Crítica: Aquaman

Principal estreia da semana, o filme Aquaman (idem, 2018) é a aposta da Warner/DC (de novo!) para recuperar a moral do universo de super-heróis da editora no cinema, que não consegue engatar, apesar de ter melhorado aos poucos desde Mulher-Maravilha e Liga da Justiça (2017). E, convenhamos, a aposta é arriscada, pois confiar no Aquaman, um herói ridicularizado pela mídia e grande parcela dos fãs ao longo dos anos, é uma tarefa inglória. Sem contar que este é o único live-action da DC deste ano, enquanto que a concorrente Marvel já apresentou cinco filmes (Pantera Negra, Vingadores: Guerra Infinita, Deadpool 2, Homem-Formiga e a Vespa e Venom).

O herói aquático já teve várias versões animadas e live-action

Criado na década de 1940, Aquaman sempre foi um dos principais heróis do Universo DC, mas tratado como coadjuvante. Já teve desenho solo pela produtora Filmation, participou da consagrada série Superamigos e da animação Liga da Justiça Sem Limites, apareceu em Smallville (sempre com ótima audiência nos episódios com sua participação) e teve um piloto de série solo que não vingou. Agora, finalmente, ganha sua primeira oportunidade na tela grande, firmado no carisma de Jason Momoa, já apresentado aos fãs brevemente em Batman Vs. Superman (2016) e com muito mais destaque em Liga da Justiça (2017).

Aquaman tem raízes nobres.

Em seu filme solo, conhecemos a origem de Aquaman: fruto de um romance extraconjugal da rainha atlante Atlanna (Nicole Kidman, sempre linda) e o faroleiro Tom Curry (Temuera Morrison), o pequeno Arthur Curry é o herdeiro do trono da Atlântida. O romance entre seus pais aconteceu porque a rainha fugiu do reino submarino para não se casar com um homem que ela não amava em um casamento arranjado, mas logo foi perseguida pelo exército real. A fim de proteger o filho, Atlanna voltou ao seu reino e deixou Arthur aos cuidados do pai.

Mera tenta convencer Aquaman de sua herança real.

Os anos se passaram e, já adulto, o rapaz usou seus poderes – força sobre-humana, habilidade de respirar embaixo da água, supervelocidade (principalmente quando nada) e telepatia aquática entre outros – para proteger a baía onde morava do ataque de piratas e outros problemas marinhos. É quando surge a princesa Mera (Amber Heard) e o incentiva a retornar à Atlântida para assumir sua herança antes que seu meio-irmão Orm (Patrick Wilson) inicie uma guerra com a superfície. Para isso, Arthur precisa, antes, encontrar o lendário tridente que pertenceu ao rei Orvax, a fim de ganhar a confiança do povo atlante e ser aceito como regente.

O visual submarino é de perder o fôlego.

O filme tem um visual riquíssimo, principalmente nas cenas submersas, que explora o reino submarino em toda sua variedade e colorido. É lindo de se ver e encanta o olhar, principalmente se for visto na versão 3-D. A trilha sonora também é envolvente, variando do clássico ao tecnológico (algumas cenas de perseguição são embaladas por um techno que lembra muito a trilha de Tron: O Legado, 2010) e embala com perfeição o clima desejado às cenas. A trama é bastante ágil e não esconde suas inspirações – a caçada ao tridente no interior de uma caverna no meio do deserto é puro Indiana Jones. Só faltou a participação de Harrison Ford.

Muitas criaturas marinhas inspiradas nos clássicos de stop motion.

A química com Mera, por sua vez, remete ao clima de Tudo por uma Esmeralda (1984), filme ao qual o diretor James Wan declarou ser fã. E tem direito até a monstros marinhos gigantes, remetendo aos stop motion (técnica que consiste em filmar objetos quadro a quadro para simular movimento) de Ray Harryhausen, especialista na técnica cinematográfica. As lembranças em flashback, mostrando o treinamento de Aquaman desde criança pelo conselheiro Vulko (Willem Dafoe) são bem colocadas e enriquecem a história, inspirada na fase Novos 52, principalmente o arco O Trono da Atlântida, que traz o ataque de Orm ao mundo da superfície, mas sem esquecer a fase clássica, com seu traje laranja e verde. Os efeitos especiais também são de primeira categoria.

Flashbacks e piadas são bem dosados.

Há que se destacar que o humor é muito bem dosado e, ao contrário do que mostravam os trailers, o Aquaman “descolado” não cansa o público com piadinhas fora de hora. Momoa é, sim, um herói bom astral, mas mantém a seriedade na maior parte do tempo, evitando que o filme caia no ridículo – um ponto positivo do diretor, considerando que Aquaman precisava afastar o estigma que carrega. Por outro lado, se o filme enche os olhos e diverte o espectador, há momentos constrangedores e uns furos de roteiro bem feios. Por exemplo, uma fuga do deserto não explicada, o uso de um barco para navegar no meio de uma tempestade quando os heróis nadam e respiram sobre as águas e o sinalizador que pega fogo embaixo d’água, só para citar alguns.

Arraia Negra: vilão sem função na trama. Já Orm é um orgulhoso antagonista.

Há também um mal aproveitamento do vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), que parece perdido no meio do roteiro, sem muita função na trama que não seja gastar o tempo do filme. Melhor seria tê-lo deixado para uma continuação e assim explorar muito mais sua vingança contra o Rei dos Mares, que dariam, por si só, uma história muito boa, pois o personagem é bastante rico. Por outro lado, há que se elogiar as atuações de Dafoe e Dolph Lundgreen (como rei Nereus, pai de Mera), ambos bem à vontade na interpretação de personagens dúbios – nem bons, mas não chegam a ser vilões – algo difícil de se conseguir.

perseguição impossível pelos telhados é constrangedora.

A cena de perseguição pelos telhados, já vista nos trailers, é vergonhosamente forçada e o momento final, quando Aquaman encontra o tridente é tão clichê dá vontade de rir ao invés de torcer. Com 2h23min, o filme começa bem agitado, perde o ritmo na metade e recupera no final. Esses defeitos, no entanto, não tiram o mérito de que a DC, finalmente, acertou o caminho e nos apresentou um grande filme de super-heróis, com um personagem que inspira confiança e dá gosto de torcer pelo seu êxito. Ainda cabe um acerto aqui e acolá, mas  parece que o tempo dos heróis sombrios foi, literalmente, por água abaixo. Vida longa ao rei!

Pose real para garantir sua superioridade a todos os filmes da DC no cinema.

Cotação Raio X: 

Anúncios

Darkside Books lança título da Marvel

A Darkside Books, editora especializada no gênero de terror, surpreendeu os fãs ao anunciar uma parceria com a Marvel, numa postagem pelo Instagram, no final de novembro. O post trazia o logo da editora do Homem-Aranha e o texto anunciando apenas que tinham uma novidade. Hoje, o mistério foi quebrado e a Darkside anunciou o lançamento da graphic novel N., thriller de autoria do mestre do terror Stephen King.

Conto de Stephen King é adaptado pela Marvel

A obra narra a história do Dr. Bonsaint, um psicanalista que se suicida logo no início da trama, deixando para sua irmã a tarefa de entender os motivos que o levaram a esta atitude extrema. As investigações seguem por meio de documentos e relatos do médico, bem como das sessões de análise com um homem que sofre de TOC (Transtorno obsessivo-compulsivo) chamado apenas de N. O álbum conta com o roteiro escrito por Marc Guggenheim (autor de Wolverine, Justiceiro, Homem-Aranha e outros, além de produtor das séries Arrow, The Flash e Legends of Tomorrow) e arte de Alex Maleev (Demolidor), cujo estilo dá o clima sombrio que a história exige.

O traço sombrio de Alex Maleev dá o clima à HQ.

O álbum em quadrinhos será lançado oficialmente no dia 19 de dezembro e já se encontra em pré-venda no site da Darkside Books, que dá direito a um pôster exclusivo. O livro terá 128 páginas, formato americano (17,5 cm X 26 cm) e capa dura com sobrecapa.  Além da HQ, o conto também virará uma série de TV dirigida por David Sandberg (Annabelle 2: A Criação do Mal) e roteiro de Andrew Barrer e Gabe Ferrari (do recente Homem-Formiga e a Vespa).

Compre o livro e ganhe um pôster.

A Darkside vem conquistando o mercado literário com uma gama de livros com acabamento diferenciado, focado em temas de ficção e horror e, desde o ano passado, resolveu investir também no segmento de graphic novels, lançando um selo exclusivo. O álbum de estreia, Meu Amigo Dahmer, de Derf Backderf, ganhou o prêmio HQ Mix 2018 na categoria de Melhor Publicação de Aventura/Terror/Fantasia.

Xeretando: o filme do Stan Lee

No dia 12 de novembro, o mundo perdeu um dos maiores colaboradores da cultura pop. Stan Lee, o criador de heróis como Homem-Aranha, Hulk, X-Men, Quarteto Fantástico, Thor, Homem de Ferro e tantos outros – que hoje, graças às produções cinematográficas, alcançaram o auge da popularidade – morreu aos 95 anos em Los Angeles (EUA) e deixou órfãos uma legião de fãs ao redor do mundo inteiro, que se acostumaram a ver o simpático e sorridente velhinho em suas divertidas participações especiais nos filmes da Marvel Studios.

Será que ele julgaria o Hulk culpado ou inocente?

Pouca gente sabe, porém, que as participações de Lee não se limitaram às atuais produções. Sua primeira participação especial foi como jurado no longa-metragem O Julgamento do Incrível Hulk (1989), filme feito para a TV que tentava ressuscitar o famoso seriado. Depois disso, ele também fez várias pontas em longas-metragens obscuros como A Ambulância (1990), Vampiros, Os Habitantes das Trevas (1994), Barrados no Shopping (1995) e As Aventuras da Filha de Cinderela (2000), onde interpretou o padre. Até mesmo as séries Heroes (2006-2010) e Big Bang Theory (2007-) contaram com uma aparição do onipresente editor.

Quantos criadores podem ser protagonistas de suas próprias animações?

Mas, além das inúmeras participações especias em filmes, séries, videogames e desenhos animados, Stan Lee ganhou um filme animado com seu nome. Em Os Sete Super-Heróis de Stan Lee (Stan Lee’s Mighty 7, 2014), o criador é o protagonista da história, onde ele é contratado pela Archie Comics – editora americana responsável pelas HQs de Archie e seus amigos – para criar um novo título de super-heróis, mas lhe falta inspiração. Assim, ele viaja pelo deserto americano para relaxar a mente e buscar ideias.

Um passeio pelo deserto para buscar inspiração

Enquanto isso, uma nave espacial contendo cinco criminosos alienígenas escoltados por dois policiais passa pela nossa galáxia. Os bandidos conseguem escapar e, na batalha que se segue, a nave entra em pane, caindo no meio do deserto onde – adivinhem! – o velho Stan Lee passava. Obviamente, o roteirista acaba se envolvendo com o grupo, que faz uma trégua para conseguir escapar de nosso mundo e aceita a ajuda de Lee para se esconder do Exército, que passa a persegui-los. 

O criador entre os heróis do espaço

Para piorar, os sete heróis descobrem uma conspiração alienígena orquestrada pela raça Teagon, seres reptilianos que estavam infiltrados entre nós. Assim, Lee tem sua ideia para a nova revista em quadrinhos e nomeia os alienígenas com apelidos heroicos: Mr. Braço, Ave Prateada, Mulher-Raio, Roller, Lorde Laser, Garoto Cinético e Micro. Além de Stan Lee, que dubla a si mesmo, o desenho animado conta com grandes astros dublando os personagens: Sean Astin, Teri Hatcher, Armie Hammer, James Beluschi, Christian Slater e Michael Ironside

Série britânica criada por Stan Lee

Antes de virar desenho animado, os personagens estrearam numa HQ lançada pela Archie em 2012, que teve apenas três edições. O carismático editor também desenvolveu, em 2016, o seriado policial Lucky Man (O Sortudo, em tradução livre), para a rede de TV britânica Sky1.  A série conta a história de um brilhante policial que tem a habilidade de controlar a sorte e já está em sua terceira temporada e é um dos maiores sucessos da emissora. Por enquanto, esta série permanece inédita no Brasil, mas espera-se que, com a morte do editor e as atenções voltadas para suas criações, alguma rede de TV se interesse por exibi-la.

Não é preciso ter superpoderes para se tornar um herói.

Stan Lee deixou muitas saudades, mas suas criações – estima-se que sejam cerca de 300 personagens – continuarão para sempre na memória e no coração dos fãs. Mesmo que sintamos sua ausência nas participações especiais no cinema, sempre podemos rever cada uma delas nos DVDs e blu-rays. Obrigado, velho amigo. Ao criar seu próprio universo, você não apenas nos deixou um legado, mas também eternizou a si mesmo. Excelsior!

Crítica: Uma Entrevista com Deus

Seguindo uma tendência atual de filmes com temática religiosa, estreia no dia 15 de novembro o drama Entrevista com Deus (An Interview with God, 2018), com Brenton Thwaites (o Robin, da série Titãs) no papel do repórter Paul Asher, um correspondente da Guerra do Afeganistão, que voltou do conflito com sua fé abalada e seu casamento ameaçado. No entanto, uma entrevista com um homem que diz ser o próprio Criador desperta nele várias dúvidas que o faz questionar suas crenças e sua própria vida.

De frente com Gab… hã… pera…

Embora não fuja de certa pieguice e vários clichês do gênero, o filme também surpreende na medida em que nos envolve na história do repórter e no mistério de seu entrevistado. Os primeiros minutos chegam a ser um tanto maçantes, com seu esquema de perguntas e respostas que se estende por um tempo além do necessário. Mas isso faz todo o sentido no desenrolar da trama, pois tem o objetivo de nos introduzir na história pessoal de Paul e ir revelando os segredos que o levaram a um relacionamento fragmentado. Há, inclusive, um personagem misterioso com quem Paul conversa só por telefone, mas ninguém sabe se ele realmente existe ou se faz parte da imaginação do protagonista.

Paul e sua esposa enfrentam problemas de relacionamento.

A entrevista é realizada num período de três dias – meia hora por dia – e, a cada dia, Deus (David Strathairn) responde algumas das dúvidas existenciais da humanidade (Deus existe mesmo? Porque acontecem coisas ruins com pessoas boas? No que consiste a Salvação?), mas sempre de uma forma abstrata que faz o repórter questionar a si mesmo sobre como anda conduzindo sua própria vida e como aquele homem misterioso tem o poder de perturbá-lo tanto. Esse clima se mantém até o final, quando as peças se encaixam e o plano de Deus ao conceder essa entrevista fica claro.

Qual é o papel de Deus no palco da vida?

Sim, o filme é totalmente focado no público cristão. Este é, ao mesmo tempo, a maior virtude e o maior defeito. Ao mirar num público restrito, o longa prova que tem uma pontaria certeira, pois acerta o alvo, incentivando a reflexão sobre a crença em Deus e os próprios fundamentos da religião. Afinal, qual o limite da nossa fé e qual o nosso papel neste mundo se temos um ser superior que o “controla”? Porém, ao trabalhar com uma receita pré-definida e um final mais ou menos esperado (você não acha que o milagre vai deixar de acontecer, acha?), corre o risco de criar antipatia com os mais céticos ou espectadores de outras crenças. Com o devido esclarecimento, o longa é um bom programa para aprofundamento da própria compreensão do Transcendente.

Ninguém quer jogar xadrez comigo só porque eu antecipo seus movimentos…

Nos Estados Unidos, o filme teve uma curtíssima exibição (apenas quatro dias: de 20 a 23 de agosto) com pouca divulgação. Mesmo assim, o boca a boca garantiu que a bilheteria tivesse, a cada dia, um faturamento maior que o dia anterior, acumulando um total de US$ 1,25 milhão, um recorde para o gênero. Esse valor foi totalmente doado pela produtora Giving Films a entidades que apoiam assistência social e serviços de saúde a veteranos de guerra.

Cotação Raio X:

 

 

Crítica: O Doutrinador

Quando se fala em quadrinhos de super-heróis, logo nos vêm à mente os personagens icônicos da Marvel e da DC, que há tantos anos povoam nosso imaginário com suas histórias fantásticas que, nos últimos tempos, tem levado multidões aos cinemas. Pouca gente tem conhecimento que o Brasil também é uma fonte desse gênero e vários deles com muitos anos de estrada. Esse panorama pode mudar com a estreia de O Doutrinador (idem, 2018), filme nacional que chegou aos cinemas este final de semana, e apresenta um anti-herói criado pelo quadrinhista Luciano Cunha, que combate a corrupção na política.

Poster alternativo traz a primeira data de estreia… e uma realidade na frase.

O filme chega num período bastante propício, em que vivemos a realidade de uma eleição presidencial extremamente complexa, pela falta de opções de um representante que nos seja confiável. Marcado para estrear em 20 de setembro, o longa teve seu lançamento alterado para 18 de outubro e, por fim, mudou novamente para 1º. de Novembro – certamente para ficar fora do período eleitoral, com os novos governantes já escolhidos e evitar comparações ou até mesmo qualquer tipo de apologia à violência – considerando o atentado a um dos candidatos favoritos na eleição antes do primeiro turno, foi uma decisão bastante acertada.

Miguel (dir) prende o governador corrupto… que é logo solto.

A trama mostra Miguel (Kiko Pissolato), um agente da DAE – Divisão Armada Especial – uma unidade de elite da Polícia Federal, sendo vítima de uma tragédia provocada pela corrupção política. Quando o governador Sandro Corrêa (Eduardo Moscovis) é preso mas logo liberado, Miguel vai em busca de vingança e assume a identidade do Doutrinador. Com uma máscara contra gases e um capuz protegendo sua identidade, ele assume uma cruzada particular para eliminar todos os políticos envolvidos em sujeira. Para isso, conta com a ajuda de Nina (Tainá Medina), uma hacker que o auxilia roubando dados dos crimes cometidos pelos parlamentares e nas invasões aos escritórios dos mesmos.

Miguel conta com a ajuda de Nina

Completam o elenco o ator Samuel de Assis como Edu, parceiro de Miguel na DAE, Tuca Andrada como o Delegado Siqueira, que vai investigar as ações do Doutrinador e Carlos Betão, candidato à presidência Antero Gomes, que usa sua retórica para conquistar o eleitorado (qualquer semelhança…). Há também uma breve participação de Marília Gabriela como a ministra Marta Regina, que também não é lá muito honesta.

O anti-herói nasce no meio de uma manifestação

O roteiro é muito bem amarrado e reflete bem a realidade do Brasil, onde todo mundo tem o rabo preso por algum motivo e enriquece às custas dos menos favorecidos, em reuniões regadas de muita zombaria e impunidade. O Doutrinador, embora use métodos pouco aconselháveis, gera identificação com o sentimento do povo brasileiro diante de tanta injustiça a que somos submetidos todos os dias. O clima é dinâmico e a edição, perfeita, com vários cortes na história, que eliminam excessos, deixando apenas o que interessa para contar a história.

Ser ou não ser honesto no Brasil? Eis a questão…

Os diretores Gustavo Bonafé e Fábio Mendonça tiveram o extremo cuidado com a qualidade do longa-metragem, fugindo dos lugares-comum nas produções nacionais, geralmente repletas de favelas, palavrões e cenas de sexo. Em O Doutrinador, tudo é muito bem dosado, resultando num filme que nada deixa a dever às produções hollywoodianas (Justiceiro, morra de inveja!). A boa notícia é que o anti-herói não vai se limitar ao cinema e já existe uma série de TV sendo produzida pela Turner International em parceria com o canal Space, com data de estreia para 2019. A história será a mesma, mas de forma mais detalhada e aprofundamento nas tramas paralelas dos personagens secundários. 

Herói foi criado em 2013, por Luciano Cunha

Nas HQs, o Doutrinador surgiu em 2013, inspirado pela onda de protestos que surgiu no País após o aumento da tarifa de ônibus e os gastos excessivos com a Copa do Mundo de 2014. Inicialmente publicadas pela Internet, o personagem acabou ganhando grande repercussão pela indignação do povo, que via no anti-herói, um representante contra tanta sujeira política. Não tardou para o personagem migrar para uma HQ impressa de forma independente no mesmo ano, que teve mais duas edições em 2015 e 2016. As três revistas foram depois reunidas em um encadernado de capa dura. Para 2019 estão previstos dois novos títulos, pela Guará Entretenimento.

A corrupção tem um remédio.

Espera-se que o filme abra as portas para novas produções nacionais inspiradas em super-heróis do quadrinhos. O Brasil tem vários deles e muito material interessante pode ser adaptado, gerando boas produções. Se todas tiverem o nível de qualidade que vemos em O Doutrinador, o cinema nacional pode estar iniciando uma nova fase em sua trajetória. Tomara que também desperte o interesse das editoras para que haja mais espaço a esses heróis nacionais, que amargam uma luta inglória por espaço nas bancas de revistas e livrarias.

Edição especial da revista Mundo dos Super-Heróis. Nas bancas!

Para mais informações a respeito do personagem, a revista Mundo dos Super-Heróis fez uma edição especial totalmente dedicada à produção, com entrevistas, curiosidades de bastidores e tudo sobre o longa-metragem. Nas bancas ou pelo site da Editora Europa.

Cotação: 

Saído do Forno: Cebolinha – Recuperação

O selo Graphic MSP chega ao seu vigésimo volume trazendo uma história solo de um dos personagens mais carismáticos da Turma da Mônica. Não só isso: o álbum também traz o mais jovem autor a escrever para a coleção. De autoria de Gustavo Borges, de apenas 22 anos (autor de Pétalas, que já resenhamos aqui), Cebolinha – Recuperação traz o garoto usando toda sua perspicácia para desenvolver planos infalíveis que vão bem além de roubar o coelhinho da Mônica.

Cebolinha apronta na escola… e fica de recuperação.

A trama-base mostra Cebolinha na escola – algo até então bem pouco explorado na Turma da Mônica – e, por um descuido dos estudos, ele fica de recuperação. Mas o título da Graphic MSP vai muito além desse fato, explorando todos os significados da palavra “recuperação”, que também significa o saída de uma situação ruim, a caça a um brinquedo perdido ou o resgate da própria autoestima. Conforme a história vai acontecendo, o leitor vai sendo apresentado a esses problemas e percebendo que para tudo há uma segunda chance e uma alternativa.

Será que o Sansão estava escondido nessa mochila?

A rivalidade entre Cebolinha e a Mônica fica em segundo plano nesta HQ. Pelo contrário, eles são muito mais amigos do que rivais. O “vilão” da vez é o esnobe Robertinho, o aluno que está sempre um passo à frente de Cebolinha, mesmo que precise trapacear para isso. Essa situação causa muitos problemas ao Cebolinha, que também precisa lidar com dificuldades familiares. Como o próprio Mauricio de Sousa descreve em seu editorial na edição, a trama possui várias camadas, como uma cebola e – porque não dizer? – como a própria vida.

Problemas familiares também envolvem as crianças.

Borges consegue dosar muito bem uma trama realista e semelhante à vida de qualquer leitor com o lúdico de um personagem infantil sem que este perca suas características. Assim, a história agrada aos pequenos, pela arte caricatural e o humor tão particular dos personagens, mas também agrada os adultos, pelas entrelinhas da história, que mostra que as crianças também se envolvem no universo de gente grande e são afetadas por ele, respondendo com muita sensibilidade.

Cebolinha encontra apoio nos melhores amigos.

Claro que as tradicionais referências ao universo dos personagens não poderiam faltar, incluindo menções a outros títulos da Graphic MSP que os leitores vão se divertir encontrando no decorrer da história. Após 20 volumes, a Graphic MSP continua sendo um dos melhores títulos de quadrinhos no mercado, por apresentar versões bastante diferenciadas de personagens que conhecemos tão bem, em situações fora de seu universo particular. Esse tipo de iniciativa é sempre bem-vinda, principalmente em se tratando do mercado nacional de quadrinhos.

Crítica: Titãs

Ontem foi o aguardado dia da estreia de Titãs, a primeira série de TV produzida pelo novo canal DC Universe, exclusivo para produções de super-heróis da editora do Superman. O canal entrou no ar no final de setembro, exibindo produções antigas, animações  e também disponibilizando quadrinhos para leitura on line. Titãs é a primeira produção própria e um projeto antigo da editora, que vinha sendo planejado desde 2014, mas a falta de entendimento dos produtores com os canais comerciais (no caso, o canal TNT) levou ao adiamento da mesma e, com o advento da Netflix, a ideia de produzir a série por conta própria e exibir no próprio canal.

Chora mais, Ravena!

Finalmente, a série saiu do papel e bem distante do clima descontraído e juvenil que os leitores estão acostumados a ver nos quadrinhos. O produtor Greg Berlanti – o mesmo criador das séries do chamado Arrowverso, exibidas pelo canal CW – optou por uma temática mais adulta, com heróis realistas e sombrios. O problema talvez seja que o roteiro de Akiva Goldsman pesou demais a mão nesse estilo, resultando num programa sem carisma e uma tentativa (mal sucedida) de criar um clima de terror.

Bem que me falaram que era melhor ter ficado na ilha…

A trama começa com a jovem Rachel Roth (Teagan Croft) sendo assombrada por pesadelos e uma apavorante imagem demoníaca de si mesma. Confinada no próprio quarto, cuja porta é forrada de crucifixos (Invocação do Mal, alguém?), Rachel (Ravena, para os íntimos) vive com a mãe e só sai para ir à escola, até que passa a ser perseguida por um homem misterioso. Em sua fuga, conhece o detetive Dick Grayson (Brenton Thwaites, do péssimo A Lagoa Azul – O Despertar) e lhe pede ajuda para controlar seu eu interior. 

O “passarinho” agora voa só.

Grayson, que saiu de Gotham por um desentendimento com Batman, tenta esquecer sua vida de vigilante, mas volta a vestir seu uniforme e agir sozinho (a famosa frase Fuck Batman! está lá, com todas as letras) chamando a atenção da mídia – e da própria delegacia onde trabalha. Ao mesmo tempo, Kory Anders (Anna Diop) acorda no meio da estrada, num acidente de carro sem lembrar quem é ou como foi parar ali e passa a buscar suas origens. O filme termina com um tigre verde roubando um game numa loja e se transformando no jovem Mutano (Ryan Potter), que corre pelado pelo mato (cada vez que ele se transforma, perde as roupas? Sério?). Obviamente, o destino dos quatro irá se cruzar para formarem a equipe teen.

Creia: o visual da Estelar não é o pior da série.

A caracterização dos personagens foi criticada desde que as primeiras fotos de bastidores foram divulgadas, mas não é isso que incomoda. Claro que, à exceção de Robin, perfeito em seu uniforme, os heróis são bem diferentes do visual visto nos quadrinhos, mas adaptações são necessárias e sabemos que nem sempre o que funciona no papel tem o mesmo efeito ao vivo. Não é esse o problema. Nem mesmo os efeitos especiais, muito bem feitos (nem poderia ser diferente, dado o atual avanço tecnológico). A questão está mesmo no roteiro do episódio, que força o clima de terror e mistério, mas não consegue despertar qualquer emoção.

Terror forçado.

São cinquenta minutos de chororô da Ravena, que vê reflexos distorcidos de si mesma com voz de “menina do Exorcista” para onde quer que olhe, um Robin de mal com a vida que acaba aborrecendo também  os espectadores e uma Estelar empoderada que não sabe qual o seu lugar no mundo. Aliás, é uma característica dos heróis Warner/DC, que parece ter medo de criar super-heróis que sorriem e praticam o heroísmo porque é o correto. No universo Warner, todo mundo tem cara de mau e só são heróis porque não tem nada melhor passando na TV, então vamos ali salvar o mundo.

Olha, Warner: os heróis podem sorrir. Até a Ravena!

Falta aos executivos um pouco de conhecimento do produto que vendem (será que, numa empresa tão grande, não tem nenhum profissional de marketing para dizer isso a eles?), pois até no mundo real, cada pessoa tem um perfil diferente, não são todos clones do Batman com voz de catacumba de Christopher Nolan. Falta carisma, identidade, um pouco de “história para contar”, uma simpatia pelos personagens, que prenda a atenção do espectador e o faça se interessar pelo que está sendo contado.

Um sonho realizado ou um pesadelo? Vamos aguardar os próximos episódios.

De qualquer forma, ainda é o primeiro episódio e muito há para ser desenvolvido. Principalmente porque a série mal estreou e a Warner já confirmou a segunda temporada. Os personagens ainda podem crescer e mostrar ao que vieram, se conseguirem segurar a paciência do espectador, claro! A expectativa é que os próximos episódios engatem, pois os Titãs merecem um programa à altura de sua importância no Universo DC. Por enquanto, o que vimos foi apenas uma série aborrecente.

Cotação Raio X: