Crítica: Malévola

blog abreA Disney cedeu ao politicamente correto. Em Malévola (Maleficent, 2014), filme que estreou no último final de semana de maio em todo Brasil, a produtora reconta a história da Bela Adormecida – que ela própria lançou como animação, no ano de 1959 – e subverte conceitos da trama, transformando a bruxa que dá título ao filme em heroína – e não mais uma bruxa, mas uma fada corrompida.

Os contos de fada já não são mais os mesmos...

Os contos de fada já não são mais os mesmos…

Virou uma tendência atual fazer releituras de contos de fada e clássicos infantis, sob outro ponto de vista, geralmente bem mais sombrio do que o original. Isso já aconteceu em 2011, com Chapeuzinho Vermelho (A Garota da Capa Vermelha, 2011), duas vezes em 2012 com Branca de Neve (Branca de Neve e o Caçador – cuja crítica fizemos aqui – e Espelho, Espelho Meu, 2012) e, no ano passado, foi a vez de João e Maria (João e Maria: Caçadores de Bruxas, 2013). Não foi novidade quando a Disney anunciou a produção Malévola, que mudaria o foco e, ao invés da princesa Aurora como protagonista, esse papel ficaria com a vilã da história.

Fiel ao original? No visual, com certeza!

Fiel ao original? No visual, com certeza!

Até aí, nada contra, pois as produções anteriores, se não foram excelentes, ao menos tiveram abordagens interessantes dos personagens. A julgar pelo material de divulgação, tudo indicava que Malévola seria uma excelente produção, ainda mais estando sob a batuta da própria Disney, que jamais perverteria um de seus maiores sucessos. Ledo engano: a Disney não apenas inverteu os papéis, dando protagonismo à vilã, como transformou-a em heroína, como deixa bem claro a narração logo no início do filme, que diz: “vamos ver se você conhece mesmo a história”.

Perrault foi um dos primeiros a narrar o conto.

Perrault foi um dos primeiros a narrar o conto.

Abrindo um parênteses, vale dizer que o conto original foi escrito há centenas de anos, numa data não registrada. Sabe-se que uma das versões mais antigas data de 1527, num livro francês chamado Perceforest.  A história também foi adaptada por Charles Perrault, no seu famoso livro Contos da Mamãe Gansa (1697), mas a mais famosa é a versão dos Irmãos Grimm escrita no início do século 19.

Traída por Stefan, Malévola perdeu as asas (mas ganhou belos chifres)

Traída por Stefan, Malévola perdeu as asas (mas ganhou belos chifres)

Na trama, Malévola (Isobelle Molloy quando criança e Angelina Jolie quando adulta) é a mais poderosa de todas as fadas, que vive num reino em que humanos e seres místicos se odeiam. Um dia, o jovem Stefan (Michael Higgins) invade o reino místico e se apaixona pela fada e é correspondido. Apesar de declarar-lhe amor verdadeiro, suas ambições o levam a abandoná-la, gerando um trauma pela rejeição. Anos depois, Stefan (agora interpretado por Sharlto Copley) retorna e, para vingar seu rei e assumir seu lugar no trono, corta as asas de Malévola.

Aurora, xeretando onde não deve. Maldição!

Aurora, xeretando onde não deve. Maldição!

A rejeição e a traição fazem com que Malévola se isole do mundo e deixe de acreditar no amor. Porém, no dia em que a filha de Stefan nasce, a ex-fada encontra a forma de se vingar e lança sobre ela uma maldição: a jovem crescerá linda e amada por todos, mas ao completar 16 anos, espetará o dedo no fuso de uma roca e dormirá eternamente. Porém, diferente do original, onde o contra-feitiço é lançado por uma das três fadas madrinhas – Fauna, Flora e Primavera – desta vez é a própria Malévola que se arrepende e decide “aliviar” seu castigo: a jovem acordará se for beijada por alguém que a ame de verdade.

Bem e mal são conceitos que ainda existem... ou tudo é relativo?

Bem e mal são conceitos que ainda existem… ou tudo é relativo?

Este é, afinal, o grande problema da versão live-action: a história tenta aliviar as maldades de Malévola, justificando que ela se tornou má porque fizeram maldade com ela. O conto de fadas, cujo objetivo é de transmitir valores como certo e errado e tais características são propositalmente explícitas nos personagens, perde totalmente o sentido num estudo psicológico desnecessário que mostra que ninguém é totalmente bom ou totalmente mau e as motivações é que determinam este comportamento. Ótimo para uma dinâmica numa faculdade de psicologia, mas fora de cogitação numa adaptação infanto-juvenil.

Diga o nome das fadas bem rápido, três vezes, e ganhe um brinde.

Diga o nome das fadas bem rápido, três vezes, e ganhe um brinde.

A inversão de valores é notória: as três fadas – que nesta versão ganharam nomes impronunciáveis: Flittle (Lesley Maville), Knotgrass (Imelda Staunton) e Thistletwit (Juno Temple) – são três panacas que passam o tempo brigando e mal sabem cuidar da jovem princesa Aurora (Elle Fanning). Se na animação a atrapalhação das fadas dá o tom humorístico à história, aqui as piadas são forçadas e desprovidas de graça, servindo apenas para ridicularizar os personagens que deveriam ser “positivos”.

"Quer ir comigo pra uma ilha deserta?" Ops! Filme errado!

“Quer ir comigo pra uma ilha deserta?” Ops! Filme errado!

O corvo, transformado no humano Diaval (Sam Riley) para “ser as asas” de Malévola, tem mais graça do que as três juntas. Aliás, Diaval é muito melhor do que o insosso Príncipe Felipe (Brenton Thwaites) que, verdade seja dita, está na história apenas para enfeite – e não vamos revelar spoilers, mas quem já viu o filme, vai concordar comigo. Quando a gente lembra que o ator também estrelou o ridículo A Lagoa Azul – O Despertar (leia a crítica aqui) dá pra sentir pena do rapaz, que só ganha papéis insignificantes.

Angelina Jolie lançando um feitiço: "Apaixone-se!"

Angelina Jolie lançando um feitiço: “Apaixone-se!”

Então, o filme não tem nada de positivo? Tem: Angelina Jolie está divina no papel. Sua interpretação é impecável e a maquiagem digital, que deu contornos angulares às maçãs do rosto, reforçam o ar petulante que o papel pede. Angelina transmite toda arrogância de Malévola no olhar – mesmo que essa característica seja justificada para o bem. Sem querer, o público acaba torcendo por ela e querendo que o rei Stefan seja comido pelo dragão. Só por ela, o filme vale a pena ser visto.

Na festa de aniversário da Princesa Aurora vai ter churrasco.

Na festa de aniversário da Princesa Aurora vai ter churrasco.

Os efeitos especiais também estão muito bem utilizados, mas o roteiro não deixa de ter seus furos, afinal, uma brux… ops… fada tão poderosa, capaz de convocar seres elementares das profundezas da Terra, transformar corvos em humanos, lobos e dragões não seria capaz de dar asas a si mesmo, mesmo que de forma artificial? Isso apenas para mencionar um deles e não estragar a diversão contando spoilers.

Efeitos visuais criam clima de magia característico das produções Disney

Efeitos visuais criam clima de magia característico das produções Disney

Este é o primeiro filme dirigido por Robert Stromberg que é conhecido pelo seu trabalho nos efeitos visuais de filmes como o Labirinto de Fauno (2006), Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (2007) e Jogos Vorazes (2012). Por este currículo, o espectador pode ter certeza de ver um filme visualmente muito bem produzido. O protagonismo de Malévola representa uma quebra de paradigma nas produções Disney, que já começou com Frozen (leia a crítica aqui), onde o papel feminino não é mais dependente do príncipe salvador que chega em seu alazão branco para salvar a princesa. As mulheres passam a ser independentes e ter mais personalidade, algo bem condizente com nossa época – e totalmente positivo, bom que se diga.

Cena do futuro: sua filha não vai mais querer ser uma princesa. Agora, ela vai se espelhar na bruxa.

Cena do futuro: sua filha não vai mais querer ser uma princesa. Agora, ela vai se espelhar na bruxa.

O que estragou, de fato, foi a inversão de papéis em nome desta visão politicamente correta de valorização do papel feminino, algo que, aliás, está se tornando recorrente nas produções de Hollywood. Já tivemos um Deus cruel e “anjos caídos” bonzinhos em Noé (leia a crítica aqui) e agora temos uma Malévola que quase podia se chamar Benévola. É triste saber que até as obras de ficção perderam a referência do bom e do mau e tudo é colocado no mesmo pacote. Sinal que nossos valores estão bem distorcidos. Melhor ficar mesmo com o desenho animado, onde Malévola era a vilã que todos amávamos odiar.

Cotação: blog cotaçãomalevola

Anúncios

5 comentários

  1. Nossa…. isso porque eu esperava uma crítica “WOW… Fantástico… Maravilhoso… Não perca por nada… Você PRECISA ver…” eu ainda não vi, vou amanhã (eu acho), mas quero muito ver ess adaptação pela Angelina mesmo que ficou muito linda com esse papel heheh

  2. Muito bom, Edu! e concordo sobre o Diaval! cheguei até a dizer para minha namorada “certeza que é ele que vai acorda a Aurora”.. bom, não foi e ainda me decepcionei com a “versão” do amor verdadeiro. Filme bem fraquinho, de fato só vale pela Angelina! :))

  3. Pois eu gostei, e olha que amo clássicos. Gostei sim do fato de o mal ter suas justificativas. Acredito que ninguém é realmente bom o mal o tempo todo. Dessa vez quiseram ensinar algo diferente, que nem tudo que parece é. Uma mulher rancorosa pode ser também amável dependendo da situação. Ninguém é algo 24 horas por dias 365 dias do ano. E quanto ao príncipe… não existe apenas uma forma de amor. A mensagem deu um folego novo aos cansativo ” e viveram felizes para sempre ” .

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s