A magia de Carros (o primeiro)

Não, você não leu errado. Esta é uma crítica do primeiro Carros, e não de Carros 2, animação da Pixar que estreou no último final de semana. E por que cargas d’água alguém faria uma crítica de um filme de cinco anos atrás quando há um novinho em folha nos cinemas? Simplesmente pelo fato de que este era o único filme da Pixar que ainda não tinha visto (ok, podem me amarrar no tronco e chicotear 45 vezes). Mas o motivo é justificável: nunca gostei de carros. Na infância, raramente brincava com carrinhos e sempre preferi recortar as capas das revistas em quadrinhos e brincar com os super-heróis de papel (mais 45 chicotadas por este assassinato quadrinístico), inventando batalhas entre eles – mas que fique bem entendido que só recortava as capas. O miolo das revistas eu guardava para leituras posteriores e algumas tenho até hoje.

Feriadão: momento do Pit Stop

Mas deixando de lado essas reminiscências infantis e voltando às aventuras de Relâmpago McQueen, Mate e seus amigos… De todos os filmes produzidos pela Pixar, este foi, de fato, o que menos me atraiu. As fotos em divulgação que mostravam os carrinhos “humanizados” não tiveram, pelo menos para mim, o mesmo apelo que Toy Story, Os Incríveis, Vida de Inseto e Procurando Nemo. Tinha o DVD na estante, mas não tinha vontade de vê-lo. Peguei na mão várias vezes, cheguei a colocar no aparelho… mas ao ver o menu animado, com som de motores e os carrinhos correndo um circuito de fórmula qualquer-coisa me desanimavam e decidia deixar a exibição para outro dia.

"Eu bem qui merecia ganhá um Oscar de mió ator coadjuvante"

Ao mesmo tempo, uma culpa indescritível tomava conta de minha consciência: se a Pixar tinha feito obras tão memoráveis que duas delas (Up e Toy Story 3) chegaram até a quebrar o tabu da Academia de indicar uma animação ao Oscar de Melhor Filme (antes, apenas A Bela e a Fera da Disney tinha conseguido essa façanha), por que tanta incerteza de que o desenho seria divertido? Aproveitando o feriado religioso e também toda onda em cima da nova produção da Pixar, e com toda fé em São Lasseter, corrigi uma injustiça. Claro, nenhuma margem para arrependimento. Carros não é o melhor filme da Pixar, evidentemente. Tanto que, no ranking das produções mais lucrativas do estúdio, ele ocupa a sétima posição. Mesmo assim, não deixa de ser encantador, divertido e passar uma mensagem educativa.

Lasseter trouxe experiências pessoais para as telas

É aí mesmo, aliás, que se encontra o mérito do filme. A versão em DVD tem como extra um mini-documentário de sete minutos contando a inspiração de John Lasseter para fazer Carros. Este curto depoimento do diretor nos faz ver o filme de outra maneira e entender a mensagem escondida no roteiro cheio de referências americanizadas, que pouco significam para os povos de outros países. Lasseter conta uma história terna de que se envolveu de tal forma com seu trabalho na Pixar que pouco restava para sua família. Até que um dia recebeu um “puxão de orelha” de sua esposa que disse apoiar e entender o entusiasmo com o trabalho, mas que se ele não desse uma pausa, ia perder o crescimento dos filhos. Lasseter resolveu tirar férias e pegar a estrada com a família, assim como fazia com seu pai, quando era criança. Aqueles momentos de intimidade familiar resgataram memórias de sua própria infância e deram um novo fôlego ao inventivo diretor… Ele se entregou novamente ao trabalho, mas para passar a mensagem da necessidade de “puxar o freio” na correria diária e redescobrir o prazer da convivência.

Radiator Springs é cruzada pela lendária Rota 66

Como o pai de Lasseter trabalhava na Chevrolet e o diretor viveu a infância às voltas com carros, foi daí que veio a inspiração para os personagens. McQueen, o arrogante carrinho de corrida, cujo único pensamento era vencer os campeonatos, é obrigado a ficar numa cidade abandonada no meio do deserto americano e lá encontra a amizade e o amor. Ao mesmo tempo, descobre também que o progresso pode ser bastante cruel ao não levar em consideração a necessidade de contato humano (ou mecânico, no caso dos carros), tudo para “ganhar” 10 minutos de tempo. Na história isso é mostrado através da lendária Rota 66, que cruza vários estados americanos e que, durante um tempo, foi a única estrada a cruzar o país, movimentando a economia de várias cidades cortadas pela rodovia. Com a criação de estradas paralelas, os turistas foram diminuindo e os hospitaleiros comerciantes se viram abandonados: sem sua fonte de renda e sem o caloroso contato humano dos visitantes.

Do interior dos EUA para o mundo

Tudo isso foi percebido por Lasseter e transportado para o primeiro Carros com maestria. Com a estreia de Carros 2 no cinema, já li alguma crítica por aí dizendo que “se trata de uma continuação desnecessária”. Como se trata da Pixar, mesmo o desnecessário – seja ele um carro, um brinquedo velho, uma formiga ou um abajur – se torna indispensável. Portanto, se me dão licença, tenho um compromisso no cinema mais próximo. Na pior das hipóteses, se a animação não for mesmo necessária, certamente o curta-metragem que antecede todas as produções do estúdio valerão o ingresso.

Em tempo: li uma matéria sobre o filme numa publicação especializada em cinema que dizia que, “quando foi lançado, Carros parecia ainda mais ousado do que os bonecos falantes e pensantes de Toy Story e os insetos falantes e pensantes de Vida de Inseto. É preciso um pouco mais de ginástica na imaginação para conceber carros que falam e pensam“. Afora o texto repetitivo, a jornalista certamente nunca deve ter assistido Carangos e Motocas, um clássico desenho dos Estúdios Hanna-Barbera. Uma pena… Certamente, a imaginação dela seria bem mais “sarada”…

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