Crítica: O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro

blog abreO filme O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro, que estreou no último final de semana, é a prova de que é possível aprender com os erros. Após o vexatório primeiro longa-metragem, cujo roteiro é mal escrito, cheio de questões mal resolvidas, vilão sem carisma e mal trabalhado, personagens tratados com a profundidade de um pires e que passam longe da fidelidade aos quadrinhos – mas que, estranhamente, público e crítica idolatraram – o diretor Marc Webb fez a lição de casa e corrigiu praticamente todos os defeitos, apresentando um filme redentor.

Uniforme ficou mais fiel. Ainda bem, porque aquelas sapatilhas eram horríveis!

Uniforme ficou mais fiel. Ainda bem, porque aquelas sapatilhas eram horríveis!

A mudança já começa pelo uniforme do herói, exatamente igual ao clássico traje que o aracnídeo vestiu desde sua criação – exceto por algumas pequenas alterações como a aranha das costas e olhos maiores – ao contrário da invencionice anterior, que até sapatilhas tinha. Em seguida, livre da necessidade de contar uma origem – que, reconheço, é um porre e amarra um roteiro – Webb pode aprofundar melhor os personagens e dar-lhes personalidade. Por fim, a carga dramática também foi aprimorada e a experiência do diretor em longas românticos – ele dirigiu (500) Dias com Ela – veio à tona em cenas pra lá de sentimentais.

"Seja um bom menino e não coloque o dedo na tomada!"

“Seja um bom menino e não coloque o dedo na tomada!”

Ponto para Webb, pois é isso que o Homem-Aranha sempre foi nos quadrinhos clássicos de Stan Lee e John Romita – um grande novelão. No novo longa, o Homem-Aranha (Andrew Garfield) divide seu tempo entre suas patrulhas heroicas e sua vida particular. Ele já trabalha como fotógrafo freelancer para o jornal O Clarim e até menciona o patrão J. Jonah Jameson, embora este não apareça na história (Ok, nem tudo é perfeito!). A história começa com o Homem-Aranha prendendo um criminoso pelas ruas de Nova York e atrasado para sua própria formatura. Nessa ação, ele salva a vida de Max Dillon (Jamie Foxx), um “zé-ninguém” que trabalha como técnico de eletricidade da Oscorp.

"Que bom que voltou! Vamos dar uma volta e ganhar algumas lâmpadas fluorescentes!"

“Que bom que voltou! Vamos dar uma volta e ganhar algumas lâmpadas fluorescentes!”

Acostumado a ser ignorado por todos, Dillon passa a idolatrar o Aranha, principalmente porque ele lhe diz que são amigos. Porém, um acidente na empresa lhe concede poderes elétricos e ele passa a ameaçar pessoas inocentes, fazendo com que o Amigão da Vizinhança o enfrente. Considerado traído, Electro fará de tudo para se vingar do Homem-Aranha. Ao mesmo tempo, Peter Parker reencontra seu amigo de infância, Harry Osborn (Dane DeHaan), que tinha passado anos estudando no exterior e retorna a tempo de testemunhar a morte do pai, Norman Osborn (Chris Cooper) e assumir as rédeas da empresa.

Problemas de pele enlouquecem qualquer um - principalmente se você não tiver um bom creme hidratante.

Problemas de pele enlouquecem qualquer um – principalmente se você não tiver um bom creme hidratante.

O acidente com Dillon faz a diretoria da Oscorp ocultar as provas, o que deixa Osborn revoltado – principalmente quando ele descobre que as pesquisas de seu pai e do pai de Peter Parker poderiam ajudá-lo a descobrir a cura para uma doença degenerativa que herdou do pai. É o pivô para o rapaz enlouquecer e se tornar o Duende Verde (cujo nome não é mencionado no filme) e atacar o Homem-Aranha. Enquanto isso, Peter e Gwen (Emma Stone) enfrentam problemas em seu romance, já que a jovem foi convidada para estudar na Inglaterra e pode ir embora do País. Para completar o drama, o segredo dos pais de Peter é finalmente revelado.

O leitor antigo vai identificar elementos de várias HQs do herói.

O leitor antigo vai identificar elementos de várias HQs do herói.

A trama bebe na fonte de várias HQs do aracnídeo: a formatura de Peter Parker publicada em Amazing Spider-Man 28 (1965), o segredo dos pais de Peter Parker (Untold Tales of Spider-Man, 1997), a origem do Duende Verde (Ultimate Spider-Man 1 a 6, 2000) e também The Amazing Spider-Man 121, lançada em 1973, com confronto mais icônico do Aranha com o Duende. O relacionamento de Peter e Gwen e de Peter e sua Tia May (Sally Field) também trazem elementos das tramas de Stan Lee e John Romita, explorando o lado romântico adolescente do herói.

 

Asas e braços mecânicos dão evidências da vinda do Abutre e Dr. Octopus.

Asas e braços mecânicos dão evidências da vinda do Abutre e Dr. Octopus.

Os personagens secundários do universo aracnídeo também recheiam o filme: temos a secretária de Harry Osborn, Felícia, cujo sobrenome não revelado deixa oculto se ela se tornará a Gata Negra futuramente. Um dos funcionários da Oscorp é chamado de Smythe, que, nos quadrinhos, é o homem que constrói o robô Esmaga-Aranhas. Além da já citada menção ao nome de J. J. Jameson, há também a aparição (já mostrada nos trailers) de asas e braços mecânicos nos corredores da empresa de Osborn, uma indicação de que o Abutre e o Dr. Octopus podem ser os próximos vilões a enfrentar o Homem-Aranha e abrindo caminho para a chegada do grupo de vilões Sexteto Sinistro.

Electro: verdadeiramente ameaçador

Electro: verdadeiramente ameaçador

Essas referências só são percebidas pelos fãs antigos do herói e aumentam a diversão, mas o público leigo pode aproveitar a trama sem problemas pois a história é recheada de ação e drama na medida certa. Os personagens são construídos no tom correto, com um Duende Verde tão insano quanto nos quadrinhos – mérito do ator Dane DeHaan, que consegue transmitir no olhar toda loucura necessária do personagem – e Electro ameaçador o suficiente para ganhar destaque no título nacional. Diferentemente do Lagarto, esses dois vilões têm carisma para segurar a trama.

Por trás desse sorriso apaixonante se esconde uma personalidade forte.

Por trás desse sorriso apaixonante se esconde uma personalidade forte.

Uma mudança muito bem feita foi da personalidade de Gwen Stacy, que deixou de ser a inocente e frágil mocinha em perigo para ganhar uma persona forte e decidida, quase tão heroica e inteligente quanto a do namorado. Já foi assim no filme anterior e repete-se nesta continuação a ótima química de Emma Stone com Andrew Garfield, namorados na vida real, o que dá mais credibilidade ao romance. O mundo cor-de-rosa dos dois é um show à parte e faz o público se envolver com o casal e torcer por um final feliz – algo que os leitores antigos já sabem não terminar bem.

"Atenção: esses isótopos são altamente explosivos. Cuidado ao manusear!" Jogar pra cima e pelo chão pode.

“Atenção: esses isótopos são altamente explosivos. Cuidado ao manusear!” Jogar pra cima e pelo chão pode.

Alguns exageros não faltaram: a cena inicial, na qual o Aranha prende o criminoso Aleksei Sytsevich (Paul Giamatti) pelas ruas de Nova York, é extremamente ridícula. Com o objetivo de ser “engraçadinha”, ela brinca com a inteligência do espectador, mostrando isótopos “altamente explosivos” que balançam e caem pra lá e pra cá sem sofrer nenhum dano.

"Morra de inveja, Michael Bay!"

“Morra de inveja, Michael Bay!”

Aliás, a participação do vilão Rino no filme, tanto no início como no final, soou como uma obrigação contratual. Sabe aquele vilão que precisava estar ali para dar um pontapé inicial ao Sexteto Sinistro e poupar uma origem no próximo longa? Então, é isso. Bobinho e não acrescenta nada – nem vou mencionar a armadura Transformer – mas cumpre o que se propõe.

"Eu grudei minha teia numa nuvem, e daí?"

“Eu grudei minha teia numa nuvem, e daí?”

A forma com que Electro ganha seus poderes também deve ter sido uma piada do diretor, associada à origem do próprio Homem-Aranha. Os “voos” gigantescos do Homem-Aranha pela cidade – em alturas maiores do que ele poderia lançar sua teia – e o fato dele ser mais rápido que a eletricidade (com uso do recurso da câmera lenta) também são exagerados, mas fazem parte do processo e não comprometem o resultado final. Afinal, não vamos ser tão chatos a ponto de querer tudo fisicamente comprovado. Estamos falando de um filme da Marvel, não da DC. O negócio é entrar na magia e se divertir – e o longa diverte, e muito.

Está ouvindo? Estão tocando a nossa música!

Está ouvindo? Estão tocando a nossa música!

Por fim, cabe um elogio também à trilha sonora que já empolga desde o primeiro momento. Trocaram James Horner, o autor da deliciosa trilha do primeiro filme, por Hans Zimmer e, conseguiram melhorar o que já era excelente. O músico também é responsável pela trilha de O Homem de Aço (2013) e dispensa qualquer elogio. Sua música fala por si só e empolga na medida certa – além de ser suficientemente “heroica” para se tornar memorável, algo que falta hoje em dia aos filmes de super-heróis. A única exceção é para o tema do Electro, um sussurro repetitivo e irritante que só serve para nos fazer desejar que o Aranha o derrote logo para acabar com a música infernal.

"Olha lá a participação do Stan Lee!"

“Olha lá a participação do Stan Lee!”

Por se tratar de um filme da Marvel, é óbvio que há uma cena pós-créditos, mas nada que remeta ao próximo filme do Homem-Aranha: trata-se de um trailer de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, que estreia no dia 22 de maio. Um tanto frustrante, mas uma boa estratégia de marketing, não há o que negar. No mais, se você – como eu – é um daqueles que não gostou de O Espetacular Homem-Aranha (2012), este filme vai redimir essa má impressão. Tive no cinema o mesmo efeito que senti ao ler a HQ do Aranha na qual esse filme se inspira – que é o que se espera de um filme baseado em quadrinhos. Se gostou, certamente gostará bem mais desta segunda aventura. Ícone da cultura pop há mais de 50 anos, o Homem-Aranha continua um personagem com carisma suficiente para conquistar fãs de todas as idades e parece que isso está longe de mudar. Que bom!

Cotação: blog cotaçãoaranha

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7 comentários

  1. Eduardo…eu tenho a explicação pra ele ser mais rápido que a eletricidade…ele usava o sentido de aranha instintivamente…como que prevendo onde o elektro ia atirar…mas dane-se…o filme é excelente…muito bom mesmo…pena que cagalizaram o visual do duende(mas o ator em sí é muito bom)…e o visual do rhino também ficou um lixo….mas no geral, deixou o filme anterior comendo poeira…este, foi empolgante…principalmente depois da 1ª meia hora…coloco no mesmo nível do segundo filme da trilogia anterior…vale e muito o ingresso!!!

    • Mesmo usando o sentido de aranha instintivamente, Haroldex, o tempo de reação, até apertar o botão do lançador de teia, a teia sair e atingir o alvo, puxar as pessoas… não daria tempo. (Refiro-me à cena em que o Aranha salvou as pessoas de tocarem no corrimão eletrificado). De qualquer forma, isso não me incomodou, pois faz parte do “pacote”. Leis da física não se aplicam aos super-heróis e ao que eles podem fazer. Se fosse levar tudo a sério, o próprio personagem é inverossímil (uma picada de aranha transferir suas características para um humano?). Concordo contigo: esse filme é muito bom. Nem dá pra comparar com o anterior. Aquilo foi um erro.

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