Saído do Forno: O Grande Almanaque Disney

Em março, as revistas Disney trocaram de casa. Depois de 68 anos sendo publicadas ininterruptamente pela Editora Abril, a gaúcha Culturama, que já licenciava livros infantis da Disney, adquiriu os direitos de publicação também dos quadrinhos. Longe das bancas desde julho/2018, as edições zero de cinco revistas (Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Pateta e Aventuras Disney) chegaram às bancas e lojas de departamentos com excelente qualidade gráfica e histórias inéditas dos queridos personagens criados por Walt Disney. As revistas podiam ser adquiridas individualmente ou numa caixa exclusiva com todas juntas e uma cartela de adesivos de brinde.

Mensais podem ser compradas individualmente ou em caixa exclusiva.

Era óbvio que a Culturama não ia se limitar apenas a estes cinco títulos, mas ninguém esperava que fossem lançar uma novidade tão rápido. Durante o Festival Guia dos Quadrinhos 2019, a editora lançou O Grande Almanaque Disney, uma publicação bimestral, com 196 páginas, lombada quadrada e formato 15 cm X 21 cm, um pouco maior do que as revistas formatinho. Além da novidade, também foram lançadas as edições número 1 das cinco mensais além de livros infantis de vários personagens, com destaque para Dumbo, que ganhou um longa-metragem live action recentemente.

Grande almanaque tem formato maior em comparação com as mensais.

O evento foi a grande apresentação da Culturama para o público colecionador de São Paulo. Para coroar esse momento, a editora trouxe da Itália o roteirista e desenhista Francesco Guerrini, que passou praticamente todo evento autografando e desenhando personagens para os fãs, no stand montado logo na entrada do salão de eventos do Hakka Hotel, no bairro da Liberdade (SP). Além disso, o artista também participou de um bate-papo no domingo, falando sobre a nova casa dos quadrinhos Disney no Brasil.

O autor passou dois dias desenhando e autografando o Almanaque.

O Grande Almanaque Disney foi a coqueluche do evento, pois os fãs quiseram aproveitar a presença de Guerrini para pegar seu autógrafo na capa da revista, principalmente porque a história que abre a edição, foi escrita e desenhada por ele. Além disso, o almanaque também tinha uma entrevista com o autor onde ele fala de sua carreira e inspirações. A edição tem “apenas” quatro histórias (seis, se contarmos que duas delas são narradas em dois capítulos), mas são grandes aventuras, escolhidas a dedo.

Almanaque traz quatro grandes aventuras

Além da história de Guerrini, O Inversor Gravitacional, o almanaque também trouxe uma divertidíssima HQ dinamarquesa estrelada pelo Pato Donald (ou um ancestral dele, em A Volta do Pato Zampata), uma história curta da Maga Patalójika e uma mega-aventura do Mickey que ocupou nada menos do que metade do exemplar (Tudo isso Aconteceu Amanhã) e tem uma característica importante: é uma continuação de outra aventura publicada na revista Mickey 883 e 884 (2016), da Editora Abril. Nela, o Mickey do passado (de calças curtas) se une à sua versão de nossos dias para impedir o João Bafo-de-Onça de dominar o mundo.

Nós também pegamos nosso exemplar, com direito a ilustração da Margarida.

Impresso em papel offset e capa cartão com detalhes em verniz, O Grande Almanaque Disney estreou em grande estilo, com uma qualidade ímpar. As revistas número 1 também melhoraram em comparação com a anterior. Sinal que a Culturama tem grande investiu pesado no mercado de quadrinhos e tem interesse em conquistar um público fiel. Tanto que a editora gaúcha já tem até serviço de assinaturas  pelo telefone 0800 006 8520, com direito a cartão de sócio e brindes diferenciados. Esperamos que a editora continue mantendo a qualidade e traga muitas surpresas para os fãs. Os personagens Disney mereciam essa renovação.

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Saído do forno: Shazam!

Quem conhece a história de Shazam sabe as constantes brigas judiciais envolvendo a Fawcett Comics, editora que lançou o personagem, e a DC Comics, que acusou o herói de ser um plágio do Superman. Por conta disso, a DC (que adquiriu os direitos dos personagens da Fawcett na década de 1970) sempre tratou o Capitão Marvel (esse era o nome com que o personagem foi criado, antes da Marvel lançar o seu herói kree, em 1967) com certo desprezo. Ao longo dos anos, ele teve alguns bons momentos, mas a DC sempre o considerou um filho bastardo e nunca deu a ele o espaço e a importância que merecia.

Relegado a um papel secundário na revista da Liga da Justiça

Só mesmo isso para explicar a demora de seis anos para dar continuidade à fase iniciada em 2012 e que teve apenas um arco de histórias, essas mesmas, publicadas como “anexo” na revista da Liga da Justiça. Dá para imaginar a reunião na cúpula da editora: “Vamos publicar Shazam? Tá, dá lá umas dez páginas pra ele, no final da revista da Liga, só pra tapar o buraco e delimitar o território, dizendo que temos a propriedade do personagem.”

Acredite: essa é uma das melhores HQs que você vai ler recentemente.

Essa introdução, claro, é mera especulação deste que vos escreve, mas é fato que o arco iniciado em 2012 agradou em cheio e nunca teve uma continuação… até agora. Impulsionada pela chegada do filme do Queijão Vermelho (apelido carinhoso do ex-Capitão Marvel) nos cinemas, a editora decidiu retomar a saga do “mortal mais poderoso da Terra” em uma nova série mensal que chegou às comic shops com data de fevereiro. A trama começa exatamente onde o arco anterior terminou: “Com uma palavra mágica…” foi publicado em Justice League 7-21, com alguns hiatos entre as edições. No Brasil, foi lançado num encadernado capa dura pela Panini e é altamente recomendado como uma preparação para o filme que estreia em 4 de abril.

O encontro de Billy com o Mago é reprisado na nova revista.

Só para situar: o jovem Billy Batson foi adotado por um gentil casal que já tinha mais cinco filhos adotivos: Mary, Freddy, Eugene, Pedro e Darla. Inicialmente hostil com seus novos irmãos, Billy logo fez amizade com Freddy e o defendeu de um grupo de valentões na escola. Tornado a si mesmo um alvo, Billy fugiu do grupo de bullies no metrô e foi levado a um local místico chamado Pedra da Eternidade, onde ganhou os poderes de Shazam ao pronunciar a palavra mágica ensinada pelo Mago, guardião do local.

Família Faísca

Enquanto descobria (e se divertia, afinal ele é apenas um garoto crescido) seus novos poderes, Shazam defendeu a cidade do Adão Negro, um vilão superpoderoso que desejava tomar os poderes do herói para si. Mas ele não fez isso sozinho: o jovem herói compartilhou seus poderes mágicos com seus irmãos, criando uma Família Shazam. A nova revista Shazam! começa exatamente mostrando a rotina de Billy e seus irmãos enquanto descobrem mais sobre seus poderes mágicos e conciliam a luta contra o crime com os estudos e a vida em família.

Billy e Mary discutem sobre quem é o líder da equipe.

O tom das HQs é voltado para o humor, mostrando a simples decisão de escolher um codinome para cada herói ou quem é o líder do grupo se tornando uma discussão em família. Nessa brincadeira, o roteirista Geoff Johns vai enchendo o texto com referências à mitologia de Shazam e sobra até para a concorrente, com suas clássicas frases de efeito. A arte da nova revista Shazam! está a cargo de Dale Eaglesham, uma vez que o desenhista anterior, Gary Frank, estava envolvido com a minissérie Doomsday Clock e não pode assumir o trabalho. Mas ele não faz feio e mantém o mesmo nível artístico de seu predecessor.

HQ curta “mangalizada” conta a origem de Mary Marv… Shazam.

A revista tem mais uma HQ curta, em estilo mangá, desenhada por Mayo “Sen” Naito, que mostra como Mary foi adotada pelo casal Vasquez e seu primeiro contato com Freddy Freeman. A história também faz referência a outro personagem bastante importante na mitologia da Família Shazam, num resgate histórico bem divertido de Geoff Johns. Ainda não há previsão para a chegada desse material no Brasil, mas não deve demorar muito tempo, uma vez que o filme já está batendo à porta e a cronologia não está tão atrasada em relação à americana.

Tomando um refri enquanto espero Shazam chegar aos cinemas… e às bancas brasileiras.

Provavelmente, ainda no primeiro semestre deste ano poderemos ver as novas aventuras de Shazam em alguma revista de linha, quiçá em título próprio encadernado. Apesar do descaso da editora com o clássico super-herói, valeu a pena esperar seis anos para ver Shazam trovejar novamente nas páginas dos gibis. Com quase 80 anos de história, ele merece um tratamento digno.

Um pouco de história

Na edição de estreia, o herói joga um carro na parede. Não é plágio, é coincidência…

Criado por Bill Parker e C. C. Beck em 1940, o Capitão Marvel estreou na revista Whiz Comics 2 (Esta revista seria lançada com o título de Flash Comics e há um esboço do número 1 que nunca chegou às bancas. Como a DC já tinha um título com este nome, a revista chegou com o número 2 que é, na verdade, a primeira edição). O herói alcançou alta popularidade e chegou a superar a revista do Superman em vendas, o que incomodou a DC, que processou a Fawcett por plágio.

A Marvel lançou o seu Capitão Marvel em 1967 e a DC não pode usar o nome do herói na capa em 1973, quando lançou a revista Shazam!

A briga judicial se arrastou por toda década de 1940 e parte dos anos 1950 até que, cansada dos custos processuais e como o gênero dos super-heróis já estava em decadência, a Fawcett cancelou os títulos do Capitão Marvel e o personagem ficou na geladeira por 20 anos. Nesse meio tempo, em 1967, Stan Lee lançou o herói kree Capitão Marvel e registrou a propriedade do nome. Assim, quando a DC adquiriu os personagens da Fawcett em 1973, não pode lançar uma revista com o nome do herói na capa. A solução foi lançar a revista Shazam!, mas o herói continuou sendo chamado de Capitão Marvel nas histórias.

Capitão Marvel, o @%$#@%#! Meu nome é
Zé Pequ… digo… Shazam!

Embora tenha nascido primeiro, o herói virou “o Capitão Marvel da DC” entre os fãs. Alguns deles,  até já o chamavam de Shazam (embora esse fosse o nome do mago). Em 2012, aproveitando o reboot do seu universo no ano anterior, a DC decidiu relançar o personagem e chamá-lo em definitivo de Shazam, mas criou um curioso paradoxo: se o herói se transforma cada vez que diz a palavra mágica “Shazam”, como ele faz quando precisa dizer seu nome para alguém?

Brincando com as referências

A história de Johns deixa meio que uma solução: ele precisa dizer a palavra mágica com convicção, caso contrário, a transformação não acontece. Porém, o próprio autor já revogou essa “norma” na nova HQ e brinca com o fato, quando Billy diz que queria “um codinome que ele possa pronunciar”. E complementa: “Algo como Capitão Marv…” antes de ser interrompido pelo grito de jantar.

Saído do Forno: Cebolinha – Recuperação

O selo Graphic MSP chega ao seu vigésimo volume trazendo uma história solo de um dos personagens mais carismáticos da Turma da Mônica. Não só isso: o álbum também traz o mais jovem autor a escrever para a coleção. De autoria de Gustavo Borges, de apenas 22 anos (autor de Pétalas, que já resenhamos aqui), Cebolinha – Recuperação traz o garoto usando toda sua perspicácia para desenvolver planos infalíveis que vão bem além de roubar o coelhinho da Mônica.

Cebolinha apronta na escola… e fica de recuperação.

A trama-base mostra Cebolinha na escola – algo até então bem pouco explorado na Turma da Mônica – e, por um descuido dos estudos, ele fica de recuperação. Mas o título da Graphic MSP vai muito além desse fato, explorando todos os significados da palavra “recuperação”, que também significa o saída de uma situação ruim, a caça a um brinquedo perdido ou o resgate da própria autoestima. Conforme a história vai acontecendo, o leitor vai sendo apresentado a esses problemas e percebendo que para tudo há uma segunda chance e uma alternativa.

Será que o Sansão estava escondido nessa mochila?

A rivalidade entre Cebolinha e a Mônica fica em segundo plano nesta HQ. Pelo contrário, eles são muito mais amigos do que rivais. O “vilão” da vez é o esnobe Robertinho, o aluno que está sempre um passo à frente de Cebolinha, mesmo que precise trapacear para isso. Essa situação causa muitos problemas ao Cebolinha, que também precisa lidar com dificuldades familiares. Como o próprio Mauricio de Sousa descreve em seu editorial na edição, a trama possui várias camadas, como uma cebola e – porque não dizer? – como a própria vida.

Problemas familiares também envolvem as crianças.

Borges consegue dosar muito bem uma trama realista e semelhante à vida de qualquer leitor com o lúdico de um personagem infantil sem que este perca suas características. Assim, a história agrada aos pequenos, pela arte caricatural e o humor tão particular dos personagens, mas também agrada os adultos, pelas entrelinhas da história, que mostra que as crianças também se envolvem no universo de gente grande e são afetadas por ele, respondendo com muita sensibilidade.

Cebolinha encontra apoio nos melhores amigos.

Claro que as tradicionais referências ao universo dos personagens não poderiam faltar, incluindo menções a outros títulos da Graphic MSP que os leitores vão se divertir encontrando no decorrer da história. Após 20 volumes, a Graphic MSP continua sendo um dos melhores títulos de quadrinhos no mercado, por apresentar versões bastante diferenciadas de personagens que conhecemos tão bem, em situações fora de seu universo particular. Esse tipo de iniciativa é sempre bem-vinda, principalmente em se tratando do mercado nacional de quadrinhos.

Saído do Forno: Quadrinhos cristãos

Não é de hoje que as histórias da Bíblia vem sendo adaptada nas mais diversas mídias para que a mensagem cristã chegue a todos os públicos. Adaptar as histórias mais famosas em quadrinhos também não é nenhuma novidade, mas a Editora 100% Cristão vem fazendo isso com competência e arte, sem esquecer a didática.

Sagrada Escritura em quadrinhos

A editora é responsável pela Bíblia em HQ, publicação de mais de 300 páginas ilustradas pelo artista Danny Bulanadi, que já trabalhou para a Marvel e DC. A empresa lançou uma série de HQs com vários trechos importantes da Sagrada Escritura que vão do Gênesis ao Apocalipse, em títulos que variam entre 24 e 40 páginas, ricamente ilustradas. Cada narrativa é acompanhada das citações bíblicas onde aqueles fatos podem ser encontrados, para que o leitor faça o paralelo, caso tenha interesse.

Logotipos estilizados imitam HQs de super-heróis

A maior parte das revistas têm roteiro de Art Ayres e desenhos de Danny Bulanadi, mas outros artistas também emprestam seu talento para as adaptações, como Ben Avery, Michael Pearl, Jeff Slemons, Mike Lilly, Sergio Cariello e outros. As revistas são traduções dos títulos publicados nos Estados Unidos pela editora Kingstone Comics, que define a si mesma como a “Marvel do mercado da fé”. Não é nenhum exagero, visto que, além de utilizar artistas de sucesso nos quadrinhos de super-heróis, as HQs seguem o mesmo estilo, com logotipos estilizados de acordo com o personagem.

Série em vários volumes narra a história de Jesus Cristo

Entre os títulos lançados, estão Gênesis, Noé, Êxodo, Moisés, Josué, Sansão, , Ester, Rei Davi, Elias, Jonas, Pedro e Apocalipse, além da série O Cristo, composta de vários volumes narrando a trajetória de Jesus. A editora 100% Cristão também tem publicações em formato de mangá (como a história do apóstolo Paulo), jogos bíblicos e outros tipos de quadrinhos, como os de ficção e baseados em fatos reais como a história de Lutero, entre outros. O preço das HQs varia entre R$ 9,90 e R% 34,90 e podem ser adquiridas na loja virtual da editora clicando AQUI..

Os fãs de mangás não foram esquecidos.

Saído do Forno: Alfa – A Primeira Ordem

Aconteceu, no dia 2 de Dezembro, o lançamento da HQ nacional Alfa – A Primeira Ordem – Parte 1, publicação financiada pelo Catarse no início deste ano. A revista tem o mérito de reunir mais de 40 super-heróis brasileiros numa única história, apresentando (talvez pela primeira vez para uma parcela do público) personagens que já existem há tanto tempo quanto os super-heróis americanos publicados pelas editoras Marvel e DC, mas que, por falta de divulgação e mercado adequado, são totalmente desconhecidos do público.

O criador da HQ não pára de lançar novidades, apesar do mercado pouco favorável.

O autor do ousado projeto, o jovem Elenildo Lopes, tem mostrado grande dinamismo desde 2007, quando criou o site Meu Herói e começou a divulgar os trabalhos de quadrinistas nacionais. Em 2012, lançou com recursos próprios, a HQ do Capitão R.E.D, personagem criado por ele, inspirado no Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite (2007). Pouco tempo depois, em 2015, teve o projeto Protocolo: A Ordem financiado pelo Catarse, que trazia  mais de 20 heróis nacionais reunidos na mesma trama. O álbum recebeu o Troféu Ângelo Agostini na categoria de Melhor Lançamento Independente em 2016. Incansável, Lopes já tem engatilhado mais dois projetos: Velox, um super-herói gay; Excalibur, herói baseado na mitologia grega e a Liga Apocalyptica, uma equipe de heróis brazucas.

Os autores da HQ

O novo álbum Alfa – A Primeira Ordem – Parte 1 repete a façanha de reunir uma equipe formada pelos super-heróis brasileiros, mas nada tem a ver com o título anterior. Segundo o autor, ele preferiu criar uma história independente e resgatar também personagens clássicos dos quadrinhos nacionais, como Capitão 7, O Flama, Capitão Gralha, Raio Negro e Homem-Lua. O roteiro ficou a cargo do experiente Gian Danton, com a arte de Marcio Abreu e cores de Vínicius Townsend. A equipe de profissionais possui larga experiência com editoras estrangeiras e dá muito mais peso ao trabalho.

Capitão R.E.D estudando os eventos.

A HQ teve parte de seu custo também financiada pelo Catarse e o restante foi assumido pela Editora Kimera, graças a uma parceria com o criador, que também teve o Capitão R.E.D relançado pela empresa e terá continuidade em sua história, com edições semestrais. Alfa começa com a revelação de que um mal muito antigo está retornando para ameaçar a humanidade, perigo este que já chega assassinando uma personagem, chamando a atenção de outros heróis, especialmente o Capitão R.E.D, que investigava o caso.

Aéris é uma ameaça que causou muitos problemas aos antigos super-heróis brasileiros.

Como uma boa HQ de super-heróis, os personagens se encontram em várias partes do País – e para nós, brasileiros, é bem divertido identificar locais que nos são familiares como a cidade de Niterói (RJ), Chapada Diamantina (BA), Pico da Neblina (AM), entre outros – e, durante as investigações, enfrentam asseclas do vilão principal, Aéris. Tudo apontando para o grande combate final, quando os heróis se unirão para enfrentar Aéris, numa megabatalha.

Excesso de personagens prejudicou a trama.

A trama peca pela falta de ritmo. Na ânsia de apresentar os inúmeros heróis e seus respectivos encontros nos quatro cantos do País, o roteiro ficou picotado e sobrou pouco espaço para o desenvolvimento das ações. Num momento, um grupo de heróis está impedindo uma rebelião de presos em São Paulo, no outro o Capitão R.E.D está em outro extremo do país, com o tempo avançando alguns dias e as repercussões da rebelião, bem como o paradeiro dos heróis ficou no vácuo – só pra citar um exemplo.

Muitos heróis são desconhecidos do público

Além disso, o roteiro supõe um pré-conhecimento do leitor acerca dos personagens, o que é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, é possível realizar uma rápida busca na Internet e conhecer um pouco mais sobre a origem de determinado super-herói, por outro, também se deve levar em consideração o desinteresse do público em ter que procurar – reforçando bem o sentido de “obrigação” – algo que deveria estar ali, à mão. Sim, estamos num País com pouco hábito de leitura e quanto mais se puder incluir de informações relevantes na história, tanto melhor para não perder aquele leitor.

Abreu fala sobre sua arte em evento de lançamento em SP

Obviamente, esses problemas não são demérito da HQ (que tem uma linha narrativa muito boa, aliás), mas sim de um mercado que pouco valoriza o produto nacional. Só para exemplificar, quando a Marvel e a DC resolveram fazer um crossover entre os Vingadores e a Liga da Justiça em 2003, todos os personagens já eram conhecidos e nenhuma apresentação foi necessária. No Brasil, fazer um crossover com todos os nossos heróis é um dilema, pois o mercado brasileiro não permite que esses personagens façam parte do nosso imaginário (muitos deles são publicados há muitos anos, mas de forma independente e com tiragem limitadíssima a um seleto público).

HQ foi lançada em SP no dia 2 de dezembro em evento na faculdade Alpha Channel.

Esse problema se fez sentir na trama, que ficou amarrada ao fato de ter que inserir cada um deles na batalha e, em alguns casos, limitá-los a um único quadrinho ao lado de seu logotipo – um recurso visual bem interessante, a propósito. Fora isso, arte de Márcio Abreu são de encher os olhos, com uma boa solução dos quadros e as cores de Townsend valorizando ainda mais o conjunto. A HQ faz valer a confiança dos fãs ao apoiar o projeto no Catarse e resultou numa HQ de qualidade, com seus problemas, sim, mas que, num contexto geral – e considerando o conturbado momento econômico e o mercado de quadrinhos nacional – está num nível bem superior ao esperado – superior, inclusive à premiada HQ que a precede.

Super-heróis clássicos do Brasil.

Uma pena que a HQ termine com um gancho empolgante cuja solução só teremos na segunda edição, que deve demorar mais um ano para chegar às nossas mãos (segundo o autor, um novo projeto de financiamento será lançado em breve para arrecadação de fundos). De qualquer forma, a continuação promete muita ação e a inclusão de novos personagens, incluindo os aguardados heróis clássicos que, neste capítulo, aparecem apenas em flashback. Alfa – A Primeira Ordem – Parte 1 ainda será lançada no Rio de Janeiro, em data e local a confirmar.

Saído do Forno: Pantera Negra

Com a proximidade do filme do Pantera Negra pela Marvel Studios (lançamento em 15 de fevereiro de 2018), é natural que a Marvel comece a investir em quadrinhos do personagem. Com isso, não é surpresa que a Panini lance por aqui o material publicado nos Estados Unidos no ano passado. O encadernado Uma Nação sob Nossos Pés – Livro Um chega em edição de luxo, capa dura, papel couché e lombada branca, seguindo o padrão da Panini para os encadernados da fase Nova Marvel. Ponto para a editora, que demonstra respeito aos colecionadores.

O soberano de Wakanda encontra um país fragmentado

O elogio termina aqui. O álbum, escrito pelo premiado Ta-Nehisi Coates, “autor best-seller do New York Times“, como destacado na capa, mostra o Pantera Negra enfrentando problemas em sua nação, com um grupo rebelde que faz justiça com as próprias mãos para defender as mulheres ameaçadas pelos malvados opressores masculinos. Há também uma cruel vilã controladora de mentes tão profunda como uma esfiha aberta e uma trama política que, por si só, já é pesada e desinteressante, mas se intensifica pela falta de habilidade do roteirista em entender que o Pantera Negra, mais do que um rei, é um super-herói e é isso que os leitores esperam do título.

o autor best-seller Ta-Nehisi Coates

A história é tão cheia de tramas paralelas que nenhuma delas é desenvolvida e resulta num roteiro fragmentado que começa do nada e leva a lugar nenhum. A arte de Brian Stelfreeze é bonita, mas só isso não é suficiente para segurar a história confusa e sem empolgação que mostra o Pantera Negra lutando numa página e, na outra, corta do nada para uma conversa existencial com sua “mãe” adotiva. Nem o Louco da Turma da Mônica seria capaz de escrever algo tão sem continuidade.

Mulher, negra, homossexual: o auge da lacração!

Na tentativa de se mostrar engajada – tendência atual – a Marvel não se importa com um bom roteiro, desde que 1) o roteirista negro escreva sobre o herói negro porque, afinal, ele vai “entender” melhor o personagem; 2) haja uma luta de sexos onde mulheres lacradoras enfrentam os opressores masculinos para mostrar que são superiores, mas não iguais; e 3) essas mulheres, claro, sejam homossexuais, afinal, isso também dá pontos e agrada militantes. O resultado, claro, é uma HQ vazia que desqualifica seu protagonista e desconstrói a imagem dele criada desde 1966, quando ele estreou nas páginas da revista Fantastic Four 52 que, aliás, também faz parte do encadernado, como um pedido de desculpas da editora para que, ao menos algumas páginas valham o investimento.

O essencial do Pantera Negra está aqui.

O problema é que a história, em duas partes, só tem a primeira, terminando com um gancho para uma continuação que provavelmente não virá – se ela foi programada para o Livro 2, fica meu pedido antecipado de desculpas. Se não foi, fica a dica para os leitores procurarem a Coleção Oficial de Graphic Novels Salvat Vol. V, onde a história foi publicada completa. O investimento será muito mais proveitoso, afinal, estamos falando de uma edição inteira produzida pela dupla Stan Lee/Jack Kirby. Outra dica é a recém-lançada A Fúria do Pantera, na mesma coleção, escrita por Don McGregor. Ali sim há um enredo bem desenvolvido com diálogos inteligentes e ritmo incansável.

Arco ainda terá mais dois volumes. Poupe seu dinheiro!

Quando ao “novo” Pantera Negra, a má notícia é que o arco “Uma Nação sob nossos pés” tem doze capítulos e o livro um traz apenas quatro deles. Isso significa que mais dois volumes virão por aí até o lançamento do filme, no ano que vem. Se a ideia da Marvel era que a HQ despertasse o interesse do público no personagem e o levasse aos cinemas, o tiro saiu pela culatra. Talvez Coates seja um bom escritor político – e nem cabe aqui questionar o currículo do autor – mas o que se percebe, no entanto, é que ele não tem o mínimo talento para quadrinhos de super-heróis. O autor não entendeu que o Pantera Negra, por si só, já é um personagem de engajamento. Qualquer discurso além disso perde o sentido. Mais boas histórias e menos “lacração” é tudo que esperamos dos quadrinhos Marvel.

Saído do Forno: Comunhão

Produzir quadrinhos no Brasil não é uma tarefa muito simples se você não se chama Mauricio de Sousa. Porém, o mercado tem espaço para bons trabalhos que, a exemplo do célebre cartunista, decidem não ficar choramingando a falta de oportunidades, mas correm em busca delas. É o caso do ator e roteirista Felipe Folgosi, que acaba de lançar seu novo álbum, Comunhão, publicado sob a batuta do Instituto dos Quadrinhos e financiada pelo site Catarse em 2016.

Comunhão também foi financiada pelo site Catarse

Em 2015, Folgosi já havia lançado a HQ Aurora (leia nossa crítica aqui), também confiando na colaboração dos leitores interessados, que, literalmente, “pagaram para ver” a obra pronta. E tanto valeu a pena que o autor repetiu a dose, com vários atrativos que superam o álbum anterior. Para começar, a obra fugiu ao tamanho tradicional: enquanto Aurora seguia o tamanho americano (17cm X 26cm), Comunhão chega com 22,3 cm X 31 cm, formato maior do que a revista Veja, para comparar. Além disso, o álbum tem 144 páginas, 36 a mais do que o anterior. Com este formatão, é possível apreciar melhor a arte de J. B. Bastos, parceiro de Folgosi neste projeto.

O artista J. B. Bastos já trabalhou com o tema “terror” em HQs gringas.

A arte, aliás, é outro diferencial: em Comunhão, o autor optou por desenhos em preto e branco, uma vez que a trama segue pelo gênero do terror e as antigas revistas do gênero seguiam o estilo sem cor. Bastos, que já trabalha nos títulos Night Trap e Knight Rider (quadrinhos da antiga série de TV A Super Máquina), da Lion Comics, tem o ritmo de quadrinhos de terror e soube criar quadros com momentos bem tensos e assustadores. O roteiro, segundo o autor, foi fruto de uma conversa com um amigo há 10 anos, no qual este lhe sugeriu que escrevesse um roteiro de terror. A princípio resistente, Folgosi resolveu seguir o conselho e idealizou uma história que se passasse no Brasil e fosse realista, mas mexendo com o psicológico.

Felipe deu o sangue para publicar esta edição.

Na trama da HQ, Amy é uma atleta que decide encerrar sua carreira após um trauma com um acidente, encontrando um sustento na fé. Anos depois, ao realizar uma trilha na floresta amazônica com um grupo de amigos, acaba se metendo numa série de eventos que separam uns dos outros e os colocam em contato com vários perigos da região. Em busca da sobrevivência, Amy e seus amigos são confrontados com seus próprios instintos e a ex-atleta encontra o outro lado da religião, repleto de violência e morte.

A HQ tem momentos bem pesados e assustadores.

Embora apele para o lado religioso, a HQ não é doutrinária – embora deixe a lição de que a fé pode fortalecer em momentos difíceis e até formar o caráter, tanto para o bem quanto para o mal. O título tem a ver com a Última Ceia, mas pode chocar leitores mais conservadores e sensíveis (lembrando que é uma HQ de terror, não religiosa…). Não por acaso, o título é recomendado para maiores de 16 anos, pois está repleto de cenas de violência explícita. No entanto, a história é bastante envolvente e nos faz ficar ansiosos pelo desenrolar dos eventos.

Felipe Folgosi autografa sua obra, no lançamento (Foto: arquivo pessoal do autor)

Também merece menção o ajuste nos nomes dos colaboradores. Em Aurora, as pessoas que ajudaram a financiar o projeto no Catarse, tiveram seus nomes impressos na terceira capa, em sequência e sem qualquer ordem, dificultando para a pessoa encontrar-se no meio da multidão de nomes. Em Comunhão, os apoiadores foram organizados em ordem alfabética, separados em três colunas, muito mais agradável de se ler.

Arte de Luke Ross para promover a obra.

A única crítica vai para a capa da HQ, desenhada por Will Conrad e Ivan Nunes. Sem desmerecer os artistas, que fizeram um belíssimo trabalho, mas o desenho pouco lembra o conteúdo da trama. Tem, sim, uma referência aos fatos que deflagraram toda história, mas não condiz com a trama em si. Em questão de adequação ao tema, é muito mais apropriada a arte feita por Luke Ross, usada para divulgação do álbum. Mas, como diz o ditado, não se deve julgar um livro pela capa e, no caso de Comunhão, o dito é verdadeiro. Folgosi superou a si mesmo neste ótimo trabalho e quem ganha somos nós, leitores.