Besouro Verde vira chapolin no cinema

Besouro Verde estreou no último final de semana e, logo de cara, já desbancou o oscarizado Cisne Negro da lista dos mais assistidos e superou 127 Horas, também indicado ao prêmio máximo do cinema. Surpreendente que um filme de super-heróis supere duas produções concorrentes ao Oscar, ainda mais dois que têm recebido inúmeras críticas positivas da mídia especializada, mas isso mostra a força que esse tipo de filme tem encontrado ultimamente. O mundo precisa de heróis e ver os bandidos se dando mal, ao menos na ficção, é um desejo coletivo.

Do rádio para as HQs

O Besouro Verde é um herói que surgiu no rádio, nos distantes anos 30. Depois migrou para os quadrinhos até chegar à consagração definitiva, com uma série de TV nos anos 60, produzida por Willian Dozier, também responsável pela clássica série de Batman e Robin. Mesmo sem ter a mesma popularidade do Homem-Morcego e ter durado apenas uma temporada (26 episódios), a série do Besouro Verde tornou o herói mais conhecido do público e teve o mérito de apresentar ao mundo o astro das artes marciais Bruce Lee, no papel do assistente do herói, o motorista Kato.

"Ô Kato, traz o meu cafezinho..."

Transposto para o cinema, o Besouro Verde virou uma comédia de ação voltada, exclusivamente, para o público teen. Não é à toa que o escolhido para interpretar o herói é o ator queridinho de Hollywood para comédias-adolescentes-com-sexo-e-bebedeira, Seth Rogen. O resultado é um herói que leva a vida com muito – adivinhem! – sexo e bebedeira. ¬¬

Vou acertar aqueles dois besouros ali na parede

De herói, esse Besouro tem pouco. O personagem é Britt Reid, filho playboy do editor incorruptível do jornal Sentinela Diária. Enquanto o pai se esforça para tentar transmitir um pouco de responsabilidade ao filho, ele simplesmente prefere curtir a vida de forma inconsequente. Nem após a morte do pai, quando é obrigado a assumir os negócios no jornal, Britt toma jeito. Só mesmo quando conhece Kato (Jay Chou, excelente no papel) é que Britt decide ser herói, não para ajudar os necessitados, como todo bom herói deve fazer, mas pela adrenalina que isso provoca.

Três contra um é desvantagem... para os bandidos.

Claro que a falta de treinamento adequado o transforma num verdadeiro trapalhão, obrigando Kato a salvar sua pele todas as vezes. A situação se complica quando o Besouro se envolve com o crime organizado representado pelo mafioso Chudnofsky (Christoph Waltz) e se torna o alvo número 1 dos vilões. Sobram explosões, pancadaria e trapalhadas. Falta, porém, uma referência que ligue o personagem à sua origem nos shows radiofônicos, nos quadrinhos ou na série de TV.

Minha vez de acertar o besouro da parede.

Talvez a ideia seja exatamente desvincular o Besouro Verde 2011 de sua origem e apresentar um personagem modernizado para o público de hoje (o roteiro foi escrito pelo próprio Rogen, diga-se de passagem). Até um endereço eletrônico o herói tem, para manter contato com os criminosos (!) via email. Mas se fosse esse o caso, o ideal seria criar um outro personagem. Quem conhece o antigo Besouro, certamente ficou frustrado em ver um herói ridicularizado na tela, com pouco de herói e muito de Chapolin Colorado – que, coincidentemente, também é um besouro.

Verde está na moda. Até nos faróis.

O filme até tem várias referências às suas fontes, certamente para agradar os fãs mais antigos: em sua primeira aparição, o Besouro usa um lenço verde cobrindo todo o rosto e Kato usa um óculos de piloto, como na sua primeira aparição nos gibis; os faróis do carro Beleza Negra reproduzem o fundo psicodélico da abertura da série de TV e o próprio tema de abertura não é esquecido. Há também uma homenagem a Bruce Lee feita por Kato. A grande questão é conseguir agradar esse público, exigente por natureza e pouco aberto a mudanças na personalidade dos heróis que conheceram quando crianças. Mexer com a memória afetiva dos mais velhos é um perigo!

Jay Chou não precisa de armas para roubar a cena

Mesmo assim, o filme é divertido e tem bons momentos. Como ator de comédia, Rogen funciona bem. A interação com Jay Chou também é muito boa e as cenas em que os dois aparecem juntos garantem boas risadas. Na verdade, Chou é o astro. Ele é o Besouro Verde, não Rogen. Mas assume seu papel secundário com resignação oriental e deixa seu parceiro brilhar. Guardadas as devidas proporções, talvez Kato revele Chou da mesma forma que revelou Bruce Lee. O tempo dirá.

Não contavam com nossa astúcia!

O filme abusa da violência em certos momentos, mas seria querer demais que um herói moderno apelasse para métodos pacíficos no combate a criminosos equipados com armas atômicas. Os tempos são outros e exigem novos métodos. No entanto, uma coisa não deve mudar nunca: o senso de justiça e de honestidade do herói em contraposição à maldade dos vilões. Ainda é preciso transmitir valores ao público, seja na TV, cinema ou quadrinhos. E os super-heróis são um bom caminho pra isso.

Encarar um herói que age da mesma forma – ou pior – que os vilões que ele combate é distorcer o sentido da palavra “heroismo”. Nem vou citar a vergonhosa briga que Reid tem com Kato, com requintes de crueldade e abusando da pancadaria… O Besouro Verde ainda tem um longo caminho pela frente. Talvez ele deva ter umas aulas com o Batman.

Primeira aula: como ser uma dupla dinâmica.

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