Ilha Paraíso …ou Zona Fantasma? com Sidney Gusman

Estamos de volta com mais uma seção Ilha Paraíso …ou Zona Fantasma? , revelando gostos e desgostos de convidados do nosso blog. O entrevistado da vez é um grande especialista em quadrinhos e editor da Graphic MSP, título que vem revolucionando o mercado editorial desde 2012, com versões bem peculiares da Turma da Mônica. Estamos falando de Sidney Gusman, que além de quadrinhos, também é um “fã-nático” por futebol (especialmente um certo Timão da zona leste de São Paulo) e tem uma larga experiência na área editorial.

Sua larga experiência em quadrinhos, só poderia render um trabalho ao lado do maior autor de HQs nacionais.

Gusman já trabalhou na Conrad Editora, foi editor da revista Wizard Brasil (Panini) e co-autor de vários livros da Coleção 100 Respostas, da revista Mundo Estranho (Ed. Abril). Além disso, também lançou seu livro solo Mauricio – Quadrinho a Quadrinho, onde revela detalhes da vida de Mauricio de Sousa, com quem viria a trabalhar mais diretamente, como responsável pelo planejamento editorial da MSP – Mauricio de Sousa Produções. Pelas suas mãos, foram editados os três livros MSP 50, MSP +50 e MSP Novos 50, em comemoração aos 50 anos de carreira do quadrinhista, além de Ouro da Casa, Mônica (s) e, claro, a Graphic MSP.

Gusman à frente do Universo HQ

Além do trabalho direto com o pai da Mônica, Sidão – como é chamado pelos amigos – também é editor-chefe do site Universo HQ, um dos mais importantes sites sobre quadrinhos do Brasil. Tanta paixão pelos quadrinhos já lhe rendeu o Troféu HQMIx de melhor jornalista especializado em quadrinhos no Brasil entre 2000 e 2006 – mas ele escreve sobre o tema desde 1990. Incansável, criatividade a mil e dono de opiniões firmes em suas postagens no Twitter, Sidney concordou em dividir conosco essas opiniões em sete temas escolhidos e decidir se mandaria para a Ilha Paraíso (quando o tema é agradável) ou se baniria para a Zona Fantasma (quando poderia sumir do mapa).

E aí, Sidney? É Ilha Paraíso ou Zona Fantasma para:

MSP é uma grande família (Você é capaz de encontrar o Sidney nessa foto? Nós acreditamos que o vimos por aí…)

Mauricio de Sousa Produções: Ilha Paraíso. Foi a empresa que me deu oportunidade de editar quadrinhos nacionais, de propiciar oportunidades a muita gente e, especialmente, de ampliar o público que lê quadrinhos. Além disso, edito todos os livros (que não são de quadrinhos) da casa e é sempre incrível ver o quanto essas publicações impactam o público de todas as idades.

Essa imagem de Rafael Albuquerque deu o que falar por conta do “politicamente correto”…

Politicamente correto nas HQs: Zona Fantasma, mas com restrições. Há quem entenda – erradamente – que mostrar inclusão e diversidade (de qualquer tipo ou gênero) seja o que se define por “politicamente correto”. Não! Isso é só retratar o mundo à nossa volta de uma forma mais necessária, a meu ver. Mas, como em todo processo de transição, há uma tendência, por parte de alguns, a querer coibir tudo. Aí, corre-se o risco de tornar os quadrinhos chatos, pasteurizados. E é esse lado que mando pra Zona Fantasma.

Brasil foi campeão da Copa de 2018… na criação de memes.

Seleção Brasileira: Se for na Copa do Mundo de 2018, Zona Fantasma. Um time sem alma, com um treinador que estava mais para guru de autoajuda do que para sua atividade-fim, e que não conseguiu fazer o time jogar. Eu nunca esperei o título, mas achava que cairíamos na semifinal contra a França. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) conseguiu afastar a torcida da Seleção. E, enquanto o Del Nero e companhia por lá estiverem, ficará difícil a “amarelinha” resgatar seu lugar na Ilha Paraíso. O que não me impede de torcer por ela sempre, apesar de ser contraditório.

Sim, nós temos quadrinhos.

Quadrinho nacional: Ilha Paraíso. Nunca se produziu tanto quadrinho nacional, e tanta coisa boa. Claro, tem muita coisa ruim também, mas é importante esse furor de gente fazendo, pra vislumbrarmos dias em que haja um mercado mais forte para todos. Só que nossos autores e editores precisam definir o que querem. Se é publicar somente em livrarias ou se querem investir em bancas. E definir isso muda completamente o foco que cada um deve seguir. Mas o fato é que tem muita gente fazendo quadrinhos bons no Brasil, nos mais diversos gêneros.

Procura-se.

Revisão gramatical nos quadrinhos: Zona Fantasma. Quando você se pega elogiando edições por estarem sem erros de português, algo está errado. Isso é o mínimo que se deveria esperar. E os maus tratos com a revisão não são apenas em obras independentes (em que é mais comum, já que nem sempre o autor tem como pagar um revisor), mas também em editoras consolidadas. Aí, é imperdoável, pra mim. Erros acontecem? Claro, e não é pecado admiti-los. Mas quando são 20, 30 ou mais numa edição, pra mim, incomoda demais.

Se não usar fone de ouvido, vai pra Zona Fantasma!

Podcasts: Ilha Paraíso, mas devo confessar que ouço pouco. Mesmo assim, sabendo separar joio do trigo, certamente se encontra muita coisa boa.

“Cale a boca e leve minha grana!!”

Crowdfunding para quadrinhos independentes: Ilha Paraíso, pois possibilita a muita gente a oportunidade de se lançar no mercado e, de repente, chamar a atenção de uma editora. O problema é: se graficamente os materiais saem com qualidade de editora, o mesmo não se pode dizer no aspecto editorial. A maioria das HQs que apoio saem com problemas de revisão e isso é algo que, na minha opinião, deveria ser colocado como investimento pelos autores, em seus projetos.

Ilha Paraíso …ou Zona Fantasma? com Maurício Muniz

Seção nova no nosso Blox! Ilha Paraíso …ou Zona Fantasma? terá sempre um convidado especial dando sua opinião sobre vários assuntos e dizendo se enviaria para a Ilha Paraíso (se for algo bacana) ou baniria para a Zona Fantasma (caso o desagrade). É uma forma de motivar o debate, dando voz a especialistas no assunto para falar sobre temas polêmicos ou nerdices em geral. Inaugurando a coluna, convidamos o jornalista Maurício Muniz, editor do site O Pastel Nerd, tradutor de livros e quadrinhos, conhecido por ter opiniões bem controversas mas sempre contundentes e bem humoradas sobre vários assuntos da cultura pop. Dito isso, perguntamos: Maurício, é Ilha Paraíso ou Zona Fantasma para…

Mal chegou na Ilha Paraíso, o velho safado foi logo agarrando umas amazonas…

1) Stan Lee: “Ilha Paraíso. Apesar de achar que o Lee nunca viu problemas em tomar crédito pelo trabalho dos outros, como Jack Kirby e Steve Ditko (que criavam as histórias de verdade, daí Lee colocava os diálogos e levava crédito como escritor), o que o levou ser visto como o único e grande criador do Universo Marvel, ele foi um ótimo editor e gestor de super-heróis e um cara que gostava do que fazia. Criou uma nova maneira de falar com os leitores e deu a cara da Marvel. Só não a criou sozinho, como muita gente (inclusive ele) pensa.”

Versões atualizadas dos heróis DC em Os Novos 52

2) Os Novos 52: “Zona Fantasma – mas só porque não pode mandar pro Inferno ou pra Apokolips. Sim, entendo que a DC não estava bem em 2011. As vendas não andavam boas e as histórias eram chatas em sua maioria. Mas, em vez de trazer equipes criativas melhores, a solução da editora (e de sua nova presidente, Diane Nelson) foi reiniciar todo o universo com equipes criativas medianas. Perdeu-se todo o charme vindo da reformulação ocorrida depois de Crise nas Infinitas Terras e nos deram versões “massa véio” e ruins de nossos heróis. Já foi tarde!” (Nota do editor: atualmente, a versão Os Novos 52 foi substituída pela série Renascimento, que resgatou os elementos clássicos dos personagens, atraindo de volta grande parte do público leitor).

A repórter é tão especializada que veio de uma galáxia muito, muito distante.

3) Jornalismo especializado em quadrinhos: “Ilha Paraíso. Mas só para aqueles 20 ou 30% que andam fazendo um bom trabalho. O jornalismo de quadrinhos no Brasil parece ter sido tomado em grande parte por gente que acha que basta gostar da mídia para poder escrever e opinar sobre ela, sem conhecimento de sua história, de material importante lançado, das influências e das características do mercado. Mas ainda tem gente fazendo bom trabalho, um trabalho sério e que vale ser acompanhado. Infelizmente, eles não são os mais populares hoje.”

Zack Snyder filmando o Universo DC com o celular.

4) Zack Snyder: “Zona Fantasma. E pra PQP também! Snyder é o cara que lê gibis de super-heróis e, sinceramente, não os entende. É o sujeito que acha que vamos ver filmes de super-heróis porque gostamos de ver explosões, destruição e prédios tombando. Na verdade, o fã de quadrinhos gosta de ver o super-herói impedindo a destruição e a queda dos prédios. É por isso que os filmes da Marvel são bem-sucedidos. Os heróis lá querem salvar as pessoas, não criar terrenos baldios. Snyder deveria dirigir só filmes de terror. Disso ele entende.”

Tire os olhos da minha lombada!

5) Encadernados no Brasil: “Ilha Paraíso. Acho que os encadernados são a maneira correta de ler quadrinhos e fico feliz que boa parte do mercado brasileiro esteja tomada por eles. Mas, como nada é perfeito, temos que admitir que os preços de muitos deles andam abusivos. Sim, estamos em meio a uma crise e as editoras precisam rebolar pra sobreviver. As livrarias não andam pagando corretamente as editoras e a situação está dificílima. Mas aumentar o preço para garantir as vendas com aquele público mais fiel me parece uma estratégia perigosa a médio prazo. Talvez seja hora de pensar em menos capa dura e mais capa de cartão para eles. E mais cuidado na revisão de textos também viria a calhar. De qualquer modo, gosto dos encadernados e, sem eles, muita coisa não seria lançada no Brasil.”

E-Books: solução para a falta de espaço

6) Livros digitais: “Ilha Paraíso. Não são pra mim, já tentei e não gosto muito, prefiro o papel. Mas acho que é um formato muito válido e muito prático pra muita gente. E, como eu sempre achei, o livro digital não vai acabar com o livro em papel, como tanta gente profetizou há uns anos. É só mais um canal de leitura. Só não tem o cheiro, a textura e a experiência tátil que o livro físico traz, coitadinho. No final das contas, é o primo pobre do livro em papel. Mas é boa gente.”

Editoras precisam se adaptar à crise.

7) Mercado editorial brasileiro: “Ilha Paraíso… mas com inúmeras ressalvas. É um mercado de grande potencial, no qual muita gente trabalha por amor, mais que por dinheiro. Muitos projetos editoriais fantásticos foram e são criados no Brasil diariamente e, pra quem ama livros ou trabalha com eles (como eu!), é lindo ver isso. Porém, é um mercado que se mostra muito engessado em métodos antiquados de trabalhar. A maioria das editoras não consegue se adaptar rapidamente aos novos tempos, não aposta em divulgação corretamente, não usa a internet como deveriam, não se abre para novas oportunidades e novos públicos. É hora de acordar e evoluir.”

Concorda com as opiniões do nosso convidado? Discorda? Quem ou o que você mandaria para a Zona Fantasma? E para a Ilha Paraíso? Deixe seu comentário abaixo e participe desta discussão.