Crítica: O Cavaleiro Solitário

blog abreEstreia este final de semana nos cinemas do Brasil o longa-metragem O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger, 2013), uma superprodução dos Estúdios Disney – o filme custou US$ 250 milhões – baseado no personagem criado no rádio, nos distantes anos 1930. Nessa época, fazia muito sucesso as aventuras de cowboys justiceiros e com o Cavaleiro Solitário não foi diferente: ele virou série de TV, desenho animado, histórias em quadrinhos e viveu no imaginário de muitas crianças durante décadas.

Os atores Clayton Moore e Jay Silverheels na série de TV de 1949.

Os atores Clayton Moore e Jay Silverheels na série de TV de 1949.

A trama do novo filme conta a história do ranger (uma espécie de policial do Velho Oeste) John Reid sob o ponto de vista de um envelhecido índio Tonto, seu parceiro de aventuras. No ano de 1933, durante uma exposição sobre o Velho Oeste do século anterior, um garoto mascarado (Mason Elston Cook) para diante da estátua de um índio comanche, que começa a conversar com ele e contar a história do cavaleiro mascarado que andou pelo oeste fazendo justiça.

Armie Hammer é John Reid, um homem da lei que acredita na justiça.

Armie Hammer é John Reid, um homem da lei que acredita na justiça.

John Reid (Armie Hammer) é um advogado que acredita piamente no cumprimento da lei e que volta para o Texas depois de muitos anos longe. Coincidentemente, ele está no mesmo trem que escolta um perigoso assassino, Butch Cavendish (William Fichtner) condenado à forca. Junto ao criminoso, também está sendo preso o índio Tonto (Johnny Depp, sempre genial). Por culpa de Reid, Cavendish consegue fugir, colocando toda a cidade em estado de alerta e mobilizando todos os rangers da cidade para caçá-lo, entre eles o irmão de John, Dan Reid (James Badge Dale).

À caça dos criminosos

À caça dos criminosos

Sentindo-se responsável, John é nomeado ranger pelo irmão e acompanha o grupo na caçada ao criminoso. Pegos em uma emboscada, todos são assassinados. Tonto, que consegue fugir da prisão na cidade, encontra os corpos e, ao seu modo indígena, enterra os corpos. No entanto, John Reid desperta e o índio vê nisso um sinal: ele seria o “andarilho espiritual” das lendas indígenas, incapaz de morrer em combate e escolhido pelo cavalo místico como símbolo de justiça do Velho Oeste.

Por que te chamam de "solitário" se você está sempre acompanhado de Tonto, kemosabe?

Por que te chamam de “solitário” se você está sempre acompanhado de Tonto, kemosabe?

Paralelamente, o crescimento das estradas de ferro na região, ao mesmo tempo em que trazia progresso também causava guerra, uma vez que as obras invadiam a terra dos índios comanches. O clima tenso era algo que não preocupava Cole (Tom Wilkinson), o presidente da companhia responsável pela construção das linhas férreas, afinal, nada pode parar o progresso. Cabe ao recém-chegado Cavaleiro Solitário e seu companheiro forçado Tonto capturar o criminoso e evitar a guerra entre americanos e comanches.

As coisas, aparentemente, ficam quentes. Mas só aparentemente.

As coisas, aparentemente, ficam quentes. Mas só aparentemente.

A iniciativa da Disney em resgatar o personagem e apresentá-lo às novas gerações é boa. O problema está na metodologia: o filme usa piadas demais, talvez para adequar a trama pesada a um público infantil. Mas tornar o personagem mais infantil não significa ridicularizá-lo. A Filmation transformou o Cavaleiro Solitário em desenho animado e, nem por isso, as tramas deixaram de ter o tom aventureiro das histórias de cowboy. Além disso, situações absurdas se sucedem, a começar pelo índio velho que conta a história: que diabos faz um índio de verdade se fingindo de estátua numa exposição? Ou seria o índio apenas a imaginação do garoto? Se for, toda a história do Cavaleiro Solitário é uma mentira? A cena do trem que descarrilha e para a centímetros da dupla de heróis é outra dura de engolir.

Eu sou mau, muito mau!

Eu sou mau, muito mau!

A trama é muito boa. A ligação que existe entre a tribo indígena, a história de Tonto, a estrada de ferro e a fuga do vilão é muito bem amarrada e inteligente. A atuação do ator William Fichtner como Cavendish também é excelente. Dá pra sentir um misto de nojo e raiva de suas maldades. E Johnny Depp como Tonto dispensa comentários: ele é um verdadeiro camaleão e capaz de assumir os mais variados papéis, dando-lhes uma personalidade própria. Mas a atuação digna de um Oscar de ator coadjuvante é mesmo a do cavalo Silver. Ele é o personagem mais inteligente e cool do filme.

Como assim, minha música não é minha?

Como assim, minha música não é minha?

Também merece um comentário a trilha sonora: a clássica música-tema do personagem – William Tell Overture, de Rossini, que não é trilha do Cavaleiro Solitário de fato, mas do arqueiro Guilherme Tell) foi mantida pelo diretor Gore Verbinski. Surpreende que o responsável pela trilha seja Hans Zimmer, o mesmo que ficou encarregado de criar um novo tema para o Superman ao invés de adaptar a canção clássica. Diretores diferentes, ideias diferentes. Pena que o filme não seja só trilha sonora.

Índio não quer apito, quer nariz vermelho.

Índio não quer apito, quer nariz vermelho.

O fracasso do filme nos Estados Unidos (na estreia, arrecadou apenas US$ 55 milhões, valor ínfimo, comparado aos US$ 73 milhões de John Carter, outro filme considerado um fiasco comercial) é um indício de que a Disney errou a mão. Uma pena, se considerarmos que houve uma época em que as crianças brincavam de bangue-bangue e fingiam ser o herói mascarado. É verdade que cowboys estão fora de moda nos dias atuais, mas tratar os personagens com mais respeito não faria mal algum. Infelizmente, a imagem que os mais jovens terão desses heróis é que eles não passam de palhaços mascarados. A cara do índio Tonto pintada de branco comprova isso.

"Aiôôôôôô, Silver!! Em frente!!" - até o bordão do herói virou piada.

“Aiôôôôôô, Silver!! Em frente!!” – até o bordão do herói virou piada.

Uma curiosidade: O Cavaleiro Solitário é tio-avô de outro famoso herói mascarado, o Besouro Verde. Ambos foram criados pelos mesmos autores, George W. Trendle e Fran Striker, e surgiram no rádio. E ambos foram parar no cinema com produções engraçadinhas que não fizeram jus ao que eles representam. Só pode ser alguma maldição indígena.

Cotação: blog cotação cavaleiro

 

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2 comentários

  1. Tinha que ser um fracasso de bilheteria pois o roteiro do filme deturpou totalmente a estoria original o telespectador igual a mim que viu os filmes com Clayton Moore ao ler a sinopse do filme o que mais quis foi ficar distante desta película. Eu ainda fui ver o filme para ver o quanto foi rediculo o roteiro do filme.

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