Crítica: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Estreou no último final de semana o filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012), a aguardada conclusão da bat-trilogia iniciada em 2005 com Batman Begins e continuada em 2008, com Batman, o Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight). Dirigido por Christopher Nolan, a trama amarra todas as pontas soltas e fecha com chave de ouro a história do herói que se fantasia de morcego para lutar contra o crime.

A cara de mau não engana. Esse Batman com mamilos é fake!

O diretor tratou o personagem com o respeito que ele merece e deu-lhe uma personalidade semelhante aos quadrinhos, ao contrário de praticamente todas as adaptações anteriores (exceção feita aos dois filmes dirigidos por Tim Burton na década de 90), que foram mais para o lado da comédia e do espetáculo pirotécnico, fugindo completamente da essência do herói.

primeiro pôster oficial já mostra o nível de criatividade.

Não que os filmes de Nolan não tenha pirotecnia, claro. Tem até bastante. Mas tudo está a serviço de um roteiro perfeitamente bem amarrado, que não ofende a inteligência do espectador e nem macula a imagem do Homem-Morcego. Batman é um personagem popular porque é o mais próximo de nós. Guardadas as devidas proporções, qualquer um poderia ser o Batman: ele não não nasceu mutante, nem sofreu algum acidente nuclear que lhe desse poderes especiais, tampouco veio de outro planeta, cuja diferença gravitacional pudesse lhe dar uma força ampliada. É apenas um ser humano comum, com inteligência acima da média e treinamento em vários tipos de luta, que usa sua fortuna para criar aparatos que o ajudem na guerra ao crime.

A saga de um herói em três atos

Nolan sabe disso e, em seus três filmes, criou uma trama na qual, ao final do terceiro longa, percebemos que se trata de uma coisa só. Tudo está ligado e nada do que aconteceu antes foi aleatório – há, inclusive, várias cenas em flashback para explicar o porquê de determinada situação. Enquanto em Batman Begins vimos o nascimento do herói, seu treinamento e sua primeira batalha como vigilante para proteger o legado de seu pai, em O Cavaleiro das Trevas foi mostrado que nem só de boas intenções vive um herói e que, muitas vezes, a tentativa de fazer o que é certo pode conduzir ao caminho totalmente oposto.

Disfarçado de Donald Blake, senhor? Estou falando com o Batman ou com o Thor?

Nessa terceira aventura, o Homem-Morcego está desaparecido há oito anos. Após a morte de Harvey Dent (que havia se tornado o vilão Duas-Caras no filme anterior), foi criada uma lei extremamente rígida contra os criminosos e Gotham vive um período de tranquilidade. Batman assumiu a responsabilidade pelos crimes e pela morte de Dent e passou a ser perseguido como criminoso (daí o seu desaparecimento) e o próprio Bruce Wayne se tornou recluso.

Bane e seus comparsas desmascarando o herói de Gotham.

No entanto, surge na cidade uma nova ameaça: Bane (Tom Hardy), um criminoso extremamente calculista e cruel, que pretende acabar com a Lei Dent e libertar os criminosos da prisão de Blackgate. Ao mesmo tempo, objetos valiosos são roubados pela Mulher-Gato (Anne Hathaway), uma ladra bastante hábil e de comportamento dúbio, que possui a sutileza e a agilidade de um felino em seus golpes. Isso força Bruce Wayne a vestir novamente seu traje negro e voltar às ruas para tentar devolver a paz a Gotham City.

Miau pra você, Michelle.

Muita gente criticou a escolha de Anne Hathaway para o papel de Mulher-Gato, justificando que ela não tem corpo nem sensualidade suficiente para encarnar a personagem e que sua presença seria desnecessária na trama. Pura balela. Anne está perfeita no papel e, não apenas rouba as cenas em que aparece, como é de importância fundamental ao enredo. Difícil imaginar outra forma de conduzir a história sem sua presença.

“Eu lhe darei permissão para ter medo de mim.”

Da mesma forma, Tom Hardy encarnou um Bane que, em alguns momentos, chega a dar medo. Nos quadrinhos, o personagem tem a força ampliada por uma droga chamada Veneno, injetada diretamente em seu cérebro. Na  visão de Nolan, Bane é apenas um cara muito forte e que, assim como Batman, recebeu treinamento de Ra’s Al Ghul para se tornar um membro da Liga das Sombras (lembram-se de Batman Begins?).

Nada de piadinhas. Comigo é na porrada!

No entanto, por ter uma índole perversa e instável, o vilão foi expulso e passou a agir por conta própria. Trata-se de um criminoso à altura para o Batman, pois, além de extremamente forte e possuir o dobro do tamanho, também conhece as mesmas técnicas do herói. Evidentemente, Bane não tem o mesmo apelo do Coringa, mas, como foi dito, o roteiro bem amarrado o colocou num papel de destaque que não deixou nada a desejar ao Palhaço do Crime.

Esse rapaz vai longe. O Comissário Gordon que o diga.

Novos personagens são inseridos na trama, como Blake (Joseph Gordon-Levitt), um jovem policial de bom caráter, que revela ter conhecido o Batman quando era criança e, por isso, não acredita que ele seja um criminoso. A eficiência de Blake junto à força policial de Gotham faz com que, em pouco tempo, ele seja promovido a investigador e tenha um importante papel na luta contra o terrorismo de Bane.

Miranda Tate: peça fundamental para a trama

Já a empresária Miranda Tate (Marion Cotillard) vive perseguindo Bruce Wayne para que ele lhe autorize a utilizar a nova fonte de energia limpa proveniente do reator nuclear que as Indústrias Wayne criaram e que ele esconde a sete chaves. Wayne tem medo que, se esse reator cair em mãos erradas, possa ser utilizado como uma bomba para destruir Gotham. Até ela conquistar a segurança do bilionário, muita coisa vai acontecer.

“Eu vou quebrar você!”

O filme é repleto de reviravoltas, tem várias referências às diversas mídias do personagem (a clássica cena em que Bane quebra a coluna de Batman é fielmente reproduzida e um jogador de futebol americano com o nome Ward na camisa lembra o ator Burt Ward, que interpretou o Robin na série de TV) e possui um clímax imprevisível. É uma característica dos filmes de Christopher Nolan surpreender o espectador com uma inversão na história: quem lembra da falsa identidade de Ra’s Al Ghul em Batman Begins e da armadilha do Coringa em Cavaleiro das Trevas sabe o que estamos falando. Desta vez não é diferente. O melhor de tudo é saber que as pistas estavam ali, durante todo o filme. Tudo muito bem amarrado e ligado com as aventuras anteriores.

“O Morcego”, o novo brinquedinho do Batman.

Falando nisso, Liam Neeson e Cillian Murphy repetem seus papeis de Ra’s Al Ghul e Espantanho, respectivamente, em rápidas participações. Apenas Heath Ledger não foi mencionado, apesar de sua aparição estar prevista no roteiro. Segundo o próprio diretor, ele preferiu preservar a memória do ator, falecido em 2008. Estas aparições-surpresa são uma homenagem de Nolan aos personagens, no encerramento de seu trabalho com o Homem-Morcego.

“Já dançou com o demônio sob a luz do luar? E com a gata?”

Apesar disso, o filme tem alguns detalhes que incomodam: o primeiro deles é o fato deste longa não poder ser chamado de “um filme do Batman”, já que o herói mal aparece. Nas duas horas e 45 minutos de projeção, os 45 minutos são reservados às aparições do Homem-Morcego, enquanto que as outras duas horas são utilizadas para o desenrolar da trama. Não que isso prejudique o resultado final, mas fica a sensação de que falta Batman no seu próprio filme.

Morcego sobre rodas

Outra coisa que deixa a desejar é a invulnerabilidade do herói. Mesmo sem superpoderes, o Batman é praticamente um Wolverine, tal o seu poder de cura. O filme mostra Bruce Wayne debilitado de suas lutas anteriores e, por conta disso, ele toma uma surra em seu primeiro confronto com Bane (isso não é um spoiler, uma vez que todo filme mostra o herói primeiro sendo derrotado pra depois dar a volta por cima). Com a coluna fraturada, vértebras expostas, em poucos dias, o herói se recupera e parte para outro confronto corpo a corpo, com agilidade tal como se não tivesse nem arranhado a ponta do dedo. Ok, é um filme de super-herói, mas é duro de engolir essa recuperação super-rápida.

“Herói é aquele capaz de por um casaco no ombro de um garotinho sofrendo para devolver a ele a esperança nas pessoas.” (Batman)

Estes detalhes, no entanto, não diminuem o mérito da trilogia. Com o encerramento da saga, Christopher Nolan se despede do personagem. Evidentemente, o Batman voltará aos cinemas em outras adaptações, afinal, trata-se de um personagem com enorme apelo comercial e muito querido pelos fãs. No entanto, quem quer que assuma a tarefa de levar o herói às telas futuramente, jamais conseguirá adaptá-lo tão bem como Nolan fez. Ele provou que um personagem de quadrinhos pode render uma boa história sem cair no ridículo ou abusar de clichês do gênero. Assim como qualquer homem pode ser um herói, mesmo sem ter superpoderes. Para ambos os casos, a receita é a mesma: boa vontade, respeito pelo próximo e amor pelo que faz.

Cotação: 

Anúncios

8 comentários

  1. Durante sua recuperação passam 5 meses, mas ainda assim acho rapido sua recuperação.
    No jogo de futebol americano (não é rugby :D), além do nome do jogador, teria o “R” do Robin, mas foi cortado do filme :/
    Nolan já disse que não volta pra um filme novo, mas se a Warner quiser continuar no embalo, ela teria dois spin offs em mãos, que seriam bem legais

    • Cinco meses? Então eu perdi alguma coisa, porque o vilão rouba o reator e o ativa. Restam “poucos dias” até que ele exploda. Se esses “poucos dias” foram cinco meses, não ficou claro na história.
      Quanto ao esporte, não vou entrar no mérito da questão. Não sei a diferença de uma bola de basquete para uma bola de pingue-pongue. Vou corrigir no texto. Obrigado pelo toque. O R do Robin entendi que foi uma cena exclusiva para o trailer, não que foi cortada. De qualquer forma, valeu a referência. Abração!

      • Se nao me falha a memória, eram 5 meses até o reator explodir, os policiais presos ficam recebendo comida por 3 meses
        Se o “R” fosse incluido ia ficar bem legal, nao que isso seja um defeito ou uma qualidade, mas seria bem legal se aparecesse

        SPOILER

        Na cena do tribunal, que o Espatanlho aparece, imagino que seria muito mais legal com o Coringa como juiz, pena que o Heath Ledger morreu ):

  2. Eduardo, realmente são 5 meses que passam! até falam “mas se fizer isso a bomba irá explodir em pouco tempo” e o Bane responde “5 meses, pelos meus cálculos”.. embora sejam 5 meses que passam também acho que foi pouco, pra uma fratura exposta! rsrs Sem contar que só de fazer barra e flexão ele virou o super batman né! rsrs mas o filme é ótimo! Parabéns pela critica ^^

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s