“Saldão” de Gibis – As leituras de final de ano

blog abreNestes últimos dias do ano, quando os trabalhos dão uma pausa breve, todo mundo aproveita para colocar em ordem aquilo que estava atrasado. No nosso caso, o que estava atrasado era nossa pilha de revistas em quadrinhos não lidos – que ainda está imensa, mas já diminuiu bastante. A seguir, três HQs alternativas que foram lançadas este ano e que merecem uma crítica.

Se eu tivesse aprendido história com essa HQ, não teria trauma do assunto hoje.

Se eu tivesse aprendido história com essa HQ, não teria trauma do assunto hoje.

O Fundador em Quadrinhos (Editora Europa)– Eu poderia exaltar esta HQ unicamente por ter sido roteirizada pelo amigo Jota Silvestre, jornalista e editor do site Papo de Quadrinho e colaborador da revista Mundo dos Super-Heróis, mas estaria sendo simplista demais e diminuindo o valor da obra. Este não é o primeiro trabalho de Silvestre como roteirista – ele foi coautor de História do Brasil em Quadrinhos – Independência, também publicada pela Editora Europa – mas é seu primeiro roteiro solo. A história adapta o romance de Aydano Roriz – que também foi publicado pela mesma editora – e narra as aventuras de Tomé de Souza, Caramuru e Garcia D’Ávila na fundação de São Salvador, a primeira capital brasileira, quase 80 anos depois do descobrimento.

Bela arte de JB Fernandes

Bela arte de JB Fernandes

O roteiro ousado desmistifica a imagem heroica desses personagens, apresentada nos livros de História, sem, contudo, tirar-lhes os méritos. A linguagem é bem fiel à época  e expressões como Vossa Mercê (que virou o “você” utilizado hoje) e gentios para designar os índios são comuns ao texto. Além disso, a trama também é recheada de momentos eróticos entre os nobres e as índias, mas sem ser vulgar, deixando claro que certas coisas – leia-se o sexo e o adultério – continuam as mesmas, seja no século 21 ou 16, antes ou depois de Cristo. A licença poética de “inventar” alguns fatos para preencher as lacunas da História não atrapalha em nada a compreensão do que houve naqueles dias, tornando a HQ um importante documento histórico e um excelente material paradidático aos professores de ensino fundamental e médio.

Fruto de entrevistas no universo LGBT, a HQ conta a história de uma transexual.

Fruto de entrevistas no universo LGBT, a HQ conta a história de uma transexual.

Malu – Memórias de uma Trans (RPHQ) – Publicação independente de Cordeiro de Sá, foi editada com o apoio do PIC 2012 (Programa de Incentivo Cultural) da Secretaria Municipal da Cultura da Prefeitura de Ribeirão Preto. O autor realizou uma série de entrevistas com vários envolvidos com o universo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) e, dos depoimentos que captou, criou uma HQ que conta a difícil vida de Malu, que nasceu Antonio Cláudio, mas que descobriu, desde cedo, que tinha algo errado consigo.

Os cenários são fotos reais tiradas pelo autor em Ribeirão Preto (SP) e Sacramento (MG).

Os cenários são fotos reais tiradas pelo autor em Ribeirão Preto (SP) e Sacramento (MG).

De forma sensível, o autor mostra as dificuldades de Malu para se encontrar e para encontrar seu lugar no mundo que a odeia simplesmente por ser diferente. O preconceito, a violência, a promiscuidade e tudo o que gira em torno desse universo são narrados de forma simples e direta, com uma arte caricata e simplista. Vale destacar que os cenários de fundo de cada quadrinho são fotos tiradas pelo autor, de vários pontos da cidade de Ribeirão Preto (SP) e Sacramento (MG), tornando a HQ quase um guia turístico, não fosse a ausência de pontos referenciais. Inovador e criativo. Um jeito lúdico de mostrar que preconceito e discriminação não levam a nada.

Humor sarcástico e dramas cotidianos

Humor sarcástico e dramas cotidianos

Perdido e Mal Pago – Nerds em Apuros (Gal Editora) – Lançado em março deste ano, o álbum em preto e branco de Bob Fingerman conta a história de Rob Hoffman, um desenhista freelancer de uma editora de revistas pornográficas que tem uma vida normal como a de qualquer cidadão, com seus altos e baixos. Para ter mais privacidade com sua namorada Sylvia, decide abandonar o apartamento do amigo Jack, um judeu ranzinza e invejoso, para morar sozinho com ela.

Situações do dia a dia retratadas de forma bem humorada

Situações do dia a dia retratadas de forma bem humorada

Esse evento desencadeia toda a trama do álbum, que é repleto de referências nerds, piadas sobre situações cotidianas, momentos dramáticos e até apimentados, com várias cenas sexuais (tanto que o álbum é proibido para menores). Tudo mostrado dentro de um contexto, sem vulgarizar. Mesmo a atitude politicamente incorreta tomada diante de um grave problema e que pode ser até um tanto polêmica, pode servir para reflexão sobre as consequências físicas e psicológicas de tais atitudes na vida real. Ou seja: não façam isso em casa, mas leiam para aprenderem e ficarem alertas!

A trama é dividida em quatro capítulos, cada um girando sobre uma situação específica. A última parte se passa numa convenção de quadrinhos e poderia ser facilmente descartada sem prejuízos para a história, pois não acrescenta nada ao contexto. No mais, é uma HQ divertida e transgressora que ganha mais valor pelo conteúdo extra: uma capa produzida exclusivamente para a versão brasileira, um glossário das referências encontradas no texto e o belo tratamento gráfico.

As três HQs aqui citadas são recomendadas pelo nosso blox. Para adquiri-las, entre em contato com as editoras clicando nos links acima, entre parênteses. Agradecimentos aos amigos Jota Silvestre, Ricardo Quartim e Maurício Muniz pelas revistas.

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