Opinião: Bloodshot

O cinema ficou bastante prejudicado neste ano com a chegada do coronavírus. Filmes que estavam em produção tiveram sua estreia adiada por tempo indeterminado e os que chegaram a estrear tiveram uma recepção pífia com o fechamento repentino das salas. É o caso de Bloodshot (idem, 2020), primeiro super-herói adaptado de um título em quadrinhos da Editora Valiant, estrelado por Vin Diesel no papel título. O filme chegou aos cinemas uma semana antes do início do isolamento social no Brasil e logo veio o isolamento, impedindo nosso blog de sequer ter conseguido ver o filme a tempo, até poucos dias atrás, quando, finalmente, conseguimos assistir o longa-metragem.

Os heróis da Valiant, em sua concepção original.

A Valiant foi criada em 1989, por Jim Shooter e Bob Layton, que tinham acabado de deixar a Marvel. A princípio, a nova editora licenciou alguns super-heróis esquecidos nos anos 60 da Western Publishing (Magnus – Robot Fighter e Solar, o Homem-Átomo), além de personagens originais como Rai, X-O Manowar e Harbinger. Mesmo com a boa qualidade do material, a Valiant interrompeu as atividades com menos de 10 anos de sua fundação, até que, em 2005, um grupo de empresários adquiriu a editora e relançou os personagens.

Bloodshot estreou no último quadrinho da revista Eternal Warrior.

Bloodshot foi criado em 1992, por Kevin Van Hook (roteiros) e Yvel Guichet (arte) e fez sua primeira aparição na revista Eternal Warrior 4 (1992). Ganhou título próprio no ano seguinte, que durou até agosto de 1996, totalizando 51 edições. Originalmente, Bloodshot era o mafioso Angelo Mortalli, que foi capturado pelo FBI e, para se livrar da prisão, concordou em depor contra a Máfia. No entanto, o rival Gino Canelli o entregou como “voluntário” para o Projeto Espíritos Ascendentes (PEA), que criava supersoldados para usar como arma do Governo Americano.

Nova versão do herói estreou em título próprio, em 2012.

Para isso, os voluntários recebem nanitas – robôs microscópicos com inteligência artificial – em seu sangue que “consertam” qualquer ferimento, tornando-os praticamente invulneráveis. No processo, as cobaias perdem a memória e recebem implantes para serem totalmente fiéis aos seus contratantes. Em 2012, o herói ganhou um reboot pelas mãos de Duane Swierczynski (Roteiros), Manuel Garcia e Arturo Lozzi (arte) que mantém essa mesma origem, com sutis alterações: Agora ele é Raymond Garrison, um soldado que serviu de cobaia para o PEA, com o objetivo de criar a arma de guerra perfeita.

No Brasil, Bloodshot estreou pela HQM Editora.

Para isso, Ray teve nanitas implantadas em seu sangue que lhe conferiram poderes regenerativos. Para evitar que o soldado se voltasse contra seus criadores, os nanitas também reprogramam as memórias de Bloodshot a cada missão, de modo que nem ele nem o Projeto sabem, de fato, quem ele foi em sua vida civil. É esta nova versão que se tornou conhecida dos brasileiros, publicada nas revistas X-O Manowar e Universo Valiant, ambas da HQM Editora e, mais recentemente, pela Jambô Editora. Também é ela que foi adaptada para os cinemas.

Ray descobre que morreu e teve o corpo reconstruído por robôs microscópicos em seu sangue.

A história começa com Ray Garrison (Vin Diesel) desmantelando uma operação terrorista no Quênia e retornando aos braços de sua esposa. No entanto, o soldado sofre uma tocaia e é capturado pelo líder terrorista Martin Axe (Toby Kebell), vendo sua amada ser morta na sua frente para, logo em seguida, ele próprio receber um tiro na cabeça. Ray desperta dias depois na sede do PEA sem lembrar do que aconteceu e o Dr. Emil Harting (Guy Pierce) lhe revela que ele foi cobaia de um experimento para criação de supersoldados, tendo nanitas inseridas em seu sangue que restauraram seu corpo destruído e lhe deram uma nova chance de vida.

Projeto tem vários soldados aprimorados.

Ray não foi o primeiro soldado do programa: ele conhece também KT  – pronuncia-se Keite – (Eiza González), que possui um respirador artificial acoplado em seu peito; Tibbs (Alex Hernandez), um atirador de elite que foi cegado por um morteiro e ganhou câmeras ligadas aos nervos óticos que lhe dão uma visão muito mais apurada; e Jimmy Dalton (Sam Heugnam), ex-fuzileiro naval que perdeu as pernas e recebeu próteses mecânicas. No entanto, por ter sido o único cuja experiência não envolveu apenas próteses, mas aperfeiçoamento do corpo inteiro, além de também causar sua volta da morte, ele é reconhecido como o soldado supremo, o maior sucesso do programa.

Wigans é um hacker que ajuda Bloodshot a se livrar o controle da PEA.

Enquanto tenta se adaptar à sua nova realidade e descobrir suas recém-adquiridas habilidades, Ray tem flashes de memória e se lembra de Axe. A sede de vingança pelo que aconteceu com sua esposa quebra o controle mental e o soldado descobre que suas memórias são manipuladas e que ele vem sendo usado para assassinar inimigos do PEA. Assim, ele se volta contra seus criadores e tem que lutar pela sua liberdade. Para isso, ele conta com a ajuda do hacker Wilfred Wigans (Lamorne Morris) e KT, que também não simpatiza com os métodos do Dr. Harting.

Meio Robocop, meio Wolverine.

O filme tem boas cenas de ação e efeitos competentes, além de um bom plot de espionagem, que consegue prender a atenção e manter o interesse. As cenas de luta no túnel e no poço do elevador são empolgantes e bem dirigidas e o enredo mantem o clima de aventura das produções baseadas em quadrinhos. A grande vantagem é que, como o personagem é pouco conhecido até mesmo pelo público fã de quadrinhos, ele fica livre de cobranças pela adaptação fiel às HQs.

Briga de aprimorados

Mesmo com tantos pontos positivos, o filme não tem o mesmo apelo dos heróis da Marvel e DC e dificilmente cairá no gosto do público. Pesa o fato dele ter tido uma passagem relâmpago pelo cinemas, prejudicada pelo surto de Covid-19, o que prejudicou a recepção. Já disponível em DVD e blu-ray, espera-se que as vendas para o mercado doméstico consiga recuperar o investimento (custo de US$ 45 milhões, com bilheteria doméstica de US$ 10 milhões, mais US$ 30 milhões ao redor do mundo). Embora não seja nenhuma obra-prima, Bloodshot merece um destino mais favorável, pois abre o leque de produções de super-heróis com personagens diferenciados que apresentam novas perspectivas para o futuro do gênero.

Cotação Raio X:

Saído do Forno: Alfa – A Primeira Ordem – Parte 2

Após três anos de espera, finalmente a saga que reúne mais de 70 super-heróis brasileiros na mesma aventura chega à sua conclusão. Alfa – A Primeira Ordem – Parte 2 traz a batalha final da equipe liderada pelo Capitão R.E.D contra o General Zeta para evitar que o vilão cósmico Aéris retorne e domine o planeta. A HQ, de 60 páginas (incluindo capa), é um lançamento da Editora Kimera e tem roteiro de Gian Danton, arte de Márcio Abreu e cores de Vinícius Townsend. A criação é de Elyan Lopes, que realizou duas campanhas no Catarse para financiar a obra.

Se o General Zeta já dá trabalho pros heróis, imagine quando Aéris chegar…

A história tem início onde a anterior parou, com os heróis enfrentando o poderoso General Zeta, tendo como cenário os famosos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro (mas que pouco são destacados, devido à destruição provocada pela batalha). Uma trama paralela se desenrola em Brasília, com a candidatura do político Saulo Dahmer à presidência do País, que demonstra ser mais do que uma simples candidatura, mas uma conspiração para a ressurreição de Aéris.

A arte de Márcio Abreu: nível internacional

A HQ tem vários pontos positivos, sendo que o principal é a arte dinâmica de Márcio Abreu, cujo traço é tão bom ou até melhor que vários desenhistas da Marvel e DC. O mérito de reunir os super-heróis nacionais numa mesma história também merece destaque, tendo em vista que a maioria deles é desconhecida do público. Trata-se de uma iniciativa brilhante de divulgação desses personagens e de seus respectivos criadores. Há que se elogiar também a qualidade gráfica, com papel de qualidade e capa couché com brilho, o que valoriza o material e faz valer o investimento.

Muitos heróis para poucas páginas.

No entanto, talvez aí resida o maior erro da publicação: na ânsia de reunir o maior número possível de personagens brasileiros, a trama não encontrou espaço para todos eles, o que fez com que os heróis fossem “jogados” no meio da história, sem função prática, além de dar um soco no vilão e desaparecer no quadrinho seguinte. O hiato de três anos entre as duas partes da saga – foi feita uma campanha no Catarse em 2018 que não teve a meta atingida e outra em 2019 para inteirar o valor arrecadado anteriormente – chamou a atenção de outros autores, que se interessaram pelo projeto e também puderam incluir seus personagens na trama, aumentando de 40 para mais de 70 os coadjuvantes.

Texto lista os heróis fora de ordem na imagem.

Com isso, na tentativa heroica (perdão pelo trocadilho!) de colocar essa quantidade absurda de personagens, o storytelling ficou comprometido, deixando vagos muitos detalhes importantes da trama, como a participação do herói Corrupião – deixada em aberto no número anterior e mal concluída nesta edição. Um mero detalhe da primeira parte – a apresentação dos super-heróis com seu logotipo – foi deixado de lado nesta edição, prejudicando a identificação dos personagens e o entendimento do todo. Há até um quadro em que vários deles aparecem juntos e são listados no texto, mas fora da ordem em que são mostrados na imagem – um detalhe simples, que muito contribuiria para o melhor entendimento.

Soluções aceleradas como a moto do Lagarto Negro.

Os cortes de cenas são repentinos o que deixa a narrativa picotada e confusa, prejudicando o desenvolvimento da trama. As pontas soltas são resolvidas rapidamente, em um quadrinho ou dois, sem qualquer aprofundamento e até mesmo o aguardado retorno dos heróis clássicos – Capitão 7, Flama, Homem-Lua, Capitão Gralha e Raio Negro – é apresentado sem qualquer emoção. Para piorar, o clímax da batalha com Aéris, que era o momento mais aguardado de toda a saga foi reduzido a uma única página, com uma solução fácil e pouco inspirada.

Um novo universo de super-heróis está sendo criado

Uma pena, porque a primeira edição tem uma narrativa muito boa e dinâmica, deixando bons ganchos para serem trabalhados, algo que ficou a desejar nesta edição, que perdeu seu ritmo. Mesmo assim, há algumas referências bem divertidas na história, que o leitor mais atento identificará prontamente, além de preparar o caminho para o próximo projeto do autor Elyan Lopes, que é a criação do seu próprio Universo de super-heróis, o Alfa Universo, que já tem até um site oficial.

Card game é um produto especial inspirado na HQ.

A história termina deixando um fato sobre o Capitão R.E.D em aberto, que deve ser trabalhado futuramente e tem o potencial de desenvolver boas histórias. Alfa – A Primeira Ordem – Parte 2 começou a ser enviada aos colaboradores do Catarse e também pode ser adquirida no site da Editora Kimera. Além da revista, Alfa também gerou um card game com os personagens da história, em 32 cards contendo informações dos super-heróis como Força, Agilidade, Inteligência, Poder Especial e Capacidade de Luta, além do nome do seu criador – mais uma iniciativa muito boa idealizada por Lopes.

União histórica

Entre mortos e feridos, Alfa – A Primeira Ordem merece o reconhecimento por ter sido uma iniciativa exclusiva que valoriza a criação nacional e que enfrentou inúmeras dificuldades para se tornar realidade. Este que vos escreve acompanhou esse processo e sabe o quanto o autor batalhou por ele. Infelizmente, a segunda parte deixou a desejar, mas nem por isso deixa de ter seus méritos. Fica o desejo de que o vindouro Alfa Universo repita o sucesso e traga quadrinhos de qualidade para o cenário brasileiro.

Opinião: Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica

Após quase três anos sem uma produção original (A última foi Viva – A Vida é uma Festa, em 2017. As posteriores, Incríveis 2 e Toy Story 4, são continuações), a Pixar lança o filme Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020), que conta a história dos elfos Ian e Barley, que vivem num mundo de fantasia repleto de criaturas fantásticas – fadas, dragões, sereias, centauros – onde a magia foi extinta há muitos anos, transformando o local num mundo com a rotina bem parecida com a nossa.

Um presente de aniversário é o pivô de toda confusão.

Barley, o irmão mais velho, manteve acesa a chama da magia por meio de seu jogo de RPG, mas não é levado muito a sério pela família nem pelo padrasto, Colt Branco, um centauro policial que considera o enteado um encrenqueiro. Já Ian, o mais jovem, é tímido e avesso a confusões. Sente muita falta do pai, de quem ele mal se lembra, pois morreu quando o garoto ainda era muito jovem. No aniversário de 16 anos de Ian, sua mãe lhe entrega um presente deixado pelo pai para ser entregue quando tivesse maturidade suficiente: um cajado e uma joia que o ativa magicamente.

Um feitiço mal feito traz apenas meio pai para conviver com os jovens.

Com o artefato, eles conseguiriam trazer o pai de volta para viver com eles durante 24 horas, mas algo dá errado e eles só realizam metade do feitiço. Para concluir o encanto, a dupla precisa partir em busca de uma nova joia, oculta em algum lugar distante, enfrentando inúmeros perigos na jornada. É o pretexto para muitas confusões, aventuras e, claro, bom humor, como pede toda produção animada da Disney/Pixar. Dirigido por Dan Scanlon, a história foi baseada na própria infância do diretor, que perdeu seu pai muito cedo e sempre desejou conhecê-lo e se imaginava como ele seria. Por isso, leve seu lenço, pois o final reserva muita emoção.

Gwinever, a van de Barley, é onde a dupla vive grandes aventuras.

A trama começa num ritmo frenético, com diálogos tão acelerados que, por vezes, é até difícil acompanhar – bem no pique das crianças hiperativas de hoje. Conforme a trama se desenrola, a história puxa o freio e passa a ficar mais lenta, ganhando um tom mais emotivo e características de road movie, com belas paisagens para apreciar. O relacionamento entre os irmãos também passa a ser menos conflituoso e se torna mais colaborativo. Afinal, o foco da trama é exatamente valorizar a relação familiar e a importância de se aproveitar os momentos juntos. Não à toa, o título original – Onward – significa “em frente”, “adiante”.

Ciclope lésbica

Antes de ser lançado, o filme já teve uma polêmica por conta de uma personagem que seria a primeira personagem lésbica lançada pela Disney, representada por uma policial. De fato, ela existe, mas, como de praxe, o barulho a respeito de sua homossexualidade foi puro alarmismo para criar antipatia à personagem. O “lesbianismo” se resume a uma única frase: “a filha da minha namorada”, que até passa despercebida no contexto da história. Portanto, senhores pais, podem levar suas crianças despreocupadamente para ver o filme, que nenhuma delas será mal influenciada pela policial degenerada.

Dublagem heroica

A versão original conta com um extra: a voz de Ian é feita por Tom Holland (o Homem-Aranha, do Universo Cinematográfico da Marvel) enquanto que Barley é dublado por Chris Pratt (o Senhor das Estrelas, de Guardiões da Galáxia). Embora tenha sido noticiado que o filme seria precedido de um curta-metragem dos Simpsons, na sessão em que participamos, o mesmo não foi exibido. Uma falta que realmente se fez sentir, pois os curta-metragens que precedem os filmes da Pixar sempre são um show à parte e já fazem valer o ingresso.

Tudo que Ian queria era passar um dia com o pai. As duas metades.

Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica é uma animação com clima positivo e alto astral, que passa a lição de acreditar em si mesmo e aproveitar os momentos, pois a vida não volta atrás. E, claro, a magia deve permanecer sempre viva no coração. Mais um acerto da Pixar, com personagens carismáticos que vão apaixonar crianças e adultos.

Cotação Raio X:

 

Opinião: Aves de Rapina

O ano de 2020 é o ano das heroínas no cinema. Já começou com a princesa Elsa em busca de suas origens em Frozen II em janeiro e continua a representatividade feminina este mês, na estreia da semana: Aves de Rapina – Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey, 2020). O longa-metragem traz a atriz Margot Robbie de volta ao papel da eterna namorada do Coringa após sua estreia em Esquadrão Suicida (2016), no qual roubou a cena com seus diálogos insanos e bem-humorados.

Estreia das Aves de Rapina nos quadrinhos, em 1995.

Considerando a quantidade de problemas do longa-metragem de estreia da Arlequina, o estúdio optou por investir no carisma da atriz e da personagem em um filme estrelado por ela, mesmo que divida a cena com outra superequipe de segundo escalão – as Aves de Rapina. Para quem não sabe, a equipe foi criada em 1995, por Chuck Dixon (roteiros) e Gary Frank (desenhos) para o especial Black Canary/Oracle: Birds of Prey. No início, era formada apenas pela Canário Negro e a hacker Oráculo – a ex-Batgirl Bárbara Gordon, que ficou presa a uma cadeira de rodas após ser baleada pelo Coringa no clássico A Piada Mortal (1988), de Alan Moore.

Aves de Rapina ganharam até uma série de TV.

Já que não podia mais combater o crime fisicamente, a jovem passou a agir fornecendo informações privilegiadas que conseguia invadindo o sistema de computadores de Gotham. Como as HQs das heroínas caíram no agrado do público, elas ganharam seu próprio título a partir de 1999. A partir da edição 57 (2003) a dupla ganhou o reforço de Helena Bertinelli, a Caçadora, uma anti-heroína que viu sua família ser assassinada pela máfia quando criança e jurou vingança, tornando-se uma vigilante. Em 2002, as heroínas ganharam uma série de TV que pecou pela pobreza de roteiros e durou apenas uma temporada com 13 episódios.

“Como assim, ‘tentaram copiar o meu filme’??”

A Warner aproveitou a popularidade da Arlequina para apresentar a nova equipe – ligeiramente diferente no cinema, com a detetive Renne Montoya no lugar da Oráculo – ao seu universo cinematográfico, ao mesmo tempo em que atraía o público feminino num filme estrelado exclusivamente por mulheres com uma pitada de humor insano, copiando a fórmula que deu tão certo em Deadpool (2016). Tinha tudo para dar certo, se fosse bem executado. “SE”, porque não é. Como de praxe, o estúdio ainda não sabe o que fazer com os super-heróis da DC Comics e o resultado é mais uma produção dispensável, com cenários pobres, personagens rasos e piadas que não funcionam em momento algum, que já começa ruim a partir do seu título, extenso demais.

O Coringa de Jared Leto não está no filme.

O filme começa com Arlequina narrando sua infância para explicar os eventos que levaram ao rompimento de seu romance com o Coringa (Jared Leto, que interpretou o Palhaço do Crime em Esquadrão Suicida, não participa do filme devido à rejeição do público à sua encarnação do vilão. Além disso, segundo consta, Leto não gostou da Warner por ter feito o filme solo do palhaço com Joaquin Phoenix, o que estremeceu suas relações com o estúdio). A partir daí, na condição de ex e sem a proteção do seu “pudinzinho”, passa a ser perseguida pelos criminosos que têm os mais diversos motivos para eliminá-la.

“Sério, não sei o que viemos fazer nesse filme…”

Ao mesmo tempo, uma misteriosa vigilante chamada Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) inicia uma cruzada contra os mafiosos de Gotham, matando-os violentamente, o que chama a atenção da detetive Reneé Montoya (Rosie Perez). Ela passa a investigar o caso, tendo como informante a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell), a Canário Negro, que também é motorista particular de Roman Sionis (Ewan McGregor), um chefão do crime conhecido pela alcunha de Máscara Negra. Este, por sua vez, está atrás de um diamante que dá acesso à fortuna da família Bertinelli, mas que foi roubado pela adolescente rebelde Cassandra Cain (Ella Jay Basco).

Um diamante roubado provoca toda ação.

Fechando o círculo, Cassandra é vizinha de Dinah, que passa a protegê-la, mas a Arlequina faz um acordo com o Máscara Negra para capturar a garota e trazer-lhe o diamante em troca de ter sua vida poupada. Não bastasse o roteiro confuso, cheio de reviravoltas, com ritmo frenético e diálogos ágeis, a trama ainda é permeada de vários flashbacks narrados pela voz infantilizada da ex do Coringa, embolando ainda mais o entendimento da história.

“E eu que pensava que meu fundo do poço tinha sido Em Star Wars…”

Preocupada em enfiar um diálogo engraçadinho a cada cena, a roteirista Christina Rodson esqueceu de desenvolver a personalidade de cada personagem, um detalhe fundamental em qualquer filme, mas principalmente no universo do Batman, onde os vilões são caracterizados por seus perfis psicológicos. O insano Victor Zsasz (Chirs Messina), por exemplo, é um psicopata que sente prazer em mutilar o próprio corpo a cada morte provocada e, no filme, esse perfil é mostrado superficialmente, relegando o vilão ao papel de leão-de-chácara do Máscara Negra, este mesmo, um personagem afetado que “odeia mulheres”, mas tem um carinho especial por sua motorista Dinah.

Para o caso da Warner resolver fazer uma continuação, disponibilizamos as onomatopeias para uso no filme. De nada!

A impressão que dá é que o orçamento de US$ 84,5 milhões foi todo gasto no irritante recurso de apresentar, a cada novo personagem, o nome e a motivação deles em matar a Arlequina. O investimento poderia ter sido voltado para melhorar os cenários, constrangedores de tão pobres. O clímax da história acontece num parque de diversões que mais se parece com um terreno baldio com um único prédio no meio, onde a ação acontece. Além disso, as lutas parecem saídas do seriado do Batman dos anos 1960, onde os bandidos esperam sua vez para bater nos heróis. Só faltou mesmo as onomatopeias. Na série, pelo menos, a gente sabia que aquilo era proposital.

Vergonha alheia: a cadeia é um galpão com gaiolas ao invés de celas.

Como se não fosse suficiente o filme ser repleto de situações absurdas – como uma invasão à delegacia onde Arlequina, sozinha, domina dezenas de policiais armados e treinados que não deram um tiro sequer; uma cadeia que mais parece um galpão com gaiolas ao invés de celas e até uma cena que faz apologia à cocaína – a diretora Cathy Yan ainda fez questão de destacar sua visão feminista radical: todos os homens do filme – todos mesmo! – estão lá para explorarem as mulheres. Até mesmo um simpático chinês a la Sr. Miyagi se mostra um aproveitador das personagens femininas.

Ohhhhh, eu vivo num mundo de masculinidade tóxica!

Num mundo em que nenhum homem presta, joga-se no ralo a luta pela igualdade de direitos que é o objetivo principal do verdadeiro movimento feminista e cria-se uma estúpida inversão de valores que só consegue despertar antipatia pela causa – e quem discordar disso, é rotulado como machista. Mulheres de verdade devem sentir vergonha dessa postura e mais ainda de um filme que em nada acrescenta à suas conquistas. Nem mesmo a trilha sonora, que geralmente costuma salvar uma produção ruim, tem canções marcantes. Nesse sentido, Esquadrão Suicida dá de dez a zero.

Empoderadas, não! Desqualificadas.

Com tudo isso, a melhor classificação para Aves de Rapina é dada pelo destino do diamante, no final da história. Trata-se da mais perfeita autocrítica onde um “diamante” (o grupo de heroínas) vai parar… bem, sem spoilers! Mas calma, meninas: o ano de 2020 ainda tem Mulan (25/3), Viúva Negra (30/4) e Mulher-Maravilha 1984 (4/6) para mostrar o verdadeiro valor feminino. Com Aves de Rapina, a única coisa que conseguiram foi provar que, em se tratando de adaptações de histórias em quadrinhos, a Warner/DC dá um passo para a frente e três para trás. Dá até saudades da série de TV…

Cotação Raio X:

Opinião: Frozen II

O ano de 2020 mal começou e já temos uma superestreia para curtir nos cinemas, depois de seis anos de espera. Frozen II (idem, 2019) estreou nos Estados Unidos em novembro, mas a Disney resolveu atrasar o lançamento no Brasil para depois das festas, pegando o período das férias escolares, para que os pais possam aproveitar melhor com a garotada. Desta vez, Elsa vai em busca de suas origens, numa trama repleta de magia e muitas músicas.

Hora da história para dormir

Tudo começa na infância de Elsa e Anna, quando seus pais lhes conta uma história onde o rei de Arendelle, antepassado da família, se desentende com o líder de uma tribo nativa da floresta encantada, fazendo com que os espíritos do local – baseados nos quatro elementos – bloqueiem o acesso de qualquer um, isolando a floresta do mundo externo. Muitos anos depois, já como rainha de Arendelle, Elsa começa a ouvir uma voz misteriosa que só ela escuta e decide ir atrás de respostas para restaurar a paz no reino e salvá-lo da destruição.

Rumo ao desconhecido

Para isso, ela deve penetrar na floresta encantada e ajudar a libertar o quinto espírito, que é o único capaz de descobrir o que realmente provocou o desentendimento entre os reis e isolou a floresta do resto do mundo. Já bem à vontade com seus poderes congelantes, a rainha embarca numa jornada rumo ao desconhecido, acompanhada de sua irmã e dos amigos Olaf, Kristoff e a rena Sven. Embora a temática pareça bem mais sombria que no primeiro filme, não se engane: a Disney repetiu a façanha e criou uma aventura divertida, cheia de músicas-chiclete e o encantamento que é tão comum ao estúdio.

Magia como só a Disney sabe fazer

O filme tem, sim, os seus clichês, inclusive nos clipes musicais, que parecem uma repetição dos anteriores – a cena com a música Vem Mostrar é bem similar à cena de Let it Go, com a exibição de poderes de Elsa, troca de vestido e o clímax explosivo (lindo de se ver, sem qualquer dúvida!) – mas a resolução da história foge aos padrões e deixa em aberto sobre uma futura continuação. Há também novos personagens que, certamente, vão agradar a criançada, principalmente o fofíssimo iguana que é o avatar do Espírito do Fogo e tem potencial gigantesco para virar brinquedo.

Canções interpretadas por astros pop ganharam até cartazes exclusivos.

A trilha sonora também é um elemento importante na história, que funciona como um elemento narrativo, muito mais do que como mera diversão. As novas canções Into the Unknown, Lost in The Woods e All is Found ganharam versões interpretadas por artistas de renome – respectivamente Panic! At the Disco, Weezer e Kacey Musgrave – e certamente irão se tornar os novos hits da garotada, em suas versões traduzidas: Minha Intuição, Não sei onde Estou e Se Encontrar. 

Anna salta para o ranking das maiores bilheterias do ano.

Como foi dito, Frozen II foi lançado em novembro nos Estados Unidos e fechou 2019 como a terceira maior bilheteria do ano, acumulando um total de US$ 1,228 bilhão. Com o faturamento do Brasil, o longa animado deve empatar ou superar a bilheteria de seu antecessor, na casa de US$ 1,274 bilhão – que se tornou o filme mais visto do ano e derrubou do trono o até então imbatível O Rei Leão (1994) que ocupava o primeiro lugar no ranking das maiores bilheterias da Disney.  Embora seja inferior a Frozen (2013), a continuação manteve o padrão das produções do estúdio e já inaugura 2020 como um dos filmes mais lucrativos do ano.

Frozen II é um deslumbre visual que a criançada vai amar!

O Rei Leão retomou seu posto como maior bilheteria da Disney com a versão live-action (US$ 1, 656 bilhão) e dificilmente Frozen II quebrará esse recorde. Mas, independentemente disso, a animação consolida o novo perfil das princesas da Disney, fortes e independentes, que conseguem, sozinhas, governar seus reinos e, de quebra, acumular muitos dólares para os cofres do estúdio. Definitivamente, de fria, Elsa não tem nada.

Cotação Raio X: