem contar as reedições), fora as aparições surpresa que o site pode ter deixado escapar.

Sílvio Santos já foi parodiado diversas vezes nas HQs.

Além dessas participações especiais em quadrinhos alheios, o Homem do Baú também teve sua própria revista em quadrinhos publicada em 1969 pela editora Prelúdio que contou com tiragem de 200 mil exemplares e se esgotou rapidamente, tornando-se objeto de colecionador. Até agora, porque a Avec Editora conseguiu autorização para reeditar o material e lançará a revista em edição especial no mês de outubro. Sílvio Santos: Vida, Luta e Glória é de autoria de Rubens Francisco Lucchetti com desenhos de Sérgio M. Lima e conta a trajetória do empresário desde os tempos de camelô até se tornar um sucesso na TV aos domingos.

HQ passou por processo de restauração e colorização.

O responsável pelo relançamento é o escritor Rafael Spaca, que entrou em contato com o autor e recebeu a bênção para lançar a HQ. Originalmente publicada em preto e branco, a edição foi colorizada pelos alunos da Faculdade Rio Branco em São Paulo e terá uma tiragem bem menor – apenas 1000 exemplares (o mercado de quadrinhos mudou bastante…). Porém, segundo Arthur Vecchi, dono da Avec Editora, declarou ao site BOL, haverá possibilidade de novas edições, caso a procura seja grande. O álbum será em formato A4, capa cartonada e papel couché e já está em pré-venda pelo site Amazon.

Sílvio Santos é modelo de como o trabalho pode engrandecer o homem.

Apesar das mudanças, adaptadas para os quadrinhos atuais, a história original será preservada e contará com uma introdução do autor, contextualizando a história (uma vez que a inauguração do SBT, fato importante na trajetória do apresentador, obviamente, ficou de fora já que a revista foi publicada 12 anos antes deste acontecimento). Com seu exemplo de profissionalismo, Sílvio Santos conquistou uma carreira vitoriosa que serve de inspiração para muita gente e esta HQ pretende resgatar essa história e apresentá-la numa linguagem acessível a todas as idades. Um lançamento mais do que bem-vindo. Sílvio Santos merece essa homenagem e seu público também merece esse presente para ler e guardar para sempre.

Ultraman ganha livro teórico

Criado em 1966 por Eiji Tsuburaya, o herói Ultraman se tornou um ícone no Japão (tão importante quanto o Superman é para os americanos) e conquistou também outros países, entre eles o Brasil. Por isso mesmo, é surpreendente que só 50 anos depois o personagem  venha a ganhar um livro teórico, com informações a respeito do seriado. Lançado pela Editora Estronho, o livro Ultraman é a obra de estreia de Danilo Sancinetti Modolo e se junta a outros livros da editora que abordam séries de TV famosas nas décadas passadas.

O autor em seu canal do YouTube

Segundo o autor, Ultraman é uma referência do gênero tokusatsu (filmes de efeitos especiais) e abriu caminho para outras produções envolvendo super-heróis que enfrentam monstros gigantes. Piracicabano morando atualmente na Europa, Modolo criou o TokuDoc, um canal no YouTube para trocar informações com fãs do mundo inteiro a respeito de sua paixão por séries japonesas. Hoje, o canal conta com mais de 60 mil inscritos e motivou o autor a escrever o livro.

Ultraman é tão famoso que gerou uma “família” e continua sendo exibido até hoje.

Com 188 páginas, a obra faz parte da coleção TV Estronho e celebra o cinquentenário da série de TV – embora com um ano de atraso, mas antes tarde do que nunca! – trazendo um histórico completo do seriado, suas séries derivadas, entrevistas com dubladores e outras pessoas envolvidas com a exibição de Ultraman em nosso País, num trabalho de pesquisa bastante minucioso que traz, com exclusividade, a data exata e o canal que lançou Ultraman no Brasil. “Foi a parte mais demorada garimpar o suficiente para achar tal informação, mas é uma honra gigante, com o perdão do trocadilho, poder encontrar e dividir essa informação perdida há décadas, num país que mal conserva suas memórias televisivas”, comemora.

Não há monstro de borracha com zíper aparecendo que derrote o herói japonês.

O autor virá ao Brasil nos próximos dias para o lançamento do livro e estará em diversos locais para sessões de autógrafos e bate-papo com os fãs. “São poucos dias em meu país e será a oportunidade perfeita para encontrar os amantes dos super-heróis japoneses pessoalmente, numa ocasião tão especial que é o lançamento do meu primeiro livro sobre o tema e esse universo”. Veja abaixo onde acontecerão esses eventos (com link do evento no Facebook, para mais informações)

12/8 – Curitiba (PR) – Local: Literatiba (Memorial de Curitiba – R. Dr. Claudino dos Santos, 79 – São Francisco)
15/8 – Campinas (SP) – Local: YoouGeek (Rua Olavo Bilac, 142 – Cambuí)
17/8 – Sorocaba (SP) – Local: Retroid (Rua Rio Grande do Sul, 420)
19/8 – São Paulo (SP) – Local: MIS – Museu da Imagem e do Som (Avenida Europa, 158 – Jardim Europa)
20/8 – Salvador (BA) – Local: Biblioteca Central (Sala Walter da Silveira – Rua General Labatut, nº 27, subsolo, Barris)
22/8 – Piracicaba (SP) – Local: SESC (Rua Ipiranga, 155)

Coleção inclui vários livros sobre séries famosas

A Editora Estronho tem se especializado em lançar, entre outras obras, livros teóricos sobre séries de TV. A editora já publicou Perdidos no Espaço (produzida por Irwin Allen), Kung Fu (famosa série com David Carradiine) e até mesmo a brasileira Shazan, Xerife & Cia, que revelou o ator Flávio Migliaccio. No site da editora, mais informações sobre as obras e como adquiri-las e abaixo você relembra a abertura da série:

 

Ele tem a força! Mestres do Universo comemora 30 anos

Um dos personagens mais icônicos dos já lendários anos 1980, He-Man ganhou uma versão live-action que estreou em 7 de agosto de 1987 nos Estados Unidos – no Brasil, o filme chegaria quase um ano depois, em 30 de julho de 1988, algo impensável nos tempos atuais, onde a Internet e a pirataria tornam os filmes um produto fácil de ser compartilhado. Estrelado por Dolph Lundgren, Mestres do Universo (Masters of the Universe, 1987) deixou uma legião de fãs saudosistas, embora grande parte reclame da qualidade do roteiro e, principalmente, a falta de fidelidade com que o herói de Etérnia foi retratado nas telas.

O ator Frank Langella fez um duro regime para se parecer com Esqueleto.

Injustiça. Mestres do Universo é um bom filme de ação que bebeu bastante na fonte de Star Wars, com muitas batalhas com naves espaciais e armas lasers, além de contar com a excelente atuação do ator Frank Langella no papel de Esqueleto, cuja maquiagem era bem convincente para a época. O que aconteceu é que o filme teve uma série de problemas de produção, envolvendo falta de dinheiro, interferências externas e foco errado, o que resultou num produto aquém do esperado pelo público, acostumado a ver o super-herói ganhar bronzeado instantâneo quando dava seu grito de guerra na TV.

Os três protótipos que virariam He-Man.

Para quem não sabe, He-Man não nasceu desenho animado. Antes de ir para a TV, ele surgiu em uma linha de brinquedos criados pela empresa Mattel (também responsável pela Barbie) para criar uma série que fizesse concorrência ao sucesso dos produtos baseados na saga Star Wars (que a Mattel havia recusado produzir antes da trilogia estourar nos cinemas. Que azar, hein?). Assim, o designer Roger Sweet criou três modelos genéricos – um bárbaro, um soldado e um astronauta –  e levou aos executivos da empresa, oferecendo-os como uma linha de brinquedos de ação que, exatamente por não terem uma franquia associada, poderiam estimular a imaginação das crianças.

“Nunca mais me chame de Conan!”

Dos três modelos, a versão bárbara foi a escolhida para a produção … e assim surgiu He-Man, que nem Príncipe Adam era, muito menos tinha uma identidade secreta. Os responsáveis por Conan, o Bárbaro, procuraram a Mattel no início da década de 1980 interessados em fazer uma linha de brinquedos do cimério. Quando a Mattel lançou He-Man, foi acusada de plagiar Conan e até circula um boato de que He-Man teria sido o modelo do bárbaro que não foi aprovado, mas nada disso é verdade. O fato é que a Mattel havia criado He-Man antes desse contato e talvez até tivesse semelhanças com o cimério, mas o boneco nunca esteve ligado ao personagem.

Desenho produzido pela Filmation estourou na TV.

Pouco tempo depois, a linha foi adaptada para uma série animada na TV produzida pela Filmation com o personagem já transformado num super-herói com dupla identidade – algo que veio de uma minissérie em quadrinhos criada pela DC Comics em 1982, um ano antes de He-Man chegar na TV. No entanto, a Cannon Group demonstrou interessem em adaptar He-Man antes do sucesso do desenho animado, motivo pelo qual o herói do filme não se transforma no Príncipe Adam e não aparecem personagens icônicos como Gato Guerreiro ou Gorpo (este, substituído pelo anão Gwildor como alívio cômico).

“Eu tenho a forçaaaaaaa!” Grito de guerra teria relação com Star Wars?

Isso explica o fato do filme ter tido uma crítica negativa dos espectadores, que compararam o longa ao personagem dos desenhos animados, quando, na verdade, ele foi baseado no seu conceito original. Por sinal, o fato de ter inspiração em Star Wars poderia explicar a icônica frase de He-Man – “Eu tenho a força!” – embora não haja nenhuma informação oficial a respeito. A produção de Mestres do Universo contou com um orçamento inicial de US$ 17 milhões, aumentado depois para US$ 22 milhões, tornando-se o filme mais caro do estúdio. Na semana de estreia, Mestres do Universo ficou em terceiro lugar nas bilheterias, mas nas semanas seguintes caiu consideravelmente e faturou apenas US$ 17,3 milhões.

Szponder ao lado do elenco: participação forçada… como um menino-porco.

Parte desse fracasso deve-se a várias interferências externas. A Mattel, criadora e detentora dos direitos do personagem, determinou que He-Man não poderia matar ninguém no filme. Por isso, os produtores decidiram que os soldados de Esqueleto seriam todos robôs (embora isso nunca tenha sido mencionado na história). A empresa de brinquedos também fez um concurso no qual o vencedor teria um papel na trama. Porém, com o prazo já terminando e o orçamento estourado, o diretor Gary Goddard teve que limitar o vencedor – um garoto chamado Richard Szponder – a uma mera ponta como Pigboy, um capanga de Esqueleto que entrega sua equipe quando o vilão retorna da Terra.

Falta de dinheiro atrapalhou bastante a produção.

Limitações orçamentárias também atrapalharam bastante. O roteiro original previa uma cena que se passava na Montanha da Serpente e várias imagens conceituais foram desenhadas pelo designer de produção, Willian Stout. As artes mostravam o exterior da montanha e, no lado interno, rios de lava corriam ao redor do lugar onde ficava o trono de Esqueleto. She-Ra, a irmã de He-Man, também tinha uma participação na trama, mas foi cortada durante a produção, sem contar que, por falta de dinheiro, as filmagens foram finalizadas pelo estúdio três dias antes do previsto, deixando a  equipe num dilema para resolver todas as cenas importantes que conduzissem à batalha final entre He-Man e Esqueleto. Depois de dois meses, os executivos da Cannon permitiram ao diretor filmar o encerramento de forma correta (mas ainda assim, com prazo bem apertado).

Filme foi uma briga para ser concluído satisfatoriamente.

O elenco também não foi um mar de rosas para a produção do filme. Sarah Douglas – a intérprete de Ursa, em Superman II – foi convidada para fazer o papel de Maligna, mas não aceitou, deixando para Meg Foster a missão de interpretar a vilã. Dolph Lundgren também teve seus desentendimentos com o diretor e até interferiu no roteiro, adicionando cenas de ação e aumentando a participação de He-Man na trama. O ator declarou que filmar Mestres do Universo foi, para ele, “um pesadelo” e pulou fora da sequência, que já estava programada e deveria se chamar Masters of The Universe 2: Cyborg.

He-Man depois da gripe… ou melhor… da fraca bilheteria.

Pelo roteiro, He-Man (que seria interpretado pelo surfista Laird John Hamilton) voltaria à Terra para lutar contra Esqueleto, que sobreviveu no final do filme anterior e veio à Terra, onde assumiu a identidade do empresário Aaron Dark, explorando nossos recursos e transformando o planeta num mundo desolado pós-apocalíptico. Nesta sequência, She-Ra e Mandíbula fariam suas participações e o estúdio chegou até a contratar o diretor: Albert Pyun. No entanto, com o fracasso comercial de Mestres do Universo, a continuação foi esquecida e o roteiro foi reescrito e se transformou no filme Cyborg: O Dragão do Futuro (1989), estrelado por Jean-Claude Van Damme.

O importante é não entrar em pânico. Vou morar com amigos que é muito melhor.

Mesmo com todos esses problemas externos e a enxurrada de críticas, Mestres do Universo marcou época e hoje é lembrado com nostalgia pelos fãs. Sabendo desses detalhes todos, até dá para apreciar ainda mais o longa-metragem, que tem um clima sci-fi e também foi um dos primeiros trabalhos para o cinema da atriz Courteney Cox, antes dela se tornar uma estrela da franquia Pânico (1993) e abrilhantar a série Friends (1994-2004). O fato é que He-Man ainda tem apelo popular e há planos de um novo longa-metragem do herói de Etérnia, produzido pela Sony e que já entrou no calendário de lançamentos, com data prevista para 18 de dezembro de 2019.

Twitter oficial anunciou a data do filme.

Se o filme vai sair do papel ou não, é outra história. Mas fica a torcida para que o campeão de Grayskull ganhe um filme à altura de sua grandeza, com todos os efeitos que a atual tecnologia possam permitir. Afinal, mesmo depois de 30 anos, o personagem continua carismático e faz valer seu grito de guerra. Ele ainda tem a força!

Na torcida para ver essa espada cortar os céus novamente, pela honra de Grayskull.

Para finalizar, uma curiosidade extra: a Cannon Group tinha interesse em fazer um filme do Homem-Aranha, mas como o orçamento era baixo, decidiu dividir o valor em duas produções e, com o lucro destas, adquirir um montante necessário para bancar os efeitos especiais que o filme do aracnídeo exigiria. Foram elas: Superman IV – Em Busca da Paz e Mestres do Universo. Nem precisa explicar porque o filme do Amigão da Vizinhança não saiu do papel na época,  né?

Executivos da Cannon não eram muito bons de matemática…

Leituras da Semana – Agosto (1)

E chegamos ao mês de agosto! Num piscar de olhos, estamos na segunda metade do ano (o primeiro mês já foi) e, daqui pra frente, é ladeira abaixo, sem freios! Tanto o tempo voa que nem deu pra lermos muita coisa, mas tivemos boas leituras nesta semana, entre clássicos e modernos. Veja a seguir aquilo que recomendamos (ou não) para a sua estante:

Clássico incontestável

Coleção Os Heróis Mais Poderosos da Marvel Vol. 63 – Elektra (jul/2017) – Frank Miller, no seu auge criativo, criou as melhores histórias que já foram escritas, verdadeiras obras-primas dos quadrinhos, como Cavaleiro das Trevas, Batman – Ano Um, Sin City, A Queda de Murdock e outros. Contudo, este encadernado traz o começo de tudo. Com a Saga da Elektra (ou Elektra Saga, como é chamado na capa), Miller assumiu a revista do Demolidor, prestes a ser cancelada e a tornou um verdadeiro fenômeno de vendas. Em sua primeira edição como roteirista (ele já estava desenhando há alguns meses), incluiu a mercenária Elektra e, a partir daí, a revista só melhorou até atingir um ápice na edição 181, com a batalha contra o Mercenário. Ter essa história inteirinha num encadernado de capa dura é um verdadeiro presente. Trata-se de um material ímpar, atemporal e delicioso de ler, um manual de como escrever uma boa HQ. Algo que os roteiristas atuais estão precisando.

Edição morna

Guardiões da Galáxia 8 (jul/2017) – Esta edição marca a estreia do título Star Lord, que relata detalhes da origem do Senhor das Estrelas em mais um daqueles retcons que só servem para confundir a cronologia. Desta vez, voltamos à juventude de Peter Quill para relatar como ele era rebelde e brilhante ao mesmo tempo, acalentando seu sonho de ser astronauta até se encontrar com Yondu no espaço. Nhé. Em Guardiões da Galáxia, os heróis se dividem para invadir o mundo-prisão da Irmandade Baddoon, mas separar o grupo pode não ter sido uma boa ideia. História que se passa no presente, volta ao passado para explicar os detalhes que levaram até ali e termina exatamente onde começou (não é exagero), com gancho para a próxima edição. Nhé. Drax continua sua missão de proteger as crianças sequestradas e levá-las aos seus lares. Divertidinha, mas… nhé.

O arco Mulheres-Aranhas é o destaque da edição. Um prazer de leitura!

Aranhaverso 13 (jun/2017) – Além de duas HQs do Homem-Aranha 2099, sempre interessantes e bem-vindas (Peter David, o pai da criança, sabe como cuidar do próprio filho!), esta edição dá início ao arco Mulheres-Aranhas, envolvendo… bem… as mulheres-aranha do Aranhaverso – Mulher-Aranha, Gwen-Aranha e Teia de Seda. Nos Estados Unidos, o arco se espalhou pelas revistas-solo das heroínas, mas no Brasil, graças à excelente estratégia da Panini, podemos ler todas essas revistas num mesmo título, sem a necessidade de comprar 8576 revistas para ter a história completa. E que história! Leve, bem humorada, gostosa de ler e, sobretudo, envolvente, algo que está bem difícil de encontrar nas publicações atuais, todas envoltas em tramas mirabolantes e esquecíveis assim que fechamos o gibi. Vale a pena a companhar o encontro das aracnídeas femininas, que se reuniram apenas para tomar um café… e se viram às voltas com um perigo interdimensional. Uma delícia!! Tomara que continue assim.