Bienal da Recessão

blog bienalTerminou ontem a 24ª. edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, um dos eventos literários mais importantes do País, que aconteceu desde 26 de agosto, no Pavilhão de Exposições do Anhembi. Para quem não sabe, a Bienal é um evento que começou em 1951, com a primeira “feira popular do livro” realizada na Praça da República, no centro de São Paulo. Dez anos depois, o MASP (Museu de Arte de São Paulo), foi palco para a primeira Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas, realizada pela CBL – Câmara Brasileira do Livro.

Anhembi é o palco da Bienal do Livro

Anhembi é o palco da Bienal do Livro

Este foi o embrião para a realização, em 1970 da, agora oficialmente, 1ª. Bienal Internacional do Livro. De lá para cá, a cada dois anos, o evento se tornou tradicional e, embora tenha trocado de lugar (era realizado no pavilhão da Bienal no Ibirapuera, passou para o Expo Center Norte em 1996, seguiu para o Centro de Exposição Imigrantes em 2002 e chegou ao Anhembi em 2006), sempre manteve o brilhantismo e a popularidade de um evento cultural para as massas.

Livrarias com preços bem atrativos... vazias.

Livrarias com preços bem atrativos… vazias.

Este ano, no entanto, a crise que abate o País e as mudanças no mercado editorial se fizeram sentir também na Bienal do Livro. Basta uma primeira olhada no pavilhão para sentir que algo estava errado. Com corredores maiores e mais largos, era visível que os stands das grandes editoras diminuíram. Aliás, os maiores stands eram de livrarias, com ofertas que iam de R$ 5 a R$ 30. Havia stands em que qualquer obra podia ser comprada por 10 reais, o que permitia encontrar bons (e caros) livros por esse preço, proporcionando uma boa economia.

"Autores" do You Tube tiveram destaque na Bienal de 2016

“Autores” do You Tube tiveram destaque na Bienal de 2016

As grandes editoras, porém, embora tivessem descontos bem atrativos, mantiveram preços mais altos (acima de R$ 20) para seus lançamentos, que foram bem discretos, com destaque para a geração de  youtubers em obras de interesse para os jovens que os seguem nas redes sociais, mas com pouco a dizer ao restante do público. Isso sem contar a forma “descolada” de escrever, com termos como “vida loka” e afins, que só servem para desaprender a grafia correta das palavras.

Mauricio de Sousa e a Turma da Mônica são presença certa em todas as edições.

Mauricio de Sousa e a Turma da Mônica são presença certa em todas as edições.

Ok, cada um com seu público alvo, mas o tempo dirá se esses “autores” ainda chegarão a causar o mesmo frisson que Mauricio de Sousa e Ziraldo provocam até hoje, em todas as idades. Aliás, a Bienal, que sempre é palco de grandes celebridades e nomes consagrados da literatura nacional e até internacional, nem isso teve nesta edição, com poucos autores de renome presentes no evento.

Corredores mais espaçosos... e vazios.

Corredores mais espaçosos… e vazios.

O preço dos ingressos subiu de R$ 14 para R$ 20, um aumento de 43% em relação a 2014. Por conta disso, o público também diminuiu – bastante. A expectativa de 700 mil visitantes ficou aquém do esperado e o evento registrou “apenas” 684 mil pessoas, segundo dados da CBL. Este número vem caindo desde 2012, quando o público registrado foi de 750 mil pessoas, contra 720 mil de 2014. Este número reflete as mudanças no comportamento dos consumidores que, embora estejam consumindo mais livros, segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe/USP), o preço dos mesmos caiu em torno de 36% nos últimos dez anos.

Publico está lendo mais, mas pagando menos.

Publico está lendo mais, mas pagando menos.

Os dados foram divulgados pela revista Isto É e mostram um panorama da crise econômica que vem se instalando no País nos últimos anos. Soma-se a isso o fato da Internet facilitar as compras, fazendo com que as pessoas não precisem mais sair de casa para adquirirem seus livros preferidos (e, muitas vezes, com ofertas que as lojas físicas não oferecem) e temos um cenário para o recesso na Bienal deste ano.

Mercado editorial reaquecido é expectativa para 2018 (Foto: CBL)

Mercado editorial reaquecido é expectativa para 2018 (Foto: CBL)

A expectativa é que, na próxima edição da Bienal do Livro, que vai acontecer em 2018, esses fatores se alterem e o mercado reaqueça. Por enquanto, a experiência deste ano, que trazia como tema  a experiência da História em todos os sentidos, o único sentido que restou foi o paladar, com um gosto amargo de uma feira tão tradicional ser retraída por um Brasil em crise.

Saído do Forno: Mônica – Força

blog abreAproveitando a realização da 24ª. edição da Bienal do Livro em São Paulo, a Mauricio de Sousa Produções lançou o 12ª. álbum do selo Graphic MSP, com a primeira história solo da principal personagem do estúdio. Em Mônica – Força, a carioca Bianca Pinheiro coloca a baixinha dentuça numa situação em que sua força bruta não tem nenhuma serventia e que será necessário encontrar um outro tipo de força: a interior.

Mônica chora por causa de um problema que são sabe como resolver

Mônica chora por causa de um problema que são sabe como resolver

Com grande sensibilidade, a autora escreve e desenha o álbum e retrata Mônica impotente diante de determinada situação – não vamos revelar qual é para deixar o leitor descobrir por si mesmo, mas é algo bastante comum no cotidiano de muitas crianças de nossos dias, porém, incompatível com as histórias das revistas de linha, conforme o próprio editorial de Mauricio de Sousa na edição.

O álbum é da Mônica, mas a turma também aparece (e apanha).

O álbum é da Mônica, mas a turma também aparece (e apanha).

Segundo ele, o editor Sidney Gusman – responsável pelo projeto Graphic MSP – é quem teve a ideia do roteiro, mas precisou da autorização de Mauricio para aprová-lo, por se tratar de uma temática incomum aos quadrinhos tradicionais. Mauricio gostou da ideia, mas só aceitou para o “universo alternativo” do selo para adultos, que se permitem ousar mais com os personagens. Nos quadrinhos normais, a preocupação em passar uma mensagem positiva e politicamente correta, não combinaria com esse tipo de roteiro.

Mônica perde até a vontade de bater nos meninos.

Mônica perde até a vontade de bater nos meninos.

O fato é que Bianca Pinheiro foi a pessoa ideal para dar vida ao projeto. Fã confessa da personagem, Bianca tratou o assunto pesado com delicadeza e realismo, colocando a Mônica – normalmente, aquela que tem a resposta para tudo e capaz de se safar das mais variadas encrencas – numa situação em que ela não sabe o que fazer. Crianças e adultos poderão se encontrar dentro da história que, muito mais do que uma HQ da Mônica, é um retrato do cotidiano.

Imagens contam a história mais do que o texto.

Imagens contam a história mais do que o texto.

Uma característica do álbum é que ele quase não possui texto, deixando para o traço singelo da autora narrar a história, evocando, ora ternura, ora seriedade, ora angústia. Contar uma história por meio de imagens não é para qualquer um, mas Bianca faz isso com maestria e reverência. E, claro, as citações a HQs anteriores – inclusive às outras edições da Graphic MSP – não poderiam faltar, enriquecendo a narrativa.

Referências ocultas não poderiam faltar.

Referências ocultas não poderiam faltar.

Além de tudo isso, o álbum também inova ao apresentar uma “cena pós-crédito” na terceira capa. Em edições anteriores, os autores já haviam usado esse recurso de “pós-crédito”, dando ares cinematográficos à obra: Em Penadinho – Vida, há uma página de arte depois do quadrinho escrito “fim” e em Mônica – Lições, a história “invade” os extras da edição. Neste volume, a terceira capa é usada para concluir a história de forma bem-humorada e criativa.

Nem a Mônica aguenta o Luthor de BvS.

Nem a Mônica aguenta o Luthor de BvS.

Por tudo isso, Mônica – Força é mais um acerto da série Graphic MSP e também na carreira de Bianca Pinheiro, cujo trabalho em Bear, webcomic lançada em 2013 e que já virou dois livros pela Editora Nemo, lhe rendeu o prêmio HQ Mix 2015 na categoria Novo Talento – Roteirista. Um reconhecimento mais do que merecido e que mostra a força dos quadrinhos nacionais – e  sem a necessidade de distribuir coelhadas!

Uma selfie em família.

Uma selfie em família.

Dica Literária: Incrível Fantástico Inacreditável

Incrível fantástico inacreditável_CAPA DURA.inddDas personalidades relacionadas ao universo nerd, talvez nenhuma seja tão popular quanto Stan Lee. Criador de heróis como Quarteto Fantástico, O Incrível Hulk, O Poderoso Thor, Homem-Aranha e X-Men, entre outros, Lee também é responsável por influenciar gerações com as histórias vibrantes de heróis tão humanos quanto qualquer um de nós e, indiretamente, contribuiu para a explosão de produções cinematográficas baseadas nesses personagens, que levam multidões aos cinemas. Por isso, nada mais justo que esse ícone da cultura pop inaugurar um novo selo editorial voltado ao universo geek.

TCHA-RAAAAAAAAM!! Lee inaugura novo selo geek

TCHA-RAAAAAAAAM!! Lee inaugura novo selo geek

O livro Incrível Fantástico Inacreditável conta a biografia do criador do Universo Marvel, com um texto dinâmico escrito pelo próprio Lee, em parceria com o roteirista Peter David e ilustrado por Collen Doran, com tradução de Maurício Muniz, editor da revista Mundo Nerd e do blog O Pastel Nerd. Esta é a primeira obra do selo Geektopia, da Editora Novo Século – responsável pela publicação de uma linha de livros dos super-heróis Marvel, como Guerra Civil, A Morte do Capitão América, Guerras Secretas e outros – que trará graphic novels e obras em quadrinhos de diversos gêneros a fim de atender a demanda do público geek por esse tipo de material.

Texto é bem humorado e imagens são descontraídas.

Texto é bem humorado e imagens são descontraídas.

Por ser em quadrinhos, a obra transforma a biografia do autor – algo costumeiramente chato de se ler – em algo agradável e divertido, numa linguagem bem acessível para os jovens leitores, mas que também agrada os leitores veteranos. O livro apresenta sua trajetória, desde a infância pobre nos anos da Grande Depressão americana, passando pelos primeiros empregos até o convite para trabalhar com Martin Goodman, executivo da Atlas Comics – que viria a se tornar a Marvel.

Desentendimentos com Jack Kirby foram amenizados no texto.

Desentendimentos com Jack Kirby foram amenizados no texto.

Como a história é narrada sob o ponto de vista do próprio autor, alguns fatos podem parecer tendenciosos – como os desentendimentos com os lendários Steve Ditko e Jack Kirby, cocriadores do Universo Marvel, os quais são “atenuados” na narrativa – mas apresentam uma outra visão sobre o assunto. A impressão que dá é que a biografia é uma resposta ao best-seller Marvel Comics – A História Secreta, de Sean Howe, que revela fatos obscuros dos bastidores da criação da Marvel, no qual Lee é apresentado como vilão em alguns trechos.

Brincadeira com a concorrente

Brincadeira com a concorrente

Independentemente dessas picuinhas editoriais, o livro é delicioso de se ler, tem um texto muito bem humorado – uma característica do autor – e conta, resumidamente, como nasceu o império Marvel nos quadrinhos, TV e cinema, inclusive com algumas alfinetadas na concorrência, mas sempre de forma divertida e não ofensiva. Leitores antigos entenderão as referências contidas no texto e nas ilustrações e os leitores mais novos encontrarão na obra uma referência para conhecer um pouco mais sobre a Marvel e seus fantásticos super-heróis.

"Compre meu livro, ou mando o Dr. Destino lhe fazer uma visita."

“Compre meu livro, ou mando o Dr. Destino lhe fazer uma visita.”

O livro tem 192 páginas, capa dura com acabamento especial e formato 17, 5cm X 26cm. Junto com outros livros biográficos como o já citado Marvel Comics – A História Secreta (Sean Lowe) e Stan Lee: O Reinventor dos Super-Heróis (Roberto Guedes) e a edição especial da revista Mundo dos Super-Heróis, este é mais uma obra de referência que não pode faltar na estante dos fãs de quadrinhos.

Obras de referência que não podem faltar na estante do fã de quadrinhos

Obras de referência que não podem faltar na estante do fã de quadrinhos

Crítica (em vídeo): Esquadrão Suicida

blog abreCom estreia marcada para hoje, dia 4 de agosto, o filme Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016) é a nova aposta da Warner/DC para emplacar seu universo de quadrinhos no cinema. Confirma nossa crítica em vídeo com informações sobre quem é o Esquadrão, detalhes da trama (sem spoilers), pontos positivos e negativos.

Cotação: blog cotação esquadrão

Saído do Forno: Protocolo – A Ordem

blog abreEncontros entre super-heróis sempre atraíram a atenção dos leitores. Marvel e DC fazem isso desde os primórdios e sempre alardearam as grandes sagas, que reuniam vários personagens ao mesmo tempo e que, de um tempo pra cá, se tornou a mola mestra das vendas de HQs. Os crossovers entre editoras diferentes, então, levam os fãs ao delírio. Nesse sentido, a HQ Protocolo – A Ordem, produção nacional que começa a ser distribuída pelo País, gerou uma grande curiosidade nos leitores pelo ineditismo de reunir, numa mesma trama, mais de duas dezenas de super-heróis nacionais.

Cheklist: quantos desses personagens você conhece?

Cheklist: quantos desses personagens você conhece?

Primeiro, porque super-herói nacional é uma raridade. Não que eles não existam, pelo contrário. Eles existem,  e aos montes, mas a grande maioria é desconhecida até mesmo entre os leitores regulares de quadrinhos. A produção nacional sofre com o preconceito, a falta de interesse mercadológico e, sendo bastante sincero, em grande parte das publicações, a baixa qualidade tanto de roteiro como de arte. Por conta disso, o álbum ganha um interesse ainda maior, por “apresentar” esses personagens pouco conhecidos ao público leitor.

Da esquerda para a direita: Guilherme de Sousa, Gabriel Rocha e Elenildo Lopes com um fã (em pé) no lançamento da HQ, em Niterói (RJ).

Da esquerda para a direita: Guilherme de Sousa, Gabriel Rocha e Elenildo Lopes com um fã (em pé) no lançamento da HQ, em Niterói (RJ).

Mas apenas isso não seria suficiente se, como já foi dito, a qualidade de arte e roteiro não fossem bons. Não é o caso. Protocolo – A Ordem tem a ideia fantástica de reunir os heróis numa mesma aventura que ganha forma no excelente roteiro de Thiago da Silva Mota (criador do personagem Dragão Negro, que também faz parte da trama) e nos desenhos de Ton Marx.  Completa o álbum o primoroso acabamento gráfico e papel de qualidade.

Capitão R.E.D. descobre uma invasão alienígena. Melhor pedir ajuda!

Capitão R.E.D. descobre uma invasão alienígena. Melhor pedir ajuda!

Financiado pelo site Catarse em 2015, a obra faz valer o valor arrecadado e oferece ao público leitor tudo aquilo que foi prometido: uma aventura única, toda em cores, com 100 páginas e a reunião de um exército de heróis brazucas, mostrando que nosso País também tem bons personagens que lutam por seu espaço nas bancas. A trama não é inovadora, mas também não decepciona: Tudo começa quando o Capitão R.E.D. (criação de Elenildo Lopes, que foi o idealizador do projeto) descobre uma invasão alienígena ao nosso planeta. Incapaz de conter a ameaça sozinho, R.E.D. começa a recrutar vários super-heróis para formar uma superequipe em defesa da Terra.

Uma página para apresentar cada personagem. Recurso repetitivo, mas necessário.

Uma página para apresentar cada personagem. Recurso repetitivo, mas necessário.

Além disso, no decorrer da história, o grupo descobre que, entre eles, existe um traidor, que está do lado dos alienígenas. Com isso, instaura-se um clima de paranoia entre os heróis. As páginas iniciais, que mostram a convocação dos heróis, um por página, com direito a logotipo e nome do criador, é um recurso que até tornou a narração um pouco repetitiva, mas era necessário que fosse dessa forma a fim de dar o crédito aos personagens e seus respectivos criadores, apresentar os mesmos aos leitores e preparar o terreno para o combate que viria. Tirada essa ambientação inicial, a história esquenta e só cresce a cada página, com as tradicionais batalhas entre os heróis e depois contra os vilões. Além de cenários conhecidos, o leitor mais atento também encontrará alguns rostos e diálogos familiares.

Discurso familiar? Qualquer semelhança não é golpe.

Discurso familiar? Qualquer semelhança não é golpe.

Segundo Lopes, um segundo álbum já está em planejamento. O jovem quadrinista parece, ele próprio, ter fôlego de super-herói. Além de já idealizar a continuação de Protocolo – A Ordem, também planeja o número 2 da revista Capitão R.E.D. e anunciou, recentemente, o lançamento do herói Velox, o primeiro herói homossexual dos quadrinhos brasileiros (inclusive, a primeira imagem oficial do herói foi divulgada hoje, com exclusividade, pelo site Papo de Quadrinho). O único empecilho para todos esses projetos é mesmo a questão mercadológica brasileira, que investe pouco em super-heróis nacionais.

Novo herói que vem por aí. Imagem divulgada com exclusividade pelo site Papo de Quadrinho no dia de hoje.

Novo herói que vem por aí. Imagem divulgada com exclusividade pelo site Papo de Quadrinho no dia de hoje.

A expectativa e a boa recepção de Protocolo – A Ordem talvez mude esse panorama. O álbum mostrou que é possível criar uma boa história ambientada em nossas paisagens com uma qualidade tão boa quanto às publicadas lá fora. O maior inimigo que os heróis precisam vencer é o preconceito contra o que é produzido em terras brazucas. Foi preciso a união de mais de 20 super-heróis para vencer a primeira batalha. A guerra continua.

Dormindo com o inimigo: quem será o traidor?

Dormindo com o inimigo: quem será o traidor?

Para conhecer mais sobre o projeto e adquirir um exemplar de Protocolo – A Ordem, entre em contato diretamente com os autores, na página do álbum no Facebook.

Em Primeira Mão: Batman – A Piada Mortal

blog abreO consagrado roteirista Alan Moore tem o costume de reclamar de todas as adaptações de suas obras, seja para quadrinhos, seja para cinema, por considerar que elas foram concebidas daquela forma, naquela época e para aquela mídia – no caso, quadrinhos – e não aceita que sejam feitas as alterações decorrentes de uma transposição para outras mídias. Se ele visse o que fizeram com a graphic novel Batman – A Piada Mortal (1988) na recente animação homônima que acaba de ser lançada pela DC/Warner para o mercado doméstico, certamente teria mais um de seus chiliques.

Cena de "Batgirl - O Filme"... não, pera...

Cena de “Batgirl – O Filme”… não, pera…

Não que a animação seja ruim, o que não é. O grande problema está na inserção desnecessária de um prelúdio focado na Batgirl que dá ao espectador a impressão de que ele comprou o desenho errado. Pior que isso: a animação, alardeada com uma classificação etária Rated-R (indicada para maiores de idade), deixa explícito que a heroína teve um envolvimento sexual com Batman antes dos acontecimentos da trama principal. Uma besteira feita para explicar – ou pelo menos, acalmar os ânimos, aliviar, disfarçar, tirar a atenção… chamem do que quiserem – outra baboseira decorrente do mundo politicamente correto que transforma uma capa variante numa polêmica desprovida de qualquer bom senso.

Cena da HQ é reproduzida na animação e roteiro também serviu de inspiração para o filme O Cavaleiro das Trevas (2008)

Cena da HQ é reproduzida na animação e roteiro também serviu de inspiração para o filme O Cavaleiro das Trevas (2008)

Explicando: quando foi lançada, em 1988, a graphic novel A Piada Mortal teve a premissa de revisitar as origens do arqui-inimigo do Batman, o Coringa, e mostrar que tanto o herói como o vilão são faces de uma mesma moeda. O que os diferencia é a forma como cada um encara sua “loucura” e qual o direcionamento que dá para seus valores. A premissa de que “qualquer um pode enlouquecer se tiver um dia ruim” foi usada no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), mostrando uma das mais marcantes interpretações do Palhaço do Crime, interpretado pelo finado Heath Ledger. Algumas cenas da HQ também foram transpostas para o filme – como a cena em que o Batman visita o Coringa no Asilo Arkham.

Capa polêmica: homenagem ou apologia à violência contra a mulher?

Capa polêmica: homenagem ou apologia à violência contra a mulher?

É nessa HQ que o Coringa atira na coluna da Batgirl, deixando-a paraplégica e obriga seu pai, o Comissário Gordon, a ver fotos da filha nua e ensanguentada (deixando em aberto a dúvida se o vilão também a estuprou). O fato, até hoje, gera discussão entre os fãs e se intensificou após o desenhista Rafael Albuquerque criar uma capa variante para a revista da Batgirl onde homenageia a graphic novel e mostra o Coringa ameaçando a heroína. Grupos feministas consideraram a capa ofensiva porque expõe a heroína a uma situação de ameaça e, segundo esses mesmos grupos, é uma apologia ao estupro e à violência contra a mulher. O bafafá foi tão grande que Albuquerque pediu desculpas aos leitores e a DC relegou a capa-homenagem ao limbo.

Batgirl peitando Batman pra mostrar quem é que manda.

Batgirl peitando Batman pra mostrar quem é que manda.

Sem entrar no mérito da capa, porque nosso objetivo é a crítica à animação, fica evidente que o roteirista Brian Azzarello (responsável pelo roteiro do desenho animado) quis dar um “empoderamento” à heroína e, antes de entrar na história que dá título à animação, mostra meia hora de ação com a Batgirl. É um prelúdio desnecessário porque não acrescenta absolutamente nada à trama. Pelo contrário, desconstrói a personagem em sua essência como super-heroína, para mostrar que ela agia mais por interesse sexual no seu parceiro do que para combater o crime. A frase “foi só uma transa” também faz parte do cardápio – frase-clichê da liberação feminina, que também descarta o “macho” mediante a sua satisfação carnal.

Cena idêntica à HQ

Cena idêntica à HQ

Tirada essa introdução dispensável, a animação segue fiel à HQ, inclusive com reproduções de cenas icônicas do álbum e várias referências a outras histórias importantes do vilão – incluindo a morte do Robin no arco Morte em Família (1988), a primeira aparição do Coringa em Batman 1 (1940) e a estréia do Homem-Morcego em Detective Comics 27 (1939). A origem do vilão é mostrada em flashback conforme a trama vai se desenrolando, até o clímax de sua batalha contra o Batman e a piada que conclui a história de forma incomum para os padrões do Homem-Morcego. Há uma cena pós-crédito com a Batgirl que também não faz parte da graphic novel, mas essa sim acrescenta algo à história e dá um fechamento brilhante aos acontecimentos, mostrando que a vida continua e os verdadeiros heróis sempre se superam. Com uma pequena cena de meio minuto, Azzarello deu à Batgirl todo “empoderamento” que a heroína precisa, dispensando meia hora de encheção de linguiça.

Classificação adulta para uma premissa infantil

Classificação adulta para uma premissa infantil

Na tentativa de ser politicamente correto e agradar grupos minoritários, A Piada Mortal “estupra” uma grande obra que nasceu perfeita em sua concepção. A impressão é que a mensagem de que “qualquer um pode se tornar insano se tiver um dia ruim” ficou em segundo plano em detrimento à mensagem subliminar de que heroínas são aquelas que transam libertariamente, contestam seus parceiros masculinos e conquistam sua liberdade. Uma imagem distorcida e desrespeitosa da imagem da mulher, que a “versão para maiores” não torna menos pior. Uma pena. Por causa de meia hora, o desenho que tinha tudo para ser uma excelente animação, foi reduzido a uma piada de mau gosto.

Cotação: blog cotaçãopiada

 

Graphic Novels Marvel – Uma coleção infinita

BLOG ABREEsta semana chega, na Inglaterra, o último número da extensão das graphic novels Marvel – que no Brasil vem sendo publicada pela Salvat. Com a saga Vingadores Vs. X-Men (edição 80), a Hachette Partworks, editora que publica a coleção no Reino Unido, encerra a segunda leva de 60 edições, que começou em dezembro de 2011 e atingiu 120 números no total.

Saga Vingadores Vs. X-Men encerra o segundo lote de 60 volumes

Saga Vingadores Vs. X-Men encerra o segundo lote de 60 volumes

Veja bem: “encerra a segunda leva de 60 edições”, porque já está previsto mais um lote, que vai aumentar a coleção para 150 números (por enquanto) e promete se estender até julho de 2017. Desta vez, o foco será na fase Marvel Now! que redefiniu o Universo Marvel imediatamente após a saga Vingadores Vs. X-Men e a lombada terá a adição de imagens do Dr. Destino, Thor e Capitão América. Com isso, a coleção de graphic novels engloba quatro fases distintas: os primeiros 60 volumes são as grandes sagas da editora; o segundo lote é dividido em duas fases – a Marvel Clássica (40 edições com algarismos romanos) e histórias recentes (20 edições, continuando a partir do número 61) e, finalmente, Marvel Now! (ou Nova Marvel, como ficou conhecida no Brasil), começando do 81 em diante. Vale dizer que grande parte dessas histórias vem sendo publicadas por aqui em edições de luxo pela Panini.

A lombada completa, com montagem que insere o Dr. Destino, Thor e Capitão América.

A lombada completa, com montagem que insere o Dr. Destino, Thor e Capitão América.

Por enquanto, ainda é cedo para dizer se essa nova extensão também chegará ao Brasil, mas é bem provável que sim. Afinal, a fórmula tem dado certo até agora e, enquanto as editoras tiverem retorno financeiro, a tendência é que continue. O problema é mesmo para nós, colecionadores. Primeiro: onde guardar essas coleções, já que as estantes estão lotadas (considerando as coleções vermelha, da DC Eaglemoss, Star Wars da Planeta DeAgostini, Batman Eaglemoss…). Segundo: o orçamento, visto que cada fascículo tem custado, em média 40 reais quinzenais. Considerando que se colecione apenas uma série, já são 80 reais por mês. Se se colecionar também a série vermelha e da DC, o rombo sobe para 240 reais. E por aí vai…

A maioria dos encadernados já foram publicados pela Panini.

A maioria dos encadernados já foram publicados pela Panini.

Ou seja: colecionar quadrinhos virou um passatempo caro. Claro que nós gostamos das coleções em capa dura e papel de qualidade, mas está difícil manter esse ritmo, ainda mais sabendo que as coleções não tem data para acabar. Os nerds viram, nos últimos anos, seus sonhos se tornarem realidade, com tantos filmes e quadrinhos legais pipocando por aí. Mas agora é aquele momento em que o sonho começa a se tornar pesadelo e fugir dos limites. Vamos ver até onde isso vai. Abaixo, você vê os fascículos que virão por aí.

No.

Título

Edição original

121 Guardiões da Galáxia: Vingadores Cósmicos Guardians of the Galaxy: Tomorrows Avengers #1 e Guardians of the Galaxy (vol. 3) #0.1 & 1-3
122 Fabulosos Vingadores: A Sombra Vermelha Uncanny Avengers #1-5
123 Gavião Arqueiro: Minha vida como arma Hawkeye (vol. 4) #1-5 e Young Avengers Presents #6
124 Novíssimo Motoqueiro Fantasma: Máquina da Vingança All-New Ghost Rider #1-5
125 Vingadores: Mundo dos Vingadores Avengers (vol. 5) #1-6
126 Surfista Prateado: Novo Amanhecer Silver Surfer (vol. 7) #1-5, All-New Marvel Point One
127 Nova: Origens Nova (vol. 5) #1-5, Marvel Now! Point One
128 Novos Vingadores:Tudo morre New Avengers (vol. 3) #1-6
129 Homem-Aranha Superior:Meu pior inimigo Amazing Spider-Man #698-700, Superior Spider-Man #1-5
130 Thor: Deus do Trovão – O Carniceiro dos Deuses Thor God of Thunder #1-5
131 Infinito (Parte 1) Infinity #1-3, Avengers (vol. 5) #18-20, New Avengers (vol. 3) #9-10
132 Capitão América: Dimensão Z Captain America (vol. 7) #1-10
133 Infinito (Parte 2) Infinity #4-6, Avengers (vol. 5) #21-23, New Avengers (vol. 3) #11-12
134 Quarteto Fantástico: Viajantes Fantastic Four (vol. 4) #1-8
135 Jovens Vingadores: Estilo > Substância Young Avengers (vol. 2) #1-5
136 A Morte do Wolverine Death of Wolverine #1-4
137 Pecado Original (Parte 1) Original Sin #0-3, Original Sins #1-3
138 Miss Marvel: Nada Normal Ms. Marvel (vol. 3) #1-5 e All-New Marvel Now! Point One
139 Matar ou Morrer Avengers Arena #1-7
140 Pecado Original (Parte 2) Original Sin #4-8, Original Sins #4-5, Original Sin: Annual #1
141 A definir A definir
142 A definir A definir
143 A definir A definir
144 A definir A definir
145 Deadpool: Guerra Secreta Secreta A definir