Crítica: Noé

blog abreTransformar uma história bíblica em filme é uma tarefa complicada. Ou se cria uma história politicamente correta e ao pé da letra, seguindo a tendência de fazer mais do mesmo, ou se segue o próprio caminho, renovando tudo e correndo o risco de ofender a fé alheia. Em ambos os casos, o fiasco é o caminho mais provável. A linha que separa o meio termo é muito tênue e feliz é o diretor que consegue encontrá-la – mesmo porquê todo diretor quer ser conhecido e idolatrado por sua obra.

A previsão do tempo é de chuvas torrenciais em todas as regiões, sem previsão de sol.

A previsão do tempo é de chuvas torrenciais em todas as regiões, sem previsão de sol.

Este talvez seja o grande pecado de Darren Aronofsky, o diretor de Noé (Noah, 2014), filme que estreou neste final de semana e ao qual ele também é responsável pelo roteiro. O autor optou por criar sua própria visão do personagem bíblico e deu-lhe certa profundidade, mas ao mesmo tempo, fugiu da linha narrativa oficial e, sem o conhecimento de causa, recheou a história de momentos fantasiosos por demais que não condizem com o enredo.

O primeiro pet shop da história

O primeiro pet shop da história

Ok, verdade seja dita: a história de Noé, por si só, é fantasiosa. Abrindo parênteses – e não querendo enveredar pelo discurso religioso, que não vem ao caso, mas também não pode ficar de fora, quando o tema é o livro sagrado – a Bíblia nunca teve o objetivo de ser histórica. As narrações ali contidas primam por transmitir ensinamentos que possam servir para o cotidiano e para tornar o ser humano melhor. No caso de Noé, é óbvio que muito do que ali está narrado não deve ser lido ao pé da letra, mas buscando um ensinamento: o de que Deus sempre nos dá oportunidade de recomeçar, não importa em que nível o mal tenha nos atingido.

O diretor Darren Aronofsky

O diretor Darren Aronofsky

Mas voltemos ao filme: em seus minutos iniciais, a trama percorre os cinco capítulos iniciais do livro do Gênesis, onde é narrada a história da criação do mundo, o pecado original de Adão e Eva e o homicídio de Caim e Abel, por meio do qual Caim foi amaldiçoado. De sua geração, a maldade se espalhou pelo mundo. Já do irmão que restou, Set, surgiu uma geração de homens bons e justos, do qual Noé é descendente.  Uma pele de cobra é a herança da geração, passada de pai para filho desde então e, quando o jovem Noé está prestes a receber o legado de Lamec (Marton Csokas), este é assassinado por um grupo de criminosos.

Família que navega unida, se salva do dilúvio unida.

Família que navega unida, se salva do dilúvio unida.

Um salto no tempo e já temos Noé adulto (interpretado por Russel Crowe), casado com Naameh (Jennifer Connelly) e pai de Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll). Em sonho, Noé prevê a destruição da humanidade e, querendo descobrir o que isso significa e o que tem a ver com ele, vai com sua família à montanha de Matusalém (Anthony Hopkins), seu avô, em busca da sabedoria do ermitão. No meio do caminho, tem que passar pelas terras de Caim, onde salva a jovem Ila (Skylar Burke quando criança e Emma Watson quando adolescente) da morte e a adota como filha e também tem contato com os Guardiões, anjos caídos que tentaram ajudar Adão após este ter sido amaldiçoado por Deus e, por isso, foram expulsos do Céu e se tornaram monstros de pedra parecidos com transformers desengonçados.

Tubal-Cain: "Noé, qual a marca do seu shampoo?"

Tubal-Cain: “Noé, qual a marca do seu shampoo?”

Com a ajuda de Matusalém, Noé descobre que a Terra será inundada e o mal será exterminado, salvando-se apenas os puros e inocentes (no caso, os animais – os amantes de bichos aplaudindo neste momento). Cabe a Noé construir uma arca grande o suficiente para abrigar os animais e, com isso, salvá-los do dilúvio que virá. Evidentemente, a missão também inclui defender-se dos ataques do rei Tubal-Cain (Ray Winstone), que odeia Deus por ter sido obrigado a viver com o suor do próprio rosto e expulso do Paraíso.

Anjos caem do céu e viram Transformers de pedra. Que Deus malvado!

Anjos caem do céu e viram Transformers de pedra. Que Deus malvado!

Esta é a história que todos conhecem. Porém, ao fazer uso da licença poética para preencher as lacunas na história não contada pela Bíblia, o diretor exagera, converte milagres em espetáculos hollywoodianos e, o pior de tudo, inverte os papéis, transformando Deus em vilão e os anjos caídos (ou demônios, falando em bom português) em criaturas dóceis cujo único erro foi tentar fazer o bem ao homem. Erros teológicos e incoerências que não condizem com a adaptação à qual ele se propôs a fazer. O que se vê no cinema não é a história de Noé bíblico, mas um outro Noé que também construiu uma arca.

Noé se divide entre a fé e a razão

Noé se divide entre a fé e a razão

No que diz respeito à produção, ela é impecável. Russell Crowe dá profundidade ao personagem e mostra bem o conflito do homem com sua fé e a sua dificuldade em entender os caminhos divinos. No filme, Deus não fala com Noé (ao menos, não da maneira como estamos acostumados a ver). Ao contrário, Deus parece que nem existe e é alheio aos problemas humanos. Isso é positivo no sentido em que foge do tom fantasioso da narração bíblica e bota um pé na realidade, mostrando que a voz de Deus se compreende na vivência, e aos poucos, não por meio de uma voz trovejante que sai de um céu com nuvens abertas.

Não precisa caçar, não. A gente entra sozinho...

Não precisa caçar, não. A gente entra sozinho…

A própria construção da arca demonstra um certo “realismo” ao mostrar que mãos humanas não seriam capazes de fazer uma embarcação naquelas proporções e muito menos capturar tantos animais em dupla para enchê-la. Para isso, uma ajudinha divina se fez necessária. No entanto, faltou ao diretor decidir se queria manter seu pé na realidade ou na fantasia, pois brotar uma floresta de uma única semente é forçar a barra. Talvez por vontade de agradar (ou receio de desagradar) diferentes grupos, a história vira uma salada mista que acaba não mostrando a que veio.

Cadê meu guarda-chuvaaaaaaaaaaaa????

Cadê meu guarda-chuvaaaaaaaaaaaa????

A personalidade de Noé é incoerente: ora é um homem que briga com o filho por este colher uma flor silvestre sem necessidade; ora é neurótico a ponto de tentar matar crianças indefesas. Incompatível com o homem bíblico que foi escolhido para reiniciar a humanidade corrompida pelo mal e pela violência. Seus filhos seguem pelo mesmo caminho, principalmente Cam, cuja maior preocupação é conseguir uma mulher para si.

Algo me diz que a tubulação do esgoto explodiu...

Algo me diz que a tubulação do esgoto explodiu…

A lição mais importante que fica é mesmo de que a vida é um eterno recomeço. O ser humano – e só ele – tem o potencial para começar do zero e reconstruir tudo o que perdeu e a última cena do filme deixa claro essa mensagem de esperança. Noé sempre foi uma história de fé além da razão, mas sem excluir esta última. No cinema, nenhuma das duas conduz a história. Infelizmente, a arca cinematográfica afundou num dilúvio de confusões. Melhor começar de novo.

Cotação: blog cotação Noé

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s