Em Primeira Mão: Batman – A Piada Mortal

blog abreO consagrado roteirista Alan Moore tem o costume de reclamar de todas as adaptações de suas obras, seja para quadrinhos, seja para cinema, por considerar que elas foram concebidas daquela forma, naquela época e para aquela mídia – no caso, quadrinhos – e não aceita que sejam feitas as alterações decorrentes de uma transposição para outras mídias. Se ele visse o que fizeram com a graphic novel Batman – A Piada Mortal (1988) na recente animação homônima que acaba de ser lançada pela DC/Warner para o mercado doméstico, certamente teria mais um de seus chiliques.

Cena de "Batgirl - O Filme"... não, pera...

Cena de “Batgirl – O Filme”… não, pera…

Não que a animação seja ruim, o que não é. O grande problema está na inserção desnecessária de um prelúdio focado na Batgirl que dá ao espectador a impressão de que ele comprou o desenho errado. Pior que isso: a animação, alardeada com uma classificação etária Rated-R (indicada para maiores de idade), deixa explícito que a heroína teve um envolvimento sexual com Batman antes dos acontecimentos da trama principal. Uma besteira feita para explicar – ou pelo menos, acalmar os ânimos, aliviar, disfarçar, tirar a atenção… chamem do que quiserem – outra baboseira decorrente do mundo politicamente correto que transforma uma capa variante numa polêmica desprovida de qualquer bom senso.

Cena da HQ é reproduzida na animação e roteiro também serviu de inspiração para o filme O Cavaleiro das Trevas (2008)

Cena da HQ é reproduzida na animação e roteiro também serviu de inspiração para o filme O Cavaleiro das Trevas (2008)

Explicando: quando foi lançada, em 1988, a graphic novel A Piada Mortal teve a premissa de revisitar as origens do arqui-inimigo do Batman, o Coringa, e mostrar que tanto o herói como o vilão são faces de uma mesma moeda. O que os diferencia é a forma como cada um encara sua “loucura” e qual o direcionamento que dá para seus valores. A premissa de que “qualquer um pode enlouquecer se tiver um dia ruim” foi usada no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), mostrando uma das mais marcantes interpretações do Palhaço do Crime, interpretado pelo finado Heath Ledger. Algumas cenas da HQ também foram transpostas para o filme – como a cena em que o Batman visita o Coringa no Asilo Arkham.

Capa polêmica: homenagem ou apologia à violência contra a mulher?

Capa polêmica: homenagem ou apologia à violência contra a mulher?

É nessa HQ que o Coringa atira na coluna da Batgirl, deixando-a paraplégica e obriga seu pai, o Comissário Gordon, a ver fotos da filha nua e ensanguentada (deixando em aberto a dúvida se o vilão também a estuprou). O fato, até hoje, gera discussão entre os fãs e se intensificou após o desenhista Rafael Albuquerque criar uma capa variante para a revista da Batgirl onde homenageia a graphic novel e mostra o Coringa ameaçando a heroína. Grupos feministas consideraram a capa ofensiva porque expõe a heroína a uma situação de ameaça e, segundo esses mesmos grupos, é uma apologia ao estupro e à violência contra a mulher. O bafafá foi tão grande que Albuquerque pediu desculpas aos leitores e a DC relegou a capa-homenagem ao limbo.

Batgirl peitando Batman pra mostrar quem é que manda.

Batgirl peitando Batman pra mostrar quem é que manda.

Sem entrar no mérito da capa, porque nosso objetivo é a crítica à animação, fica evidente que o roteirista Brian Azzarello (responsável pelo roteiro do desenho animado) quis dar um “empoderamento” à heroína e, antes de entrar na história que dá título à animação, mostra meia hora de ação com a Batgirl. É um prelúdio desnecessário porque não acrescenta absolutamente nada à trama. Pelo contrário, desconstrói a personagem em sua essência como super-heroína, para mostrar que ela agia mais por interesse sexual no seu parceiro do que para combater o crime. A frase “foi só uma transa” também faz parte do cardápio – frase-clichê da liberação feminina, que também descarta o “macho” mediante a sua satisfação carnal.

Cena idêntica à HQ

Cena idêntica à HQ

Tirada essa introdução dispensável, a animação segue fiel à HQ, inclusive com reproduções de cenas icônicas do álbum e várias referências a outras histórias importantes do vilão – incluindo a morte do Robin no arco Morte em Família (1988), a primeira aparição do Coringa em Batman 1 (1940) e a estréia do Homem-Morcego em Detective Comics 27 (1939). A origem do vilão é mostrada em flashback conforme a trama vai se desenrolando, até o clímax de sua batalha contra o Batman e a piada que conclui a história de forma incomum para os padrões do Homem-Morcego. Há uma cena pós-crédito com a Batgirl que também não faz parte da graphic novel, mas essa sim acrescenta algo à história e dá um fechamento brilhante aos acontecimentos, mostrando que a vida continua e os verdadeiros heróis sempre se superam. Com uma pequena cena de meio minuto, Azzarello deu à Batgirl todo “empoderamento” que a heroína precisa, dispensando meia hora de encheção de linguiça.

Classificação adulta para uma premissa infantil

Classificação adulta para uma premissa infantil

Na tentativa de ser politicamente correto e agradar grupos minoritários, A Piada Mortal “estupra” uma grande obra que nasceu perfeita em sua concepção. A impressão é que a mensagem de que “qualquer um pode se tornar insano se tiver um dia ruim” ficou em segundo plano em detrimento à mensagem subliminar de que heroínas são aquelas que transam libertariamente, contestam seus parceiros masculinos e conquistam sua liberdade. Uma imagem distorcida e desrespeitosa da imagem da mulher, que a “versão para maiores” não torna menos pior. Uma pena. Por causa de meia hora, o desenho que tinha tudo para ser uma excelente animação, foi reduzido a uma piada de mau gosto.

Cotação: blog cotaçãopiada

 

1 comentário

  1. Olá, tudo bem?
    Em primeiro lugar, quero dizer que adorei a crítica! Concordo plenamente com você.
    Quando fiquei sabendo da animação, fiquei com grandes expectativas (inevitável!) que foram por água abaixo quando eu soube da meia hora de prévia e, para piorar, a transa da Batgirl.
    Nota: antes que alguém me chame de conversador, não tenho nada contra ela. Mas um sujeito que sofre de estresse pós traumático, problema de identidade e é o mentor dela, dificilmente iria aceitar uma relação daquelas. O Batman é muito melhor que isso.
    A animação não tem o ritmo envolvente da HQ e carece de ilustrações que demonstrem o medo e a dor dos personagens. Ficou até limpa (sem hachuras). Uma pena. A Piada Mortal é merecia mais.

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