Xeretando: O tema cantado do Superman

Em mais uma edição do nossa seção Xeretando, desencavamos uma pérola musical do final dos anos 1970. Não é nenhum exagero afirmar que o tema de Superman – O Filme (1978), composto por John Willians para o longa-metragem do Homem de Aço é uma das mais icônicas trilhas sonoras de cinema e tornou ainda mais memorável o filme estrelado por Christopher Reeve – aliás, em se tratando de John Willians, é difícil uma trilha criada por ele que não tenha se tornado icônica. 

“Olha lá no céu! É um disco voador? Não! É o disco vinil do Superman!”

A marcha é tão marcante que é impossível pensar no Superman sem que os acordes da música venha à mente e vice-versa: não dá para ouvir a música sem mentalizar o herói. E é curioso notar que o tema tem alguns acordes bem parecidos com a trilha da série de TV dos anos 50, estrelada por George Reeves. O fato é que Willians conseguiu criar um tema vibrante, inspirador e heroico, que começa suave e vai crescendo até atingir as alturas, bem à semelhança daquele a quem a música representa.

Disco raríssimo com a única versão cantada do clássico tema de John Willians

Mas pouca gente sabe é que o tema instrumental teve uma versão cantada, voltada para crianças, lançada em 1979 – ano do lançamento do filme no Brasil (por aqui o longa só estreou em abril de 1979, quatro meses depois dos Estados Unidos). Trata-se de um compacto em vinil azul, transparente (como era comum nos discos infantis), lançado pela WEA Discos, gravadora pertencente à Warner Bros., o que deixa claro que a versão foi feita com o aval da produtora.

O vinil era azul e transparente, bem comum nos discos infantis da época.

O lado A do disco trazia a música “Super-Homem” – Tema do Super-Herói, enquanto que o lado B tinha “The Flying Sequence”, o tema romântico do Superman (esta, apenas instrumental), ambas com arranjos do maestro Eduardo Assad. A versão cantada é de autoria do compositor Paulo Sérgio Valle e as vozes ficaram por conta de um coral infantil chamado Os Pequenos Cantores de Krypton, em sua única gravação conhecida (no disco, Krypton estava grafado com I). A letra ainda traduzia o nome do herói, que só passou a ser chamado de Superman na segunda metade da década de 1990, após a série Lois & Clark. Abaixo, a letra da música e o vídeo para você ouvir esta pérola musical:

Eterno Christopher Reeve

Super-Homem 

Atenção, vem vindo no ar
Parece até que é um avião
Um ser do espaço, é o Super-Homem
O Homem de Aço que vem lutar pelo bem

Mais veloz que a luz e o som
Tão audaz, de tudo é capaz
Ele veio do espaço, de outro planeta
Onde morava Jor-El,
Em um ponto do céu

Onde houver perigo o Super-Homem vai
Defender com muito amor a nossa paz
É por isso que ele é o nosso herói
Sempre do lado de quem
Só quer fazer o bem

Onde houver amor o Super-Homem vai
Pra fazer um mundo bom pra se viver
Seu poder faz dele o nosso super-herói
Superamigo também
Que as crianças têm

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Dica Literária: O Incrível Hulk

Lançado em dezembro do ano passado – mas só descobri recentemente – o livro O Incrível Hulk, quinto volume da Coleção TV Estronho, de autoria de Saulo Adami, traça um panorama da clássica série de televisão do Gigante Verde no final da década de 1970 e início dos anos 1980. Embora focado na série, o livro é bem completo e traz também outras aparições do personagem da Marvel em animações e longas-metragens para o cinema, além de mostrar sua origem nos quadrinhos.

Livro contém detalhadas informações de bastidores.

Além disso, o autor revela curiosidades de bastidores e apresenta um guia com direito a sinopse e elenco de cada um dos 82 episódios nas cinco temporadas que durou a série, sem esquecer os três longas-metragens que tentaram ressuscitar o seriado e, de quebra, incluir outros personagens da Marvel como Thor e Demolidor, na expectativa de gerar séries solo desses heróis. Tem também o guia de episódios das três séries animadas do Hulk – ou seriam duas séries animadas e uma “desanimada”?

Obra traz entrevista com o desenhista Carlos Magno, que fez Captain Universe/ Incredible Hulk 1 (2006)

Ricamente ilustrado, com fotos da produção e frames capturados da TV, o livro traz ainda uma introdução escrita por uma psicóloga – esposa do autor – analisando o perfil do monstro e sua relação com o próprio comportamento humano e uma entrevista com o desenhista Carlos Magno, que trabalhou em uma importante HQ do Verdão nos Estados Unidos. Em resumo, é um livro muito bom, que serve como guia para colecionadores e saudosistas relembrarem desta série que marcou época, bem como apresentar o programa para um público novo que nunca teve contato com esta versão antiga do Golias Esmeralda.

Hulk, Thor e o “papai” Lee.

Porém, como nem tudo são flores, a obra tem um grave problema. Embora seja de autoria de Saulo Adami, o autor contou com a colaboração de dois especialistas no personagem – Marcelo Amado, que destaca algumas participações especiais nos episódios e José Aguiar, que faz o resumo dos três filmes posteriores à série. É aí que reside o perigo, pois autores com estilos diferentes no mesmo livro provocam uma quebra na narrativa que traz opiniões distintas e destoa no conjunto.

“Sr. Aguiar, não me irrite falando mal da minha série. O senhor não ia gostar de me ver nervoso!”

Exemplo: Adami tem um texto sério e passa o livro inteiro exaltando a série e mostrando sua importância para a cultura pop, sem esquecer, obviamente, que o programa tinha suas bizarrices: tinta verde que desbotava, sapatilhas verdes, peruca mal feita… Era o que o orçamento e a tecnologia da época permitiam e há que se olhar para esses “defeitos especiais” com um ar condescendente. Aguiar, por sua vez, usa do discurso “engraçadinho” (com certo exagero, até) para denegrir todos os filmes posteriores, se opondo totalmente à imagem cult que Adami tentou trazer. Há até um alerta de “informações nocivas à saúde”! Desnecessário e depreciativo.

Hulk de sapatilhas? A série tem suas falhas, mas o livro também dá seus tropeços…

Há também alguns problemas de revisão que destaca o desenhista Alex Ross como brasileiro, a Tempestade dos X-Men como “Auroru” (o nome verdadeiro da moça é Ororo) e erros de pontuação. Não chega a tirar o mérito da obra como um todo, mas poderiam ter sido evitados com um pouco mais de atenção. Esperamos que uma segunda edição do livro corrija essas falhas, pois a obra tem uma boa pesquisa que merece ser valorizada.

“Cabô” o café!! Assim não dá pra controlar a raiva…

O Incrível Hulk pode ser adquirido no site da editora, ao preço médio de R$ 39,90. Vale dizer que a Editora Estronho tem livros de outras séries clássicas de televisão, como Ultraman (falamos sobre este livro aqui), Planeta dos Macacos, Perdidos no Espaço, Kung Fu e a coleção prevê mais lançamentos, entre os quais: A Feiticeira, Terra de Gigantes, Vigilante Rodoviário, Jornada nas Estrelas e outros. Para quem gosta de séries clássicas, é um item obrigatório que não deve faltar na estante.

Sequência Favorita 03: Homem-Aranha

Dando sequência (ops!) à nossa série Sequência Favorita, hoje destacamos uma cena de Homem-Aranha (2002), filme de estreia do aracnídeo no cinema (excetuando-se o episódio duplo da série de TV, que teve uma exibição nos cinemas em 1979). O longa trouxe Tobey Maguire no papel do herói e Kirsten Dunst como Mary Jane, com direção de Sam Raimi, teve uma cena que se tornou tão icônica que, certamente, entrou para a história do cinema. 

A cena marcante foi reproduzida pelo artista Alex Ross.

Convenhamos: um casal, beijo apaixonado e chuva são grandes clichês do cinema. Mas a cena do Homem-Aranha inovou por se tratar de um beijo sensual envolvendo máscaras e uma posição diferente, como só o herói aracnídeo poderia proporcionar. A sequência começa com Mary Jane saindo do trabalho à noite e sendo perseguida por bandidos. Peter Parker percebeu o perigo e correu para vestir seu traje heroico, mas não teve tempo suficiente e precisou salvar a amada sem a máscara mesmo, usando a escuridão de um beco para ocultar sua identidade.

Dois exemplos de como a cena marcou época.

Quando Mary Jane se aproximou, o rapaz fugiu, vestiu a máscara e, pendurado de ponta-cabeça, recebeu o agradecimento da jovem. Ela tirou a máscara do herói até a expor sua boca e lhe deu um beijo carinhoso – algo que o apaixonado Peter Parker não tinha conseguido ainda, pois não teve coragem de declarar seu amor. Às vezes, ter uma dupla identidade tem seus benefícios… A prova da importância desta cena é que ela foi repetida em outras oportunidades. Só para citar dois exemplos: na própria sequência, Homem-Aranha 3 (2007), quando Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard) homenageia o herói em um evento público e na série The O. C., numa cena em que Seth (Adam Brody) cai do telhado e fica pendurado, sendo beijado por Summer (Rachel Bilson).

Crítica: Os Incríveis 2

No dia 28 de junho, estreia o filme Os Incríveis 2 (Incredibles 2, 2018), o 20º. longa-metragem da Pixar, que dá continuidade à franquia iniciada em 2004, quando estreou o primeiro longa-metragem da super-família. Novamente dirigido por Brad Bird, o novo filme teve sua estreia antecipada em um ano pela Pixar, pois o filme Toy Story 4 – que deveria estrear este ano – estava com sua produção atrasada e, como Os Incríveis 2 já estava mais adiantado, trocou de data com a turma de brinquedos. Sorte nossa!

Vale destacar que Os Incríveis 2 conta com as vozes do jornalista Evaristo Costa, dos apresentadores Raul GilOtaviano Costa e da atriz Flávia Alessandra na dublagem. Veja abaixo nossa crítica sem spoilers. 

Guarda-roupa: Capitã Marvel

A cena pós-crédito do filme Vingadores: Guerra Infinita deixou os fãs atiçados com o papel que a Capitã Marvel irá desempenhar na continuação do longa e também no próprio filme solo, previsto para estrear em 14 de março de 2019 – muito embora o filme solo já dá pra prever que será mostrada a origem da personagem e, no final, provavelmente tenha um gancho para Vingadores 4. De qualquer forma, nosso blox se antecipa e abre o guarda-roupa da heroína, mostrando os principais trajes (e nomes) já usados por ela desde sua criação. Vamos lá!

Traje original abusava da ousadia.

Clássico: Carol Danvers estreou na revista Marvel Super-Heroes 13 (1968), como coadjuvante de uma história do herói kree Capitão Marvel. Na época, ela era apenas a capitã da Força Aérea americana que se envolveu na luta do herói kree e acabou sendo exposta a um aparelho chamado Psicomagnitron, que fundiu seu DNA com o de Mar-Vell, concedendo-lhe habilidades de voo, força sobre-humana e um sétimo sentido que lhe concedia visões do futuro. Sob a identidade de Ms. Marvel, estreou em Ms. Marvel 1 (1977), com um traje hipersensual, que imitava a roupa do Capitão Marvel, mas tinha as pernas e a barriga de fora. Uma echarpe vermelha simulando uma capa completava o visual.

Boas moças não ficam se insinuando, Carol. Cubra essa barriga!

Clássico 2: A partir de Ms. Marvel 9 (1977), a heroína deu uma “comportada” em seu traje e cobriu a barriga. A parte de cima do uniforme passou a cobrir todo o corpo, mas a parte de baixo continuou exibindo as belas pernas da capitã Danvers.

Em sintonia com a moda

Traje preto: Com o tempo, a heroína passou a se tornar mais independente e deixou de ser apenas uma versão feminina do Capitão Marvel. Assim, em Ms. Marvel 20 (1978), ela adotou um traje novíssimo, feito em moléculas instáveis (o anterior surgia do nada, como uma espécie de superpoder extra) e desenhado pela Vespa, sua colega dos Vingadores. O maiô preto, com o relâmpago no peito, faixa vermelha na cintura, luvas cobrindo até o antebraço e longas botas permaneceu durante muito tempo no visual da personagem. Além disso, ela também adotou cabelos longos ao invés do corte mais curto e armado.

Nova alteração genética provoca uma mudança radical

Binária: Em Uncanny X-Men 164 (1982), Carol passou por mais uma mudança radical: capturada pela raça alienígena Ninhada, ela passou por estranhos experimentos no espaço sideral e ganhou poderes cósmicos. Com “cabelos” de fogo em formato de estrela e um traje vermelho cobrindo todo seu corpo, com detalhes brancos e luvas e botas desta cor com chamas em suas extremidades, Carol passou a se chamar Binária e se uniu aos Piratas Siderais, um grupo de mercenários intergaláticos, permanecendo com eles no espaço.

Pretinho básico

De volta ao negro (ou Back in Black, pra não perder a referência): O espaço pode ser um lugar muito bom para se visitar, mas é silencioso e isolado demais para se viver. Acostumada à vida de aventuras, não demorou muito e Binária voltou à Terra para ajudar os Vingadores, principalmente quando seus poderes cósmicos começaram a diminuir. Nesse período, mostrado em Avengers 1 (1998), Binária voltou a usar seu traje preto, combinado à sua aparência cósmica (pele vermelha e cabelos em chamas). Pouco tempo depois, esses poderes estelares foram totalmente exauridos e ela voltou à aparência humana.

Warbird resgata a veia militar da heroína.

Warbird: Em Avengers 4 (1998), Carol continuou como membro dos Vingadores e adotou o novo nome de Warbird. Nessa época, ela se tornou alcoólatra e causou vários problemas à superequipe e a si mesma, sendo afastada por tempo indeterminado. Quando se recuperou, ela se tornou agente da NASA e adotou um traje militarizado preto e prata, com ombreiras acolchoadas, cotoveleiras e detalhes metálicos. Após o colapso da Feiticeira Escarlate, que debandou os Vingadores, Carol voltou a ser conhecida como Ms. Marvel e retomou seu traje preto quando se uniu aos Novos Vingadores, equipe que se formou pouco tempo depois.

Uniforme funcional: versão com e sem capacete.

Capitã Marvel: Determinada a manter vivo o legado do Capitão Marvel, morto por câncer muitos anos antes, mas que foi ressuscitado pelo Cristal M’Kraan para proteger o império Kree e, novamente, deu sua vida contra a Força Fênix durante a saga Vingadores Vs. X-Men (Nem pergunte, isso é complicado demais!), a heroína decidiu adotar o mesmo nome do seu inspirador e trocou seu uniforme para um colante semelhante ao usado por Mar-Vell, com visual militar e bem diferente da antiga Ms. Marvel. A roupa azul cobre o corpo todo, inclusive o pescoço, tem detalhes em vermelho no pescoço e ombros, além das botas e luvas com botões. A estrela no peito, unida a faixas douradas separa o vermelho dos ombros do azul da roupa. Um capacete retrátil complementa o visual, mas é usado somente em missões no espaço. Como sua identidade é publicamente conhecida, a Capitã Marvel prefere mesmo agir de cara limpa. O corte de cabelo voltou a ser curto e arrepiado, com moicano quando usa capacete. A transição dos uniformes aconteceu em Captain Marvel 1 (2012), mas a heroína já tinha aparecido com sua nova identidade em Avenging Spider-Man 9 (2012), lançado poucos dias antes.

Discrição é o meu lema.

Agente da Shield: Em Avengers 335 (2014), a Capitã Marvel se uniu à Shield a fim de caçar os Illuminati (grupo formado pelo Homem de Ferro, Dr. Estranho, Raio Negro, Charles Xavier, Senhor Fantástico e Namor para prevenir grandes ameaças antes delas acontecerem). Nessa ocasião, ela passou a usar uma versão preta e cinza de seu uniforme recente. A ideia era ser mais discreta em missões furtivas. Mas ela logo voltou à versão colorida tradicional.

Extras:

Promoção automática: de tenente para capitã

Primeira capitã: A primeira pessoa a usar o nome de Capitã Marvel foi Monica Rambeau, que estreou em Amazing Spider-Man Annual 16 (1982). Tenente da Patrulha Portuária de Nova Orleans, ela foi bombardeada por uma energia extradimensional vinda da arma energética de um criminoso e adquiriu a habilidade de controlar todas as formas de energia do espectro luminoso. Ela atuou nos Vingadores durante muito tempo e, assim como Carol, já teve vários nomes heroicos diferentes: Fóton, Pulsar e Espectro, nome que usa atualmente. Seu primeiro uniforme era negro, com uma bata branca e botas curtas na mesma cor.

Versão juvenil

Ms. Marvel Moderna: A jovem muçulmana Kamala Khan se tornou a nova versão da Ms. Marvel ao respirar a nuvem de gás terrígeno que se espalhou pelo planeta com a destruição de Attilan, lar dos Inumanos. Com isso, a jovem despertou o gene inumano de seu organismo e adquiriu a habilidade de mudar a forma de seu corpo, esticando, aumentando de tamanho e até alterando sua aparência. Inspirada por sua heroína preferida – a Capitã Marvel, claro! – Kamala adotou o antigo nome que estava “vago” e criou um uniforme que combina o clássico traje vermelho e azul com o preto: colante vermelho, com camisão azul e o raio amarelo no peito, além da echarpe vermelha e botas azuis.

Sequência Favorita 02: Demolidor – O Homem sem Medo

A versão cinematográfica do Demolidor não é o que se pode chamar de unanimidade. O longa de 2003 dividiu os fãs e fez valer a máxima do “ame-o ou deixe-o”. Eu, particularmente, considero o filme bem simpático e fiel aos quadrinhos. Claro que não é nenhuma obra-prima do cinema e, sim, tem alguns momentos bem constrangedores – a luta no parque de diversões é o exemplo clássico – mas, de um modo geral, o filme cumpriu seu papel de apresentar o personagem ao público que não acompanha HQs e mostrar que a Marvel tem heróis bem bacanas em seu segundo escalão.

O filme tem seus defeitos, mas também foi bastante fiel às HQs.

Com Ben Affleck no papel do herói cego e Jennifer Garner como Elektra, a namorada do herói (pouco tempo depois, Garner se tornaria a esposa de Affleck, no melhor estilo da vida que imita a arte), o longa reservou para o casal uma cena cheia de romantismo e magia, que ganha mais sentimento com a versão instrumental música My Immortal, do grupo Evanescense, tocada ao fundo. A cena em questão é a chamada “cena da chuva”, na qual Matt Murdock leva sua amada para o terraço de um prédio onde ele costumava ficar quando criança. 

Uma linda cena de amor com efeitos especiais que emocionam

Quando Elektra diz que precisa ir, Matt pede que ela fique mais um momento, até que comece a chover, pois queria “vê-la” por meio das vibrações provocadas pelos pingos da chuva em seu rosto e captadas por sistema de radar do advogado. A forma como isso é mostrado no filme é repleto de poesia, num efeito especial simples, mas de beleza ímpar. O efeito se repete na cena do funeral do pai de Elektra (deve ser alguma norma de Hollywood que todo funeral tenha chuva), desta vez com My Immortal cantada e um extra: Elektra abre um guarda-chuva e seu rosto desaparece no radar de Matt. Genial!

Entrevista: Mundo dos Super-Heróis chega à edição 100

Em breve, chega às bancas a centésima edição da revista Mundo dos Super-Heróis. Chegar a essa numeração é, por si só, de uma importância ímpar para qualquer publicação. No caso da Mundo dos Super-Heróis o mérito é maior, porque o tema ainda é tratado com certo preconceito pela grande imprensa e, não raras vezes, considerado uma subcultura. Alheia a esse desprezo todo, a Mundo conquistou seu espaço com profissionalismo e mostrando que quadrinhos de super-heróis são, sim, uma pauta importante – estão aí os filmes da Marvel e DC, movimentando o mercado cinematográfico e rendendo bilhões, só para citar um exemplo.

Edição histórica: Mundo dos Super-Heróis 1

Em doze anos de história, a revista conseguiu chegar ao número 100 (e muita gente acreditava que não passaria do 10), ganhou o Troféu HQMix três vezes (2007, 2008 e 2011), gerou uma “filha” (a revista Mundo Nerd, que durou 12 edições), duas coleções em fascículos (Coleção Super-Heróis, em sete volumes e Coleção Mundo Nerd, em mais seis), quatro livros temáticos – Super-Heróis no Cinema e nos Longas-Metragens da TV, Super-Heróis nos Desenhos Animados, Heróis dos Animes (todos de autoria de André Morelli) e Vampiros na Cultura Pop (de autoria de Manoel de Souza e Maurício Muniz) – três revistas-pôster dos filmes X-Men Apocalipse, Logan e Homem-Aranha: De volta ao Lar, uma edição especial de Stan Lee e duas edições da revista Dossiê Nerd. Ufa! Que fôlego de super-herói, hem?

As “publicações-filhas” da MSH

Tudo isso só foi possível pelo esforço e dedicação do editor Manoel de Souza, idealizador da revista e responsável pela direção competente e focada no jornalismo – sim, porque o tema pode ter foco jornalístico e transformar entretenimento em conhecimento! É ele quem fala com nosso blog neste entrevista recheada de informações a respeito do importante marco não apenas da revista em si, mas das próprias publicações do gênero no Brasil. Com a palavra, Manoel de Souza, editor da revista Mundo dos Super-Heróis!

Quando garoto, Manoel fazia suas próprias HQs e até criava personagens. A influência era John Byrne e Frank Miller.

Conte um pouco do processo para a criação da primeira Mundo dos Super-Heróis. Quanto tempo desde a criação do projeto até o lançamento?
Bem, a história é longa e tenho até um texto pronto para explicá-la. Quando comecei a desenhar em 1985, já bolava minhas próprias revistinhas. Nunca separei as coisas pois gostava de tudo: roteiro, desenho, edição. Depois virei fanzineiro no começo dos anos 1990, quando editava o Ovo. Depois que me formei no colégio técnico em 1993, trabalhei um tempo como ilustrador e depois caí de cabeça no design gráfico de revistas pois gostava muito daquele universo. Mesmo não trabalhando diretamente com quadrinhos, fiquei anos planejando uma revista sobre o tema.

Revista dos Curiosos abriu as portas para a chegada da MSH.

Por volta de 2003 isso ficou mais sério, pois consegui convencer os diretores da Editora Europa, onde eu já trabalhava desde 1994 (Manoel era editor da revista Natureza), a criarmos uma edição especial da Revista dos Curiosos, publicação editada pelo jornalista e escritor Marcelo Duarte. Na tal edição, chamada de Mundo Pop, eu falaria sobre cinema, séries de TV e – é claro – quadrinhos. Esse foi o embrião da Mundo. Infelizmente, a Revista dos Curiosos foi descontinuada e meu projeto ficou de lado.

Estudos para o projeto inicial da Mundo

Dois anos e pouco depois, consegui convencer os mesmos diretores da Europa a lançar um especial sobre o Superman para pegarmos rabeira na estreia do filme Superman – O Retorno, de Bryan Singer, que estreava em 2006. Fiquei meses desenvolvendo o projeto, mas rolou outro problema: chegamos à conclusão que não era uma boa criar uma revista inteira sobre só um personagem pois isso poderia gerar problemas com os direitos autorais e licenciamento da Warner, a distribuidora do filme. Por conta disso, um mês antes do lançamento, tive que reestruturar completamente o projeto.

Na hora fiquei muito frustrado, mas hoje vejo que isso foi ótimo, pois consegui deixar a Mundo dos Super-Heróis do jeito que queria, com seções bem diversificadas sobre heróis e artistas de diversas épocas e países. Então, criei a revista que eu gostaria de ver nas bancas e nunca encontrei.

As experiências gráficas serviram para deixar as matérias mais informativas e com visual sofisticado.

Como foi a aceitação da revista nas bancas? Vendeu bem?
Sim, o retorno dos leitores foi ótimo. Pelo que senti, todo mundo foi meio que pego de surpresa pois não havia ninguém conhecido em nossa equipe. Foi algo inesperado. Do nada, apareceu aquela revista com uma qualidade muito alta. Vendeu o suficiente para a editora se interessar em continuar com o projeto.

Primeira revista feita, sonho realizado… e depois? O que passou pela sua cabeça?
Bom, como eu tinha levado tantos anos para ver o projeto nas bancas, já estava meio que satisfeito. Uma edição, pelo menos, eu tinha conseguido lançar… Quando vi que o projeto teria continuidade, precisei criar uma estrutura e montar uma equipe maior para seguirmos em frente. E essa foi minha prioridade por um bom tempo.

Fanzine editado por Manoel entre 1991 e 1992. Não dá pra levar a sério um órgão sobre cultura pop com um nome desses… Hã… pera…

Antigamente, super-heróis eram vistos como “coisa de criança”. Hoje isso já mudou, mas ainda tem muita gente que tem essa ideia. Você sofreu algum preconceito por gostar do tema e, principalmente, fazer uma revista sobre o assunto?
Nunca dei muita bola para esse tipo de coisa. Com ou sem quadrinhos, sempre me acharam meio esquisito mesmo… (risos) O importante é fazer o que acredita. Os outros são apenas os outros…

Como se deu a escolha dos colaboradores para escrever para a revista?
Os primeiros colaboradores eram amigos mais próximos e pessoas indicadas por eles. Até minha irmã e minha cunhada, que não tinham nada a ver com a história, entraram na jogada para me ajudar. Com o tempo, muitos profissionais apareceram com a intenção de entrar para a equipe. Muitos desses conseguiram e estão aí até hoje.

As reuniões de pauta são sempre muito estressantes… ou quase.

Como eram definidas as pautas das edições? Havia um planejamento a longo prazo ou as edições eram feitas conforme iam saindo? O que mudou daquele tempo para cá?
O processo é praticamente o mesmo desse o início: eu planejo diversas edições para frente baseado nos assuntos que estarão em alta no período que a revista estiver em bancas. Daí vou trabalhando cada edição com o melhor conteúdo possível.

Ao longo dessas 100 edições, a linha editorial mudou várias vezes. Por que isso aconteceu?
Para sobrevivermos. Tudo que fazemos é sempre pensando na sobrevivência da revista. E isso só é possível se conseguirmos atrair leitores e tratá-los o melhor possível. 

Equipe da Mundo no HQ Mix de 2012 – Tricampeã.

Um dos diferenciais da MSH é a relação com os leitores. Mesmo com a rapidez dos meios virtuais, a revista ainda mantém uma seção de cartas e um contato próximo com o público. Você acredita que isso é importante para o sucesso da revista?
Essencial. Leitor é rei. Precisa do melhor tratamento possível. E ser surpreendido positivamente, é claro.

Falando em meios virtuais, a revista ainda vende bem nas bancas? Como se divide o percentual de vendas da revista?
Ela vende o suficiente para se manter, mas estamos sempre quebrando a cabeça para melhorar isso. Infelizmente não tenho autorização para citar números. Digamos que seja um número que torna o processo viável… mas sempre achei bem menor do que merecemos por conta do capricho despendido.

Na Comic Con San Diego, Manoel teve o privilégio de conhecer Jim Steranko. E ele conheceu a MSH.

A título de curiosidade, qual a edição mais vendida até hoje? E a que menos vendeu? Na sua opinião, por qual motivo?
As que mais vendem são as que têm o Batman, o Homem-Aranha e os Vingadores. Por isso, temos dossiês deles com frequência.

Das 100 edições, qual a sua favorita? Por que? Tem alguma que não gostou de fazer?
Gosto de todos. Mas a primeira e agora a centésima talvez sejam as mais especiais porque começam e fecham um ciclo bem interessante. Sinto como se tivesse conseguido um feito fora do comum, tipo chegar na lua.

A equipe da Mundo é formada por apaixonados por quadrinhos (e uma pitada de anormalidade).

Há alguma pauta que você queria ter feito para capa ou como matéria principal, mas que ainda não tenha feito por ela não ter apelo comercial ou por falta de oportunidade?
Muitas, mas nenhuma muito relevante. Um dos meus sonhos é lançar uma revista nos moldes da Mundo que só fale de quadrinhos brasileiros. Está nos meus planos futuros…

Como você vê o mercado editorial atualmente? Ainda dá para fazer revistas impressas ou o futuro está mesmo nas edições virtuais?
Ah, estamos no meio do caos. Parece que tudo está parando de funcionar. Nunca vi um momento tão dramático como esse. É muito difícil arriscar o que vem por aí, mas diria que a tendência é que o sistema de distribuição de bancas e livrarias mude drasticamente. Algo bem diferente deve surgir daí. E acho que as pequenas editoras e o pessoal independente é que vão ser a bola da vez.

Esse aperto de mão vale um 100 – com Neal Adams.

Sobre a Mundo 100, qual a importância desse marco para você que foi o idealizador do projeto? E para o mercado?
Para mim, é a realização de um sonho. Para o mercado, não sei bem dizer. Mas acho que, com essa crise sem fim, será muito difícil aparecer outra publicação impressa como a Mundo, com essa qualidade e longevidade. Acho que, no futuro, seremos estudados como um ponto fora da curva. Agora estamos no meio do furacão e fica difícil analisar.  

Quando lançou a revista, você tinha ideia do quão longe chegaria?
Não. Como eu disse, já estava satisfeito em lançar a edição 1. Mas depois eu tinha planejado muito mais, como outras “publicações-irmãs” da Mundo, livros e até quadrinhos. Infelizmente, não consegui lançar nem metade do que eu gostaria.

Colaboradores da Mundo pesquisando para dossiê. Um trabalho sério e minucioso – mas também muito divertido!

Daqui para frente, o que o leitor pode esperar da Mundo?
Vamos continuar nessa linha de reportagens aprofundadas e capricho máximo. A Mundo dos Super-Heróis é aquele tipo de publicação para ser guardada em um local muito especial e ser consultada com frequência.

Deixe uma mensagem para os leitores da MSH e do blog Raio X.
Usem filtro solar (como o Bial pedia) e leiam a Mundo dos Super-Heróis. Isso deixará suas vidas melhores. Grande abraço.

A MSH é a primeira publicação do gênero a atingir a marca de 100 edições, sempre privilegiando artistas nacionais, como Mike Deodato (na foto, ao centro)

(Nossa reportagem tentou arrancar do Manoel alguma informação a respeito da pauta da Mundo 100, mas ele desconversou e começou a falar sobre a influência das marés sobre o preço da mensalidade da Netflix. Mas nós não desistimos e, assim que tivermos mais informações a respeito, postaremos aqui.)