Crítica: Godzilla

blog abreImagine que você é um adolescente prestes a ganhar seu primeiro automóvel. Seu pai te leva na concessionária, você escolhe o veículo, recebe as chaves, mas na hora de entrar no carro, seu pai lhe diz: “Não é pra levar hoje. Só daqui cinco anos”. O sentimento de frustração é o mesmo ao assistir Godzilla (idem, 2014), filme que estreou neste final de semana em circuito nacional.

Bem, acho que agora sim teremos um grande estrago.

Bem, acho que agora sim teremos um grande estrago.

A Warner Bros. e a Legendary Pictures, em seu último projeto conjunto (a Legendary encerrou a parceria ano passado e foi para a Universal Studios), prepararam uma superprodução, com elenco de peso, efeitos especiais de primeira linha, um monstro grandioso – a maior versão de Godzilla até hoje, com 100 metros de altura -, um roteiro coerente com os tempos atuais e uma parceria com a Toho Company, detentora dos direitos do monstro, que deu todo suporte para que a adaptação fosse o mais fiel possível – e evitasse o fiasco do longa anterior, de 1998.

Saltar de paraquedas me dá gases. Vermelhos.

Saltar de paraquedas me dá gases. Vermelhos.

Tudo indicava que, desta vez, o Rei dos Monstros teria uma adaptação digna ao seu histórico de 60 anos. Os tralers empolgaram, o material liberado para a imprensa idem. No entanto, o resultado final ficou aquém do prometido e dá uma sensação de frustração no espectador. O próprio desenrolar da história tem momentos empolgantes, que cria um clima de tensão e expectativa mas, na hora que as coisas vão acontecer, levamos um balde de água fria. Por aí vemos que a escolha de um bom diretor é tudo numa produção cinematográfica. Gareth Edwards tinha experiência com um longa sobre monstros alienígenas – Monsters, 2010 – mas só isso não o qualificou para dirigir um filme do da importância de Godzilla.

Terá sido apenas um acidente? Hmmm... não mesmo!

Terá sido apenas um acidente? Hmmm… não mesmo!

A história começa em 1954, quando foram realizados testes nucleares no Atol do Biquini, no Pacífico (embora, historicamente, esses testes tenham ocorrido em 1946, a data toma uma liberdade poética e avança um pouco para fazer referência ao ano em que o primeiro Godzilla estreou no Japão). Depois, dá um salto para 1999, onde é mostrado um acidente nuclear na empresa Janjira, no Japão, na qual trabalha o físico americano Joe Brody (Bryan Cranston, o astro da série Breaking Bad). O acidente mata a esposa de Joe, Sandra (interpretada pela atriz Juliette Binoche), destrói a empresa e provoca a evacuação da cidade.

Papai químico, filho chutador de traseiros.

Papai químico, filho chutador de traseiros.

Quinze anos depois, Joe volta ao local para encontrar respostas. Ele nunca aceitou o fato de que o que houve foi um “acidente” e suas pesquisas indicam que havia alguma coisa na fábrica que o Governo está escondendo. Sua busca o leva a um reencontro com o filho Ford (Aaron Taylor-Johnson, de Kick-Ass), um tenente da Marinha que vai resgatar o pai e acaba se envolvendo nos acontecimentos involuntariamente. Outro que se torna um aliado é Daisuke (Ken Watanabe), apenas um jovem aprendiz na época do acidente e que se tornou um conceituado cientista e vai ajudar nas descobertas.

Talento desperdiçado: personagem sub-aproveitado com diálogos pobres

Talento desperdiçado: personagem sub-aproveitado com diálogos pobres

Com um elenco de primeira linha e os melhores recursos visuais para a apresentação dos monstros (sim, no plural!), é triste ver que tudo foi tão mal aproveitado. Tanto Joe quanto Daisuke são sub-aproveitados na trama, com um papel irrelevante e diálogos pobres. Um deles é a cena vazia na qual Daisuke mostra para um militar, afoito por utilizar uma bomba nuclear para destruir o monstro, um relógio parado às 8h15 do dia 6 de agosto de 1945. “Era do meu pai.”, diz ele. A impressão que fica é que os Estados Unidos quiseram fazer sua mea culpa por terem jogado a bomba em Hiroshima, mas se a intenção era provocar lágrimas com a cena, definitivamente fizeram isso errado.

"Só eu acho que essa metralhadora vai matar um monstro de 100 metros de altura."

“Só eu acho que essa metralhadora vai matar um monstro de 100 metros de altura.”

O astro é mesmo o jovem Ford, que só queria voltar para os braços da esposa e do filho, mas se vê no meio de uma verdadeira catástrofe provocada pelos monstros. O filme peca na falta de ritmo: a trama é arrastada, demora para engatar, cria todo um clima de suspense, uma expectativa para o surgimento do monstro e, de repente, um corte de cena quebra toda tensão. O filme todo segue esse mesmo esquema, principalmente na luta do monstro. Em uma entrevista dada pelo diretor, ele afirmou que os cortes eram “para que o espectador imagine a cena”. Ei, mas para imaginar a cena, não preciso ir ao cinema! Se eu vou ver um filme, é porque quero ver o que acontece. Péssima desculpa, Sr. Edwards!

O visual do monstro impressiona. Pena que demore tanto para dar as caras.

O visual do monstro impressiona. Pena que demore tanto para dar as caras.

Mas nem tudo são espinhos nessa produção: Godzilla está perfeito. É tudo o que os fãs esperavam ver do mostro: é grandioso, assustador, transmite toda a força do personagem, é mais herói do que vilão da história. Infelizmente, foi vítima de uma trama mal conduzida que não soube aproveitar todo o seu potencial. Para se ter uma ideia, temos que esperar uma hora inteira antes de vê-lo dar as caras (ou melhor, as escamas, ou seja lá como se chama aquilo nas costas dele). A cara mesmo (e ele dá um rugido bem perto da tela), demora mais uns 15 minutos.

Godzilla não aparece no filme para jogar xadrez. Ele tem que ter alguém para brincar!

Godzilla não aparece no filme para jogar xadrez. Ele tem que ter alguém para brincar!

O primeiro monstro surge depois de uns 40 minutos de filme. É verdade que a história precisa ser contada para situar o expectador na trama, mas um pouquinho de agilidade não faria mal. Afinal, quem vai ver o filme do Godzilla quer ver o monstro, não um drama familiar de um filho crescido que pensa que o pai está caduco. E se você ainda não entendeu o motivo de eu estar mencionando outros monstros, fica a pergunta: você acredita que um acidente nuclear criaria apenas um monstro (ou muto, como é chamado na história)? Aliás, nesta versão, Godzilla nem é fruto de experimentos nucleares. Ele já existia antes deles, o que tornaria tudo muito mais empolgante e divertido, se fosse bem conduzido.

Doutor, acho que o siso está nascendo...

Doutor, acho que o siso está nascendo…

O fato é que esta é a segunda vez que os americanos colocaram a mão no monstro japonês. A primeira foi em 1998 e também deixou a desejar – muito embora eu, particularmente, goste daquela versão, mas reconheço que não é o Godzilla que conhecemos. Nesta segunda versão, conseguiram apresentar um monstro digno do nome, com uma boa história, mas uma direção deficiente. Uma terceira oportunidade, acredito que não haverá. Godzilla é perfeito no Japão. Nos Estados Unidos, o herói é um militar truculento que luta contra invasores alienígenas. Melhor cada um ficar na sua praia.

Cotação: blog cotaçãogodzilla

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