Opinião: Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica

Após quase três anos sem uma produção original (A última foi Viva – A Vida é uma Festa, em 2017. As posteriores, Incríveis 2 e Toy Story 4, são continuações), a Pixar lança o filme Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020), que conta a história dos elfos Ian e Barley, que vivem num mundo de fantasia repleto de criaturas fantásticas – fadas, dragões, sereias, centauros – onde a magia foi extinta há muitos anos, transformando o local num mundo com a rotina bem parecida com a nossa.

Um presente de aniversário é o pivô de toda confusão.

Barley, o irmão mais velho, manteve acesa a chama da magia por meio de seu jogo de RPG, mas não é levado muito a sério pela família nem pelo padrasto, Colt Branco, um centauro policial que considera o enteado um encrenqueiro. Já Ian, o mais jovem, é tímido e avesso a confusões. Sente muita falta do pai, de quem ele mal se lembra, pois morreu quando o garoto ainda era muito jovem. No aniversário de 16 anos de Ian, sua mãe lhe entrega um presente deixado pelo pai para ser entregue quando tivesse maturidade suficiente: um cajado e uma joia que o ativa magicamente.

Um feitiço mal feito traz apenas meio pai para conviver com os jovens.

Com o artefato, eles conseguiriam trazer o pai de volta para viver com eles durante 24 horas, mas algo dá errado e eles só realizam metade do feitiço. Para concluir o encanto, a dupla precisa partir em busca de uma nova joia, oculta em algum lugar distante, enfrentando inúmeros perigos na jornada. É o pretexto para muitas confusões, aventuras e, claro, bom humor, como pede toda produção animada da Disney/Pixar. Dirigido por Dan Scanlon, a história foi baseada na própria infância do diretor, que perdeu seu pai muito cedo e sempre desejou conhecê-lo e se imaginava como ele seria. Por isso, leve seu lenço, pois o final reserva muita emoção.

Gwinever, a van de Barley, é onde a dupla vive grandes aventuras.

A trama começa num ritmo frenético, com diálogos tão acelerados que, por vezes, é até difícil acompanhar – bem no pique das crianças hiperativas de hoje. Conforme a trama se desenrola, a história puxa o freio e passa a ficar mais lenta, ganhando um tom mais emotivo e características de road movie, com belas paisagens para apreciar. O relacionamento entre os irmãos também passa a ser menos conflituoso e se torna mais colaborativo. Afinal, o foco da trama é exatamente valorizar a relação familiar e a importância de se aproveitar os momentos juntos. Não à toa, o título original – Onward – significa “em frente”, “adiante”.

Ciclope lésbica

Antes de ser lançado, o filme já teve uma polêmica por conta de uma personagem que seria a primeira personagem lésbica lançada pela Disney, representada por uma policial. De fato, ela existe, mas, como de praxe, o barulho a respeito de sua homossexualidade foi puro alarmismo para criar antipatia à personagem. O “lesbianismo” se resume a uma única frase: “a filha da minha namorada”, que até passa despercebida no contexto da história. Portanto, senhores pais, podem levar suas crianças despreocupadamente para ver o filme, que nenhuma delas será mal influenciada pela policial degenerada.

Dublagem heroica

A versão original conta com um extra: a voz de Ian é feita por Tom Holland (o Homem-Aranha, do Universo Cinematográfico da Marvel) enquanto que Barley é dublado por Chris Pratt (o Senhor das Estrelas, de Guardiões da Galáxia). Embora tenha sido noticiado que o filme seria precedido de um curta-metragem dos Simpsons, na sessão em que participamos, o mesmo não foi exibido. Uma falta que realmente se fez sentir, pois os curta-metragens que precedem os filmes da Pixar sempre são um show à parte e já fazem valer o ingresso.

Tudo que Ian queria era passar um dia com o pai. As duas metades.

Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica é uma animação com clima positivo e alto astral, que passa a lição de acreditar em si mesmo e aproveitar os momentos, pois a vida não volta atrás. E, claro, a magia deve permanecer sempre viva no coração. Mais um acerto da Pixar, com personagens carismáticos que vão apaixonar crianças e adultos.

Cotação Raio X:

 

Opinião: Aves de Rapina

O ano de 2020 é o ano das heroínas no cinema. Já começou com a princesa Elsa em busca de suas origens em Frozen II em janeiro e continua a representatividade feminina este mês, na estreia da semana: Aves de Rapina – Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey, 2020). O longa-metragem traz a atriz Margot Robbie de volta ao papel da eterna namorada do Coringa após sua estreia em Esquadrão Suicida (2016), no qual roubou a cena com seus diálogos insanos e bem-humorados.

Estreia das Aves de Rapina nos quadrinhos, em 1995.

Considerando a quantidade de problemas do longa-metragem de estreia da Arlequina, o estúdio optou por investir no carisma da atriz e da personagem em um filme estrelado por ela, mesmo que divida a cena com outra superequipe de segundo escalão – as Aves de Rapina. Para quem não sabe, a equipe foi criada em 1995, por Chuck Dixon (roteiros) e Gary Frank (desenhos) para o especial Black Canary/Oracle: Birds of Prey. No início, era formada apenas pela Canário Negro e a hacker Oráculo – a ex-Batgirl Bárbara Gordon, que ficou presa a uma cadeira de rodas após ser baleada pelo Coringa no clássico A Piada Mortal (1988), de Alan Moore.

Aves de Rapina ganharam até uma série de TV.

Já que não podia mais combater o crime fisicamente, a jovem passou a agir fornecendo informações privilegiadas que conseguia invadindo o sistema de computadores de Gotham. Como as HQs das heroínas caíram no agrado do público, elas ganharam seu próprio título a partir de 1999. A partir da edição 57 (2003) a dupla ganhou o reforço de Helena Bertinelli, a Caçadora, uma anti-heroína que viu sua família ser assassinada pela máfia quando criança e jurou vingança, tornando-se uma vigilante. Em 2002, as heroínas ganharam uma série de TV que pecou pela pobreza de roteiros e durou apenas uma temporada com 13 episódios.

“Como assim, ‘tentaram copiar o meu filme’??”

A Warner aproveitou a popularidade da Arlequina para apresentar a nova equipe – ligeiramente diferente no cinema, com a detetive Renne Montoya no lugar da Oráculo – ao seu universo cinematográfico, ao mesmo tempo em que atraía o público feminino num filme estrelado exclusivamente por mulheres com uma pitada de humor insano, copiando a fórmula que deu tão certo em Deadpool (2016). Tinha tudo para dar certo, se fosse bem executado. “SE”, porque não é. Como de praxe, o estúdio ainda não sabe o que fazer com os super-heróis da DC Comics e o resultado é mais uma produção dispensável, com cenários pobres, personagens rasos e piadas que não funcionam em momento algum, que já começa ruim a partir do seu título, extenso demais.

O Coringa de Jared Leto não está no filme.

O filme começa com Arlequina narrando sua infância para explicar os eventos que levaram ao rompimento de seu romance com o Coringa (Jared Leto, que interpretou o Palhaço do Crime em Esquadrão Suicida, não participa do filme devido à rejeição do público à sua encarnação do vilão. Além disso, segundo consta, Leto não gostou da Warner por ter feito o filme solo do palhaço com Joaquin Phoenix, o que estremeceu suas relações com o estúdio). A partir daí, na condição de ex e sem a proteção do seu “pudinzinho”, passa a ser perseguida pelos criminosos que têm os mais diversos motivos para eliminá-la.

“Sério, não sei o que viemos fazer nesse filme…”

Ao mesmo tempo, uma misteriosa vigilante chamada Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) inicia uma cruzada contra os mafiosos de Gotham, matando-os violentamente, o que chama a atenção da detetive Reneé Montoya (Rosie Perez). Ela passa a investigar o caso, tendo como informante a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell), a Canário Negro, que também é motorista particular de Roman Sionis (Ewan McGregor), um chefão do crime conhecido pela alcunha de Máscara Negra. Este, por sua vez, está atrás de um diamante que dá acesso à fortuna da família Bertinelli, mas que foi roubado pela adolescente rebelde Cassandra Cain (Ella Jay Basco).

Um diamante roubado provoca toda ação.

Fechando o círculo, Cassandra é vizinha de Dinah, que passa a protegê-la, mas a Arlequina faz um acordo com o Máscara Negra para capturar a garota e trazer-lhe o diamante em troca de ter sua vida poupada. Não bastasse o roteiro confuso, cheio de reviravoltas, com ritmo frenético e diálogos ágeis, a trama ainda é permeada de vários flashbacks narrados pela voz infantilizada da ex do Coringa, embolando ainda mais o entendimento da história.

“E eu que pensava que meu fundo do poço tinha sido Em Star Wars…”

Preocupada em enfiar um diálogo engraçadinho a cada cena, a roteirista Christina Rodson esqueceu de desenvolver a personalidade de cada personagem, um detalhe fundamental em qualquer filme, mas principalmente no universo do Batman, onde os vilões são caracterizados por seus perfis psicológicos. O insano Victor Zsasz (Chirs Messina), por exemplo, é um psicopata que sente prazer em mutilar o próprio corpo a cada morte provocada e, no filme, esse perfil é mostrado superficialmente, relegando o vilão ao papel de leão-de-chácara do Máscara Negra, este mesmo, um personagem afetado que “odeia mulheres”, mas tem um carinho especial por sua motorista Dinah.

Para o caso da Warner resolver fazer uma continuação, disponibilizamos as onomatopeias para uso no filme. De nada!

A impressão que dá é que o orçamento de US$ 84,5 milhões foi todo gasto no irritante recurso de apresentar, a cada novo personagem, o nome e a motivação deles em matar a Arlequina. O investimento poderia ter sido voltado para melhorar os cenários, constrangedores de tão pobres. O clímax da história acontece num parque de diversões que mais se parece com um terreno baldio com um único prédio no meio, onde a ação acontece. Além disso, as lutas parecem saídas do seriado do Batman dos anos 1960, onde os bandidos esperam sua vez para bater nos heróis. Só faltou mesmo as onomatopeias. Na série, pelo menos, a gente sabia que aquilo era proposital.

Vergonha alheia: a cadeia é um galpão com gaiolas ao invés de celas.

Como se não fosse suficiente o filme ser repleto de situações absurdas – como uma invasão à delegacia onde Arlequina, sozinha, domina dezenas de policiais armados e treinados que não deram um tiro sequer; uma cadeia que mais parece um galpão com gaiolas ao invés de celas e até uma cena que faz apologia à cocaína – a diretora Cathy Yan ainda fez questão de destacar sua visão feminista radical: todos os homens do filme – todos mesmo! – estão lá para explorarem as mulheres. Até mesmo um simpático chinês a la Sr. Miyagi se mostra um aproveitador das personagens femininas.

Ohhhhh, eu vivo num mundo de masculinidade tóxica!

Num mundo em que nenhum homem presta, joga-se no ralo a luta pela igualdade de direitos que é o objetivo principal do verdadeiro movimento feminista e cria-se uma estúpida inversão de valores que só consegue despertar antipatia pela causa – e quem discordar disso, é rotulado como machista. Mulheres de verdade devem sentir vergonha dessa postura e mais ainda de um filme que em nada acrescenta à suas conquistas. Nem mesmo a trilha sonora, que geralmente costuma salvar uma produção ruim, tem canções marcantes. Nesse sentido, Esquadrão Suicida dá de dez a zero.

Empoderadas, não! Desqualificadas.

Com tudo isso, a melhor classificação para Aves de Rapina é dada pelo destino do diamante, no final da história. Trata-se da mais perfeita autocrítica onde um “diamante” (o grupo de heroínas) vai parar… bem, sem spoilers! Mas calma, meninas: o ano de 2020 ainda tem Mulan (25/3), Viúva Negra (30/4) e Mulher-Maravilha 1984 (4/6) para mostrar o verdadeiro valor feminino. Com Aves de Rapina, a única coisa que conseguiram foi provar que, em se tratando de adaptações de histórias em quadrinhos, a Warner/DC dá um passo para a frente e três para trás. Dá até saudades da série de TV…

Cotação Raio X:

Opinião: Frozen II

O ano de 2020 mal começou e já temos uma superestreia para curtir nos cinemas, depois de seis anos de espera. Frozen II (idem, 2019) estreou nos Estados Unidos em novembro, mas a Disney resolveu atrasar o lançamento no Brasil para depois das festas, pegando o período das férias escolares, para que os pais possam aproveitar melhor com a garotada. Desta vez, Elsa vai em busca de suas origens, numa trama repleta de magia e muitas músicas.

Hora da história para dormir

Tudo começa na infância de Elsa e Anna, quando seus pais lhes conta uma história onde o rei de Arendelle, antepassado da família, se desentende com o líder de uma tribo nativa da floresta encantada, fazendo com que os espíritos do local – baseados nos quatro elementos – bloqueiem o acesso de qualquer um, isolando a floresta do mundo externo. Muitos anos depois, já como rainha de Arendelle, Elsa começa a ouvir uma voz misteriosa que só ela escuta e decide ir atrás de respostas para restaurar a paz no reino e salvá-lo da destruição.

Rumo ao desconhecido

Para isso, ela deve penetrar na floresta encantada e ajudar a libertar o quinto espírito, que é o único capaz de descobrir o que realmente provocou o desentendimento entre os reis e isolou a floresta do resto do mundo. Já bem à vontade com seus poderes congelantes, a rainha embarca numa jornada rumo ao desconhecido, acompanhada de sua irmã e dos amigos Olaf, Kristoff e a rena Sven. Embora a temática pareça bem mais sombria que no primeiro filme, não se engane: a Disney repetiu a façanha e criou uma aventura divertida, cheia de músicas-chiclete e o encantamento que é tão comum ao estúdio.

Magia como só a Disney sabe fazer

O filme tem, sim, os seus clichês, inclusive nos clipes musicais, que parecem uma repetição dos anteriores – a cena com a música Vem Mostrar é bem similar à cena de Let it Go, com a exibição de poderes de Elsa, troca de vestido e o clímax explosivo (lindo de se ver, sem qualquer dúvida!) – mas a resolução da história foge aos padrões e deixa em aberto sobre uma futura continuação. Há também novos personagens que, certamente, vão agradar a criançada, principalmente o fofíssimo iguana que é o avatar do Espírito do Fogo e tem potencial gigantesco para virar brinquedo.

Canções interpretadas por astros pop ganharam até cartazes exclusivos.

A trilha sonora também é um elemento importante na história, que funciona como um elemento narrativo, muito mais do que como mera diversão. As novas canções Into the Unknown, Lost in The Woods e All is Found ganharam versões interpretadas por artistas de renome – respectivamente Panic! At the Disco, Weezer e Kacey Musgrave – e certamente irão se tornar os novos hits da garotada, em suas versões traduzidas: Minha Intuição, Não sei onde Estou e Se Encontrar. 

Anna salta para o ranking das maiores bilheterias do ano.

Como foi dito, Frozen II foi lançado em novembro nos Estados Unidos e fechou 2019 como a terceira maior bilheteria do ano, acumulando um total de US$ 1,228 bilhão. Com o faturamento do Brasil, o longa animado deve empatar ou superar a bilheteria de seu antecessor, na casa de US$ 1,274 bilhão – que se tornou o filme mais visto do ano e derrubou do trono o até então imbatível O Rei Leão (1994) que ocupava o primeiro lugar no ranking das maiores bilheterias da Disney.  Embora seja inferior a Frozen (2013), a continuação manteve o padrão das produções do estúdio e já inaugura 2020 como um dos filmes mais lucrativos do ano.

Frozen II é um deslumbre visual que a criançada vai amar!

O Rei Leão retomou seu posto como maior bilheteria da Disney com a versão live-action (US$ 1, 656 bilhão) e dificilmente Frozen II quebrará esse recorde. Mas, independentemente disso, a animação consolida o novo perfil das princesas da Disney, fortes e independentes, que conseguem, sozinhas, governar seus reinos e, de quebra, acumular muitos dólares para os cofres do estúdio. Definitivamente, de fria, Elsa não tem nada.

Cotação Raio X:

Crítica: A Família Addams (2019)

Que melhor maneira de celebrar o Halloween do que estreando o filme da família mais apavorante e divertida da História? Chega hoje aos cinemas, o longa-metragem A Família Addams (The Addams Family, 2019), que traz de volta Gomez, Mortícia, Tio Chico, Vandinha, Feioso, Tropeço e Mãozinha em sua primeira animação por computador feita para os cinemas. O estilo lembra muito o de A Noiva Cadáver (Corpse Bride, 2005), dirigido por Tim Burton, que, curiosamente, foi convidado para dirigir uma versão em stop-motion da Família Addams em 2010, quando a Illumination Entertainment adquiriu os direitos dos personagens. Infelizmente, a produção foi cancelada.

Diversão num estalar de dedos.

No novo filme, os diretores Greg Tiernan e Conrad Vernon (que, além de dirigir, também faz a voz de Tropeço), optaram por começar do zero e apresentar os Addams ainda em formação: a trama começa com o casamento de Mortícia (voz de Charlize Theron) e Gomez (voz de Oscar Isaac, o piloto Poe Dameron da nova trilogia Star Wars). Os hábitos, digamos, “incomuns” do casal e seus familiares fazem com que sejam expulsos do bairro pela população. Assim, eles decidem se isolar num antigo hospício abandonado e mal assombrado, no topo de uma montanha, bem longe da convivência humana. No caminho, conhecem Tropeço e o adotam como mordomo.

Este castelo… hã… pitoresco… é o lar dos Addams.

Ali o casal viveu durante muitos anos, construiu sua família e viveu suas bizarrices em paz até que Margaux (voz de Allison Janney), uma designer e apresentadora de um reality show que reforma as residências, implica com o visual do castelo e decide restaurá-lo a fim de valorizar os imóveis da região. O contato com a espalhafatosa designer desperta em Gomez o interesse em voltar à civilização e eles até colocam Vandinha (voz de Chloë Grace Moretz, a Hit Girl de Kick Ass) na escola, enquanto preparam o ritual de passagem para a adolescência de Feioso, o filho mais novo (dublado por Finn Wolfhard, de Stranger Things).

Vandinha vai à escola… e claro que isso não acaba bem.

O evento familiar atrai monstros de todos os tipos para a cidade, que vieram prestigiar a passagem do garoto, ao mesmo tempo em que Vandinha faz amizade com Parker (Elsie Fisher), a filha de Margaux, com influências que repercutem em ambas as famílias, trazendo a tona os tradicionais conflitos adolescentes. O elenco de criaturas estranhas se completa com a presença da simpática Mãozinha, Tio Chico (Nick Kroll), Vovó (Bette Midler) e o peludo Primo Coisa, cuja linguagem estranha é feita pelo rapper Snoop Dogg, que também faz parte da trilha sonora do filme, com a música My Family.

Referências musicais: Tropeço e Mãozinha numa cena hilária com várias músicas clássicas.

Falando em trilha sonora, o filme tem o mérito de ter preservado a canção-tema The Addams Family que remete aos simpáticos monstros desde a série de TV de 1964 e dos filmes estrelados por Raul Júlia e Anjelica Houston em 1991 e 1993. A trama traz várias referências a clássicos do terror como It – A Coisa, Frankenstein e o Fantasma da Ópera, entre outros, além de casar perfeitamente o lado medieval dos Addams (com guilhotinas, bestas e catapultas) e a modernidade dos celulares, redes sociais e reality shows. É exatamente aí que está a graça: em mostrar, de forma bem divertida, que o antigo e o moderno podem conviver harmoniosamente, respeitando-se as manias e estilos de cada um.

Margaux quer uma cidade perfeita… mas a Família Addams está no caminho.

Com um investimento de US$ 40 milhões, o filme aproveita a festa do Halloween para atrair as crianças, diferentemente do que geralmente ocorre na data, quando os estúdios investem em produções de terror. A Família Addams, ao contrário, segue pela vertente do “terrir” com uma animação leve, divertida e perfeita para comemorar o Halloween em família. Em tempos de politicamente correto, não deixa de ser surpreendente que os personagens mantenham seu apelo, apesar das frases carregadas de humor negro, atividades macabras e violentas (Vandinha vive inventando formas de matar o irmão mais novo). Talvez seja pelo fato das pessoas entenderem que eles não se devem ser levados a sério e tudo não passa de uma grande piada.

Criador e criatura: Charles Addams diante de um painel pintado por ele na parede de um hotel em Long Island.

Um pouco de História: a Família Addams foi criada pelo cartunista Charles Addams em 1937, para uma série de painéis de quadrinhos publicados na revista The New Yorker. O sucesso levou os personagens para a TV, numa série em live action entre 1964 e 1966. Posteriormente, estrelou duas séries animadas, duas produções para o cinema e um filme feito para TV em 1998. Pela primeira vez, chega aos cinemas em um longa-metragem em animação feita por computador.

Cotação Raio X:

 

Crítica: Hebe – A Estrela do Brasil

No dia 29 de setembro de 2012, o Brasil perdeu sua maior apresentadora: Hebe Camargo morreu, aos 83 anos, após meses de luta contra um câncer no peritônio e às vésperas de seu retorno ao SBT, emissora que foi sua casa durante 25 anos. Nada mais justo que o filme Hebe – A Estrela do Brasil, estrear próximo do sétimo aniversário de sua morte. Com Andréa Beltrão no papel da apresentadora, o longa merece dois alertas: primeiro, que não se trata da história da vida de Hebe Camargo, mas apenas um curto período dela, um “recorte”, nas palavras da própria atriz. Segundo, que o filme traz uma estrela sem brilho. Em outras palavras, a Hebe humana, cheia de problemas e defeitos, e não a perua glamourizada da TV.

Hebe, sempre “linda de viver”

Claro, não faltam momentos de luxo, porque Hebe, por si só, era uma presença iluminada onde quer que estivesse. Mas poucas pessoas poderiam imaginar a apresentadora bêbada, em tórridas cenas de amor com o marido Lélio Ravagnani (Marco Ricca) ou mesmo em acaloradas discussões que terminaram na separação do casal, após dez anos de matrimônio – mesmo que depois eles voltassem a viver juntos e apaixonados por mais 19 anos.

Reacionária, Hebe gostava de provocar.

A história começa na metade da década de 1980 e final do regime militar, durante os últimos dias da apresentadora em seu programa na Rede Bandeirantes. Provocadora, Hebe irritava os censores da ditadura, que a consideravam subversiva e “defensora do homossexualismo” em seu programa ao vivo. Por conta disso, queriam transformar a atração em um programa gravado, a fim de controlar a língua afiada da apresentadora. Hebe não se fez de rogada e trouxe, como convidadas, a transsexual Roberta Close (Renata Bastos) e a desbocada Dercy Gonçalves (Stella Miranda) no mesmo programa. A fórmula explosiva, claro, desandou: Dercy exibiu os seios no ar para provar que “mulher de verdade era ela”, enquanto Hebe se acabava de rir.

Hebe em seu figurino de estreia no SBT: perfeição nos detalhes.

Nos bastidores, Walter Clark (Danilo Grangheia), produtor do programa, tentava apagar o incêndio, mas sem sucesso: o programa foi censurado. Inflexível em sua decisão de fazer ao vivo, Hebe pediu demissão no ar, jogando seu microfone no chão, assim que recebeu a notícia. Depois de um tempo fora do ar, Sílvio Santos (Daniel Boaventura) a leva para o SBT, onde estreou em março de 1986. Andréa Beltrão está divina em sua interpretação, conseguindo até mesmo imitar o timbre de voz de Hebe. Autorizada pela família da apresentadora, Andréa utiliza algumas joias e figurinos que pertenceram a Hebe, dando ainda mais autenticidade à sua interpretação.

Hebe e Roberto: Paixão assumida que se reflete na trilha sonora

O filme faz uso da licença poética para incluir, no período abordado, fatos conhecidos da vida e carreira de Hebe Camargo de outras épocas – como, por exemplo, a participação de Roberto Carlos (Felipe Rocha) no programa de estreia, algo que nunca aconteceu, além de um tradicional “selinho” no cantor (a apresentadora só tornaria isso sua marca registrada bem depois, com a cantora Rita Lee) – bem como a amizade com Lolita Rodrigues (Karine Telles) e Nair Bello (Cláudia Missura), a paixão pelo filho Marcello (Caio Horowicz) e os ciúme doentio de Lélio.

Andreia Beltrão dá um show de interpretação

O foco da história, contudo, é a vida pessoal da estrela, que pouco tinha de glamour, e na sua luta contra a Censura. O longa apresenta uma mulher forte e determinada, mas também muito humana, capaz de enfrentar a agonizante ditadura militar sem meias palavras ou caminhar entre os corredores abarrotados de um hospital público para visitar o cabeleireiro gay Carlucho (Ivo Müller), que morria de AIDS. Sempre utilizando a telinha da TV como palanque para defender a população sem voz. 

Diante das câmeras ou fora delas, Hebe sempre falou o que pensava, sem meias palavras.

Talvez aí esteja o grande erro do filme: ao novelizar a vida de Hebe, a ficção se mistura com a realidade e confunde o espectador. Que Lélio era ciumento? Ok. Mas que esse ciúme era tanto a ponto dele tentar estuprar a apresentadora num momento de embriaguez? Duvidoso. Além disso, a separação aconteceu ainda na época da Bandeirantes e não do SBT. Ao apresentar esses detalhes pessoais, o roteiro descontextualiza a história e abusa das licenças poéticas, alterando fatos. Ao final dos créditos, o alerta “Esta é uma obra de ficção inspirada na vida da apresentadora Hebe Camargo” deixa claro que nem tudo ali é realidade, mas poucos ficam na sala para ler. Isso sem mencionar a impressão que o filme passa de ser uma alfinetada no atual governo. Afinal, com uma vida tão cheia de momentos marcantes e lutas políticas, porque a história focaria apenas na batalha de Hebe contra a censura?  

Menudo faz parte da trilha sonora

A trilha sonora também foi escolhida cuidadosamente para passar uma mensagem política. O filme já começa com o grupo Menudo cantando “Não se Reprima” (Não segure muito seus instintos porque isso não é natural…), enquanto os censores arquitetavam contra a apresentadora, e continua com pérolas como “Símbolo Sexual” e “Cama e Mesa” (Roberto Carlos), “Exagerado” (Cazuza) e “Eu Gosto é de Mulher” (Ultraje a Rigor), todas com o tom de romantismo e rebeldia que sempre foi a cara da estrela do SBT.

Hebe toma café da manhã com o marido Lélio e o filho Marcello. Vida familiar não tão glamourosa.

Por se tratar de um “recorte” da vida de Hebe, o filme termina “no ar”, mas deixa sua mensagem. Hebe nunca foi uma mulher submissa e, nem por isso, deixou de ser feminina. A canção que encerra o filme deixa bem claro que a vida da apresentadora nunca foi um conto de fadas e tampouco uma “graciiiiinha”, mas nem por isso ela deixou de ser vitoriosa. Algo que, sinceramente, falta nas gerações atuais, acostumadas a receber tudo de bandeja e sem esforço. Hebe é a prova viva de que o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

Cotação Raio X:

 

Crítica: Rambo – Até o Fim

Já faz 11 anos desde que o último filme do Rambo estreou nos cinemas e 37 desde que a franquia começou, lá em 1982. Difícil imaginar que, aos 73 anos, o ator Sylvester Stallone ainda tenha pique para um filme de ação nos moldes de Rambo. Mas ele teve – claro, com os limites exigidos pela idade. Rambo – Até o Fim (Rambo: Last Blood, 2019) estreia hoje nos cinemas, trazendo de volta o boina verde mais amado dos cinemas, numa produção explosiva e sangrenta.

Gustavo: Nerd, amante de trash movies e peregrino de uma galáxia muito, muito distante.

Nosso parceiro Gustavo Daher (que também escreve para o site O Pastel Nerd) foi conferir a produção e traz suas impressões sobre a trama que mostra um Rambo mais violento do que nunca e provando que é capaz de qualquer coisa para defender a honra da família. Com a palavra, o Gustavo!

“Acho que vou convidar o Schwarzenegger para formar uma dupla sertaneja: Arnoldinho e Sylvesteró”

Após os eventos de Rambo IV (no original, chamado simplesmente de Rambo, 2008), nosso protagonista retorna ao lar e começa uma vida normal, cuidando do rancho da família no Arizona. Com a morte de seus pais, ele tem apenas a companhia de Maria (Adriana Barraza) empregada da família, e sua neta, Gabrielle (Yvette Monreal), que tem uma relação afetiva de pai e filha com o ex-soldado. Contrariando o conselho de Rambo, Gabrielle vai atrás do pai que a abandonou quando criança e atravessou as fronteiras do país, estabelecendo-se no México.

Gabrielle vai em busca do pai vagabundo.

Obviamente, as coisas não saem do jeito que ela esperava e a jovem é sequestrada por marginais, obrigando Rambo a voltar à ação e resgatar sua quase-filha. E é até aqui que eu conto sobre a história, para não entrarmos no território dos spoilers. Contudo, é importante dizer que vemos Stallone chutando o balde e entregando mais uma vez um excelente e violentíssimo filme da franquia. Assim como o filme anterior, a mensagem é que o mundo realmente está cheio de maldade e que não devemos ser tão inocentes e acreditar que tudo é um mar de rosas.

Gavião Arqueiro? Pffft… amador!!

Um paralelo que podemos fazer é com o filme Rocky Balboa (2006), que mostrava o personagem tendo que lidar com uma vida normal e com um desejo interno de ainda lutar boxe. A mesma temática de “animal selvagem preso” ocorre aqui, com Rambo tomando remédios para controlar seu instinto de guerreiro. E quando Rambo se livra das amarras e resolve fazer o que faz de melhor, é melhor sair da frente e se esconder.

Rambo faz o que sabe melhor: metralhar os inimigos.

O diretor Adrian Grunberg entrega um belo filme de ação, com uma excelente atuação de Sylvester Stallone e com uma grande dose de violência. Esteja preparado para ver efeitos sangrentos que nem os mais agressivos filmes de terror atualmente mostram. Um filme imperdível para os fãs do personagem e da franquia, principalmente porque, segundo informações oficiais, este é o último filme e encerra a saga do truculento boina verde. Pelo menos, na pele de Sylvester Stallone, porque, obviamente, o personagem ainda pode voltar, interpretado por outro ator (Aliás, há um projeto indiano para um remake do primeiro filme, com estreia para 2020. Será que rola? O tempo dirá.)

Cotação Raio X:

Dica Literária: Diário de Rowley – Um Garoto Supimpa

O livro O Diário de um Banana, escrito pelo cartunista Jeff Kinney, foi lançado em 2007 e teve um sucesso estrondoso nos Estados Unidos, sendo considerado o livro mais vendido no ano de lançamento, permanecendo 114 semanas na lista do New York Times. Tornou-se uma franquia de sucesso e já foi traduzido em mais de 28 línguas ao redor do mundo. No total, já foram lançados 13 livros, mais duas edições especiais (Faça você Mesmo e O Livro do Filme), com o 14º. volume a caminho, além de virar uma franquia de filmes com quatro longas-metragens.

Quem nunca teve aquele amigão dos tempos de escola?

Com tanta popularidade, até que demorou bastante para a série lançar seu primeiro “derivado”. O livro Diário de Rowley – Um Garoto Supimpa (V&R Editora) é protagonizado pelo melhor amigo de Greg (a estrela dos livros Diário de um Banana), que decidiu sair da sombra de seu amigo e fazer o seu próprio diário. O problema é que Rowley é um tanto quanto infantil e inocente, perante a sagacidade de Greg, que acaba revertendo a situação e convencendo o garoto a escrever o diário onde ele continua sendo secundário e Greg é a estrela.

O traço está diferente… porque é Rowley quem “desenha”.

A obra tem o mesmo bom humor da série do Banana, com a narrativa sob o ponto de vista de Rowley e as ilustrações sob o traço do garoto (por isso, não estranhem um Greg um pouco “diferente”). O divertido é que o autor teve o cuidado de incluir fatos que os leitores da série podem identificar, mas narrados sob outra perspectiva, além de muitos fatos inéditos. As confusões e trapalhadas dos personagens, porém, continuam as mesmas.

“Aí ele falou: ‘É um livro de memórias, não um diário!’ e me deu uma livrada.” Livrada merece essa falta de pontuação!

Infelizmente, o livro peca – e bem grave, diga-se de passagem – na gramática. Narrado em discurso indireto, é constante a falta de vírgulas e aspas no texto e a impressão que dá é que tudo é proposital, como se fosse o estilo de Rowley escrever (como ele é uma criança, ainda não tem o conhecimento completo de regras gramaticais). No entanto, a desculpa não cola: sendo um livro voltado para o público infantil, existe a obrigação de trazer uma linguagem correta, pois até o Chico Bento, com sua fala “acaipirada”, emula o jeito de falar do personagem, mas a gramática do texto é impecável, só para citar um exemplo.

“Ah, é! Esqueci de dizer que também não coloquei a pontuação correta.”

A criança assimila o que lê e, num texto sem pontuação adequada, ela vai escrever também dessa forma. Não dá pra conceber um livro infantil que seja recheado de falha tão primária. Por conta disso, o prazer da leitura é diminuído, atrapalhando a imersão no texto e deixando de ser tão prazerosa quanto deveria. A expectativa é que, se houver um próximo volume, essa “linguagem” do Rowley seja melhorada (até porque, como personagem, ele é bem mais estudioso que o Greg, e este escreve corretamente). O livro Diário de Rowley – Um Garoto Supimpa pode ser encontrado nas livrarias ou comprado pelo site da V&R Editora (clique aqui).