Crítica: Deadpool

blog abreEm lançamento simultâneo com os Estados Unidos, estreou no último final de semana o longa-metragem Deadpool, que traz as aventuras do anti-herói da Marvel, criado nos anos 1990 por Rob Liefeld e Fabian Nicieza. O filme vem obtendo excelentes resultados na bilheteria, superando a marca dos US$ 260 milhões em um único fim de semana – marca superior a Cinquenta Tons de Cinza, que foi o recordista do ano passado, com US$ 45 milhões e Matrix Reloaded (R$ 91,7 milhões), até então o líder imbatível para um filme com a mesma classificação indicativa.

O histórico do personagem (e do ator) não é dos melhores

O histórico do personagem (e do ator) não é dos melhores

Tal marca não deixa de ser surpreendente considerando o histórico do personagem – ele já teve uma aparição no filme X-Men Origens: Wolverine (2009), odiada pelos fãs – e do próprio ator Ryan Reynolds, que não é exatamente querido por sua qualidade como intérprete e já tem um histórico de malfadadas experiências no mundo dos super-heróis – além de Origens, ele também protagonizou Lanterna Verde (2011) da concorrente, DC Comics. Mas parece que o público é condescendente e adepto das segundas chances.

Fala sério: não tá igualzinho às HQs?

Fala sério: não tá igualzinho às HQs?

Como adaptação de quadrinhos, não há o que reclamar. Deadpool é totalmente fiel ao personagem, tanto no visual – que, ao contrário das adaptações de super-heróis atuais, que modificam os uniformes para torná-los mais realistas, é exatamente igual às HQs – quanto na tagarelice e no humor ácido. O filme tem um background que revela a origem do anti-herói com todos os detalhes (existe alguma mudança aqui e ali, mas nada que altere sua essência) mostrando sua motivação para fazer o que faz.

Morena Baccarin rouba a cena

Morena Baccarin rouba a cena

O romance com Vanessa Carlysle (Morena Baccarin, sempre excelente) também traz para as telas aquilo que já foi visto nas HQs e faz o espectador se sensibilizar com a condição sofrida de Wade Wilson (o nome civil de Deadpool) no processo que o transformou numa aberração e lhe concedeu o fator de cura. A tagarelice constante, outra marca registrada do personagem, também está lá, bem como o elenco de apoio, formado pelos amigos Fuinha/Weasel (T. J. Miller), Al Cega (Leslie Uggams, também excelente) e o sádico vilão Ajax (Ed Skrein).

Câmera lenta para Zack Snyder nenhum botar defeito.

Câmera lenta para Zack Snyder nenhum botar defeito.

Os efeitos especiais são bem feitos e o uso da câmera lenta nos momentos de flashback é um ótimo recurso para mostrar tudo que se passa na mente de Deadpool no intervalo entre um segundo e outro. A trilha sonora, formada por hits dos anos 80, como The Wham!, Chicago e Neil Sedaka, se encaixa na trama como uma piada para o público mais antigo, que acompanha os filhos para ver o personagem que eles tanto amam dos gibis. Tudo perfeito, certo? Errado.

'bora estudar minha fala. Mas, pera... não tem diálogo, só tem palavrões!

‘bora estudar minha fala. Mas, pera… não tem diálogo, só tem palavrões!

O filme peca – e muito – pelo excesso. Excesso de piadas de mau gosto, calcada sempre na pornografia ou usando um palavrão (ou vários) para forçar o riso. Não à toa, o filme foi proibido para menores de 18 anos nos Estados Unidos – no Brasil, terra das amenidades, a classificação é 16 anos. E, mesmo assim, as filas de cinema estavam cheias de garotos tentando burlar o sistema. Tudo para ver um personagem falando uma dúzia de palavras chulas a cada frase ou soltando pum e declarando isso com todas as letras. Bom gosto passa longe.

Não espere que eu dê risada dessas piadas toscas...

Não espere que eu dê risada dessas piadas toscas…

Não que palavrões ou piadas com insinuação sexual não possam ser um recurso válido, pelo contrário. Isso seria moralismo e hipocrisia, o que não é o caso. A questão é o excesso. Quando você precisa utilizar esse recurso de forma gratuita para arrancar risos da plateia, alguma coisa está errada com sua forma de humor. As melhores piadas são aquelas que surgem nos momentos mais inusitados e, exatamente por te pegarem de surpresa, se tornam engraçadas. Com Deadpool, chega o momento em que você já espera que ele faça algum comentário engraçadinho e isso estraga a diversão, porque a piada já vem pronta.

Na foto não parece, mas Colossus foi muito mal adaptado.

Na foto não parece, mas Colossus foi muito mal adaptado.

Infelizmente, a popularidade do personagem vem exatamente daí: da desnecessidade de pensar. Eu já sei que o personagem vai fazer um comentário engraçadinho daquela situação, então já preparo o riso forçado. Nada sutil, tudo explícito e jogado na cara do espectador. Até mesmo o x-man Colossus, um herói conhecido pelo seu senso de honra e decência, foi transformado num boboca moralista cuja única função é servir de escada para as piadas de Deadpool. Nas fotos de divulgação, o personagem parecia muito melhor, mas na tela, sua personificação deixou a desejar, dando uma aparência plastificada ao herói metálico.

Papel explosivo pra justificar o nome de Míssil Adolescente Megassônica

Papel explosivo pra justificar o nome de Míssil Adolescente Megassônica

Míssil Adolescente Megassônica (Brianna Hildebrand), a aprendiz do mutante russo, também ganhou poderes explosivos só pra justificar o nome “míssil”, algo que ela nunca teve nos quadrinhos, onde ela é pré-cognitiva, capaz de prever o futuro através de sonhos. Porém, no contexto do filme, essa mudança funcionou bem e a heroína acaba tendo uma participação marcante na trama – apesar da inexpressividade da personagem. A atriz conseguiu tirar leite de pedra com sua atuação. A última pá de cal está na cena pós-créditos, onde o protagonista literalmente repete uma cena clássica de um dos mais cultuados filmes dos anos 1980. Engraçado no contexto da zoação, mas em meio a tanta bobagem já vista, acaba sendo uma heresia ao original.

Como assim "melhor filme de super-heróis de todos os tempos"?!?!?!

Como assim “melhor filme de super-heróis de todos os tempos”?!?!?!

Ao ler e ouvir tantas críticas positivas ao filme Deadpool, era de se esperar que fosse gostar do filme, apesar da baixa expectativa por conta de não gostar do personagem. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Como já pontuei acima, o filme tem seus momentos positivos e não é de todo ruim, mas o excesso estragou o que poderia ter sido uma experiência agradável. O que me deixa mais surpreso é que o mesmo público que elegeu Pixels como um dos piores filmes do ano passado agora eleja Deadpool como um dos melhores filmes deste ano – inclusive, como “a melhor adaptação de super-heróis de todos os tempos”, chutando o balde do bom senso e da coerência.

Ainda bem que sou cega e não preciso ver esse filme!

Ainda bem que sou cega e não preciso ver esse filme!

Estranho que críticos especializados em cinema olhem de forma 100% positiva uma produção que é puro besteirol, tanto quanto os malhados Deu a Louca em Hollywood (2007), Super-Heróis: A Liga da Injustiça (2008) e Espartalhões (2008) entre outras comédias consideradas por eles mesmos como péssimos filmes. Também não deixa de ser estranho que um personagem como Deadpool, que é totalmente amoral e irrelevante no universo dos super-heróis, seja um dos títulos mais cultuados da editora. E, pior ainda, é incompreensível que a geração que tem as informações ao toque de um dedo, nos seus tablets e smartphones ache tanta graça de ver uma cena de sexo na tela do cinema ou um dedo do meio sendo exibido. Criamos um mundo nonsense. Perfeito para personagens como Deadpool.

Cotação: blog cotaçãodeadpool

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5 comentários

  1. Ihh Eduardo, você não gostou mesmo do filme. Mas seria difícil gostar já que afirmou que não gosta do personagem. Mas gosto e crítica todos tem o direito de fazer, então parabéns pelo seu ponto de vista. Corajoso uma vez que a maioria dos críticos e fãs de quadrinhos estão adorando ver o personagem no cinema. Eu gostei muito do filme. Fui com meus filhos que gostaram também e veja, eles não são fãs de quadrinhos, não conhecem o personagem, mas gostam de filmes de super-heróis. Esse fenômeno está atraindo cada vez mais pessoas que possam se interessar na leitura de quadrinhos. Isso por si só pra mim já é um ponto positivo. Mas infelizmente isso ainda não aconteceu com eles..rsrsrrs, mas se quiserem tenho um acervo bom comigo. Um grande abraço!!

    • Bacana, Antonio. O caminho é esse mesmo. Mostrar seu acervo, falar dos filmes, dizer que os personagens surgiram naquele gibi X… despertar a curiosidade, para eles buscarem, por si mesmos, esse mundo maravilhoso. Mas veja: eu não gosto do personagem e sim, já fui meio indisposto para ver o filme. Isso é um fator para que eu, de fato, não gostasse do filme, mas não foi o único. Como disse na minha crítica, o filme é uma boa adaptação, tem bons momentos, é fiel… mas tem defeitos também, e muitos. E uma coisa que me incomodou foi a forçada de barra nas piadinhas. Via a sala toda rindo de algo que nem era tão engraçado assim. Caracterizações também foram mal feitas. Se é verdade que meu lado “antipatia com o personagem” ajudou a não gostar do filme, penso que o lado “fanboy” também fez o pessoal amar de paixão algo que nem é tudo isso. Mas concordo com você: legal que o pessoal está curtindo filmes de super-heróis. Tomara que venham muitos outros por aí. Só não farei a crítica de Deadpool 2. Uma vez é suficiente. rsrsrsrs… Grande abraço e obrigado pela visita ao nosso blox!

  2. Sinto muito que tenha sido uma experiência tão desagradável pra ti. Como tu disse no facebook, “Espero que se divirta”, vejam só: eu até que gostei. É um filme que acerta de um lado mas erra do outro. Ele faz com os inimigos o que eu queria que o Wolverine fizesse, degolando e fatiando de incontáveis maneiras. De fato o palavrão ele é usado nesse filme de modo Porta dos Fundos, mas não é TÃO gratuito assim se analisar o contexto do cenário e seus personagens, MAS SIM, erra na mão.

    Eu não achei ele tão ruim quanto aquelas “COMÉDIAS” como aquele filme do Homem Libélula, mas também não é a melhor adaptação cinematográfica de quadrinhos de todos os tempos, isso sim foi uma afronta ao bom senso.

    Eu gostei da singela referência ao Rob nos primeiros segundos do filme, gostei da câmera passeando pela tragédia no carro, gostei da tiração de sarro com os x-men do tipo “qual dos professores xavier?” ou “eu só vejo vocês dois por aqui, parece que acabou o orçamento desse filme” ou algo assim, foram comentários que qualquer fã de filmes de hq faria, e eu achei muito bom eles usarem isso pra fazer o fã se sentir um pouco no filme, sacaneando a bagunça que as produtoras fazem com seus direitos de personagem. Como filme que não se leva a sério, ele cumpriu bem seu papel mas, de novo, como disse antes, perdeu a mão em muitos momentos. Mas nem de longe odiei o filme, mas também não amei de paixão.

    E ele me fez ver como hashtag irrita, MINHA NOSSA!

    • Concordo com cada palavra sua, Dênis. Infelizmente, a irritação pelos excessos acabaram por minimizar o efeito das boas piadas – todas que você levantou e mais algumas. Uma pena que os diretores não sabem se conter. O Homem de Aço, por exemplo, é um bom filme que se perde na ação desenfreada. Tipo: “Os fãs reclamaram que não teve ação em Superman Returns, então vamos botar porradaria nesse.” E é só o que se vê, ao ponto de provocar uma destruição na cidade que virou piada depois. Saber dosar as coisas proporcionaria uma experiência bem mais bacana. Abração!

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