Crítica: Homem-Aranha no Aranhaverso

Dentre as estreias de cinema da semana, o destaque vai para Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse, 2017),  primeira animação longa-metragem do Amigão da Vizinhança, que faz parte da estratégia da Sony Pictures em explorar e expandir o universo aracnídeo e gerar outras franquias de sucesso – no ano passado, o estúdio lançou Venom, com uma excelente aceitação do público. O desenho estreou nos EUA em 14 de dezembro e só agora chega em terras brasileiras, mas com uma repercussão muito boa lá fora.

Focado no Homem-Aranha Miles Morales, o filme tem um visual psicodélico que remete às HQs.

A novidade é que o filme é focado em Miles Morales, o Homem-Aranha do Universo Ultimate (dimensão paralela ao Universo Marvel tradicional, onde o aracnídeo é Peter Parker. Bem, isso vocês já sabem…), que adquire seus poderes ao ser picado por uma aranha (que o filme não revela se é radioativa ou geneticamente alterada) e adquire poderes aracnídeos (habilidade para escalar paredes, sentido de aranha que o alerta dos perigos, além de uma “picada” bioelétrica e a possibilidade de ficar invisível por um determinado período de tempo).

Um Peter barrigudo incentiva Miles a ser o Homem-Aranha daquele mundo.

O adolescente divide seu tempo entre os estudos e as atividades comum aos jovens (como pichar muros com seu tio Aaron, para desespero do pai policial). Enquanto decide o que fazer com os poderes recém-adquiridos, Morales vê o Rei do Crime matar o Homem-Aranha (Peter Parker do Universo Ultimate) daquele mundo e passa a ser perseguido pelos capangas do vilão: Gatuno, Duende Verde, Escorpião e o Lápide. Nesse meio tempo, Morales encontra outro Peter Parker (um pouco mais velho que o nosso conhecido e um tanto fora de forma), que apareceu naquele mundo por meio de um portal dimensional aberto pelo acelerador de partículas financiado pelo Rei.

Treinamento de aranhas

A instabilidade do aparelho ameaça a continuidade espaço-tempo e, por isso, Peter passa a ensinar Morales a usar seus poderes aracnídeos e assumir o legado do Homem-Aranha para impedir o Rei. Juntam-se à dupla outros heróis aracnídeos, vindos de mundos diferentes e que também foram atraídos pelo portal: Mulher-Aranha (Gwen Stacy), o Homem-Aranha Noir (herói da década de 1930), Peni Parker e seu robô Ar/nh (no melhor estilo anime) e o impagável Porco-Aranha, vindo de uma realidade de animais antropomórficos.

Vários Homens e Mulheres-Aranhas (e ate Porcos) se encontram.

O genial da animação é que o estilo se adapta a cada Aranha. Por exemplo, o Homem-Aranha Noir é preto e branco, Peni Parker tem as expressões e ritmo dos animes e o Porco-Aranha imita os desenhos animados da série Looney Tunes, inclusive com bigornas e marretas que surgem de lugar nenhum. Outra inovação foi assemelhar os cenários com as histórias em quadrinhos, com uma definição um tanto desfocada (simulando a tinta das páginas) e o uso de balões e onomatopeias. O estilo tão diferenciado incomoda um pouco no início (a impressão é de ver um filme em 3D sem os óculos), mas acaba agradando depois de uns minutos, quando compreendemos que tudo aquilo é proposital.

Miles tá assustado com a qualidade da animação (reparem no fundo desfocado).

A trama envolvente é repleta de referências ao universo do Homem-Aranha em todas as mídias (tem o tema clássico de 1967, a dancinha de Homem-Aranha 3 e vários uniformes usados pelo herói ao longo dos anos, por exemplo). Além disso, as piadas são muito bem utilizadas, tornando a história leve, mas sem perder sua carga dramática. Em resumo, Homem-Aranha no Aranhaverso é uma excelente animação, diferente de tudo que já foi mostrado até hoje e que deixa um gosto de quero-mais após os créditos. Falando nisso, vale mencionar que a cena pós-crédito é sensacional e a participação tradicional de Stan Lee também é bem divertida, embora deixe um toque de saudades por ser, involuntariamente, uma homenagem póstuma. 

Na torcida para rever esses personagens outra vez!

Em tempo: a saga Aranhaverso, na qual o desenho foi inspirado, foi publicada em 2014/2015 nos títulos aracnídeos (Amazing Spider-Man, Spider-Man 2099, Spider-Woman e outros, criados especialmente para a saga). Teve o mérito de reunir centenas (isso mesmo!) de versões do Homem-Aranha, de várias épocas, mídias e universos paralelos. Assim, tivemos o Homem-Aranha do Quinteto Fantástico (What If…? 1, 1977), o Aranha de Seis Braços (Amazing Spider-Man 100, 1971), o Aranha de uniforme negro, da série animada de 1967 e até do seriado japonês, entre vários outros. Os Homens-Aranhas se unem para combater Morlun, o vampiro sugador de energia, e seus familiares, que decidiram eliminar os aracnídeos de todas as realidades.

Animação teve leve (bem leve!) inspiração na saga dos quadrinhos.

A animação fugiu totalmente deste enredo e aproveitou apenas a ideia de reunir diferentes heróis com poderes de aranha para uma trama livre. O resultado é um desenho animado como poucos, que vai te fazer sair do cinema com um sorriso no rosto de satisfação. Prova disso é que, merecidamente, o desenho ganhou o Globo de Ouro (uma prévia do Oscar, mas eleito pela crítica ao invés dos atores) na categoria de Melhor Animação. E olha que o filme concorreu com pesos pesados como Os Incríveis 2 e Wi-Fi Ralph! Que venham novas animações desta categoria!

Cotação Raio X

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Preview 2019

O ano virou e já estamos na expectativa das produções de cinema que estrearão em 2019. E, cá para nós, teremos um ano bem rico, principalmente no que diz respeito a produções de super-heróis e continuações de franquias de sucesso. Como fazemos todos os anos, preparamos um preview especial com 25 lançamentos para você se programar e não perder nenhum deles. E prepare-se, porque só de super-heróis serão NOVE produções, já começando em janeiro! Este ano, não colocarei o nosso “expectativômetro”, por se tratar de uma opinião pessoal, que já está descrita no texto sobre cada produção. Dito isto, vamos aos principais lançamentos!

Ralph e Vanellope vão ter que se adaptar à tecnologia

Wi-Fi Ralph (Estreia: 3/1) – O ano já começa com a continuação deste desenho animado da Disney, numa história que se passa seis anos após os eventos de Detona Ralph (2012, leia nossa crítica aqui). O divertido da coisa é que o truculento personagem de máquinas arcade (nossos conhecidos fliperamas) vai ter que se adaptar à tecnologia, pois descobre um roteador de wi-fi na loja onde sua máquina está instalada e parte com sua amiga Vanellope para muitas aventuras conectadas à Internet.

Seis aracnídeos juntos

Homem-Aranha no Aranhaverso (Estreia: 10/1) – Primeiro desenho animado em longa-metragem do Homem-Aranha, faz parte da estratégia da Sony em expandir o universo do herói aracnídeo e gerar outras franquias. A ideia é bem interessante, pois o protagonista nem é Peter Parker, mas Miles Morales, o Aranha do Universo Ultimate. Além disso, também conta com a participação da Mulher-Aranha (carinhosamente chamada pelos fãs de Gwen-Aranha), do Homem-Aranha Noir (versão anos 30 do herói), um robô-Aranha estilo anime e o impagável Porco-Aranha. Será que vai render filmes solo desses heróis?

Trilogia inquebrável

Vidro (Estreia: 17/1) – Terceiro longa da trilogia que começou com Corpo Fechado (2000) e teve uma continuação em Fragmentado (2016). A premissa é bem interessante: o segurança David Dunn (Bruce Willis) usa suas habilidades para rastrear perturbado Kevin Crumb (James McAvoy), o homem que tem 24 personalidades diferentes. A briga tem jeito de ser muito boa e o material promocional também está chamando bastante atenção. Sem contar que o nome de M. Night Shyamalan também é um bom chamariz de público.

Banguela acha a sua dentadura.

Como Treinar Seu Dragão 3 (Estreia: 17/1) – Outro filme que fecha uma trilogia. Os dois filmes anteriores do jovem Soluço e o fofíssimo dragão Banguela foram muito bacanas e este promete seguir a mesma linha. No entanto, essas animações da DreamworksShrek, Madagascar, Kung Fu Panda, Como Treinar… – acabam virando seriado e perdem toda a graça esperar por um filme no cinema. Vai ser bom? Creio que vai. Mas será apenas mais uma história a ser contada, sem novidades. A premissa deste filme é a descoberta de uma fêmea da mesma raça de Banguela e a luta pela paz no reino dos dragões.

Vai encarar?

Creed 2 (Estreia: 24/1) – Não vi o primeiro filme, mas a crítica positiva deixa uma boa expectativa para este segundo longa. Principalmente porque o pupilo de Rocky Balboa vai enfrentar o filho de Ivan Drago, o lutador que enfrentou o próprio Rocky em Rocky IV (1985). Resgatar essa franquia, com fidelidade ao que já foi apresentado é uma ideia de mestre dos produtores. Tem tudo para dar certo.

Lendas nunca morrem

O Menino que Queria ser Rei (Estreia: 31/1) – Uma versão moderna da história do Rei Arthur na qual uma reencarnação adolescente do Mago Merlin pede ajuda a um garoto de 12 anos que sofre bullying na escola, para impedir a ameaça da bruxa Morgana. Para isso, ele encontra a lendária espada Excalibur. A história do Rei Arthur, por si só, já é excelente. Modernizá-la pode ser uma boa estratégia, principalmente se for bem feito. E, pelo que foi mostrado no trailer, este filme promete ser bem divertido.

Tudo é incríveeeeeeeeeeeel…

Uma Aventura Lego 2 (Estreia: 7/2) – Filmes baseados no brinquedo Lego existem aos montes. Mas Uma Aventura Lego é diferente, porque junta todos os personagens das várias franquias, tornando tudo muito mais engraçado. É o tipo de filme que mostra como uma ideia simples e até ridícula pode se converter numa animação de primeira categoria.

Empoderamento nível máximo

Capitã Marvel (Estreia: 7/3) – A Marvel Studios entra em 2019 com o primeiro filme estrelado por uma super-heroína. É mais uma proposta arriscada do estúdio, visto que a Capitã não tem tanta popularidade para segurar um longa-metragem. Por outro lado, a confiabilidade conquistada nos últimos dez anos garante que, se não for o melhor filme do ano, ao menos não será decepcionante. E vale dizer que o filme se encaixa no hiato entre os dois filmes dos Vingadores, trazendo a origem da personagem que, ao que tudo indica, terá uma importante participação em Vingadores: Ultimato. Só por isso, o longa já é imperdível.

Como não soltar corações pelos olhos?

Dumbo (Estreia: 28/3) – A Disney está iniciando uma tradição de “personificar” seus clássicos animados. Começou com Cinderela (2015), depois Mogli (2016), A Bela e a Fera (2017) e agora, Dumbo. A única coisa que incomoda é a possibilidade do filme ser exatamente igual à sua versão animada. Mas considerando que o primeiro Dumbo estreou em 1941, esta nova versão será bem-vinda. E trará muita fofura, obviamente!

Diga a palavra mágica e sinta o poder!

Shazam! (Estreia: 5/4) – Dando continuidade ao universo cinematográfico da DC, chegou a vez do ex-Capitão Marvel ganhar sua versão para os cinemas. O personagem chegou a ser mais popular que o Superman nos anos 1940, mas sempre teve complicadas questões judiciais atrapalhando seu sucesso. A última delas diz respeito ao seu nome, que mudou para Shazam porque a Marvel registrou o nome “Capitão Marvel” para um personagem próprio, na década de 1970 (que virou Capitã Marvel no cinema. É complicado e qualquer dia explicaremos essa história direito). Mas a história de como o garoto Billy Batson adquiriu poderes místicos e se transforma no adulto superpoderoso sem perder sua inocência infantil promete trazer momentos bem divertidos.

Harbour dá vida ao herói demoníaco

Hellboy (Estreia: 12/4 – EUA) – O personagem nunca foi um dos meus favoritos e nunca consegui ver os filmes anteriores com a atenção devida. Não que fossem ruins, mas é exatamente pelo fato do anti-herói não atrair minha atenção. Não importa: chega aos cinemas um terceiro filme, com tudo renovado: novo diretor (Neil Marshall no lugar de Guillermo del Toro), novo protagonista (sai Ron Pearlman, entra David Harbour) , uma aventura que reinicia a franquia. Talvez seja a motivação que eu precisava para rever os longas anteriores e me interessar pelo personagem.

O Capitão já chora a despedida.

Vingadores: Ultimato (Estreia: 25/4) – Este filme tem um gosto amargo de despedida. Tem tudo para ser um grande épico, pois finaliza a história que deixou muita gente com um nó na garganta em 2018 (especialmente que não leu os quadrinhos no qual a trama foi baseada), mas também encerra a Fase Três da Marvel Studios e deixa um mistério sobre o futuro dos heróis da editora no cinema. A Marvel Studios não anunciou sua Fase Quatro (com exceção de algumas produções isoladas como Dr. Estranho 2), o que deixa tudo muito nebuloso. Assim, a expectativa é boa, mas ruim ao mesmo tempo.

Indiana Jones é o escambau! Eu sou Alladin!

Alladin (Estreia: 23/5) – A caracterização dos personagens, já mostrada nas fotos de divulgação, não deixa dúvidas de que será mais uma excelente produção dos Estúdios Disney. Will Smith tem toda cara de ser um excelente Gênio, pelo jeito extrovertido do ator, que combina perfeitamente com o personagem. No entanto, como já falamos na resenha sobre Dumbo, se for mais uma produção ipsis litteris do desenho animado, só vai valer mesmo pela curiosidade.

O monstrão está nervoso. Mas será que veremos lutas desta vez?

Godzilla 2 – Rei dos Monstros (Estreia: 31/5 – EUA) – Um novo filme do Godzilla sempre causa furor, afinal o monstro é um ícone da cultura pop. Mas depois do fiasco do filme anterior, que é visualmente muito bem feito, mas deixou a desejar na edição, que cortava as cenas mais empolgantes, fica a dúvida se essa continuação vai consertar o erro ou seguir pelo mesmo caminho.  O fato de ter a atriz mirim Millie Bobbie Brown (a Onze de Stranger Things) no elenco ajuda a atrair atenção. Mas o trailer escuro ao extremo mostra que as lutas do lagartão contra outros monstros clássicos – Mothra, King Gidorah e Rodan – podem ser frustrantes.

Será que essa Fênix vai pegar fogo ou ficar nas cinzas?

X-Men: Fênix Negra (Estreia: 7/6 – EUA) – A história na qual o longa é baseado é, indiscutivelmente, uma das melhores aventuras – senão a melhor – da equipe mutante. Mas eu me questiono se essa adaptação dará toda carga dramática da história, principalmente considerando a insossa Jean Grey (Sophie Turner), que teve uma participação mínima em X-Men: Apocalipse (2016)e não criou a empatia necessária com o público. E creiam: nessa trama da Fênix Negra, empatia é tudo. Pode ser a pá de terra que vai enterrar de vez a franquia dos mutantes no cinema.

A brincadeira ainda não terminou

Toy Story 4 (Estreia: 20/6) – Com um ano de atraso (era para estrear em 2018, mas como Incríveis 2 estava com a produção mais adiantada, a Pixar inverteu as datas dos dois filmes), uma nova aventura de Woody, Buzz e Cia. Após a triste história anterior, que arrancou lágrimas de muito marmanjo (exceto eu, cof… cof…) não sei o que esperar dessa continuação. Só sei que é sempre bom rever velhos amigos e que a Pixar nunca decepcionou.

Quer brincar?

Brinquedo Assassino (Estreia: 21/6 – EUA) – Reboot da franquia do boneco Chucky, depois de sete filmes de relativo sucesso, sendo que os dois últimos lançados apenas para o mercado doméstico, retomando o clima de suspense e terror da franquia, que tinha se tornado um pastelão. Espera-se que o reboot mantenha o mesmo nível e não caia no mesmo erro que a franquia Halloween, que tentou um recomeço pelas mãos do roqueiro Rob Zombie e perdeu completamente o rumo.

É hora dos planos infalíveis!

Laços (Estreia: 27/6) – Primeiro longa-metragem live-action da Turma da Mônica, baseado na graphic novel criada por Vitor e Lu Caffagi (fizemos uma crítica sobre o álbum aqui) As caracterizações estão perfeitas, o cuidado técnico está impecável e a história, por si só, é sensacional. O trailer emociona. Teremos uma das maiores produções do cinema nacional, sem sombra de dúvida.

Depois da Mary Jane Loira, uma Mary Jane Morena?

Homem-Aranha: Longe de Casa (Estreia: 5/7 – EUA) – Em sua segunda aventura solo, o nosso aracnídeo favorito enfrenta o vilão Mysterio, que será interpretado por Jake Gyllenhaal, o ator que sempre teve perfil para ser Peter Parker quando era mais jovem e a Marvel ainda não tinha começado a bombardear os cinemas com seus heróis. Pouco se sabe a respeito da produção (vai inaugurar a Fase 4?), mas ver o Homem-Aranha de Tom Holland é sempre legal e Mysterio é um bom vilão para ser trabalhado.

Lindo. Mas igual.

O Rei Leão (Estreia: 18/7) – Quando o trailer estreou, há algumas semanas, muita gente chorou, todo mundo compartilhou imagens e emojis apaixonados. De fato, foi um show de fofura e de beleza visual. Mas isso o desenho animado já tinha. Que o filme será sensacional, não tenho dúvidas. O desenho animado já foi. Mas eu, sinceramente, gostaria de me surpreender no cinema, não ver algo que já vi. E desculpem se, pela terceira vez, repito a mesma coisa. Mas são três remakes da Disney no mesmo ano…

Será que desta vez sai?

Novos Mutantes (Estreia: 2/8 – EUA) – A equipe mutante renovou o universo mutante nos anos 1980 e teve uma excelente fase desenhada pelo artista Bill Sienkiewicz. O fato de direcionarem o filme para o terror combina com esse período nos quadrinhos, mas o trailer não foi tão empolgante e deixou dúvidas se será uma boa produção. O fato de alterarem a data de estreia duas vezes (era 13/4/2018, depois 12/2/2019 e, finalmente, 2/8/2019), embora justificada para evitar conflitos com Deadpool 2 e Fênix Negra (que também teve seus adiamentos) não ajuda nem um pouco e só mostra uma grande desorganização. Tomara que seja só uma falsa impressão.

Sempre rir, sempre rir…

Coringa (Estreia: 4/10 – EUA) – A proposta de um filme solo do Coringa é tão absurdamente ridícula quanto a caracterização de Joaquin Phoenix como o vilão. Provavelmente nem vai estrear nessa data, mas se estrear, quem se importa? Tem tudo para ser o mico do ano.

Walking Dead juvenil

Zumbilândia 2 (Estreia: 11/10 – EUA) – Continuação que traz de volta o mesmo elenco para uma nova caçada aos zumbis. Jesse Eisenberg, o ator de uma expressão só; Emma Stone, a Mary Jane Loira; Bill Murray, de Caça-Fantasmas a Caça-Zumbis e Amber Heard, diretamente da Atlântida para a Zumbilândia. Diversão descompromissada.

Hamilton (à direita) fazendo o perfil badass.

Exterminador do Futuro 6 (Estreia: 1/11 – EUA) – Arnold Schwarzenegger volta ao papel do Exterminador. Como se não bastasse, Linda Hamilton também volta a interpretar Sarah Connor, 35 anos depois. Se os filmes anteriores da franquia deixaram a desejar, este promete. Por enquanto, ainda não tem nem título oficial definido e talvez fique para 2020. Mas já é uma boa expectativa saber que está sendo produzido.

Aguardadíssimo final da trilogia.

Star Wars – Episódio IX (Estreia: 20/12 – EUA) – Outro filme do qual se sabe pouco, exceto o fato de que encerrará a terceira trilogia que dividiu opiniões dos fãs, alguns considerando que ela descaracterizou a franquia, outros gostando dos novos heróis. No meu entendimento, a renovação foi muito bem feita e necessária. Os Últimos Jedi deixou um gancho interessante e vamos ver como a saga será finalizada. Infelizmente, os filmes intermediários acabaram saturando o mercado e tirando um pouco do interesse pela franquia. Mas Star Wars é Star Wars e a ida ao cinema é garantida.

Top 10 – O Melhor do Cinema 2018

Final de ano chegando, já é hora de começar aquela velha e tradicional retrospectiva. E o nosso blog começa com os dez melhores filmes de 2018. Foi um ano de excelentes produções, grande parte delas dando continuidade a franquias de sucesso, o que já serviu para deixar a expectativa lá no alto (ou não). De modo geral, posso dizer que fiquei satisfeito com o que vi, salvo raras exceções – só uma, na verdade, que entrou no nosso troféu Cine Mico. O restante, se não entrou na lista, também não decepcionou e cumpriu a função primordial da sétima arte, que é a diversão, pura e simples.

2018 foi um ano muito bom para o cinema!

Como fazemos todo ano, cabe a velha justificativa: listas sempre são polêmicas e, claro, a minha preferência com certeza será diferente da sua. Aquele filme que você achou ruim, pode ser o que mais gostei e o que você mais gostou, talvez nem tenha entrado no meu Top 10. Alguns filmes que tinha vontade de ver, acabei não vendo por pura falta de tempo e dinheiro, então, é provável que a lista fosse até diferente se tivesse visto tudo que tive vontade. Mas, daquilo que vi, está aí o resultado:

Injustiçado

10 – Han Solo – Uma História Star Wars – Dentro da franquia Star Wars, este foi o maior fracasso, com apenas US$ 213,7 milhões na bilheteria americana, a mais baixa da saga. Mas o problema nem é do filme, mas talvez do excesso de longas desde que a Disney resolveu lançar uma nova trilogia, o que acabou fazendo os fãs perderem o interesse na marca. Han Solo é um filme ágil, divertido, que estabelece alguns conceitos para o protagonista que viriam a se tornar canônicos e tem ótima caracterização do ator Alden Ehrenreich no papel principal. Não é nenhuma obra-prima, mas também não merece ser tão escorraçado.

Conclusão digna.

09 – Maze Runner – A Cura Mortal – Depois de uma espera de três anos entre um filme e outro (tempo este dedicado à recuperação do ator Dylan O’Brien, que se acidentou durante as filmagens e os produtores não quiseram substituí-lo por outro ator), o terceiro capítulo encerrou a saga – obviamente pelo mesmo motivo, já que são cinco livros e todos os atores já estariam muito velhos para seus papéis de adolescentes – com chave de ouro. Uma trama intensa, ágil, cheia de reviravoltas e que a gente assiste com a respiração presa. Os produtores souberam dar um fechamento digno e coerente, o que é muito difícil quando uma produção é envolta em problemas e vem de um segundo capítulo morno.

Venom devorou as bilheterias mundiais

08 – Venom – E quem diria que o refugo do universo do Homem-Aranha, cujos trailers indicavam que seria uma bomba, acabaria se saindo tão bem a ponto de superar até mesmo a poderosa Mulher-Maravilha (personagem muito mais popular) na bilheteria? Claro que bilheteria não é sinônimo de bom filme, apenas indica que o estúdio soube atender o apelo do público. Porém, Venom não é ruim, embora também esteja longe de ser bom. É uma boa diversão, que entretém e consegue tirar leite de pedra, uma vez que o personagem é raso feito um pires e dificilmente renderia uma boa história. Só por isso, merece figurar entre os dez melhores.

Booyah!

07 – Jovens Titãs em Ação! nos Cinemas – Ah, desenho animado, quem não os curte? Ainda mais um feito com tanta paixão, com tantas boas referências ao universo DC e piadas tão inteligentes? Jovens Titãs soube explorar as características dos personagens e presenteou o público com um filme leve e gostoso de ver.

Aventura em família

06 – Incríveis 2 – Há quem diga que o roteiro desta continuação é praticamente o mesmo do primeiro, só com outros personagens. Vou concordar que, analisando friamente, a afirmação tem um fundo de verdade. Porém, isso não tira o mérito do longa, que é bem divertido e que dá muito mais espaço ao Zezé, que é o “ladrão de cenas”. Se o filme não correspondeu às expectativas dos 14 anos de espera entre uma aventura e a outra, talvez seja porque a Pixar é melhor com novidades do que com continuações. Mesmo assim, a produtora continua imbatível na produção de obras-primas.

Anti-herói nacional com qualidade hollywoodiana.

05 – O Doutrinador – Eu já disse várias vezes por aqui que não gosto de filmes brasileiros. Filme de um super-herói nacional, praticamente desconhecido, é pra ficar com os dois pés atrás. Mas o Doutrinador quebra todos os preconceitos que possam existir com o gênero, pois é um filme que não economizou na qualidade técnica, digna dos melhores estúdios de Hollywood. Enquanto os americanos tentaram, sem sucesso, levar o Justiceiro para as telonas, o criador Luciano Cunha acertou de primeira no tom de seu personagem, num roteiro incrível que mistura ação, drama e suspense.

Quem é rei nunca perde a majestade

04 – Aquaman – Aos poucos, a DC vai se ajeitando e estabelecendo seu universo de super-heróis. O irônico é que seja o Aquaman, um personagem sempre desprezado e relegado às mais infames piadas por conta de sua suposta “inutilidade” entre os poderosos da Liga da Justiça – o que não é verdade – aquele que subiu o degrau mais alto depois da Mulher-Maravilha, no ano passado. O Rei dos Mares veio com um filme que enche os olhos e os ouvidos, com visual acachapante e trilha sonora deliciosa, mas derrapa no ritmo do filme, que começa bem, cansa no segundo ato e só engata no clímax final. Entre mortos e feridos, foi melhor do que a maioria dos filmes deste ano, o que não é pouco.

Épico Marvel

03 – Vingadores: Guerra Infinita: Sem dúvida, o filme mais aguardado do ano, Guerra Infinita é o ápice da Marvel Studios no cinema, a resolução dos mais de 20 filmes que convergiram para esta reunião épica de super-heróis. Desde Homem de Ferro (2008), os filmes da Marvel construíram um universo interligado como nos quadrinhos, que apontaram para a reunião dos heróis em Vingadores (2012). A cena pós-créditos, mostrando Thanos como o grande arranjador dos eventos chega ao seu clímax, reunindo TODOS os personagens num único filme que, se tem um defeito é exatamente esse: o excesso de personagens deixou uma participação superficial de cada um deles. Mesmo assim, o roteiro foi muito bem conduzido pelos Irmãos Russo, o final foi surpreendente (para quem não leu a HQ na qual o longa foi baseado, bom que se diga) e a continuação será tão aguardada quanto.

Militante sem fazer militância.

02 – Pantera Negra – Se Vingadores foi tão épico, porque o Pantera Negra está uma posição acima? Talvez porque foi um filme muito mais surpreendente. Guerra Infinita eu já conhecia a história e fiquei um tanto frustrado porque já sabia o que ia acontecer (embora tenha tido algumas surpresas, claro!). Já com o Pantera Negra, foi tudo inédito e o filme fez um excelente trabalho ao apresentar o herói africano sem o alarde de levantar bandeiras de representatividade e antirracismo, mas fazendo isso com categoria e dignidade, o que foi ainda muito melhor: o herói não precisou mendigar seu espaço, ele conquistou pela própria qualidade técnica do filme, com belos cenários, uma trama muito bem escrita e as excelentes interpretações. Precisamos de mais filmes como esse.

Viva, destruindo corações sensíveis

01 – Viva – A Vida é uma Festa – Se um filme consegue ser divertido, te fazer rir, cantar, não cansa durante a exposição, tem uma boa história, tem um visual que encanta e, no final, ainda te arranca lágrimas e deixa aquele aperto no peito de emoção, não tem como não elegê-lo como o melhor do ano. Viva – A Vida é uma Festa tem um título medonho, comparado ao original – Coco, em homenagem à avó do personagem principal, o garoto Miguel – mas sua história nos enche de ternura. Mais um gratificante acerto da Pixar, que só nos presenteia com produções da mais alta qualidade.

Predador bom Vs. Predador mau. E piadas ruins no meio.

Cine Mico – Em meio a tantas boas produções, tinha que ter aquela que nos dá vontade de pedir o dinheiro do ingresso de volta. O Predador descaracteriza todos os filmes anteriores da franquia que, apesar de vários fracassos comerciais, ao menos, mantinham a personalidade do monstro como um caçador especial. Neste, tudo é errado, a começar do título – o mesmo do filme original, exceto pelo artigo “O” – que dava a entender se tratar de um reboot da franquia e não de uma continuação. O elenco é péssimo, as piadas são de extremo mau gosto e o Predador… bem… se tornou um defensor da Terra. Onde eu assino para resgatar meu ingresso, por favor?

Tão mágico quanto na estreia, há 40 anos.

Menção honrosa – Para comemorar os 80 anos do Superman, a rede Cinemark exibiu o primeiro longa-metragem do Homem de Aço, estrelado por Christopher Reeve, trazendo de volta a mesma sensação de 1978, quando pudemos ver aquela obra prima em tela grande e som estéreo. O filme já foi exibido à exaustão na TV e nem a versão digital é novidade, já que o blu-ray possibilitou essa melhoria – e ainda com versão estendida, com vários minutos a mais de cenas extras e deletadas (a versão exibida foi a mesma de 1978). Mesmo assim, Superman – O Filme merece uma menção honrosa neste Top 10 por provar que bons filmes não envelhecem. Reeve fez muito mais do que nos fazer acreditar que um homem é capaz de voar: ele também nos fez acreditar que somos capazes de sonhar.

Continue conosco. Nosso Top 10 – Retrospectiva 2018 continua amanhã.

Crítica: Aquaman

Principal estreia da semana, o filme Aquaman (idem, 2018) é a aposta da Warner/DC (de novo!) para recuperar a moral do universo de super-heróis da editora no cinema, que não consegue engatar, apesar de ter melhorado aos poucos desde Mulher-Maravilha e Liga da Justiça (2017). E, convenhamos, a aposta é arriscada, pois confiar no Aquaman, um herói ridicularizado pela mídia e grande parcela dos fãs ao longo dos anos, é uma tarefa inglória. Sem contar que este é o único live-action da DC deste ano, enquanto que a concorrente Marvel já apresentou cinco filmes (Pantera Negra, Vingadores: Guerra Infinita, Deadpool 2, Homem-Formiga e a Vespa e Venom).

O herói aquático já teve várias versões animadas e live-action

Criado na década de 1940, Aquaman sempre foi um dos principais heróis do Universo DC, mas tratado como coadjuvante. Já teve desenho solo pela produtora Filmation, participou da consagrada série Superamigos e da animação Liga da Justiça Sem Limites, apareceu em Smallville (sempre com ótima audiência nos episódios com sua participação) e teve um piloto de série solo que não vingou. Agora, finalmente, ganha sua primeira oportunidade na tela grande, firmado no carisma de Jason Momoa, já apresentado aos fãs brevemente em Batman Vs. Superman (2016) e com muito mais destaque em Liga da Justiça (2017).

Aquaman tem raízes nobres.

Em seu filme solo, conhecemos a origem de Aquaman: fruto de um romance extraconjugal da rainha atlante Atlanna (Nicole Kidman, sempre linda) e o faroleiro Tom Curry (Temuera Morrison), o pequeno Arthur Curry é o herdeiro do trono da Atlântida. O romance entre seus pais aconteceu porque a rainha fugiu do reino submarino para não se casar com um homem que ela não amava em um casamento arranjado, mas logo foi perseguida pelo exército real. A fim de proteger o filho, Atlanna voltou ao seu reino e deixou Arthur aos cuidados do pai.

Mera tenta convencer Aquaman de sua herança real.

Os anos se passaram e, já adulto, o rapaz usou seus poderes – força sobre-humana, habilidade de respirar embaixo da água, supervelocidade (principalmente quando nada) e telepatia aquática entre outros – para proteger a baía onde morava do ataque de piratas e outros problemas marinhos. É quando surge a princesa Mera (Amber Heard) e o incentiva a retornar à Atlântida para assumir sua herança antes que seu meio-irmão Orm (Patrick Wilson) inicie uma guerra com a superfície. Para isso, Arthur precisa, antes, encontrar o lendário tridente que pertenceu ao rei Orvax, a fim de ganhar a confiança do povo atlante e ser aceito como regente.

O visual submarino é de perder o fôlego.

O filme tem um visual riquíssimo, principalmente nas cenas submersas, que explora o reino submarino em toda sua variedade e colorido. É lindo de se ver e encanta o olhar, principalmente se for visto na versão 3-D. A trilha sonora também é envolvente, variando do clássico ao tecnológico (algumas cenas de perseguição são embaladas por um techno que lembra muito a trilha de Tron: O Legado, 2010) e embala com perfeição o clima desejado às cenas. A trama é bastante ágil e não esconde suas inspirações – a caçada ao tridente no interior de uma caverna no meio do deserto é puro Indiana Jones. Só faltou a participação de Harrison Ford.

Muitas criaturas marinhas inspiradas nos clássicos de stop motion.

A química com Mera, por sua vez, remete ao clima de Tudo por uma Esmeralda (1984), filme ao qual o diretor James Wan declarou ser fã. E tem direito até a monstros marinhos gigantes, remetendo aos stop motion (técnica que consiste em filmar objetos quadro a quadro para simular movimento) de Ray Harryhausen, especialista na técnica cinematográfica. As lembranças em flashback, mostrando o treinamento de Aquaman desde criança pelo conselheiro Vulko (Willem Dafoe) são bem colocadas e enriquecem a história, inspirada na fase Novos 52, principalmente o arco O Trono da Atlântida, que traz o ataque de Orm ao mundo da superfície, mas sem esquecer a fase clássica, com seu traje laranja e verde. Os efeitos especiais também são de primeira categoria.

Flashbacks e piadas são bem dosados.

Há que se destacar que o humor é muito bem dosado e, ao contrário do que mostravam os trailers, o Aquaman “descolado” não cansa o público com piadinhas fora de hora. Momoa é, sim, um herói bom astral, mas mantém a seriedade na maior parte do tempo, evitando que o filme caia no ridículo – um ponto positivo do diretor, considerando que Aquaman precisava afastar o estigma que carrega. Por outro lado, se o filme enche os olhos e diverte o espectador, há momentos constrangedores e uns furos de roteiro bem feios. Por exemplo, uma fuga do deserto não explicada, o uso de um barco para navegar no meio de uma tempestade quando os heróis nadam e respiram sob as águas e o sinalizador que pega fogo embaixo d’água, só para citar alguns.

Arraia Negra: vilão sem função na trama. Já Orm é um orgulhoso antagonista.

Há também um mal aproveitamento do vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), que parece perdido no meio do roteiro, sem muita função na trama que não seja gastar o tempo do filme. Melhor seria tê-lo deixado para uma continuação e assim explorar muito mais sua vingança contra o Rei dos Mares, que dariam, por si só, uma história muito boa, pois o personagem é bastante rico. Por outro lado, há que se elogiar as atuações de Dafoe e Dolph Lundgreen (como rei Nereus, pai de Mera), ambos bem à vontade na interpretação de personagens dúbios – nem bons, mas não chegam a ser vilões – algo difícil de se conseguir.

perseguição impossível pelos telhados é constrangedora.

A cena de perseguição pelos telhados, já vista nos trailers, é vergonhosamente forçada e o momento final, quando Aquaman encontra o tridente é tão clichê dá vontade de rir ao invés de torcer. Com 2h23min, o filme começa bem agitado, perde o ritmo na metade e recupera no final. Esses defeitos, no entanto, não tiram o mérito de que a DC, finalmente, acertou o caminho e nos apresentou um grande filme de super-heróis, com um personagem que inspira confiança e dá gosto de torcer pelo seu êxito. Ainda cabe um acerto aqui e acolá, mas  parece que o tempo dos heróis sombrios foi, literalmente, por água abaixo. Vida longa ao rei!

Pose real para garantir sua superioridade a todos os filmes da DC no cinema.

Cotação Raio X: 

Crítica: Uma Entrevista com Deus

Seguindo uma tendência atual de filmes com temática religiosa, estreia no dia 15 de novembro o drama Entrevista com Deus (An Interview with God, 2018), com Brenton Thwaites (o Robin, da série Titãs) no papel do repórter Paul Asher, um correspondente da Guerra do Afeganistão, que voltou do conflito com sua fé abalada e seu casamento ameaçado. No entanto, uma entrevista com um homem que diz ser o próprio Criador desperta nele várias dúvidas que o faz questionar suas crenças e sua própria vida.

De frente com Gab… hã… pera…

Embora não fuja de certa pieguice e vários clichês do gênero, o filme também surpreende na medida em que nos envolve na história do repórter e no mistério de seu entrevistado. Os primeiros minutos chegam a ser um tanto maçantes, com seu esquema de perguntas e respostas que se estende por um tempo além do necessário. Mas isso faz todo o sentido no desenrolar da trama, pois tem o objetivo de nos introduzir na história pessoal de Paul e ir revelando os segredos que o levaram a um relacionamento fragmentado. Há, inclusive, um personagem misterioso com quem Paul conversa só por telefone, mas ninguém sabe se ele realmente existe ou se faz parte da imaginação do protagonista.

Paul e sua esposa enfrentam problemas de relacionamento.

A entrevista é realizada num período de três dias – meia hora por dia – e, a cada dia, Deus (David Strathairn) responde algumas das dúvidas existenciais da humanidade (Deus existe mesmo? Porque acontecem coisas ruins com pessoas boas? No que consiste a Salvação?), mas sempre de uma forma abstrata que faz o repórter questionar a si mesmo sobre como anda conduzindo sua própria vida e como aquele homem misterioso tem o poder de perturbá-lo tanto. Esse clima se mantém até o final, quando as peças se encaixam e o plano de Deus ao conceder essa entrevista fica claro.

Qual é o papel de Deus no palco da vida?

Sim, o filme é totalmente focado no público cristão. Este é, ao mesmo tempo, a maior virtude e o maior defeito. Ao mirar num público restrito, o longa prova que tem uma pontaria certeira, pois acerta o alvo, incentivando a reflexão sobre a crença em Deus e os próprios fundamentos da religião. Afinal, qual o limite da nossa fé e qual o nosso papel neste mundo se temos um ser superior que o “controla”? Porém, ao trabalhar com uma receita pré-definida e um final mais ou menos esperado (você não acha que o milagre vai deixar de acontecer, acha?), corre o risco de criar antipatia com os mais céticos ou espectadores de outras crenças. Com o devido esclarecimento, o longa é um bom programa para aprofundamento da própria compreensão do Transcendente.

Ninguém quer jogar xadrez comigo só porque eu antecipo seus movimentos…

Nos Estados Unidos, o filme teve uma curtíssima exibição (apenas quatro dias: de 20 a 23 de agosto) com pouca divulgação. Mesmo assim, o boca a boca garantiu que a bilheteria tivesse, a cada dia, um faturamento maior que o dia anterior, acumulando um total de US$ 1,25 milhão, um recorde para o gênero. Esse valor foi totalmente doado pela produtora Giving Films a entidades que apoiam assistência social e serviços de saúde a veteranos de guerra.

Cotação Raio X:

 

 

Crítica: O Doutrinador

Quando se fala em quadrinhos de super-heróis, logo nos vêm à mente os personagens icônicos da Marvel e da DC, que há tantos anos povoam nosso imaginário com suas histórias fantásticas que, nos últimos tempos, tem levado multidões aos cinemas. Pouca gente tem conhecimento que o Brasil também é uma fonte desse gênero e vários deles com muitos anos de estrada. Esse panorama pode mudar com a estreia de O Doutrinador (idem, 2018), filme nacional que chegou aos cinemas este final de semana, e apresenta um anti-herói criado pelo quadrinhista Luciano Cunha, que combate a corrupção na política.

Poster alternativo traz a primeira data de estreia… e uma realidade na frase.

O filme chega num período bastante propício, em que vivemos a realidade de uma eleição presidencial extremamente complexa, pela falta de opções de um representante que nos seja confiável. Marcado para estrear em 20 de setembro, o longa teve seu lançamento alterado para 18 de outubro e, por fim, mudou novamente para 1º. de Novembro – certamente para ficar fora do período eleitoral, com os novos governantes já escolhidos e evitar comparações ou até mesmo qualquer tipo de apologia à violência – considerando o atentado a um dos candidatos favoritos na eleição antes do primeiro turno, foi uma decisão bastante acertada.

Miguel (dir) prende o governador corrupto… que é logo solto.

A trama mostra Miguel (Kiko Pissolato), um agente da DAE – Divisão Armada Especial – uma unidade de elite da Polícia Federal, sendo vítima de uma tragédia provocada pela corrupção política. Quando o governador Sandro Corrêa (Eduardo Moscovis) é preso mas logo liberado, Miguel vai em busca de vingança e assume a identidade do Doutrinador. Com uma máscara contra gases e um capuz protegendo sua identidade, ele assume uma cruzada particular para eliminar todos os políticos envolvidos em sujeira. Para isso, conta com a ajuda de Nina (Tainá Medina), uma hacker que o auxilia roubando dados dos crimes cometidos pelos parlamentares e nas invasões aos escritórios dos mesmos.

Miguel conta com a ajuda de Nina

Completam o elenco o ator Samuel de Assis como Edu, parceiro de Miguel na DAE, Tuca Andrada como o Delegado Siqueira, que vai investigar as ações do Doutrinador e Carlos Betão, candidato à presidência Antero Gomes, que usa sua retórica para conquistar o eleitorado (qualquer semelhança…). Há também uma breve participação de Marília Gabriela como a ministra Marta Regina, que também não é lá muito honesta.

O anti-herói nasce no meio de uma manifestação

O roteiro é muito bem amarrado e reflete bem a realidade do Brasil, onde todo mundo tem o rabo preso por algum motivo e enriquece às custas dos menos favorecidos, em reuniões regadas de muita zombaria e impunidade. O Doutrinador, embora use métodos pouco aconselháveis, gera identificação com o sentimento do povo brasileiro diante de tanta injustiça a que somos submetidos todos os dias. O clima é dinâmico e a edição, perfeita, com vários cortes na história, que eliminam excessos, deixando apenas o que interessa para contar a história.

Ser ou não ser honesto no Brasil? Eis a questão…

Os diretores Gustavo Bonafé e Fábio Mendonça tiveram o extremo cuidado com a qualidade do longa-metragem, fugindo dos lugares-comum nas produções nacionais, geralmente repletas de favelas, palavrões e cenas de sexo. Em O Doutrinador, tudo é muito bem dosado, resultando num filme que nada deixa a dever às produções hollywoodianas (Justiceiro, morra de inveja!). A boa notícia é que o anti-herói não vai se limitar ao cinema e já existe uma série de TV sendo produzida pela Turner International em parceria com o canal Space, com data de estreia para 2019. A história será a mesma, mas de forma mais detalhada e aprofundamento nas tramas paralelas dos personagens secundários. 

Herói foi criado em 2013, por Luciano Cunha

Nas HQs, o Doutrinador surgiu em 2013, inspirado pela onda de protestos que surgiu no País após o aumento da tarifa de ônibus e os gastos excessivos com a Copa do Mundo de 2014. Inicialmente publicadas pela Internet, o personagem acabou ganhando grande repercussão pela indignação do povo, que via no anti-herói, um representante contra tanta sujeira política. Não tardou para o personagem migrar para uma HQ impressa de forma independente no mesmo ano, que teve mais duas edições em 2015 e 2016. As três revistas foram depois reunidas em um encadernado de capa dura. Para 2019 estão previstos dois novos títulos, pela Guará Entretenimento.

A corrupção tem um remédio.

Espera-se que o filme abra as portas para novas produções nacionais inspiradas em super-heróis do quadrinhos. O Brasil tem vários deles e muito material interessante pode ser adaptado, gerando boas produções. Se todas tiverem o nível de qualidade que vemos em O Doutrinador, o cinema nacional pode estar iniciando uma nova fase em sua trajetória. Tomara que também desperte o interesse das editoras para que haja mais espaço a esses heróis nacionais, que amargam uma luta inglória por espaço nas bancas de revistas e livrarias.

Edição especial da revista Mundo dos Super-Heróis. Nas bancas!

Para mais informações a respeito do personagem, a revista Mundo dos Super-Heróis fez uma edição especial totalmente dedicada à produção, com entrevistas, curiosidades de bastidores e tudo sobre o longa-metragem. Nas bancas ou pelo site da Editora Europa.

Cotação: 

Crítica: Venom

A grande estreia da semana é o filme Venom (idem, 2018), baseado  no velho inimigo do Homem-Aranha, mas desligado do universo do aracnídeo – o que, por si só, já gera um certo desconforto nos fãs. O filme é a aposta da Sony em alimentar uma nova franquia e, com isso, manter os direitos desses personagens, que vêm sendo cobiçados pela Marvel Studios já há um bom tempo. Por conta disso, a empresa investiu pesado no marketing, a fim de impulsionar as bilheterias.

Pô, comparar com Quarteto Fantástico é pior que xingar a mãe!

A primeiras exibições nos Estados Unidos não tiveram um resultado muito positivo e a crítica foi bem cruel, chegando a comparar o longa-metragem com dois dos maiores fiascos cinematográficos do gênero super-heróis: Mulher-Gato (2004) e Quarteto Fant4stico (2015) – sobre este último, fizemos uma crítica aqui. É um grande exagero. Venom passa longe, bem longe, dessas duas aberrações, embora tenha lá seus erros.

Dra. Skirth (dir.) e seu chefe, Carlton (de preto), fazendo o mundo melhor (só que não).

A história mostra a chegada do simbionte alienígena numa nave espacial da Fundação Vida, um órgão científico responsável por pesquisar recursos para melhorar a qualidade de vida em nosso planeta. Uma equipe de exploradores (com um astronauta de nome bem familiar aos fãs do Homem-Aranha) captura quatro organismos simbiontes, mas um deles consegue escapar e se esconde no planeta. Os outros são estudados pela Dra. Dora Skirth (Jenny Slate), sob as ordens do implacável líder da fundação, Carlton Drake (Riz Ahmed).

“Sr. Brock, por favor, não me irrite. O senhor não iria gostar de me ver zangado.”

Enquanto isso, o repórter Eddie Brock (Tom Hardy) trabalha num programa televisivo e se prepara para casar com sua noiva Anne Weying (Michelle Willians), mas tudo muda de figura quando ele descobre que a Fundação Vida é mais do que aparenta e tenta colocar Drake contra a parede. Por falta de provas, Eddie perde o emprego, a noiva e passa a lamentar sua vida fracassada, até que a Dra. Skirth o encontra e oferece ajuda. A partir daí, ele tem contato com o simbionte e se torna Venom, passando a ser perseguido pelos capangas da Fundação e atacado pelo simbionte fugitivo Riot, que deseja buscar novos simbiontes para invadir o planeta.

Nada de “E.T. Telefona Casa”. Aqui, os aliens querem é sangue!

Para quem pensava que seria impossível contar a história do monstruoso vilão sem associá-lo ao aracnídeo – nos quadrinhos, o Homem-Aranha encontrou Venom num planeta distante e o trouxe para a Terra achando que fosse um novo traje capaz de obedecer a seus comandos mentais – o roteiro bem escrito prova o contrário. A trama é muito bem desenvolvida e funciona no cinema, com a história da fundação e suas pesquisas e a motivação de Drake para ter o controle dos simbiontes.

Tom Hardy dá um show na interpretação da dualidade de Venom

Tom Hardy também dá muita verossimilhança ao jornalista fracassado e desejoso de vingança contra os que destruíram sua vida. A interpretação de Hardy proporciona vários momentos cômicos na interpretação dúbia do personagem e também carrega nas situações dramáticas com o peso que elas exigem, criando um anti-herói que chega a ser bem mais simpático que nos quadrinhos. O filme também dá várias referências às HQs, cujo desconhecimento por parte do público comum não atrapalha o entendimento da história, mas fará a alegria dos fãs mais antigos.

Personagens gosmentos

O filme é meio lento nos seus momentos iniciais e demora bastante para Brock virar o Venom, mas isso não significa que seja uma trama parada. Pelo contrário, a história flui e a espera faz parte do desenvolvimento do enredo, que é repleto de ação, com cenas de perseguição, lutas e tiroteio. Há alguns furos, como fatos que não se explicam ou se explicam mal e a luta final é bem aquém do esperado, com uma solução fácil demais, mas nada que interfira a diversão. Com certeza, a estratégia de diminuir a classificação etária para atingir o público adolescente se mostrou acertada, pois o personagem tem grande popularidade entre essa faixa etária – que é quem realmente vai impulsionar as bilheterias. 

Aquele sorriso de quem passou no teste difícil.

Por isso, esqueça aquela tragédia anunciada pela crítica internacional, mas também não vá esperando ver uma obra de arte. Convenhamos: do Venom, um personagem de quarto escalão da editora, não dá pra exigir muita coisa. Porém, o que veio é muito bom e presta exatamente àquilo que se espera quando se vai ao cinema: diversão.

Cotação Raio X