Em Primeira Mão: Batwoman

Estreou domingo, dia 6, o episódio piloto da nova série Batwoman, exibida pelo canal CW. A personagem apareceu pela primeira vez no ano passado, no crossover Elseworlds e agradou tanto que os produtores logo viram o potencial da personagem em uma série própria que explora o universo do Homem-Morcego (já que os direitos do Batman são para uso exclusivo no cinema). A heroína é interpretada pela atriz Ruby Rose, uma fã assumida de histórias em quadrinhos, em seu primeiro papel neste gênero. Exibida na sequência da já consagrada série da Supergirl (que estreou a quinta temporada no mesmo dia), a CW consagra o horário nobre do domingo para o universo feminino da DC Comics.

Ruby Rose é o novo nome incluído nos anais do heroísmo.

A trama se passa no chamado Arrowverso (universo das séries Arrow, The Flash, Supergirl e Legends of Tomorrow), mas numa linha do tempo alternativa, em que o Batman desaparece sob circunstâncias misteriosas e deixa Gotham City à mercê do crime. Após três anos de espera pelo retorno de seu defensor, os oficiais de polícia de Gotham decidem apagar o Batsinal e anunciar a chegada dos Corvos, uma força de elite policial especialmente treinada para lidar com os insanos criminosos da cidade – ao menos, é o que eles acham.

Alice vai competir com o Coringa no quesito insanidade.

Obviamente, surge uma nova vilã chamada Alice (Rachel Skarsten), com seus capangas usando máscaras inspiradas nos personagens da obra de Lewis CarrollAlice no País das Maravilhas. Ao saber do sequestro de seu antigo amor, a oficial Sophie (Meagan Tandy), a jovem Kate Kane retorna a Gotham após anos isolada, treinando corpo e mente para ser uma oficial na tropa dos Corvos. Porém, o Coronel Jacob Kane (Dougray Scott) não confia na filha recém-chegada, obrigando-a a adotar a identidade secreta da Batwoman para realizar o resgate e devolver a Gotham a esperança perdida.

O romance está no ar.

O programa tem o clima de qualquer série policial, mas com a dinâmica dos quadrinhos de super-heróis, com a diferença que é protagonizado por uma heroína assumidamente lésbica. Obviamente, no piloto, esse conflito entre a sexualidade da personagem e as exigências da vida militar já são colocadas em choque, mas sem o clima forçado das atuais publicações, que querem empurrar ideologias goela abaixo dos leitores. Ao menos na estreia, os produtores pegaram leve e tudo flui naturalmente.

Série Birds of Prey é referência (a parte boa, claro!).

Há uma pequena participação do Batman, em flashback e visto apenas de costas, mas o suficiente para levar ao delírio qualquer fã do personagem. A estratégia é semelhante à usada na antiga série Birds of Prey (2002-2003), que também tinha o Batman, o Coringa e a Batgirl vistos em cenas desfocadas na abertura da série. Aliás, falando na série, os produtores acertaram ao escalar a atriz Rachel Skarsten para viver a vilã Alice, numa homenagem a seu trabalho anterior como Dinah Lance, a filha da Canário Negro, em Birds of Prey. Ela tem tudo para se tornar uma revelação.

Edição de estreia de Alice. Esse arco foi republicado recentemente em capa dura pela Panini.

Para quem acompanhou os quadrinhos da Batwoman na fase pré-Novos 52, onde Alice fez sua estreia, sua relação com a heroína fica clara imediatamente, mas os que estão imergindo agora no novo universo da série, o final do episódio traz uma surpreendente revelação e um gancho do porquê Alice será uma grande dor de cabeça para Kane. Outro personagem bacana é Luke Fox (Camrus Johnson), o filho de Lucius Fox, engenheiro que administra as Indústrias Wayne e é responsável pelos apetrechos usados pelo Batman.

“Moça, não mexa aí!”

Com um toque de humor, Luke cuida da abandonada Mansão Wayne e terá o mesmo papel que seu pai na construção da versão feminina do herói de Gotham. Nos quadrinhos, Luke se torna o herói Batwing, mas ainda é cedo para dizer se ele vai adotar alguma identidade heroica na série. Em resumo, Batwoman começou muito bem, com uma trama muito bem construída, que amarra todos os personagens numa relação que deve ser bem explorada nos próximos episódios. Isso é muito importante para uma série de TV em início de trajetória, a fim de prender a atenção do público para os capítulos seguintes.

A Amazona das Trevas

Respeitando a mitologia da personagem e trazendo várias referências às HQs, o piloto agrada os fãs antigos e introduz os não familiarizados com os quadrinhos num universo totalmente novo, com o apelo das histórias do Batman, mas protagonizado por uma personagem que se construiu sozinha, calcada no seu próprio carisma. Tem tudo para dar certo!

Batwoman em sua versão clássica e renovada para os novos tempos.

Um pouco de história: Batwoman apareceu pela primeira vez na revista Detective Comics 233 (1956), criada para ser um interesse romântico para o Batman, a fim de amenizar as críticas sobre a homossexualidade do Homem-Morcego, lançadas pelo psicólogo Fredric Wertham no livro Sedução do Inocente. Ela era a socialite Kathy Kane, que combatia o crime com a ajuda dos apetrechos de sua bolsa de utilidades: batons, presilhas de cabelo, pó compacto e outros produtos tipicamente femininos.  A personagem foi esquecida durante muito tempo e retornou somente em 2006, na minissérie 52, que mostrava o ano em que os principais heróis da DC – Superman, Batman e Mulher-Maravilha – se afastaram de suas atividades. Ironicamente, em sua reestreia, ela é que voltou como homossexual e o nome um pouco diferente: Kate Kane.

Produtoras, precisamos ver isso em DVD!!

No cinema, já foram feitas duas produções não oficiais da personagem: Em 1968, o mexicano La Mujer Murcielago, com a atriz Maura Monti no papel principal, trazia a heroína em trajes sumários e reveladores investigando um cientista que está capturando campeões de luta livre para extrair deles o líquido espinhal e criar uma raça de homens-anfíbios (não perguntem o que tem uma coisa a ver com a outra). O filme se caracteriza pela vexatória cena em que a heroína pula nos braços dos vilões com medo de um rato. Alguma produtora PRECISA trazer essa pérola para o mercado de DVD!

Em Primeira Mão: O Culto de Chucky

Com lançamento marcado para 3 de outubro nos Estados Unidos e 25 de Outubro no Brasil, o filme O Culto de Chucky (Cult of Chucky, 2017) teve cópias vazadas na Internet, deixando o diretor Don Mancini bem irritado, a ponto dele se manifestar em sua conta no Twitter dizendo que sabe quem vazou e vai tomar as medidas cabíveis. Bom para os fãs, que puderam conferir antes o sétimo filme da franquia Brinquedo Assassino, que traz o boneco Chucky (Brad Dourif) em mais uma história cheia de tensão, violência explícita e muito, muito sangue.

Do You Wanna Play? Andy retorna à franquia e não está nem um pouco feliz.

O novo longa-metragem é uma volta às origens e traz de volta o ator Alex Vincent no papel de Andy Barclay, o primeiro a ter contato com Chucky, no filme de 1988. Barclay, por sinal, já tinha aparecido na cena pós-crédito de A Maldição de Chucky (2013) e é exatamente nesse ponto que a história retoma. Após os eventos do filme anterior, a jovem paraplégica Nica (Fiona Dourif, filha de Brad) é considerada louca e internada num hospício de segurança máxima. Após alguns meses de tratamento, nos quais seu médico, Dr. Foley (Michael Terriault) a convence que ela é que assassinou os membros de sua família e transferiu a culpa para o boneco, ele considera que Nica já pode ser transferida para uma clínica com mais liberdade.

Trazer o boneco para a terapia de grupo pode não ser uma boa ideia.

Durante a terapia de grupo, a jovem conhece outros internos: Michael (Adam Hurtig), com crise de identidade; Claire (Grace Lynn Kung), com problemas de temperamento; Angela (Marina Stephenson Kerr), que acredita já estar morta e Madeline (Elisabeth Rosen), depressiva após a morte de seu filho. O médico decide usar um boneco Bonzinho para ajudar no tratamento de Nica e desperta o instinto materno de Madeline, que associa o brinquedo a seu filho. Ao mesmo tempo, Tiffany (Jennifer Tilly) leva outro boneco para Nica, como “presente” de sua sobrinha Alice.

Tiffany também está de volta.

Não demora e os pacientes começam a morrer assassinados e Nica é a principal suspeita, mesmo ela jurando que os crimes são causados pelo boneco Chucky. Como há dois bonecos na clínica, fica a dúvida qual é o assassino e qual é, de fato, um brinquedo. Porém, é revelado que o verdadeiro Chucky, com sua cabeça destruída pelo tiro de Andy, encontra-se trancado num cofre, na casa do próprio rapaz, que a usa para descarregar sua frustração acumulada de anos contra Chucky.

Que Chucky fez isso a gente sabe. O que não dá pra saber é como o sangue não preenche os espaços das letras.

O filme trabalha o clima de paranoia existente numa clínica de doentes mentais e faz o público entrar na mesma neurose. Afinal, é o brinquedo que está matando ou tudo não passa de um delírio de Nica e ela é a verdadeira assassina? Existe mais de um Chucky? Há outro maníaco se fazendo passar pelo boneco? O filme responde essas perguntas no desenrolar da história, mas não tem uma narrativa clara e muita gente pode ficar confusa com o “culto” de Chuckys que se forma na hora e meia de projeção. A situação piora ainda mais, visto que o filme não tem um final, mas deixa um gancho para uma próxima história e muitas perguntas no ar.

Esse filme é pequeno demais para nós dois!

Felizmente, o diretor Don Mancini (que também é o criador de Chucky) percebeu que o caminho da comédia adotado nos longas A Noiva de Chucky (1998) e O Filho de Chucky (2004) estava ridicularizando o personagem e praticamente enterrando a franquia. Ao retomar o clima de suspense que originou o personagem, Mancini trouxe um ar de renovação que revitalizou a franquia. Até mesmo o rosto costurado do boneco foi restaurado – e a solução para isso foi simples e muito bem aceitável.

Hihihihihihihihi… (Ô risadinha maquiavélica!)

Embora seja inferior ao longa que o antecedeu, O Culto de Chucky é um bom filme de suspense que vai agradar aos fãs e devolve o personagem ao seu lugar como um dos principais assassinos do cinema de terror. Apenas fica o alerta para quem tem estômago fraco que o filme tem cenas bem fortes e sanguinolentas. O velho Chucky está de volta, definitivamente.

Cotação:

 

Em primeira mão: Inumanos

Numa parceria entre a Marvel Studios e os cinemas com tecnologia IMAX, foram exibidos ontem no Brasil (e hoje nos Estados Unidos) os dois primeiros episódios da série de TV Inumanos (Inhumans, 2017), que estreia no final deste mês pelo canal ABC (exibido pela Sony no Brasil). Editados em formato de longa-metragem, o filme tem 78 minutos e, ao contrário do esperado, não se tratou de uma exibição única, mas ainda pode ser visto nos próximos dias em cinemas equipados com a tecnologia IMAX (tela gigante e sistema de som stereo com 7 canais e projetor de alta definição).

Figurino do elenco foi motivo de piada nas redes sociais.

As primeiras exibições para a imprensa americana não foram muito favoráveis, resultando numa enxurrada de críticas que minaram o interesse do público pelo seriado dos desconhecidos heróis. Para piorar, o preço elevado da sessão em IMAX (R$ 53 reais) também não ajuda a atrair o espectador para estas sessões especiais. Somado ao fato de que a página da IMAX no Facebook e os próprios cinemas não tinham informações detalhadas sobre locais e horários de exibição, a estratégia da Marvel para impulsionar o seriado não foi lá muito acertada.

Adivinhe por que os Inumanos não usam chinelos…

Independentemente disto, a série é interessante e representa com fidelidade os personagens na tela. Escondidos da perseguição dos humanos na Lua, os Inumanos são uma raça de seres evoluídos onde cada membro tem um poder diferenciado, que ele recebe após se submeter a um processo chamado Terrigênese, no qual cristais especiais formam um gás que, absorvido, despertam os genes evoluídos em seus corpos. A série foca a família real inumana, formada pelo líder e rei, Raio Negro (Anson Mout), sua esposa Medusa (Serida Swan), a irmã dela, Cristalys (Isabelle Cornish), o chefe da guarda Gorgon (Eme Ikwuakor), o conselheiro Karnak (Ken Leung), seu irmão Triton (Mike Moh) e Maximus (Iwan Rehon), o irmão de Raio Negro. Completa o grupo o fofíssimo Dentinho, animal de estimação de Cristalys, que se assemelha a um buldogue gigante. 

A série já começa com cena de perseguição.

A história começa com o desaparecimento de Triton, aparentemente morto ao tentar ajudar uma inumana na Terra a fugir de um grupo de caçadores que a perseguia. Durante uma cerimônia de terrigênese, dois irmãos se tornam inumanos e um deles adquire o poder de ver o futuro, alertando Maximus de que ele seria atacado por serpentes, que ele entende ser os cabelos vivos de Medusa. Cansado de se esconder dos terrestres, o ambicioso inumano – o único que não possui poderes especiais – decide dar um golpe de estado e tomar o poder a fim de dominar nosso planeta e estabelecer aqui seu novo lar.

Maximus quer saber a marca do shampoo de Medusa.

Com a ajuda de Dentinho, que tem o poder de teletransporte, a Família Real é transportada ao nosso planeta, mais especificamente na ilha do Havaí, mas cada um num ponto diferente, exceto Cristalys, que é capturada antes de conseguir fugir. O problema é que, ao chegar à Terra, os Inumanos desconhecem nosso cotidiano e, obviamente, causam problemas. Separados, mas próximos, eles precisam se reencontrar e se unir para retornar à Lua, recuperar o poder e derrotar Maximus.

“Fora, Raio”. Maximus dá um golpe e toma o poder.

As críticas negativas aos dois primeiros episódios (a série terá oito, no total) foram um tanto quanto exageradas. É verdade que os efeitos especiais para representar os poderes de cada inumano são bem fracos e limitados em comparação ao que estamos acostumados a ver nos outros filmes da Marvel, mas para o nível de uma série de TV, com orçamento limitado, não fazem feio. Os cabelos da Medusa, tão aguardados pelos fãs, tiveram um recurso econômico que, provavelmente vão desagradar muita gente e gerar muitas críticas. Os cenários também são limitados – a maior parte do filme se passa no palácio real – com algumas panorâmicas que mostram toda cidade de Attilan e externas com as belas paisagens do Havaí. No entanto, isso pode mudar ao longo dos próximos episódios.

Terrigênese em Agentes da Shield é diferente da dos Inumanos

Sobre a história em si, vale lembrar que os Inumanos nunca foram personagens com grande apelo e tiveram raras histórias realmente relevantes no Universo Marvel. Portanto, o que é mostrado nas telas não é nem mais nem menos do que o esperado. O que faltou, talvez, foi uma ligação com a série Agentes da Shield, já que foi lá que o conceito dos Inumanos foi apresentado inicialmente – a terceira temporada, inclusive, trabalhou esse tema fortemente. A própria Terrigênese é diferente da mostrado na série, assemelhando-se mais aos quadrinhos e distanciando-se do conceito de universo unificado tão comum nos filmes da Marvel. Mesmo assim, os episódios têm ação, drama e conflitos na medida certa e não fazem feio.

Alerta: passear com seu cãozinho no meio do trânsito pode provocar acidentes.

Diferente do que aconteceu com Agentes da Shield, onde os personagens eram inéditos e os super-heróis não eram uma constante (começaram a aparecer depois, com a queda na audiência), Inumanos já começa com o universo heroico e, só por isso, já é um ponto positivo. Maximus está o perfeito vilão de quadrinhos: cruel, dissimulado, ambicioso e capaz de tudo para atingir seus objetivos, inclusive trair a própria família. E Dentinho, claro, será o favorito de todos. Não tem como não amar aquele cachorrão gigante com fofura pra dar e vender. Todo mundo vai querer uma pelúcia dele pra ontem!

Quem resiste a tanta fofura?

Inumanos é uma série curta, criada nos moldes de Agente Carter – para preencher o espaço de estreias e não precisar interromper a temporada na metade para as férias de final de ano. A diferença é que a série estrelada por Hayley Atwell estava intimamente ligada aos agentes secretos enquanto que Inumanos se distanciou desse contexto. Se os futuros episódios vão estabelecer uma ligação ou se a série vai manter a exclusividade, só o futuro dirá. O que se sabe, no entanto, é que Inumanos trouxe mais uma superequipe dos quadrinhos à vida de forma satisfatória. Os fãs não têm do que reclamar.

Cotação: 

Em Primeira Mão: Liga da Justiça Dark

blog-abreÀ venda a partir de fevereiro nos Estados Unidos, Liga da Justiça Sombria (Justice League Dark, 2017) é a nova animação da Warner/DC, trazendo a equipe de heróis místicos da editora, para lutar contra ameaças sobrenaturais com as quais a Liga da Justiça oficial não conseguiria lidar. Formada por Constantine, Zatanna, Jason Blood (o humano que divide o corpo com o demônio Etrigan), o fantasmagórico Desafiador e o Monstro do Pântano, a animação conta também com a participação do Batman liderando o grupo, num óbvio chamariz de vendas, já que dificilmente a equipe teria atenção sem um rosto conhecido. Marketing certíssimo da Warner e da DC Animated.

Mesmo com a presença do Batman, a estrela do filme é John Constantine

Mesmo com a presença do Batman, a estrela do filme é John Constantine

Mas a presença do Homem-Morcego na trama é o que menos incomoda, já que a estrela é mesmo John Constantine. É ele quem lidera os místicos numa jornada para descobrir uma anomalia sobrenatural que estava fazendo as pessoas ao redor do planeta enxergarem demônios em todo canto e matarem pessoas inocentes e até seus próprios familiares. A Liga da Justiça, incapaz de lidar com uma ameaça que não enxergam, decidiram recorrer aos especialistas, que se uniram em busca do responsável pelas perturbações místicas.

Zatanna teve que fazer mágica pra se destacar nesse desenho.

Zatanna teve que fazer mágica pra se destacar nesse desenho.

A história explora muito bem a personalidade de cada personagem – o sarcasmo e a “cafajestice” de Constantine, o bom humor do Desafiador, a amargura de Jason Blood e o poder quase ilimitado de seu alter ego. Só Zatanna estava meio perdida na trama e parecia não ter muito o que fazer, muito embora tenha seus momentos. O desenho tem uma trama muito boa, repleta de ação e muitas reviravoltas, mas definitivamente não é um desenho para crianças, tanto que sua classificação é Rated-R, que significa restrito a um público abaixo de 18 anos, exceto se acompanhado dos pais. É uma história adulta, meio pesada em sua temática, pois o sobrenatural é tratado como algo sério e não como uma fantasia visual, como no filme do Doutor Estranho.

Animação adapta grupo que surgiu na fase Novos 52.

Animação adapta grupo que surgiu na fase Novos 52.

Já fazia algum tempo que as animações da DC não atingiam um patamar tão bom. Desde que a divisão animada se alinhou à fase dos Novos 52 e passou a adaptar as sagas deste período, esquecendo a fase clássica – exceção feita à Batman – O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal, este último, numa adaptação vexaminosa (veja crítica aqui) – as tramas decaíram bastante, embora a qualidade técnica dos desenhos tenha permanecido imbatível.

Etrigan fala tudo rimado e também brilha nesse desenho irado.

Etrigan fala tudo rimado e também brilha nesse desenho irado.

Com a Liga da Justiça Sombria (que também é um fruto da fase Novos 52), a editora reencontrou um caminho mesclando uma boa história, personagens bem desenvolvidos e muita ação. Esses ingredientes fazem do desenho uma excelente opção para aqueles que gostam de uma aventura animada de super-heróis. A expectativa é que as próximas animações mantenham essa qualidade. Liga da Justiça Sombria ainda não tem data de lançamento no Brasil, mas deve chegar às lojas ainda no primeiro semestre de 2017.

Cotação: blog-liga-dark

Em Primeira Mão: Batman – A Piada Mortal

blog abreO consagrado roteirista Alan Moore tem o costume de reclamar de todas as adaptações de suas obras, seja para quadrinhos, seja para cinema, por considerar que elas foram concebidas daquela forma, naquela época e para aquela mídia – no caso, quadrinhos – e não aceita que sejam feitas as alterações decorrentes de uma transposição para outras mídias. Se ele visse o que fizeram com a graphic novel Batman – A Piada Mortal (1988) na recente animação homônima que acaba de ser lançada pela DC/Warner para o mercado doméstico, certamente teria mais um de seus chiliques.

Cena de "Batgirl - O Filme"... não, pera...

Cena de “Batgirl – O Filme”… não, pera…

Não que a animação seja ruim, o que não é. O grande problema está na inserção desnecessária de um prelúdio focado na Batgirl que dá ao espectador a impressão de que ele comprou o desenho errado. Pior que isso: a animação, alardeada com uma classificação etária Rated-R (indicada para maiores de idade), deixa explícito que a heroína teve um envolvimento sexual com Batman antes dos acontecimentos da trama principal. Uma besteira feita para explicar – ou pelo menos, acalmar os ânimos, aliviar, disfarçar, tirar a atenção… chamem do que quiserem – outra baboseira decorrente do mundo politicamente correto que transforma uma capa variante numa polêmica desprovida de qualquer bom senso.

Cena da HQ é reproduzida na animação e roteiro também serviu de inspiração para o filme O Cavaleiro das Trevas (2008)

Cena da HQ é reproduzida na animação e roteiro também serviu de inspiração para o filme O Cavaleiro das Trevas (2008)

Explicando: quando foi lançada, em 1988, a graphic novel A Piada Mortal teve a premissa de revisitar as origens do arqui-inimigo do Batman, o Coringa, e mostrar que tanto o herói como o vilão são faces de uma mesma moeda. O que os diferencia é a forma como cada um encara sua “loucura” e qual o direcionamento que dá para seus valores. A premissa de que “qualquer um pode enlouquecer se tiver um dia ruim” foi usada no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), mostrando uma das mais marcantes interpretações do Palhaço do Crime, interpretado pelo finado Heath Ledger. Algumas cenas da HQ também foram transpostas para o filme – como a cena em que o Batman visita o Coringa no Asilo Arkham.

Capa polêmica: homenagem ou apologia à violência contra a mulher?

Capa polêmica: homenagem ou apologia à violência contra a mulher?

É nessa HQ que o Coringa atira na coluna da Batgirl, deixando-a paraplégica e obriga seu pai, o Comissário Gordon, a ver fotos da filha nua e ensanguentada (deixando em aberto a dúvida se o vilão também a estuprou). O fato, até hoje, gera discussão entre os fãs e se intensificou após o desenhista Rafael Albuquerque criar uma capa variante para a revista da Batgirl onde homenageia a graphic novel e mostra o Coringa ameaçando a heroína. Grupos feministas consideraram a capa ofensiva porque expõe a heroína a uma situação de ameaça e, segundo esses mesmos grupos, é uma apologia ao estupro e à violência contra a mulher. O bafafá foi tão grande que Albuquerque pediu desculpas aos leitores e a DC relegou a capa-homenagem ao limbo.

Batgirl peitando Batman pra mostrar quem é que manda.

Batgirl peitando Batman pra mostrar quem é que manda.

Sem entrar no mérito da capa, porque nosso objetivo é a crítica à animação, fica evidente que o roteirista Brian Azzarello (responsável pelo roteiro do desenho animado) quis dar um “empoderamento” à heroína e, antes de entrar na história que dá título à animação, mostra meia hora de ação com a Batgirl. É um prelúdio desnecessário porque não acrescenta absolutamente nada à trama. Pelo contrário, desconstrói a personagem em sua essência como super-heroína, para mostrar que ela agia mais por interesse sexual no seu parceiro do que para combater o crime. A frase “foi só uma transa” também faz parte do cardápio – frase-clichê da liberação feminina, que também descarta o “macho” mediante a sua satisfação carnal.

Cena idêntica à HQ

Cena idêntica à HQ

Tirada essa introdução dispensável, a animação segue fiel à HQ, inclusive com reproduções de cenas icônicas do álbum e várias referências a outras histórias importantes do vilão – incluindo a morte do Robin no arco Morte em Família (1988), a primeira aparição do Coringa em Batman 1 (1940) e a estréia do Homem-Morcego em Detective Comics 27 (1939). A origem do vilão é mostrada em flashback conforme a trama vai se desenrolando, até o clímax de sua batalha contra o Batman e a piada que conclui a história de forma incomum para os padrões do Homem-Morcego. Há uma cena pós-crédito com a Batgirl que também não faz parte da graphic novel, mas essa sim acrescenta algo à história e dá um fechamento brilhante aos acontecimentos, mostrando que a vida continua e os verdadeiros heróis sempre se superam. Com uma pequena cena de meio minuto, Azzarello deu à Batgirl todo “empoderamento” que a heroína precisa, dispensando meia hora de encheção de linguiça.

Classificação adulta para uma premissa infantil

Classificação adulta para uma premissa infantil

Na tentativa de ser politicamente correto e agradar grupos minoritários, A Piada Mortal “estupra” uma grande obra que nasceu perfeita em sua concepção. A impressão é que a mensagem de que “qualquer um pode se tornar insano se tiver um dia ruim” ficou em segundo plano em detrimento à mensagem subliminar de que heroínas são aquelas que transam libertariamente, contestam seus parceiros masculinos e conquistam sua liberdade. Uma imagem distorcida e desrespeitosa da imagem da mulher, que a “versão para maiores” não torna menos pior. Uma pena. Por causa de meia hora, o desenho que tinha tudo para ser uma excelente animação, foi reduzido a uma piada de mau gosto.

Cotação: blog cotaçãopiada