Bienal da Recessão

blog bienalTerminou ontem a 24ª. edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, um dos eventos literários mais importantes do País, que aconteceu desde 26 de agosto, no Pavilhão de Exposições do Anhembi. Para quem não sabe, a Bienal é um evento que começou em 1951, com a primeira “feira popular do livro” realizada na Praça da República, no centro de São Paulo. Dez anos depois, o MASP (Museu de Arte de São Paulo), foi palco para a primeira Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas, realizada pela CBL – Câmara Brasileira do Livro.

Anhembi é o palco da Bienal do Livro

Anhembi é o palco da Bienal do Livro

Este foi o embrião para a realização, em 1970 da, agora oficialmente, 1ª. Bienal Internacional do Livro. De lá para cá, a cada dois anos, o evento se tornou tradicional e, embora tenha trocado de lugar (era realizado no pavilhão da Bienal no Ibirapuera, passou para o Expo Center Norte em 1996, seguiu para o Centro de Exposição Imigrantes em 2002 e chegou ao Anhembi em 2006), sempre manteve o brilhantismo e a popularidade de um evento cultural para as massas.

Livrarias com preços bem atrativos... vazias.

Livrarias com preços bem atrativos… vazias.

Este ano, no entanto, a crise que abate o País e as mudanças no mercado editorial se fizeram sentir também na Bienal do Livro. Basta uma primeira olhada no pavilhão para sentir que algo estava errado. Com corredores maiores e mais largos, era visível que os stands das grandes editoras diminuíram. Aliás, os maiores stands eram de livrarias, com ofertas que iam de R$ 5 a R$ 30. Havia stands em que qualquer obra podia ser comprada por 10 reais, o que permitia encontrar bons (e caros) livros por esse preço, proporcionando uma boa economia.

"Autores" do You Tube tiveram destaque na Bienal de 2016

“Autores” do You Tube tiveram destaque na Bienal de 2016

As grandes editoras, porém, embora tivessem descontos bem atrativos, mantiveram preços mais altos (acima de R$ 20) para seus lançamentos, que foram bem discretos, com destaque para a geração de  youtubers em obras de interesse para os jovens que os seguem nas redes sociais, mas com pouco a dizer ao restante do público. Isso sem contar a forma “descolada” de escrever, com termos como “vida loka” e afins, que só servem para desaprender a grafia correta das palavras.

Mauricio de Sousa e a Turma da Mônica são presença certa em todas as edições.

Mauricio de Sousa e a Turma da Mônica são presença certa em todas as edições.

Ok, cada um com seu público alvo, mas o tempo dirá se esses “autores” ainda chegarão a causar o mesmo frisson que Mauricio de Sousa e Ziraldo provocam até hoje, em todas as idades. Aliás, a Bienal, que sempre é palco de grandes celebridades e nomes consagrados da literatura nacional e até internacional, nem isso teve nesta edição, com poucos autores de renome presentes no evento.

Corredores mais espaçosos... e vazios.

Corredores mais espaçosos… e vazios.

O preço dos ingressos subiu de R$ 14 para R$ 20, um aumento de 43% em relação a 2014. Por conta disso, o público também diminuiu – bastante. A expectativa de 700 mil visitantes ficou aquém do esperado e o evento registrou “apenas” 684 mil pessoas, segundo dados da CBL. Este número vem caindo desde 2012, quando o público registrado foi de 750 mil pessoas, contra 720 mil de 2014. Este número reflete as mudanças no comportamento dos consumidores que, embora estejam consumindo mais livros, segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe/USP), o preço dos mesmos caiu em torno de 36% nos últimos dez anos.

Publico está lendo mais, mas pagando menos.

Publico está lendo mais, mas pagando menos.

Os dados foram divulgados pela revista Isto É e mostram um panorama da crise econômica que vem se instalando no País nos últimos anos. Soma-se a isso o fato da Internet facilitar as compras, fazendo com que as pessoas não precisem mais sair de casa para adquirirem seus livros preferidos (e, muitas vezes, com ofertas que as lojas físicas não oferecem) e temos um cenário para o recesso na Bienal deste ano.

Mercado editorial reaquecido é expectativa para 2018 (Foto: CBL)

Mercado editorial reaquecido é expectativa para 2018 (Foto: CBL)

A expectativa é que, na próxima edição da Bienal do Livro, que vai acontecer em 2018, esses fatores se alterem e o mercado reaqueça. Por enquanto, a experiência deste ano, que trazia como tema  a experiência da História em todos os sentidos, o único sentido que restou foi o paladar, com um gosto amargo de uma feira tão tradicional ser retraída por um Brasil em crise.

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