Crítica: Amor sem Fim (2014)

blog abreLançado nos Estados Unidos no dia 14 de fevereiro (o Dia dos Namorados de lá), estreia hoje nos cinemas brasileiros – e praticamente sem nenhuma divulgação – o filme Amor sem Fim (Endless Love, 2014), remake do clássico dos anos 1980, com Brooke Shields e Martin Hewitt. Há dois perigos em se fazer remakes de filmes consagrados: o primeiro é de alterar a obra original e macular algo que foi tão bem feito anteriormente. O segundo é, exatamente por conta do primeiro, ofender a memória afetiva do público que viu a versão anterior. Nenhum dos dois casos cabe a esta produção.

"Eu não vi, mas minha mulher viu e diz que é muito bom!" (Sílvio Santos)

“Eu não vi, mas minha mulher viu e diz que é muito bom!”  (Sílvio Santos)

Lembro que o primeiro Amor sem Fim (1981) foi uma das atrações da Semana Papai Noel, uma semana inteira de filmes que o SBT (antiga TVS) exibiu em horário noturno, no início de suas transmissões, como “presente” para seus telespectadores. Na época, as grandes produções eram deixadas para datas especiais e o SBT soube usar muito bem essa estratégia para conquistar sua audiência nascente – principalmente tendo Sílvio Santos como garoto propaganda em seu programa dominical.

Pelados em horário nobre. Tirem as crianças da sala.

Pelados em horário nobre. Tirem as crianças da sala.

Recordo-me que vi o filme acompanhado de minha mãe e a experiência foi traumatizante. O fato é que, para a época, Amor sem Fim foi bem “moderninho”, com peitos e nádegas expostas na tela e uma história que mostrava a jovem Jade (Shields) dormindo e transando com o namorado David (Hewitt) sob o nariz dos pais. Atualmente, estas cenas podem ser vistas com mais naturalidade, mas nos anos 1980, quando a liberação sexual ainda era um tabu, foi uma constrangedor para um garoto de 11 anos ver esse filme acompanhado da mãe. Por conta disso, nunca mais revi a produção, exceto recentemente, para ter critérios comparativos e poder escrever essa crítica.

Dia de formatura: David se apaixona por Jade

Dia de formatura: David se apaixona por Jade

Por isso, posso dizer com todas as letras que o novo Amor sem Fim superou o original. As mudanças na história foram relevantes e tiraram todo o tom erótico da trama para focar na paixão dos dois protagonistas, Jade (Gabriella Wilde) e David (Alex Pettyfer). Na história, David é um manobrista (pobre) que trabalha na festa de formatura de Jade (rica) e se apaixona pela beleza da moça, fazendo tudo para chamar-lhe a atenção. Note que a desconhecida diretora Shana Feste deu tons shakespeareanos à história, valorizando o enredo.

David esqueceu de trazer flores para o pai. Péssimo começo.

David esqueceu de trazer flores para o pai. Péssimo começo.

Desde o início, o pai de Jade, Hugh (Bruce Greenwood), não simpatiza com o rapaz, principalmente depois que ele se mete em encrencas por ter “pegado emprestado” um dos carros da festa para passear com Jade. As coisas começam a complicar quando a garota deixa de estagiar com o pai no hospital para ficar com o namorado. Pior: por causa dele, ela recusa um trabalho no exterior, que lhe seria de grande valor na carreira, despertando a fúria de Hugh, que passa a fazer de tudo para impedir o romance. Isso inclui investigar o passado do rapaz e, ao descobrir que David já teve passagens pela polícia, o médico usa de sua influência e consegue uma ordem judicial para impedi-lo de se aproximar da filha.

"Fique longe da minha filha!"

“Fique longe da minha filha!”

Ao contrário da antiga versão, onde uma leitura mais racional reconhece o excesso no “namoro” do casal (convenhamos, ficar pelado no quarto da namorada sabendo que os pais estão em casa e entrar sorrateiramente, toda madrugada, para transar com ela enquanto todos dormem é o cúmulo do exagero), nesta versão, é impossível não torcer por David e revoltar-se contra as atitudes machistas de Hugh. É claro que, na primeira versão, o público torce para que o casal fique junto no final, mas a atitude proibitiva do pai chega a ser compreensível. Desta vez, Hugh é colocado como um verdadeiro vilão, capaz de jogar sujo para controlar a vida da filha. Como não odiá-lo?

Cena da lareira e cena do incêndio foram mantidas. Prova de que a paixão incendeia.

Cena da lareira e cena do incêndio foram mantidas. Prova de que a paixão incendeia.

Apesar das mudanças, algumas cenas clássicas foram mantidas. A transa em frente à lareira foi preservada, muito menos erótica e bem mais romântica. O rapaz chega a dizer que “pode esperar”, caso Jade não esteja preparada. Politicamente correto. Outra cena importante é a do incêndio, mas desta vez como um acidente não programado que faz todo sentido dentro da trama e tem uma lição redentora por trás: é preciso se desprender do passado para ser realmente feliz. Imperdoável, no entanto, é a ausência da canção-tema de Lionel Ritchie e Diana Ross. Não dá pra maginar o filme sem ela e deveriam ter colocado, ao menos, nos créditos finais, o que não ocorreu.

O amor é lindo!

O amor é lindo!

É inegável que a direção de Franco Zeffirelli teve grande peso na carga dramática do primeiro filme e valorizou a história após uma primeira meia hora de cenas semi-pornográficas, tornando a produção inesquecível. Mas o novo Amor Sem Fim vai além do casal principal e prova que o amor é o verdadeiro protagonista da história, presente em várias vertentes – entre pais e filhos, por exemplo – e, mesmo quando as circunstâncias da vida provocam separações dolorosas, ele continua eterno. Sim, o amor é sem fim.

Tom Cruise sensualizando na sua estreia cinematográfica. Amor sem fim à nona arte.

Tom Cruise sensualizando na sua estreia cinematográfica. Amor sem fim à nona arte.

Curiosidade: O filme de 1981 marcou a estreia de Tom Cruise no cinema, num papel tão pequeno que, se o nome dele não estivesse nos créditos, ninguém perceberia que ele apareceu. É ele quem dá a ideia a David para botar fogo na casa da namorada. Outro que tem uma participação no longa, esta bem mais destacada, é James Spader, no papel do irmão de Jade. Spader depois seria o protagonista de outros clássicos oitentistas, como Tuff Turf, o Rebelde (1985) e Sexo, Mentiras e Videotapes (1989). O ator está escalado para fazer o vilão Ultron, no próximo longa-metragem dos Vingadores, com estreia marcada para 2015.

Cotação: blog cotaçãoamor

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