Saído do Forno: Superman – Ano Um

Lendário no mundo dos quadrinhos, o nome de Frank Miller sempre foi sinônimo de grandes obras-primas. Com um estilo único de desenho, que traz influências dos mangás e da linguagem cinematográfica, Miller criou verdadeiras obras-primas, como Batman – O Cavaleiro das Trevas, A Queda de Murdock, Sin City e 300 de Esparta entre outros.  No entanto, nos últimos tempos, seu traço perdeu o vigor e se reduziu a uma arte grosseira que nem de longe lembra sua fase áurea. Nem por isso o autor deixa de lançar novos títulos na expectativa de criar novos clássicos.

Capa alternativa desenhada por Miller. E o motivo pelo qual a arte interna ficou com Romita Jr.

É o caso de Superman – Ano Um, que a Panini acaba de lançar no Brasil. O álbum chega sob o selo DC Black Label, voltado à publicação de minisséries originais ambientadas fora da continuidade, permitindo que os autores possam explorar sua criatividade. Em borda quadrada, capa cartonada e tamanho acima dos padrões (21,5cm X 27,5cm), a obra reconta, pela enésima vez, a origem do Homem de Aço, desde sua vinda do planeta Krypton, passando pela sua juventude em Smallville, até se tornar o herói que conhecemos.

Sim, você já viu essa cena.

Por se tratar de uma história pra lá de conhecida, o chamariz para a publicação é mesmo o nome de Frank Miller e a visão que ele daria para o personagem – lembrando que ele também é o autor de Batman – Ano Um (1987), outro de seus maiores sucessos, que redefiniu o Cavaleiro das Trevas para aquilo que ele é hoje. Com o Superman, porém, isso não vai acontecer. Longe de estar nos seus melhores dias, a releitura de Miller está longe de ser tão épica quanto à que deu ao Homem-Morcego, mas nem por isso, o álbum merece ser desprezado.

Origem diferente: Salve Martha!

Com algumas diferenças da clássica história que já conhecemos – o bebê Kal-El é encontrado apenas por Jonathan Kent, enquanto sua esposa estava em casa; na juventude, o jovem Clark se alistou na marinha, algo que nunca ocorreu na cronologia oficial – Ano Um explora o conflito pessoal do rapaz em ter poderes que não sabe de onde vieram e não poder utilizá-los publicamente, o que se torna bem grave quando um grupo de bullies toca o terror no colégio e nenhuma autoridade toma providências quanto a isso. Como você agiria sabendo que pode fazer a diferença?

Clark enfrenta um pesado fardo na visão de Miller.

A visão mais realista nos apresenta um Clark Kent bastante humano no desenvolvimento de sua consciência, com a ajuda de seus pais adotivos. Martha é apresentada como a mãe superprotetora, enquanto Jonathan é o pai descoladão, que faz piadas incentivando o filho a revidar às provocações para logo em seguida ensinar a importância da responsabilidade no uso de tais habilidades, sem que, para isso, ele necessite ser explorado pelos outros. A carga moral no equilíbrio entre as atitudes é que dão o peso do roteiro de Miller. A arte de John Romita Jr., odiada por uns e idolatrada por outros, também combina com a narrativa e não decepciona.

Momento de revelação: “Não há justiça sem verdade.”

Dividida em três capítulos, a minissérie bem poderia ser publicada numa edição única, o que valorizaria ainda mais o material e não teria um preço exorbitante – ao menos teoricamente – , uma vez que cada volume possui apenas 72 páginas. Os próximos volumes estão previsto para os meses de abril e maio, mas não deve tardar para a editora lançar um encadernado com a história completa, numa edição em capa dura. Enquanto isso não acontece, vale curtir o material isoladamente, numa apresentação simpática e uma trama que, mesmo não tendo ingredientes de clássico atemporal, apresenta uma história vibrante e com importantes conceitos morais, tão relevantes na personalidade do Homem de Aço.

Saído do Forno: Quarteto Fantástico

A Panini acaba de lançar o novo título Quarteto Fantástico, com o retorno da Família Primordial da Marvel após três anos ausente dos quadrinhos. Em 2015, a Marvel decidiu descontinuar o seu título mais antigo e tradicional – o Quarteto inaugurou a Era Marvel, em 1961 – e separou a superequipe na edição 645 da revista. Embora a diretoria da Marvel não assuma oficialmente, é óbvio que o cancelamento da revista foi para boicotar as produções cinematográficas do grupo, que estava nas mãos da Fox, principalmente após o sofrível longa Quarteto Fant4stico (veja crítica aqui). No Brasil, a última aventura do Quarteto Fantástico foi publicada na revista Universo Marvel 34 (junho 2016). 

Marvel 2 em Um: prelúdio da aguardada volta da equipe.

Os membros da equipe ainda participaram da megassaga Guerras Secretas (2015) para se separarem, com cada membro indo para um canto: Reed, Sue, os filhos Franklin e Valéria, juntamente com os integrantes da Fundação Futuro, foram explorar outros universos e dados como mortos; o Coisa se aliou aos Guardiões da Galáxia, enquanto que o Tocha Humana passou um tempo com os Inumanos e chegou a ser membro dos Vingadores. A volta do Quarteto teve um prelúdio na minissérie Marvel 2 em Um – Coisa e Tocha Humana, onde os dois membros remanescentes do Quarteto iniciaram sua busca pelo Casal Fantástico.

Um abraço coletivo para matar a saudade.

Em Etern4mente, o roteirista Dan Slott revela o paradeiro de Reed e Sue, mostra o pedido de casamento do Coisa à sua namorada cega, Alícia Masters, cria uma nova e invencível ameaça cósmica para o Quarteto e, o mais fantástico – com o perdão do trocadilho – usa seu conhecimento em cronologia para reunir os membros do Quarteto – todos os 21 (sem contar os integrantes da Fundação Futuro, que é outra equipe)! Com o humor e a leveza característica dos personagens, o novo título mostra que o Quarteto Fantástico continua sendo fundamental e insubstituível no Universo Marvel.

Lamentadora é a nova ameaça cósmica do Quarteto

A edição brasileira traz a galeria de capas variantes dos quatro (será de propósito?) primeiros números. O casamento do Coisa, publicado na edição 5 americana, vai ficar para o próximo encadernado. Espera-se também que haja uma conclusão plausível para a equipe Fantastix, que foi meio que “jogada” na mitologia, resgatada lááááááá de uma equipe xumbrega da Iniciativa Vingadores publicada em 2007, sem que fosse explicado como resolveram criar um novo grupo de heróis. Tomara que, a exemplo do que aconteceu com o Homem-Aranha, Dan Slott não estrague a mitologia do Quarteto Fantástico, inserindo vários retcons para tirar novos personagens da cartola. Enquanto isso não acontece, podemos curtir a volta mais do que bem-vinda da amada família em seu novo título.

Casamento, após 58 anos de namoro, só no volume 2…

Saído do forno: Conan, o Bárbaro

Acaba de chegar às bancas a nova revista Conan, o Bárbaro, que voltou à Marvel após passar os últimos 15 anos em propriedade da Dark Horse. No Brasil, as aventuras do cimério pela Marvel foram publicadas até 2001, quando ficou um tempo na geladeira e voltou às bancas em uma publicação mensal e encadernados de luxo pela Mythos, que publicou a fase da Dark Horse. A nova revista da Panini terá periodicidade bimestral e revezará nas bancas com um segundo título do personagem, A Espada Selvagem de Conan, cuja primeira edição deve estrear em breve.

Edição de estreia de Conan, na década de 1930. Na época, ele era publicado nos pulps, em contos narrados em texto corrido.

O personagem, criado por Robert E. Howard, se consagrou na década de 1970, quando foi adaptado pela Marvel e se tornou uma série de muito sucesso ao longo de mais de 30 anos pela editora do Homem-Aranha. A publicação da Panini tem 48 páginas e duas histórias, sendo uma em quadrinhos e a outra em prosa, como se fosse um livro – foi, aliás, em textos corridos publicados na revista Weird Tales, que o bárbaro surgiu, no distante ano de 1932.

Página dupla traz imagens da trajetória de Conan pela Marvel

Em O Horror da Feiticeira Rubra, Conan enfrenta uma feiticeira que conheceu em sua juventude e ele acreditava ter matado naqueles anos, mas como a magia nunca é previsível, ela retorna para terminar o sacrifício que tinha começado e não terminou. O destaque fica para as primeiras páginas, nas quais a narrativa em estilo literário, padrão das HQs do cimério, apresenta uma bonita arte que reproduz cenas da trajetória do Conan publicadas pela Marvel em anos passados – um resgate nostálgico feito para agradar os fãs mais antigos.  

Arte rústica de Mahmud Asrar

A história é escrita por Jason Aaron – famoso pela fase atual do (a) Poderoso (a) Thor – e começa com um brevíssimo resumo das aventuras de Conan, desde seu nascimento até se tornar rei. A arte de Mahmud Asrar imprime um estilo bruto e um traço rústico que combina bem com o personagem. As cenas de violência explícita – bem mais crua do que nas HQs antigas – talvez merecesse um alerta de classificação etária na capa da HQ, assim como consta no site da Panini (14 anos).  Já a segunda história, A Luz Estelar Negra, ocupa apenas quatro páginas e terá 12 capítulos. A edição termina com uma galeria de capas variantes da edição americana.

A Espada Selvagem é o segundo título do bárbaro, nas bancas em breve.

A HQ segue o atual padrão de qualidade adotado pela Panini, com capa cartão, papel couché e lombada canoa, ao preço de R$ 9,90. É um pouco caro para uma publicação de menos de 50 páginas, mas, ao mesmo tempo, é um valor que justifica a boa qualidade de impressão. A personalidade do herói permanece imutável na história, mas notícias recentes garantem que esse status será mudado, uma vez que o bárbaro será trazido aos nossos dias para se juntar aos Vingadores em breve. A revista A Espada Selvagem de Conan, diferente da clássica publicação da Editora Abril, não terá o formato magazine (20cm X 26,5cm), mas manterá o padrão americano.

Saído do Forno: Chaos

No ano de 2015, o ator e roteirista Felipe Folgosi lançou seu primeiro álbum de quadrinhos, Aurora, financiado pelo site Catarse. Quatro anos depois, o autor acaba de lançar a continuação da história, numa HQ com muito mais páginas e papel de melhor qualidade. Chaos também teve financiamento coletivo pelo Catarse em outubro de 2018 e agora chega às bancas e livrarias. O lançamento oficial será hoje, 8 de maio, na Lanchonete Jazz Burguer, no bairro da Vila Mariana (SP) (mais informações aqui). Neste dia, o autor estará autografando e entregando as edições aos colaboradores e público interessado.

Logo no início da trama, a família de Gabriel é obrigada a fugir.

A trama de Chaos traz o pequeno Gabriel, filho de Rafael (o pescador que teve sua genética alterada pelo fenômeno boreal da edição anterior), tentando levar uma vida normal com sua mãe e irmã, mas a instauração de uma Nova Ordem Mundial, que contempla um governo único e controle total dos habitantes do planeta, pode colocar o anonimato da família a perder. Por meio de uma tatuagem, todos os seres humanos são rastreados pelas autoridades, o que torna praticamente impossível se esconder e fugir.

Pessoas ganham poderes em várias partes do mundo

Ao mesmo tempo, outras pessoas também manifestam habilidades provenientes da aurora boreal: a russa Snezhana adquiriu força sobre-humana e a pequena Arja tem habilidades de fogo e gelo. Os três “alterados” são resgatados das autoridades pelos Jasons – grupo militar formado por cientistas na Segunda Guerra Mundial com a finalidade de proteger o mundo da tirania – e passam a colaborar com a equipe para sequestrar o Lorde Munchausen, banqueiro corrupto que financia o Governo, a fim de adquirir informações que possam causar o desmantelamento do plano controlador.

A bela arte do argentino Emilio Urtrera

Com arte do argentino Emilio Utrera, a história tem um clima de tensão e paranoia e apela para a religiosidade – às vezes um tanto excessiva, o que pode cansar o leitor mais agnóstico – para explicar os fenômenos e a bússola moral dos personagens. Em alguns momentos, o texto se torna bem complexo, demonstrando uma profunda pesquisa científica feita pelo autor para o background da história, mas as informações servem ao contexto. A trama também não esconde o viés político, mostrando os riscos de um governo ditatorial e suas consequências na vida do povo mais carente.

As coisas prometem esquentar em Chaos

Embora tenha sido feita por outra editora – Aurora saiu pelo Instituto dos Quadrinhos e Chaos, pela Editora Yosemite – o autor teve o zelo de manter o mesmo padrão na capa, com verniz de destaque nos títulos e imagens da contra-capa, além da lombada quadrada, o que é bem bacana para o colecionador. A história termina – não termina, na verdade – com um gancho, indicando uma terceira parte, que deve sair em breve. A edição peca um pouco na revisão, com alguns deslizes que poderiam ter sido evitados, mas que não comprometem a qualidade total do álbum. 

Gabriel usa seus poderes contra soldados.

Com o nível crescente do roteiro, que empolga a cada página, podemos esperar uma grande conclusão – ou, talvez, o início de um novo universo heroico. Vale destacar que, diferente da edição anterior, onde o nome dos colaboradores foi apresentado numa única página, fora de ordem e com fonte ilegível, esse erro foi corrigido neste volume, com fonte maior e ordem alfabética, facilitando a consulta. Assim como os personagens, que são o próximo passo da evolução, a própria HQ também evoluiu tanto na trama quanto nos detalhes técnicos. O mercado nacional de quadrinhos, carente de bons produtos, merece um material dessa qualidade. 

Evento de lançamento acontece hoje à noite

Saído do Forno: O Grande Almanaque Disney

Em março, as revistas Disney trocaram de casa. Depois de 68 anos sendo publicadas ininterruptamente pela Editora Abril, a gaúcha Culturama, que já licenciava livros infantis da Disney, adquiriu os direitos de publicação também dos quadrinhos. Longe das bancas desde julho/2018, as edições zero de cinco revistas (Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Pateta e Aventuras Disney) chegaram às bancas e lojas de departamentos com excelente qualidade gráfica e histórias inéditas dos queridos personagens criados por Walt Disney. As revistas podiam ser adquiridas individualmente ou numa caixa exclusiva com todas juntas e uma cartela de adesivos de brinde.

Mensais podem ser compradas individualmente ou em caixa exclusiva.

Era óbvio que a Culturama não ia se limitar apenas a estes cinco títulos, mas ninguém esperava que fossem lançar uma novidade tão rápido. Durante o Festival Guia dos Quadrinhos 2019, a editora lançou O Grande Almanaque Disney, uma publicação bimestral, com 196 páginas, lombada quadrada e formato 15 cm X 21 cm, um pouco maior do que as revistas formatinho. Além da novidade, também foram lançadas as edições número 1 das cinco mensais além de livros infantis de vários personagens, com destaque para Dumbo, que ganhou um longa-metragem live action recentemente.

Grande almanaque tem formato maior em comparação com as mensais.

O evento foi a grande apresentação da Culturama para o público colecionador de São Paulo. Para coroar esse momento, a editora trouxe da Itália o roteirista e desenhista Francesco Guerrini, que passou praticamente todo evento autografando e desenhando personagens para os fãs, no stand montado logo na entrada do salão de eventos do Hakka Hotel, no bairro da Liberdade (SP). Além disso, o artista também participou de um bate-papo no domingo, falando sobre a nova casa dos quadrinhos Disney no Brasil.

O autor passou dois dias desenhando e autografando o Almanaque.

O Grande Almanaque Disney foi a coqueluche do evento, pois os fãs quiseram aproveitar a presença de Guerrini para pegar seu autógrafo na capa da revista, principalmente porque a história que abre a edição, foi escrita e desenhada por ele. Além disso, o almanaque também tinha uma entrevista com o autor onde ele fala de sua carreira e inspirações. A edição tem “apenas” quatro histórias (seis, se contarmos que duas delas são narradas em dois capítulos), mas são grandes aventuras, escolhidas a dedo.

Almanaque traz quatro grandes aventuras

Além da história de Guerrini, O Inversor Gravitacional, o almanaque também trouxe uma divertidíssima HQ dinamarquesa estrelada pelo Pato Donald (ou um ancestral dele, em A Volta do Pato Zampata), uma história curta da Maga Patalójika e uma mega-aventura do Mickey que ocupou nada menos do que metade do exemplar (Tudo isso Aconteceu Amanhã) e tem uma característica importante: é uma continuação de outra aventura publicada na revista Mickey 883 e 884 (2016), da Editora Abril. Nela, o Mickey do passado (de calças curtas) se une à sua versão de nossos dias para impedir o João Bafo-de-Onça de dominar o mundo.

Nós também pegamos nosso exemplar, com direito a ilustração da Margarida.

Impresso em papel offset e capa cartão com detalhes em verniz, O Grande Almanaque Disney estreou em grande estilo, com uma qualidade ímpar. As revistas número 1 também melhoraram em comparação com a anterior. Sinal que a Culturama tem grande investiu pesado no mercado de quadrinhos e tem interesse em conquistar um público fiel. Tanto que a editora gaúcha já tem até serviço de assinaturas  pelo telefone 0800 006 8520, com direito a cartão de sócio e brindes diferenciados. Esperamos que a editora continue mantendo a qualidade e traga muitas surpresas para os fãs. Os personagens Disney mereciam essa renovação.

Saído do forno: Shazam!

Quem conhece a história de Shazam sabe as constantes brigas judiciais envolvendo a Fawcett Comics, editora que lançou o personagem, e a DC Comics, que acusou o herói de ser um plágio do Superman. Por conta disso, a DC (que adquiriu os direitos dos personagens da Fawcett na década de 1970) sempre tratou o Capitão Marvel (esse era o nome com que o personagem foi criado, antes da Marvel lançar o seu herói kree, em 1967) com certo desprezo. Ao longo dos anos, ele teve alguns bons momentos, mas a DC sempre o considerou um filho bastardo e nunca deu a ele o espaço e a importância que merecia.

Relegado a um papel secundário na revista da Liga da Justiça

Só mesmo isso para explicar a demora de seis anos para dar continuidade à fase iniciada em 2012 e que teve apenas um arco de histórias, essas mesmas, publicadas como “anexo” na revista da Liga da Justiça. Dá para imaginar a reunião na cúpula da editora: “Vamos publicar Shazam? Tá, dá lá umas dez páginas pra ele, no final da revista da Liga, só pra tapar o buraco e delimitar o território, dizendo que temos a propriedade do personagem.”

Acredite: essa é uma das melhores HQs que você vai ler recentemente.

Essa introdução, claro, é mera especulação deste que vos escreve, mas é fato que o arco iniciado em 2012 agradou em cheio e nunca teve uma continuação… até agora. Impulsionada pela chegada do filme do Queijão Vermelho (apelido carinhoso do ex-Capitão Marvel) nos cinemas, a editora decidiu retomar a saga do “mortal mais poderoso da Terra” em uma nova série mensal que chegou às comic shops com data de fevereiro. A trama começa exatamente onde o arco anterior terminou: “Com uma palavra mágica…” foi publicado em Justice League 7-21, com alguns hiatos entre as edições. No Brasil, foi lançado num encadernado capa dura pela Panini e é altamente recomendado como uma preparação para o filme que estreia em 4 de abril.

O encontro de Billy com o Mago é reprisado na nova revista.

Só para situar: o jovem Billy Batson foi adotado por um gentil casal que já tinha mais cinco filhos adotivos: Mary, Freddy, Eugene, Pedro e Darla. Inicialmente hostil com seus novos irmãos, Billy logo fez amizade com Freddy e o defendeu de um grupo de valentões na escola. Tornado a si mesmo um alvo, Billy fugiu do grupo de bullies no metrô e foi levado a um local místico chamado Pedra da Eternidade, onde ganhou os poderes de Shazam ao pronunciar a palavra mágica ensinada pelo Mago, guardião do local.

Família Faísca

Enquanto descobria (e se divertia, afinal ele é apenas um garoto crescido) seus novos poderes, Shazam defendeu a cidade do Adão Negro, um vilão superpoderoso que desejava tomar os poderes do herói para si. Mas ele não fez isso sozinho: o jovem herói compartilhou seus poderes mágicos com seus irmãos, criando uma Família Shazam. A nova revista Shazam! começa exatamente mostrando a rotina de Billy e seus irmãos enquanto descobrem mais sobre seus poderes mágicos e conciliam a luta contra o crime com os estudos e a vida em família.

Billy e Mary discutem sobre quem é o líder da equipe.

O tom das HQs é voltado para o humor, mostrando a simples decisão de escolher um codinome para cada herói ou quem é o líder do grupo se tornando uma discussão em família. Nessa brincadeira, o roteirista Geoff Johns vai enchendo o texto com referências à mitologia de Shazam e sobra até para a concorrente, com suas clássicas frases de efeito. A arte da nova revista Shazam! está a cargo de Dale Eaglesham, uma vez que o desenhista anterior, Gary Frank, estava envolvido com a minissérie Doomsday Clock e não pode assumir o trabalho. Mas ele não faz feio e mantém o mesmo nível artístico de seu predecessor.

HQ curta “mangalizada” conta a origem de Mary Marv… Shazam.

A revista tem mais uma HQ curta, em estilo mangá, desenhada por Mayo “Sen” Naito, que mostra como Mary foi adotada pelo casal Vasquez e seu primeiro contato com Freddy Freeman. A história também faz referência a outro personagem bastante importante na mitologia da Família Shazam, num resgate histórico bem divertido de Geoff Johns. Ainda não há previsão para a chegada desse material no Brasil, mas não deve demorar muito tempo, uma vez que o filme já está batendo à porta e a cronologia não está tão atrasada em relação à americana.

Tomando um refri enquanto espero Shazam chegar aos cinemas… e às bancas brasileiras.

Provavelmente, ainda no primeiro semestre deste ano poderemos ver as novas aventuras de Shazam em alguma revista de linha, quiçá em título próprio encadernado. Apesar do descaso da editora com o clássico super-herói, valeu a pena esperar seis anos para ver Shazam trovejar novamente nas páginas dos gibis. Com quase 80 anos de história, ele merece um tratamento digno.

Um pouco de história

Na edição de estreia, o herói joga um carro na parede. Não é plágio, é coincidência…

Criado por Bill Parker e C. C. Beck em 1940, o Capitão Marvel estreou na revista Whiz Comics 2 (Esta revista seria lançada com o título de Flash Comics e há um esboço do número 1 que nunca chegou às bancas. Como a DC já tinha um título com este nome, a revista chegou com o número 2 que é, na verdade, a primeira edição). O herói alcançou alta popularidade e chegou a superar a revista do Superman em vendas, o que incomodou a DC, que processou a Fawcett por plágio.

A Marvel lançou o seu Capitão Marvel em 1967 e a DC não pode usar o nome do herói na capa em 1973, quando lançou a revista Shazam!

A briga judicial se arrastou por toda década de 1940 e parte dos anos 1950 até que, cansada dos custos processuais e como o gênero dos super-heróis já estava em decadência, a Fawcett cancelou os títulos do Capitão Marvel e o personagem ficou na geladeira por 20 anos. Nesse meio tempo, em 1967, Stan Lee lançou o herói kree Capitão Marvel e registrou a propriedade do nome. Assim, quando a DC adquiriu os personagens da Fawcett em 1973, não pode lançar uma revista com o nome do herói na capa. A solução foi lançar a revista Shazam!, mas o herói continuou sendo chamado de Capitão Marvel nas histórias.

Capitão Marvel, o @%$#@%#! Meu nome é
Zé Pequ… digo… Shazam!

Embora tenha nascido primeiro, o herói virou “o Capitão Marvel da DC” entre os fãs. Alguns deles,  até já o chamavam de Shazam (embora esse fosse o nome do mago). Em 2012, aproveitando o reboot do seu universo no ano anterior, a DC decidiu relançar o personagem e chamá-lo em definitivo de Shazam, mas criou um curioso paradoxo: se o herói se transforma cada vez que diz a palavra mágica “Shazam”, como ele faz quando precisa dizer seu nome para alguém?

Brincando com as referências

A história de Johns deixa meio que uma solução: ele precisa dizer a palavra mágica com convicção, caso contrário, a transformação não acontece. Porém, o próprio autor já revogou essa “norma” na nova HQ e brinca com o fato, quando Billy diz que queria “um codinome que ele possa pronunciar”. E complementa: “Algo como Capitão Marv…” antes de ser interrompido pelo grito de jantar.

Saído do Forno: Cebolinha – Recuperação

O selo Graphic MSP chega ao seu vigésimo volume trazendo uma história solo de um dos personagens mais carismáticos da Turma da Mônica. Não só isso: o álbum também traz o mais jovem autor a escrever para a coleção. De autoria de Gustavo Borges, de apenas 22 anos (autor de Pétalas, que já resenhamos aqui), Cebolinha – Recuperação traz o garoto usando toda sua perspicácia para desenvolver planos infalíveis que vão bem além de roubar o coelhinho da Mônica.

Cebolinha apronta na escola… e fica de recuperação.

A trama-base mostra Cebolinha na escola – algo até então bem pouco explorado na Turma da Mônica – e, por um descuido dos estudos, ele fica de recuperação. Mas o título da Graphic MSP vai muito além desse fato, explorando todos os significados da palavra “recuperação”, que também significa o saída de uma situação ruim, a caça a um brinquedo perdido ou o resgate da própria autoestima. Conforme a história vai acontecendo, o leitor vai sendo apresentado a esses problemas e percebendo que para tudo há uma segunda chance e uma alternativa.

Será que o Sansão estava escondido nessa mochila?

A rivalidade entre Cebolinha e a Mônica fica em segundo plano nesta HQ. Pelo contrário, eles são muito mais amigos do que rivais. O “vilão” da vez é o esnobe Robertinho, o aluno que está sempre um passo à frente de Cebolinha, mesmo que precise trapacear para isso. Essa situação causa muitos problemas ao Cebolinha, que também precisa lidar com dificuldades familiares. Como o próprio Mauricio de Sousa descreve em seu editorial na edição, a trama possui várias camadas, como uma cebola e – porque não dizer? – como a própria vida.

Problemas familiares também envolvem as crianças.

Borges consegue dosar muito bem uma trama realista e semelhante à vida de qualquer leitor com o lúdico de um personagem infantil sem que este perca suas características. Assim, a história agrada aos pequenos, pela arte caricatural e o humor tão particular dos personagens, mas também agrada os adultos, pelas entrelinhas da história, que mostra que as crianças também se envolvem no universo de gente grande e são afetadas por ele, respondendo com muita sensibilidade.

Cebolinha encontra apoio nos melhores amigos.

Claro que as tradicionais referências ao universo dos personagens não poderiam faltar, incluindo menções a outros títulos da Graphic MSP que os leitores vão se divertir encontrando no decorrer da história. Após 20 volumes, a Graphic MSP continua sendo um dos melhores títulos de quadrinhos no mercado, por apresentar versões bastante diferenciadas de personagens que conhecemos tão bem, em situações fora de seu universo particular. Esse tipo de iniciativa é sempre bem-vinda, principalmente em se tratando do mercado nacional de quadrinhos.