Dúvidas nerds: Quem é o Soldado Invernal?

blog abreDesde que foi anunciado o subtítulo da segunda aventura cinematográfica do Capitão América, os fóruns da Internet pipocaram de dúvidas. Todo mundo querendo saber porque diabos o estúdio cometeu um erro tão grosseiro e chamou o personagem de Soldado Invernal ao invés de Soldado Infernal. Calma, galera! Os estúdios não erraram e o nome está correto.

O filme foi baseado no arco de mesmo nome, publicado em 2006.

O filme foi baseado no arco de mesmo nome, publicado em 2006.

Soldado Invernal é a tradução literal do original inglês Winter Soldier (ou Soldado do Inverno). O personagem surgiu em 2006 no arco de mesmo nome da revista Captain America, escrita por Ed Brubacker e, na época, causou muita polêmica. Tudo porque o roteirista trouxe de volta à vida um personagem que estava morto desde 1964 e cuja morte era considerada um dogma na mitologia da editora. Estamos falando de Bucky Barnes, o parceiro mirim do Capitão América nos tempos da Segunda Guerra Mundial.

A histórica edição que trouxe de volta o Capitão América e revelou o destino de Bucky

A histórica edição que trouxe de volta o Capitão América e revelou o destino de Bucky

Os leitores já sabem que a morte de personagens nos dias de hoje servem mais como um propulsor na venda dos gibis e que, mais dia, menos dia, esse personagem vai retornar. Bucky, no entanto, era um daqueles que permaneceu morto desde que o Capitão retornou, em 1964, na clássica revista Avengers 4. Na época, Stan Lee havia acabado de criar o Universo Marvel e decidiu trazer de volta um dos mais importantes personagens da editora, da época em que se chamava Timely Comics. Para justificar o desaparecimento do Capitão América desde o final da guerra, a desculpa foi que ele ficou congelado, num estado de animação suspensa (uma espécie de coma), causado por sua última missão.

O momento fatal de Bucky, na arte dramática de Jack Kirby

O momento fatal de Bucky, na arte dramática de Jack Kirby

Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, o Barão Zemo, um dos inimigos do Sentinela da Liberdade, planejava roubar um avião experimental do exército para entregá-lo a Hitler em Berlim. O Capitão e Bucky, seu parceiro, tentaram evitar que ela chegasse ao seu destino e saltaram sobre a nave sem saber que havia uma bomba no veículo. O Capitão caiu pouco antes do avião explodir, mas Bucky não teve a mesma sorte e a última visão do Capitão América antes de ser congelado nas águas do Oceano Ártico foi o triste fim de seu parceiro, culpa que ele carregou pelas décadas seguintes.

O roteirista Ed Brubacker trouxe Bucky de volta à vida

O roteirista Ed Brubacker trouxe Bucky de volta à vida

O destino de Bucky permaneceu imutável até 2005, quando Ed Brubaker assumiu o título do supersoldado. Com o objetivo de dar um novo gás no herói, cujas histórias perderam sua popularidade ao longo dos anos – motivadas, principalmente, pela mudança de mentalidade em torno do americanismo propagado pelo herói – Brubaker apostou em tramas mais realistas e contemporâneas. Nas edições de 1 a 14 (republicadas recentemente pela Salvat nos encadernados Tempo Esgotado e O Soldado Invernal da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel), Brubacker trouxe Bucky de volta.

Arco conta de forma coerente o destino do personagem e como ele se tornou o assassino espião

Arco conta de forma coerente o destino do personagem e como ele se tornou o assassino espião

O desafio foi explicar, de forma coerente, não apenas como o jovem sobreviveu à explosão, mas também onde ele esteve durante todos esses anos. O resultado foi uma trama de espionagem muito bem argumentada que acabou com toda reclamação que os leitores pudessem ter a respeito da polêmica ressurreição. Na trama é revelado que Bucky também foi jogado do avião após a explosão e as águas frias congelaram seu corpo ferido. Tempos depois, um submarino russo o encontrou sem memória e com o braço esquerdo destruído pela explosão.

Sob as ordens dos russos, o Soldado Invernal agia em missões secretas

Sob as ordens dos russos, o Soldado Invernal agia em missões secretas

Sob o comando do general Vasily Karpov, o rapaz ganhou um braço biônico e recebeu implantes de memória para se tornar um assassino a serviço dos russos. Embora não lembrasse quem era, Bucky manteve suas habilidades aprendidas em treinamento com o Capitão América e passou a agir sob a alcunha de Soldado Invernal. Além de agir sob a ordem dos soviéticos, que é um país com clima tipicamente frio, ao término de cada missão, Bucky era congelado enquanto aguardava sua próxima tarefa – daí a explicação para o “invernal” do nome.

O reencontro dos ex-parceiros foi uma questão de tempo

O reencontro dos ex-parceiros foi uma questão de tempo

O fato de permanecer a maior parte de sua vida sob o gelo manteve a juventude do espião ao longo das décadas, assim como aconteceu com o próprio Capitão América. Com o tempo, o controle mental dos russos começou a falhar e Bucky se voltou contra seus mestres, obrigando-os a submetê-lo a novas sessões de lavagem cerebral antes de congelá-lo. Com a morte de Karpov, o Soldado Invernal passou a obedecer às ordens do empresário Alexander Lukin (secretamente o Caveira Vermelha, antigo inimigo do Capitão) e não tardou para cruzar seu caminho com o antigo parceiro.

Por um tempo, Bucky carregou o legado do Capitão América

Por um tempo, Bucky carregou o legado do Capitão América

O Capitão América usou o poder do Cubo Cósmico para restaurar as memórias de Bucky e eles voltaram a ser amigos. Tanto que, quando o Capitão América foi assassinado, Bucky assumiu seu lugar como o novo Sentinela da Liberdade. Logo, Steve Rogers voltou da morte (lembram o que dissemos no início deste post?), mas adotou outra identidade – o Supersoldado – e permitiu que Bucky continuasse com o escudo. Contudo, os crimes que ele cometeu como Soldado Invernal mancharam seu currículo, de modo que as pessoas começaram a se questionar se ele era digno do manto tão emblemático do Sentinela da Liberdade.

Bucky morreu, mas não morreu, daí ele morreu de novo, mas continuou vivo. Entendeu?

Bucky morreu, mas não morreu, daí ele morreu de novo, mas continuou vivo. Entendeu?

Quando a filha do Caveira Vermelha assassinou Bucky durante a saga A Essência do Medo, Steve Rogers pegou de volta sua antiga identidade. Porém, Bucky não morreu: foi apenas um plano para que a opinião pública o considerasse um herói e pudesse redimir seus erros passados. O rapaz voltou à identidade de Soldado Invernal e continua cumprindo o mesmo papel de antes: um espião em missões altamente sigilosas que necessitem um profissional especializado. A única diferença é que agora ele está do lado dos americanos. Somente o Capitão América, Nick Fury e a Viúva Negra sabem que Bucky está vivo.

Nos cinemas, o Soldado Invernal ainda vai dar o que falar.

Nos cinemas, o Soldado Invernal ainda vai dar o que falar.

Leitura recomendada: Capitão América: Tempo Esgotado; Capitão América: O Soldado Invernal (ambas publicadas pela Salvat); Avante, Vingadores 58-59 (Panini, 2013) e Avante, Vingadores 59.1 (Panini, 2014).

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Dúvidas nerds: Motoqueiro Fantasma azul

blog abreEstamos inaugurando uma nova seção no nosso blox, inspirado pela enorme quantidade de buscas que são digitadas no Google e vêm parar em nossa página. Dessa forma, esperamos ajudar aos não iniciados em cultura pop a poderem dormir tranquilos, sem que seus sonhos sejam assombrados por perguntas que, até então, pareciam insolúveis.

Como vou tocar Pour Elise com essa mão queimada?

Como vou tocar Pour Elise com essa mão queimada?

A líder em dúvidas no blox é o motivo pelo qual, no final do filme Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança a chama do herói passa de amarelo para azul. Teria o inferno encerrado seu fornecimento de fogo e Johnny Blaze assinado um contrato com a Ultragaz para manter seu crânio em chamas? Calma, leitor, não é nada disso. E a questão é mais simples do que parece. Ou não.

Zarathos: espírito de justiça corrompido

Zarathos: espírito de justiça corrompido

Na verdade, a resposta para essa pergunta se divide em duas vertentes: uma curta e simples e a outra, um pouco mais complexa. Juntas, elas dão um panorama geral do que os diretores Mark Neveldine e Bryan Taylor quiseram transmitir com aquela cena. Primeiro, vamos à mais simples: o próprio enredo do filme explica que Johnny Blaze se torna o Motoqueiro Fantasma graças à uma possessão do demônio Zarathos. Segundo a angeologia, os demônios nada mais são do que anjos que se revoltaram contra o céu e foram expulsos, sendo chamados de “anjos caídos”.

Volta pra casa, peste!

Volta pra casa, peste!

Com Zarathos aconteceu o mesmo: ele era um anjo responsável por infligir a justiça aos pecadores e, por isso mesmo, era conhecido como “Espírito de Justiça”. Porém, ele foi enganado pelos demônios, levado ao inferno e corrompido, despertando um forte desejo de vingança contra aqueles todos que desvirtuam os inocentes. Com isso, passou a caçar demônios e puní-los. No filme, quando manda Roarke (um dos muitos nomes do capeta-mór) para o inferno, Zarathos encontra sua redenção e volta a ser um anjo bom. A representação disso é a sua chama, que muda do vermelho (agressivo) para o azul (suave). Simples assim.

estreia infernal

estreia infernal

Porém, a chama azul tem outra explicação, bem mais profunda, que remete aos quadrinhos do herói e que, certamente, os diretores quiseram fazer sua referência na produção do cinema. Para entender, um breve resumo da carreira do herói sobrenatural nas HQs: o Motoqueiro Fantasma (Johnny Blaze) foi criado no início dos anos 70 e era apenas mais um super-herói da editora, com o diferencial que tinha poderes infernais, para seguir a onda de sucesso dos quadrinhos de terror, na época. Com o tempo, o título foi cancelado e o herói ficou na geladeira.

Ressurreição radical

Ressurreição radical

Nos anos 90, o roteirista Howard Mackie, que era fã do Motoqueiro, resolveu resgatá-lo, mas com uma nova identidade e personalidade. O novo Motoqueiro Fantasma não era mais um herói que se transformava ao pôr-do-sol, mas mantinha a personalidade “boazinha” do seu alter ego. Ele surgia sempre que sangue inocente era derramado para vingá-lo, tinha um visual hard, com roupas de couro, ponteiras de metal e corrente mística e literalmente possuía o corpo de seu hospedeiro, o jovem Danny Ketch. A década de 90 era povoada de anti-heróis e o novo perfil do Motoqueiro Fantasma agradou. No entanto, nunca ficou explicado como Johnny Blaze deixou de ser o Motoqueiro e Zarathos passou para outro corpo.

Briga de motoqueiros

Briga de motoqueiros

Assim, na revista Ghost Rider 13, Mackie traz Blaze de volta, para confrontar Ketch e acabar de vez com Zarathos. Depois do quebra, Blaze percebe que Zarathos se tornou uma força do bem e decide acompanhar Ketch de perto, formando uma dupla. Mais tarde, descobre que Ketch era seu irmão de sangue separado no nascimento e que o demônio era um legado de família. Toda essa pataquada não agradou os leitores e o título do Motoqueiro foi cancelado. Johnny ficou livre de sua maldição e Zarathos, aparentemente, voltou para o inferno, libertando Ketch por um curto período. Logo, possuiu o rapaz novamente, deixando um gancho para um retorno do personagem.

Re-re-re-retorno. E não é gagueira.

Re-re-re-retorno. E não é gagueira.

Isso só aconteceu no começo do milênio, quando a Marvel criou o selo Marvel Knights, dedicada aos heróis urbanos. A minissérie The Hammer Lane (2001, inédita no Brasil) ignorou os fatos anteriores e trouxe Blaze de volta com sua maldição, mas com um roteiro pra lá de ruim. Em 2005, o roteirista Garth Ennis assumiu o personagem e começou do zero: Blaze estava no inferno, amaldiçoado para sempre. O anjo Malachi promete libertar a alma do herói se ele enviar um demônio de volta ao inferno. Com isso, o Motoqueiro clássico é reinserido nos quadrinhos.

Azul está na moda e combina mais com a cor do meu crânio.

Azul está na moda e combina mais com a cor do meu crânio.

Outra minissérie: Ghost Rider: Danny Ketch mostra o jovem recuperando seus poderes após se aliar ao anjo rebelde Zadkiel. É nessa série que o Motoqueiro Fantasma passa a apresentar uma chama azulada, símbolo de sua associação com o anjo. Vem daí a referência dos diretores e sua associação ao personagem dos quadrinhos. Sem contar, evidentemente, o personagem chamado Danny no filme, citação óbvia ao segundo Motoqueiro Fantasma.

Outro filme? É muita penitência pra um pecador só!

Outro filme? É muita penitência pra um pecador só!

Para encerrar, vale citar que o filme foi tão mal nas bilheterias que dificilmente haverá um Motoqueiro Fantasma 3. Não há nem rumores sobre uma continuidade da franquia. Graças aos céus e aos anjos de chamas azuis!

Se você tem alguma dúvida nerd sobre filmes, quadrinhos, séries de TV e afins, deixe nos comentários e, assim que for possível, responderemos. Se a gente não souber, responde do mesmo jeito. 😉