Crítica: Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)

blog abreContrariando o que dissemos em nosso Preview 2015, o filme Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) estreou nos cinemas. Porém, poucas salas exibem o longa – normalmente, os cinemas de circuito alternativo. O motivo é muito simples: o filme foi um fracasso nas bilheterias americanas e só ganhou um impulso depois que recebeu nove indicações para o Oscar, entre elas a de Melhor Filme, Ator, Diretor, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante.

Pássaro-Robô gigante. Uma crítica velada - ok, nem tão velada - aos filmes arrasa-quarteirão

Pássaro-Robô gigante. Uma crítica velada – ok, nem tão velada – aos filmes arrasa-quarteirão

Não deixa de ser surpreendente que um “filme-fracasso” tenha sido eleito um dos queridinhos da Academia.  Em números: o filme estreou em outubro/2014 nos Estados Unidos e, até o momento, arrecadou US$ 33,8 milhões de bilheteria, montante suficiente para cobrir os custos de US$ 22 milhões, mas não para que seja considerado um sucesso. O curioso nessa história é que o enredo do filme critica exatamente a tendência de Hollywood em fazer apenas blockbusters. De forma subjetiva, o diretor Alejandro González Iñárritu passa seu recado.

Michael Keaton interpreta um ator que interpretou Birdman que inferniza a vida do ator. Entendeu?

Michael Keaton interpreta um ator que interpretou Birdman que inferniza a vida do ator. Entendeu?

Aliás, o filme é todo subjetivo e, talvez por isso, não tenha caído no gosto popular, que prefere algo que não exija tantos neurônios – não que isso seja negativo, bom deixar claro, pois todos nós temos nossos momentos de simplesmente querer sentar no cinema e relaxar. Mas o fato é que a proposta de Birdman engana um espectador desavisado. Eu mesmo, embora soubesse não se tratar de um filme de super-herói, mas sim de um ator frustrado que tenta recuperar sua carreira marcada pelo personagem – o Birdman do título – ainda assim esperava ver Michael Keaton vestindo a roupa do herói em algumas cenas e gravando o filme dentro do filme, numa produção metalinguística.

Fantasia e realidade se misturam.

Fantasia e realidade se misturam.

Ledo engano. Birdman só aparece lá pro final da história e, ainda assim pouco menos de 10 minutos. O foco da história não é no personagem, mas no drama do ator Riggan Thomson (Keaton), que teve sua carreira marcada ao interpretar o personagem Birdman no cinema e, ao se recusar a fazer um quarto filme, nunca mais conseguiu um papel decente – se alguém se lembrar de Batman, não é mera coincidência. Assim, Riggan tenta retomar sua carreira organizando uma peça de teatro na Broadway e realizando ensaios abertos para que público e crítica possam vê-la e, assim, ganhar prestígio.

Batman X Hulk

Batman X Hulk

Ao mesmo tempo, Riggan precisa conquistar o amor de sua filha Sam (Emma Stone) e lidar com sua rebeldia, além de aturar o estrelismo de Mike (Edward Norton), um prestigiado ator que entrou na peça para garantir maior peso ao elenco. Como se não bastasse, Riggan tem ataques de esquizofrenia e ouve a voz de Birdman quando está só, chamando-o de fracassado e afirmando que ele só fará sucesso novamente se voltar aos arrasa-quarteirões. Para completar o quadro, há também a crítica de cultura Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), cujos comentários influentes podem determinar o sucesso ou o fracasso da peça.

Olhe lá no céu! É um pássaro? Sim, é um pássaro...

Olhe lá no céu! É um pássaro? Sim, é um pássaro…

O diretor utiliza uma técnica de filmagem sem corte de câmera, o que dá uma ideia de continuidade da cena, mesmo quando há passagem de tempo. O estilo permite que o espectador passeie pelos bastidores do teatro, siga os personagens e tenha a sensação que as duas horas de projeção aconteçam de forma ininterrupta. Um truque bem interessante – truque porque é óbvio que há cortes, mesmo que imperceptíveis – que acrescenta ritmo à narrativa.

Correndo seminu pela Broadway: um drama cômico

Correndo seminu pela Broadway: um drama cômico

Birdman é genial. Envolvidos pela história, não percebemos o que é “real” e o que é imaginação do ator, mas somos absorvidos pela dramaticidade cômica das situações mostradas. Iñárritu conseguiu a façanha de despertar sensações opostas a uma mesma cena: ao mesmo tempo em que achamos engraçado ver Riggan correndo de cuecas pelas ruas da Broadway, também nos preocupamos em ver a situação ridícula a que foi exposto, às vésperas de sua estreia como diretor teatral.

O ator e sua peça de teatro (e a imagem do Fantasma da Ópera não é por acaso, já que Riggan também é assombrado por um).

O ator e sua peça de teatro (e a imagem do Fantasma da Ópera não é por acaso, já que Riggan também é assombrado por um).

E a metáfora do cinema blockbuster versus cinema com técnica permeia toda a trama, com referências claras a produções como Transformers, Homem-Aranha e outros, cheios de efeitos especiais que enchem os olhos, mas pouca profundidade intelectual. Se o filme vai ganhar algum dos nove oscars a que foi indicado, só vamos saber na noite do dia 22 de fevereiro. Até lá, vale uma corrida aos cinemas, antes que ele saia de cartaz e seja substituído por alguma produção mais comercial.

Cotação: blog cotação birdman

 

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