Crítica: O Espetacular Homem-Aranha

Numa eleição sobre qual é o super-herói mais bacana, a disputa seria bem acirrada, mas uma coisa é certa: o Homem-Aranha estaria entre os primeiros colocados. Criado em 1962 por Stan Lee e Steve Ditko, o personagem conquistou uma legião de fãs e mesmo aqueles que não costumam acompanhar histórias em quadrinhos são capazes de reconhecer o icônico uniforme ou sabem repetir o seu gesto de lançar teias.

Comparações são inevitáveis, mas totalmente sem fundamento.

É exatamente por esbanjar carisma que uma produção cinematográfica com o personagem é tão aguardada pelo público, seja ele fã do personagem ou não. O Espetacular Homem-Aranha chega aos cinemas no dia 6 de julho cercado de expectativas, afinal, a produção tem a responsabilidade de superar (ou igualar) os filmes anteriores, dirigidos por Sam Raimi. Mais do que isso: a nova produção também tem a difícil tarefa de encarar as inevitáveis comparações.

Voltando pra casa, depois de cumprir seu trabalho.

Como responsabilidade e superação de desafios é fichinha para o herói aracnídeo, a missão foi cumprida. Não com todos os méritos, é verdade. O Espetacular Homem-Aranha tem vários defeitos e uma série de buracos no roteiro que deixam a sensação de que esse ainda não é o herói que queremos ver. No entanto, o filme tem seus méritos – e muitos – dentre os quais o de ser uma aventura divertida, ágil e trazer um Homem-Aranha mais descolado e próximo aos quadrinhos clássicos.

Há um mistério envolvendo os pais de Peter Parker

Enquanto Tobey Maguire fez um Peter Parker mais adulto e heroico, com o peso do mundo sobre as costas, Andrew Garfield interpreta um jovem bem mais nerd e divertido, inclusive, fazendo piadinhas enquanto luta, uma das características mais marcantes do herói. A trama também resgata o passado do rapaz, trazendo um mistério envolvendo seus pais (interpretados por Campbell Scott e Embeth Davidtz) mortos em circunstâncias obscuras. Apesar de mesclar elementos do universo tradicional e Ultimate (versão moderna do herói), o peso maior é para este último, provando que esta parece ser mesmo a fonte “definitiva” que os estúdios vão usar como base para as suas adaptações de super-heróis Marvel.

Peter foi deixado ainda bebê com os tios. Peraí… bebê??

A história começa em flashback, com um Peter criança (e bem mais crescido do que deveria, diga-se de passagem) brincando com seu pai até que este encontra seu escritório arrombado e decide viajar e deixar o garoto aos cuidados dos tios Ben e May (Martin Sheen e Sally Field). Anos depois, o rapaz encontra uma pasta de seu pai escondida no porão e, dentro dela, uma série de anotações envolvendo manipulação genética. Peter descobre que o pai estava desenvolvendo um projeto juntamente com o Dr. Curt Connors (Rhys Ifans) e que, após a morte dele, o cientista cortou relações com a família. Porém, Connors nunca parou de trabalhar no projeto e continua realizando pesquisas para a Oscorp, a empresa de Norman Osborn.

Fazendo Flash de bobo.

Assim, o jovem dá um jeito de visitar o local e acaba picado por uma aranha geneticamente alterada. O resto da história é aquela que conhecemos: o rapaz desenvolve poderes aracnídeos, usa isso para humilhar o fortão Flash Thompson, deixa escapar um bandido que mata seu tio e descobre que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Porém, a coisa não é tão fiel às HQs quanto parece. Os roteiristas aboliram a participação do jovem no show de luta livre, o ladrão rouba um supermercado e Peter deixa ele escapar porque ficou com raiva do vendedor, que não lhe vendeu um iogurte por causa de 2 centavos. Bem fútil e adolescente!

Ei, sr. Bandidão, quer ver meu novo passo de balé?

Outra diferença das HQs: Peter sai espancando todos os criminosos que encontra pela cidade sem seu tradicional uniforme, tentando encontrar o assassino de seu tio. Ele só decide usar máscara quando, ameaçado por um bandido que viu seu rosto, cai acidentalmente de um telhado bem cima de um ringue (aí temos a referência) e vê um poster de um dos lutadores com o rosto coberto. E, embora haja menção da palavra “responsabilidade” numa das broncas que Peter leva de seu tio antes dele morrer, o lema do herói não é mencionado.

Gwen de Emma Stone: apaixonante!

Apesar disso, a atriz Emma Stone interpreta uma Gwen Stacy bastante fiel às HQs. Escolher a loirinha como par romântico do herói ao invés da tresloucada Mary Jane Watson foi uma das melhores coisas da trama. Emma e Garfield possuem uma química perfeita em cena – tanto que começaram a namorar na vida real após as filmagens – e a atriz está perfeita no papel. Como nada é 100%, a garota ganhou uma família “tipicamente americana”, com uma mãe e dois irmãos saídos sabe Deus de onde. Além disso, ela não é mais tão ingênua como nos quadrinhos, a ponto de ter um emprego cobiçadíssimo. Reflexo dos tempos modernos!

Profissional dedicado… e nem um pouco amigo do aracnídeo

O Capitão Stacy (Denis Leary) também não lembra o simpático oficial das HQs. Extremamente dedicado à profissão, Stacy é um policial durão que não gosta nem um pouco de saber que há um vigilante mascarado fazendo o serviço da Polícia e passa a persegui-lo. Até ele passar a ser amigo do Homem-Aranha, uma situação tensa e dramática tem que acontecer.

O vilão em duas versões: como Curt Connors e como Lagarto.

O vilão Lagarto também tem seus prós e contras: o ator Rhys Ifans não se parece com Curt Connors dos quadrinhos e, como vilão, não tem o carisma necessário para a trama. Ifans não conseguiu passar a dualidade do personagem, que só é mau quando está em sua forma réptil e vive atormentado por conta dessa personalidade. Pelo contrário, ele gosta de ser o Lagarto e, de um cientista gentil no começo da história, se transforma num homem ambicioso e prepotente que até ouve vozes do além. Está mais pra um Duende Verde com escamas do que o Lagarto que conhecemos. Por outro lado, a versão digital do personagem está muito bem caracterizada e aterrorizante. As cenas de luta são vibrantes e o fato do vilão manter sua inteligência, embora pareça estranho num primeiro momento, garante toda carga dramática necessária à trama.

Você não é nem um pouco fotogênico!

Imperdoável é a ausência de J. Jonah Jameson: o roteiro pode até ter privilegiado o começo da vida heroica de Peter e o editor “escovinha” ter sido deixado para uma sequência, mas não justifica o fato dele nem mesmo ter sido mencionado – embora o jornal Clarim Diário apareça numa cena. Além disso, há algo que ficou mal explicado: se Peter não trabalha no jornal, por que ele levaria sua câmera fotográfica para o esgoto e tiraria fotos do Homem-Aranha lutando com o Lagarto? Para postar no Facebook?

Identidade secreta pra quê?

Outro problema é a identidade secreta do herói, uma preocupação que parece não ser tão relevante hoje em dia como era há 50 anos atrás, já que ele aparece em público sem sua máscara em várias ocasiões. E os tão comentados disparadores de teia também não fazem tanta diferença, no fim das contas. É mais um agrado que o diretor Marc Webb fez para os fãs radicais do que algo que tenha relevância para a história. Irrelevante também foi a versão 3D do filme. Quem pensa que o efeito dará uma sensação real de se balançar pela cidade junto com o aracnídeo, desista. A tridimensionalidade é muito mal utilizada e não acrescenta absolutamente nada.

A cidade está linda, mas o 3D não ajuda em nada.

Por fim, cabe elogiar a maravilhosa trilha sonora de James Horner, que dá todo peso às cenas, sejam elas românticas, de ação, suspense ou dramáticas. Não se poderia esperar menos de um compositor responsável pelas trilhas de Titanic (1997) e Fievel, um Conto Americano (1986). A Nova York retratada no filme também está excelente, com toda movimentação frenética de uma grande metrópole, principalmente nas cenas noturnas. A onipresente participação de Stan Lee está entre as mais divertidas de todos os filmes da Marvel. Arrancou gargalhadas de todos os presentes.

Rumo a Espetacular Homem-Aranha 2 (ou será 5?)

Enfim, O Espetacular Homem-Aranha não é tão espetacular quanto seu título quer passar, mas ao menos conseguiu redimir o herói de sua última experiência cinematográfica e resgatar o Peter Parker criado por Lee e Ditko: solitário, tímido, magricelo, sem jeito com garotas e até meio bobão, mas extremamente carismático, divertido e, sobretudo, humano. E nem precisa dos Vingadores para fazer sucesso. Ah, vale dizer: há cena pós-créditos. Não saia da sala sob pena de perder um gancho que vai deixar muitas especulações pelos fóruns.

Cotação: 

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10 comentários

  1. AÍ X MUITO BOM SUE TEXTO MAIS ESSAS DIFERENÇAS ENTRE HQ/FILMES P/ MIM Ñ CARATERIZAM Q FALHAS DO FILME EM SI, TODO MUNDO FALA DESSAS MESMAS QUESTÕES Q VC FALOU AÍ MAIS VEJAMOS A TRILOGIA BATMAN DE CRIS NOLAN O CARA MUDOU TUDO, E NESSE ULTIMO TDKR ELE VIAJOU GERAL COM AQUELE BANE E THALIA. FORA O UNIFORME Q CADA FILME FICOU MAIS HORRIVEL. COM AQUELE CABEÇÃO E XMEN FIRST CLASS QUE MUITA GENTE ADOROU ENTÃO? NEM VOU COMENTAR. ATÉ O PRECURSOR SUPERMAN DE 1978 MUDOU COMPLETAMENTE O VISUAL DE KRYPTON SEUS HABITANTES INCLUSIVE JOR-EL E LARA E SEUS ASPECTOS TECNOLÓGICOS

    • Olá, Huge. Você tem razão nos seus comentários. A questão é quando as mudanças afetam a essência do personagem. É claro que é impossível transpor dos quadrinhos para as telas todos os detalhes: nos quadrinhos é um desenho, você coloca o que sua imaginação mandar; já no cinema, por mais que a tecnologia seja avançada, nem tudo é possível ser feito. Daí as “adaptações”. Necessárias, sempre, mas que, quando bem feitas, produzem grandes obras-primas que, inclusive, podem ser chamadas de “fiéis”, como é o caso do Superman, a trilogia do Batman e First Class. No caso do Batman, o diretor mudou muita coisa, mas preservou o essencial: aquilo que o Batman é, ou seja, um personagem sombrio, atormentado por sua missão e movido por um senso de justiça tão insano quanto seus inimigos. Já o Espetacular Homem-Aranha, não é um mau filme. Mas tem muitas coisas ruins nele que afastam o personagem daquilo que ele é. É como você querer criar uma laranja no laboratório, mas colocar nela um sabor de abacaxi. A laranja pode ter o formato, a cor, a textura… mas o gostinho não é o mesmo. Abração pra você e visite sempre!

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