Nas asas do Capitão Aza

Quem foi criança nos anos 70, com certeza passou as tardes vendo os desenhos animados no programa do Capitão Aza. Na época, não tínhamos loirinhas de shorts curtos e muito menos adolescentes saídos da Malhação para preencher o espaço entre um desenho e outro. Esse papel era feito por Wilson Vianna, ator e policial civil, que fazia mais do que apresentar as atrações: ele era o herói da garotada, responsável por passar noções de alfabetização, leis de trânsito, respeito aos mais velhos (alô, professoras que apanham dos alunos! Naquela época, alguém se preocupava com vocês!) e outros conceitos educativos. O personagem usava um capacete de piloto com um A na frente e um par de asas que, de certa forma, lembra a máscara do Capitão América. O nome Capitão Aza foi uma homenagem a um dos oficiais da FAB – Força Aérea Brasileira – que havia lutado na Segunda Guerra Mundial: o capitão Adalberto Azambuja (daí o fato de Aza ser grafado com z).

Ultraman estreou em terras brasileiras no Clube do Cap. Aza

O programa do Capitão Aza foi apresentado de 1966 até 1979 pela TV Tupi. Era exibido de segunda a sexta e, apesar dos cenários simples e parcos recursos foi líder de audiência no horário das tardes. Parte disso se deve, claro, aos desenhos e seriados que eram apresentados e que marcaram a estreia das produções japonesas no Brasil: Superdínamo, Ultraman, Ultra Seven, O Regresso de Ultraman, Vingadores do Espaço, Robô Gigante e Speed Racer. As séries de marionetes Joe 90, Capitão Escarlate, Thunderbirds e Stingray também tiveram vez na tela do herói brasileiro, bem como os hoje clássicos desenhos “desanimados” da Marvel: Capitão América, Thor, Hulk, Homem de Ferro e Namor.

Wilson Vianna era amigo pessoal de um jovem cantor que despontava. Ele mesmo: o rei Roberto Carlos!

O programa entrava no ar com a seguinte vinheta: “Alô, alô Sumaré! Alô, alô Embratel! Alô, alô Intelsat 4! Alô, alô criançada do meu Brasil! Aqui quem fala é o Capitão Aza, comandante e chefe das forças armadas infantis deste Brasil.” O cenário simulava uma cabine de nave espacial, criando a ilusão que o personagem estava no espaço. A criançada da época vibrava e acreditava mesmo que seu herói cumpria missões espaciais. A fantasia era bem mais estimulada do que nos dias de hoje. Além disso, Wilson Vianna também fazia visitas a escolas, sempre acompanhado de oficiais da polícia e das forças armadas, passando uma mensagem de civismo às crianças, e promovia excursões da criançada para conhecer os estúdios da TV Tupi, onde eram gravados os programas.

Capitão Furacão era o "rival" do Capitão Aza na TV

Conta-se que o Capitão Aza foi uma criação de Alcino Diniz, Paulo Pontes, Maurício Sherman e Vianinha, funcionários que trabalhavam no departamento de criação da TV Tupi e que bolaram o personagem para combater o marinheiro Capitão Furacão, programa que era exibido pela concorrente, Rede Globo. A Globo apresentava os desenhos de Hanna-Barbera e a Tupi resolveu apostar numa novidade, que eram as produções japonesas. Em pouco tempo, o Capitão Aza superou o Capitão Furacão, de modo que o primeiro até hoje é lembrado, enquanto que seu rival (que era interpretado pelo ator e dublador Pietro Mário) caiu no esquecimento.

Sucesso também em quadrinhos

O sucesso do Capitão Aza logo o levou para outra mídia: os quadrinhos. Com roteiro e arte de Ari Moreira, o Capitão Aza foi publicado na revista O Cruzeiro Infantil de 1973 até o cancelamento da revista, em 1975. Quando a Tupi faliu, em 1979, os pagamentos começaram a atrasar, deixando os funcionários bastante desgostosos. Wilson Vianna pediu demissão seis meses antes da última transmissão da emissora. Como despedida, o ator disse que teria que “partir numa missão espacial”. Vianna chegou a participar de mais de 60 filmes, tanto antes da fama (onde contracenou com Oscarito) como depois dela, quando participou de Atrapalhando a Suate (com Dedé Santana, Mussum e Zacarias) e Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, onde contracenou com Xuxa, sua fã declarada. Ela, inclusive, chegou a levá-lo ao Xou da Xuxa, para apresentar o herói de sua época à nova geração de crianças. Vianna também participou de alguns capítulos da novela A Marquesa de Santos, da finada Rede Manchete.

O ídolo da criançada dos anos 70

A imagem de “herói” não fazia apenas parte de seu personagem. Como policial civil, Vianna foi, realmente, um herói, chegando a salvar a vida do ex-presidente Getúlio Vargas de uma pedra atirada em sua direção (bem diferente das bolinhas de papel jogadas nos políticos atuais). Por um ano, viajou do Rio de Janeiro até o México numa kombi, envolvendo-se com diversos perigos como índios peruanos, guerrilheiros colombianos e bandoleiros nas fronteiras. O ator tinha problemas cardíacos e sofreu três infartos. Um deles, afastou-o definitivamente da TV, apesar de seu retorno como Capitão Aza estar praticamente certo pela recém-inaugurada TVS (atual SBT), em 1981. Para evitar o corre-corre das gravações, que poderia prejudicar sua saúde e causar um novo infarto, o programa foi cancelado. O terceiro infarto, porém, foi fatal e o Capitão Aza voou para sua última missão no dia 7 de maio de 2003, deixando esposa e filho. Embora seja um produto dos tempos da ditadura militar, não há como negar que os valores que pregava são universais e fazem tremenda falta no mundo de hoje.

O ator Jonathan Harris, o Sr. Smith de Perdidos no Espaço, também deu o ar da graça no programa.

*Agradecimentos ao amigo Jefferson Duarte, pela sugestão de postagem. Mais detalhes sobre a vida e carreira de Wilson Vianna pode ser lida na biografia “A Vida Trepidante de Wilson Vianna”, de Dora Mendonça (Editora Lidador).

Referências:

A Saga dos Super-Heróis Brasileiros, Roberto Guedes, Ópera Graphica Editora;
Revista TV Séries, ed. 27 (jan/fev 2000);
Catálogo de Heróis Brasileiros – Vol. 1, Bartolomeu Martins, HQ Quadrinhos;
Retrô TV.

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7 comentários

  1. Caramba… isso que é responder uma cartinha de um fã. Tive uma emoção em ler esta matéria, uma por lembrar de momentos muito bons da infância e outra por ter meu pedido atendido. Muito bacana só não gostei da parte do Roberto Carlos e daquela sua prima a X… UM abraço e esta tá guardanda no coração.
    Jefferson Duarte

  2. Tio.
    Meu tio Sergio Menino diz que nessa época assitia Proibido para Maiores na Band e Pé com pano, Pé sem Pano na Excelsior e por isso não se lembra direito do Aza na televisão.
    Ele se lembra do Cruzeiro Infantil que a HQ era sem graça e pro senhor não ficar falando dessa revista porque ela acabou antes do senhor ter idade para aprender a ler.
    rsrsrsrsrs

  3. Conheci de perto e convivi com ele lá em Penedo e em Resende nos anos 79 e 81. Sou advogado em Campos dos Goytacazes RJ me chamo Heroíto e terei prazer em contar como foram esses anos inesquecíveis de minha vida. A OAB tem meus contatos. Obrigado, bons tempos… .

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