Saído do Forno: Motoqueiro Fantasma

Com três anos de atraso (o material original estreou nos Estados Unidos em maio de 2014), a Panini decidiu publicar as aventuras do herói renovado na fase Nova Marvel – evidentemente aproveitando a popularidade que o personagem conquistou após sua participação na série de TV Agentes da Shield. Infelizmente, a editora pecou pela adoção de um erro conceitual dos mais burros: chamar de motoqueiro um personagem que não tem mais uma moto, mas um automóvel.

O primeiro Ghost Rider andava a cavalo.

Para entender o imbróglio, é preciso remeter às origens do personagem. No original, ele se chama Ghost Rider, onde “rider” é uma palavra com significado bem genérico em inglês, podendo ser usada para quem monta cavalo, bicicleta, moto, carro ou até mesmo trem. Em outras palavras, rider é alguém que é carregado por alguma coisa. Tanto que existiu um personagem de mesmo nome que atuava nos quadrinhos de faroeste, muitos anos antes do motoqueiro dar as caras  pela Marvel. No Brasil, esse personagem foi chamado de Cavaleiro Fantasma.

Esta é a moto mais envenenada que você vai ver na vida.

Sendo assim, a Panini optou por “manter o nome pelo qual o personagem é conhecido no Brasil”, ignorando toda lógica e coerência. Afinal, trata-se de um personagem totalmente modernizado que nada tem em comum com seus antecessores, exceto o fato de ser um esqueleto com o crânio flamejante. Nada, nem mesmo o demônio que lhe dá os poderes é o mesmo. Uma mudança de nomes, portanto, não seria apenas “estética”, mas deixaria claro que se trata de um novo conceito. E nem era preciso pensar muito: no caso de querer fugir do óbvio “Motorista Fantasma”, a própria HQ apresenta uma série de variações diferentes para batizar o misterioso herói que surge nas ruas de Los Angeles.

Super-Homem, Punhos de Aço, Eléktron e Capitão Marvel também tiveram seus nomes alterados… e o público aceitou.

Sabemos que esse tipo de decisão editorial nem sempre é fácil, pois envolve também a questão comercial. Contudo, são vários os casos de personagens consagrados que mudaram de nome ao longo do tempo, principalmente na troca de editoras e, nem por isso, os leitores deixaram de se acostumar com essas alterações, embora cause estranhamento num primeiro instante. Basta um pouquinho de bom senso e uma boa estratégia de marketing.

Renascido do inferno

Mas falando da HQ do Motorista Fantasma, o encadernado reúne as seis primeiras edições do título americano e mostra a origem do personagem. Robbie Reyes é um jovem adolescente que vive sozinho com seu irmão mais novo, que é paraplégico – a HQ não explica se ele já nasceu assim ou se a deficiência foi causada por alguma acidente – num bairro bem barra pesada de Los Angeles. Para sustentar a casa, o rapaz trabalha como mecânico numa oficina do bairro e divide seu tempo também com os estudos. Como o dinheiro é curto, Reyes participa de rachas noturnos e ganha um extra com o valor das apostas.

Mr. Hyde ficou verdadeiramente assustador (na verdade, essa arte transforma até os Ursinhos Carinhosos em assustadores.)

Isso muda radicalmente quando ele usa um dos carros que chegou à sua oficina, que pertencia a um traficante e, em cujo porta-malas, havia escondido uma bolsa de drogas, sem que ele soubesse. Perseguido pelos traficantes, Robbie é metralhado e morre, mas o demônio Eli lhe dá uma oportunidade de se vingar, restaurando sua vida e concedendo-lhe o poder do Espírito da Vingança. Agora, Robbie precisa enfrentar os traficantes, liderados pelo Dr. Calvin Zabo – o alter ego do vilão Mr. Hyde – cuja droga transforma todos em monstros superpoderosos.

Artista peca pelo exagero visual.

O texto dinâmico e envolvente logo faz o leitor se envolver na história de Reyes e querer saber o que virá a seguir. O clima de violência é um tanto pesado, tanto com a apologia a drogas como com os diálogos, cheios de simulações de palavrões, indicando a vizinhança barra pesada onde mora o protagonista. Faltou, talvez, uma advertência na capa com restrição de idade para os leitores, porque, definitivamente, esta não é uma HQ para crianças. A arte caricata e de qualidade duvidosa do artista Tradd Moore por vezes deixa confuso o que está acontecendo, mas não tira o mérito da HQ, repleta de ação.

Gabriel Luna interpreta o herói na TV. Incrível!

Segundo a editora, serão dois encadernados pré-Guerras Secretas, então podemos esperar o próximo para breve. Recentemente, a Marvel vem sofrendo com as baixas vendas de suas revistas, motivadas pelas constantes mudanças que a editora tem feito em seus personagens principais. O Motorista Fantasma, contudo, é um dos que, aparentemente, escapou da chuva de críticas, tanto que até ganhou uma versão live-action, interpretado por Gabriel Luna. Uma prova de que, quando os personagens são bem trabalhados, o público leitor aceita as mudanças. Incluindo traduções.

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Dúvidas nerds: Motoqueiro Fantasma azul

blog abreEstamos inaugurando uma nova seção no nosso blox, inspirado pela enorme quantidade de buscas que são digitadas no Google e vêm parar em nossa página. Dessa forma, esperamos ajudar aos não iniciados em cultura pop a poderem dormir tranquilos, sem que seus sonhos sejam assombrados por perguntas que, até então, pareciam insolúveis.

Como vou tocar Pour Elise com essa mão queimada?

Como vou tocar Pour Elise com essa mão queimada?

A líder em dúvidas no blox é o motivo pelo qual, no final do filme Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança a chama do herói passa de amarelo para azul. Teria o inferno encerrado seu fornecimento de fogo e Johnny Blaze assinado um contrato com a Ultragaz para manter seu crânio em chamas? Calma, leitor, não é nada disso. E a questão é mais simples do que parece. Ou não.

Zarathos: espírito de justiça corrompido

Zarathos: espírito de justiça corrompido

Na verdade, a resposta para essa pergunta se divide em duas vertentes: uma curta e simples e a outra, um pouco mais complexa. Juntas, elas dão um panorama geral do que os diretores Mark Neveldine e Bryan Taylor quiseram transmitir com aquela cena. Primeiro, vamos à mais simples: o próprio enredo do filme explica que Johnny Blaze se torna o Motoqueiro Fantasma graças à uma possessão do demônio Zarathos. Segundo a angeologia, os demônios nada mais são do que anjos que se revoltaram contra o céu e foram expulsos, sendo chamados de “anjos caídos”.

Volta pra casa, peste!

Volta pra casa, peste!

Com Zarathos aconteceu o mesmo: ele era um anjo responsável por infligir a justiça aos pecadores e, por isso mesmo, era conhecido como “Espírito de Justiça”. Porém, ele foi enganado pelos demônios, levado ao inferno e corrompido, despertando um forte desejo de vingança contra aqueles todos que desvirtuam os inocentes. Com isso, passou a caçar demônios e puní-los. No filme, quando manda Roarke (um dos muitos nomes do capeta-mór) para o inferno, Zarathos encontra sua redenção e volta a ser um anjo bom. A representação disso é a sua chama, que muda do vermelho (agressivo) para o azul (suave). Simples assim.

estreia infernal

estreia infernal

Porém, a chama azul tem outra explicação, bem mais profunda, que remete aos quadrinhos do herói e que, certamente, os diretores quiseram fazer sua referência na produção do cinema. Para entender, um breve resumo da carreira do herói sobrenatural nas HQs: o Motoqueiro Fantasma (Johnny Blaze) foi criado no início dos anos 70 e era apenas mais um super-herói da editora, com o diferencial que tinha poderes infernais, para seguir a onda de sucesso dos quadrinhos de terror, na época. Com o tempo, o título foi cancelado e o herói ficou na geladeira.

Ressurreição radical

Ressurreição radical

Nos anos 90, o roteirista Howard Mackie, que era fã do Motoqueiro, resolveu resgatá-lo, mas com uma nova identidade e personalidade. O novo Motoqueiro Fantasma não era mais um herói que se transformava ao pôr-do-sol, mas mantinha a personalidade “boazinha” do seu alter ego. Ele surgia sempre que sangue inocente era derramado para vingá-lo, tinha um visual hard, com roupas de couro, ponteiras de metal e corrente mística e literalmente possuía o corpo de seu hospedeiro, o jovem Danny Ketch. A década de 90 era povoada de anti-heróis e o novo perfil do Motoqueiro Fantasma agradou. No entanto, nunca ficou explicado como Johnny Blaze deixou de ser o Motoqueiro e Zarathos passou para outro corpo.

Briga de motoqueiros

Briga de motoqueiros

Assim, na revista Ghost Rider 13, Mackie traz Blaze de volta, para confrontar Ketch e acabar de vez com Zarathos. Depois do quebra, Blaze percebe que Zarathos se tornou uma força do bem e decide acompanhar Ketch de perto, formando uma dupla. Mais tarde, descobre que Ketch era seu irmão de sangue separado no nascimento e que o demônio era um legado de família. Toda essa pataquada não agradou os leitores e o título do Motoqueiro foi cancelado. Johnny ficou livre de sua maldição e Zarathos, aparentemente, voltou para o inferno, libertando Ketch por um curto período. Logo, possuiu o rapaz novamente, deixando um gancho para um retorno do personagem.

Re-re-re-retorno. E não é gagueira.

Re-re-re-retorno. E não é gagueira.

Isso só aconteceu no começo do milênio, quando a Marvel criou o selo Marvel Knights, dedicada aos heróis urbanos. A minissérie The Hammer Lane (2001, inédita no Brasil) ignorou os fatos anteriores e trouxe Blaze de volta com sua maldição, mas com um roteiro pra lá de ruim. Em 2005, o roteirista Garth Ennis assumiu o personagem e começou do zero: Blaze estava no inferno, amaldiçoado para sempre. O anjo Malachi promete libertar a alma do herói se ele enviar um demônio de volta ao inferno. Com isso, o Motoqueiro clássico é reinserido nos quadrinhos.

Azul está na moda e combina mais com a cor do meu crânio.

Azul está na moda e combina mais com a cor do meu crânio.

Outra minissérie: Ghost Rider: Danny Ketch mostra o jovem recuperando seus poderes após se aliar ao anjo rebelde Zadkiel. É nessa série que o Motoqueiro Fantasma passa a apresentar uma chama azulada, símbolo de sua associação com o anjo. Vem daí a referência dos diretores e sua associação ao personagem dos quadrinhos. Sem contar, evidentemente, o personagem chamado Danny no filme, citação óbvia ao segundo Motoqueiro Fantasma.

Outro filme? É muita penitência pra um pecador só!

Outro filme? É muita penitência pra um pecador só!

Para encerrar, vale citar que o filme foi tão mal nas bilheterias que dificilmente haverá um Motoqueiro Fantasma 3. Não há nem rumores sobre uma continuidade da franquia. Graças aos céus e aos anjos de chamas azuis!

Se você tem alguma dúvida nerd sobre filmes, quadrinhos, séries de TV e afins, deixe nos comentários e, assim que for possível, responderemos. Se a gente não souber, responde do mesmo jeito. 😉

Dez motivos para amar o primeiro Motoqueiro Fantasma

O filme Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança, ainda em cartaz nos cinemas do País, chegou com a missão de redimir o personagem do fiasco da produção anterior. Infelizmente, além de não ter conseguido (leia a nossa crítica aqui), ainda deixou a impressão que o primeiro filme é infinitamente melhor. Acha que este repórter está delirando? Ok, provamos que não: elencamos a seguir dez motivos que fazem o primeiro Motoqueiro Fantasma (2007), um filme bem legal, baseado em quadrinhos.

O diretor de Demolidor sempre gostou de heróis pegando fogo.

10 – O diretor é Mark Steven Johnson – O diretor não tem muitas obras importantes em seu currículo, mas ele já tinha feito um trabalho bacana em Demolidor – O Homem sem Medo (2003) – que muita gente odiou, mas que não pode ser considerado um fracasso total, já que faturou US$ 178,8 milhões ao redor do mundo, com um custo de U$ 78 milhões. Informações oficiais dão conta de que Johnson foi produtor executivo da segunda aventura, mas tudo leva a crer que ele não apitou muita coisa, porque um filme não tem absolutamente nada a ver com o outro.

Ah, vá fazer careta no inferno, Cage!

9 – Caras e bocas de Nicolas Cage – Que o ator não é lá muito expressivo todo mundo sabe. Porém, é duro ter que aturar as caretas que ele faz durante todo o segundo filme, cada vez que o Motoqueiro se manifesta nele. No primeiro filme isso não acontece – ou acontece com menos intensidade – e assistir o filme é uma experiência bem mais prazerosa.

Cof! Cof! Alguém chame os bombeiros!

8 – Visual limpo – À primeira vista, pareceu uma ideia bacana tornar o visual do Motoqueiro mais “queimado”, dando indicação que ele estava mais “demoníaco” e radical, à semelhança de seu perfil nos quadrinhos. Porém, tudo que é exagerado, incomoda. A fumaceira preta provocada por suas chamas tanto no crânio como na moto causa até mal estar e atrapalha as cenas. No primeiro filme, tudo é muito mais clean e brilhante. E nem por isso o personagem é menos macabro.

Eva Mendes teve função no primeiro filme. Já Violante Placido...

7 – Papel feminino de destaque – Além da beleza de Eva Mendes interpretando Roxanne Simpson, o seu papel tem uma participação muito mais importante para a trama. Tudo bem que a atriz foi mal aproveitada e sua personagem ficou um pouco “sem sal”. Mas pior foi o que fizeram com Violante Placido (Nadya), que interpretou uma personagem sem qualquer relevância para a história, que não serviu nem para um romance com o Motoqueiro. Não faria a mínima falta se ela não existisse na história.

"Droga! Tem uma alface grudada no meu dente!"

6 – Olhar de Penitência – Um dos principais poderes do Motoqueiro Fantasma (que não existia na versão original, mas foi muito bem introduzido em sua versão anos 1990) é o Olhar de Penitência: aquele que encara o olhar do Motoqueiro sente o mesmo mal que infligiu a suas vítimas aumentado milhares de vezes. Segundo Howard Mackie, o responsável pela reformulação do personagem, essa era a forma como ele entendia a experiência de viver no inferno e era perfeita para quem se dizia um “espírito de vingança”. Afinal, que melhor forma de se vingar do que devolvendo ao algoz o mal que ele causou? Esse poder foi muito bem representado na produção de 2007 sendo, inclusive, elemento fundamental para a derrota do vilão no clímax da aventura. Já na nova versão virou uma forma do Motoqueiro se ver refletido no olho da vítima. Como se ele precisasse de espelho…

Cavaleiro e Motoqueiro

5 – Homenagens ao personagem original – Pouca gente sabe, mas existiu nos quadrinhos outro personagem chamado Ghost Rider (o nome em inglês do Motoqueiro). Ele surgiu nos anos 60, num gibi de faroeste e foi conhecido no Brasil pelo nome de Cavaleiro Fantasma. A semelhança de nomes deve-se ao fato do verbo to ride ser mais abrangente e significar montar tanto uma motocicleta quanto uma bicicleta ou até mesmo um cavalo. O Cavaleiro Fantasma teve seus direitos comprados pela Marvel nos anos 1970, teve o nome mudado para Night Rider (Cavaleiro da Noite) a fim de evitar confusão de nomes, mas foi mal utilizado pela editora e caiu no esquecimento. O primeiro filme do Motoqueiro resgata esse personagem de uma forma bem bacana, inserindo-o numa “geração” de fantasmas que cavalga pelo mundo fazendo justiça – nos quadrinhos originais, ele era apenas um cowboy que vestia uma roupa fosforescente. Bela homenagem do diretor.

Duas faces do mal: um cínico e arrogante; o outro, um banana!

4 – Demônio verdadeiramente demoníacoCiarán Hinds estava bem no papel de Roarke, o capetão em uma de suas infinitas identidades. Porém, ainda falta muito para ele alcançar a experiência de Peter Fonda, que interpretou Mephistópheles (ou Mefisto para os íntimos), que aparece com seu jeito sedutor, semeia a discórdia e vai embora sem sujar as mãos. E, principalmente, não tem medo do Motoqueiro, como Roarke tinha. Alguém pode conceber um criador com medo de sua criatura? Cadê o poder do Príncipe das Trevas, que comanda todos os demônios e fica apavorado quando o Motoqueiro aparece?

3 – Ameaça de verdade – No primeiro Motoqueiro Fantasma, ele enfrenta uma verdadeira legião do inferno, com seres poderosíssimos capazes de fazer frente a ele: Abigor (demônio do vento), Wallow (demônio da água) e Gressil (demônio da terra) além do próprio Coração Negro, filho de Mefisto. Na aventura recente, ele só enfrenta serviçais humanos e, mesmo assim, ainda rói um osso, com o perdão do trocadilho. Nem parece o mesmo personagem…

Isso é que é uma moto incrementada!

2 – Apetrechos místicos – O Motoqueiro Fantasma é um personagem sobrenatural, com poderes que vêm do inferno. No primeiro filme, seus apetrechos demonstram bem isso: as correntes que se enrolam sozinhas no seu corpo e a moto que possui vida própria e visual tunado. No segundo filme, o que temos? Uma corrente que não tem nada de diferente das correntes comuns (exceto o fato de aumentar de tamanho) e uma moto derretida. É verdade que isso tornou tudo mais próximo da realidade, mas o Motoqueiro Fantasma é um personagem SOBRENATURAL, só pra lembrar.

Com todos os problemas, o primeiro filme ainda ganha disparado em fidelidade às HQs

1 – Fidelidade aos Quadrinhos – Por tudo que já foi falado, dá pra perceber que o primeiro Motoqueiro Fantasma é uma HQ em live-action. Em outras palavras, é uma história em quadrinhos com personagens reais. É verdade que o personagem foi “suavizado” para conseguir uma classificação que pudesse atingir o público mais jovem e, nos quadrinhos, ele é bem mais hardcore. Porém, em comparação com o novo filme, o primeiro tem mais semelhanças e referências aos quadrinhos. Sem contar que a maior parte do elenco tem sua contraparte nas HQs: Johnny Blaze, Mefisto, Roxanne, Crash Simpson, Coração Negro, Coveiro/Cavaleiro Fantasma… o novo filme tem Blecaute e… hã… o Motoqueiro. (Danny não conta: não sabemos se ele é Danny Ketch ou não.)

Estreia do Motoqueiro Fantasma, em 1973

Como dissemos no abre desta matéria, estas são as razões pelo qual o Motoqueiro Fantasma é um filme bem legal, baseado nos quadrinhos. Legal não quer dizer “espetacular, o melhor já feito no gênero”, mas também não é tão ruim quanto dizem por aí. A bem da verdade, o Motoqueiro Fantasma é um personagem amaldiçoado e essa maldição parece que se estende além dos conceitos criados em 1973, quando Gary Friedrich e Roy Thomas deram vida ao herói macabro. Vender a alma não é um bom negócio, no fim das contas. Em duas tentativas, nem mesmo com a ajuda do ator que já fez Cidade dos Anjos, o herói conseguiu se redimir. Talvez seja exatamente este o problema: não se pode confiar em anjos caídos.

Motoqueiro Fantasma volta às bancas

No dia 17 de Fevereiro, estreia o filme Motoqueiro Fantasma 2 – O Espírito da Vingança, com Nicolas Cage de volta ao papel do herói do crânio flamejante. Aproveitando o embalo do filme, a Panini republica uma das melhores histórias do Motoqueiro Fantasma da década, escrita pelo consagrado autor irlandês Garth Ennis (Preacher, Justiceiro, The Boys). A saga Estrada para a Danação, originalmente publicada no Brasil na revista Marvel Max 42 a 46 (fevereiro a junho /2007), foi a segunda tentativa de resgatar o herói nos anos 2000, após o cancelamento da sua revista mensal no começo da década de 1990. A primeira foi uma minissérie publicada um ano antes (inédita no Brasil) que teve um roteiro fraquíssimo, um Motoqueiro Fantasma descaracterizado e uma série de perguntas não respondidas.

Saga saiu na revista Marvel Max

A história resgata a identidade original do Motoqueiro Fantasma (veja a trajetória do herói abaixo). Nela, o astro de motocross Johnny Blaze está no Inferno, sofrendo infinitos tormentos por ter vendido sua alma anos antes. No entanto, um demônio é liberado na Terra e pode destruir não apenas o nosso planeta, mas também abalar o próprio Céu. Para colocar um fim à ameaça, os anjos resolvem buscar reforço nas próprias fossas infernais e libertam o Espírito da Vingança.

Resgate divino

Garth Ennis, que não tem pudores em usar palavreado chulo e violência explícita em seus roteiros, desenvolveu uma história inteligente e cheia de ação e a arte digital de Clayton Crain enriqueceu ainda mais a HQ, fazendo com que o herói conquistasse novamente um título mensal. É esta edição, encadernada e ao amigável preço de R$ 18,90 (segundo prévia divulgada no site da Liga HQ!), que chega às bancas no mês que vem, antecipando o filme do herói. Uma edição imperdível para que os leitores entrem no clima sobrenatural do personagem.

A longa estrada do herói flamejante 

Edição de estreia

O Motoqueiro Fantasma surgiu na revista Marvel Spotlight 5 (1972) e fez tanto sucesso que, meses depois, ganhou um título próprio, Ghost Rider, que revolucionou os quadrinhos da Marvel por ter um protagonista que mesclava entre o heroico e o macabro. Era um herói, mas não era bondoso nem altruísta: pelo contrário, seu alter ego – o astro do motocross Johnny Blaze – era movido pela vingança e seus poderes eram originários de ninguém menos que o próprio capeta. Mesmo assim, o título foi um sucesso e durou até 1983, totalizando 81 edições.

Renovado para novos tempos

Nos anos 90, os anti-heróis cresciam cada vez mais na preferência do público. Personagens como o Justiceiro, Wolverine e Spawn – que utilizavam métodos violentos contra os criminosos e, às vezes, chegavam até a matá-los – eram os mais populares e a Marvel decidiu ressuscitar o Motoqueiro Fantasma. Deu-lhe um visual mais agressivo, roupa de couro com correntes e ponteiras metálicas, uma moto com rodas flamejantes e uma nova identidade: o jovem Danny Ketch. Ao invés de surgir sempre que a noite chegava, como seu antecessor, o Motoqueiro Fantasma aparecia para vingar o sangue inocente derramado. O tom urbano das histórias devolveram a popularidade ao herói, que ganhou mais 93 edições mensais, até o ano de 1993, quando as baixas vendas levaram o título ao cancelamento sem que a saga de Danny Ketch tivesse um fim.

Tentativa frustrada de retorno

Quase 10 anos depois, em 2001, a Marvel tentou ressuscitar o herói com a minissérie The Hammer Lane, lançada em seis capítulos sob o selo Marvel Knights, que trazia os heróis urbanos da editora e roteiros mais adultos. No entanto, o fraco roteiro de Devin Grayson descaracterizou o herói, tornando-o um personagem mudo que só matava bandidos e desaparecia. Além disso, na história, o Motoqueiro Fantasma era novamente Johnny Blaze e não havia qualquer explicação de como ele recuperou seus poderes, nem do que aconteceu com Danny Ketch. O herói voltou para a gaveta até que, em 2006, Garth Ennis assumiu o personagem e escreveu Estrada para Danação. A série não apenas explicava o destino de Blaze como também tinha um roteiro bem mais elaborado, que foi suficiente para o retorno do herói ao seu próprio título regular.