Sucesso no topo… das montanhas suíças

No início dos anos 80, uma animação japonesa estreou na recém-inaugurada TVS (atual SBT) e entrou para a história, não apenas da emissora, mas da vida de muita gente que, como eu, teve sua infância marcada para sempre pelo desenho. Estou falando de Heidi, uma “novelinha” com 52 episódios (embora, naqueles tempos de infância, pareçam ter sido muito mais. O tempo era algo que não tinha muita importância naquela idade) baseado na obra da autora suíça Johanna Spyri, que contava a história da menina que ia viver com o avô nos Alpes Suíços.

Heidi e seu avô

Com fama de velho rabugento e antissocial, o velho morava sozinho na montanha e, um belo dia, recebeu a visita da sobrinha Odete, trazendo a tiracolo a pequena Heidi, órfã de sua irmã, para o avô cuidar, enquanto ela se mudava para a cidade grande em busca de emprego. O avô não gostou da ideia de receber o pequeno “encargo”, pois não tinha experiência em cuidar de crianças além de não ter mais idade pra isso, mas a tia abandonou Heidi lá e foi embora.

Total liberdade com Névoa, o São Bernardo de estimação

Aos poucos, a fama de velho ranzinza se desfaz quando, com a convivência, Heidi percebe que o avô é amável e gentil. A chegada da criança também muda o coração do velho, que passa a ser mais sociável e solidário. A história explora a inocência e a pureza da menina diante das coisas. Um simples banquinho de madeira feito pelo avô para que ela alcançasse a mesa é motivo para festa. Heidi também conhece Pedro, o pastor de ovelhas, que diariamente ia pegar as ovelhas do avô e levá-las para o pasto. A menina passou a acompanhar o garoto e os dois se tornaram grandes amigos. Assim, o que começou como um peso, tanto para a menina quanto para o avô, se tornou a realização da vida de ambos.

Heidi, Clara e Pedro: amigos quase irmãos

Mas tudo isso acabou quando tia Odete voltou para buscar Heidi e levá-la para Frankfurt, numa casa em que trabalhava, a fim de que a menina fizesse companhia para uma garota rica e paraplégica. A dor da separação fez o velho avô voltar a ser ranzinza novamente e a menina tornou-se depressiva e triste, tanto pela falta das coisas que vivia em seu cotidiano como pela ausência do amado avô. Para piorar, ainda era constantemente judiada pela governanta da casa, a Srta. Rottenmeyer, que exigia da pobre garota um comportamento de uma dama, esquecendo-se que ela estava acostumada à liberdade da vida nas montanhas. A governanta implicou até com seu nome e passou a chamá-la de Adelaide, seu nome de batismo. Por coincidência, esse era o nome da minha professora de Português, de quem eu gostava muito.

Heidi fez grande amizade com Clara, a menina paraplégica, e se tornou quase como uma irmã para ela. Mas a vida na cidade grande se tornou um sofrimento para a jovem,  que reprimia os sentimentos para não entristecer “Clarita”, mas quando estava sozinha, chorava e sofria muito. Não tardou e Heidi adoeceu e o pai de Clara, que era médico, deu o único diagnóstico possível: devolver Heidi para seu verdadeiro lar. A menina nunca perdeu contato com Clarita, pois ambas se correspondiam constantemente. Por causa disso, o pai de Clara achou que seria bom para a saúde da filha enviá-la para passar uns dias nas montanhas com a amiga.

O ar puro das montanhas, a pureza do leite ordenhado na hora e a companhia de Heidi fizeram um verdadeiro milagre: o trauma que fez Clara perder os movimentos foi curado e a menina voltou a andar. A animação mesclava esses momentos de humor, drama, ternura com as belas paisagens suíças e personagens cativantes. Era impossível não se envolver e não se apaixonar pela história. Quem acompanhou o desenho sabe do que estou falando.

Obras que deram origem ao desenho

Algum tempo depois, descobri que o desenho foi baseado num clássico da literatura e tratei logo de adquirir o livro. Lançado pela Ediouro, o livro Heidi terminava quando a menina voltava para as montanhas e recebia uma carta dizendo que Clara ia visitá-la. A continuação da história estava em outro livro Outra Vez Heidi, que ganhei de presente de aniversário três anos depois de ter comprado o primeiro. Nem é preciso dizer que li e reli as obras incontáveis vezes. Anos depois, ganhei da mesma pessoa que me deu o segundo livro, uma outra versão da obra lançada pela Abril Cultural na década de 70, com a história completa. Os três livros fazem parte da minha biblioteca.

 

História desconhecida quando foi lançada pela Abril Cultural

A história continua em carne e osso

A animação nunca mais foi exibida – parece-me que chegou a ser reprisada mais uma vez, mas depois desta reprise, desapareceu para sempre – mas Heidi ainda voltou ao SBT em forma de longametragem com atores reais, cerca de 10 anos depois da animação. O filme As novas aventuras de Heidi é um filme de 1978 e mostra o avô com uma doença degenerativa que o deixa cego e o drama da menina em sentir que vai perder aquele que mais ama na vida e sua busca para curá-lo.

Trilha sonora oficial: raridade pura

Em 1991, enquanto realizava um trabalho de rua, uma surpresa. Ao entrar em uma loja de discos para olhar as novidades, eis que me deparo com um LP (sigla para long play, os discos de vinil que antecederam o CD) com a trilha sonora oficial da animação, que eu nem sabia que existia. Não comprei no dia, mas arrependi-me amargamente. Dias depois, voltei à mesma loja na esperança de encontrá-lo ainda e, para minha felicidade, o disco ainda estava lá. Além das músicas da série (Vovozinho, Diga-me; Canção de Ninar; Copo de Neve e Eu; Pedro e Eu; Hora de Dormir e Olha Lá) as outras faixas narravam a história do desenho. Queria postar aqui o clássico tema de abertura, mas a voz aguda da intérprete tornou impossível a transcrição literal da música. Lamento…

Em DVD, imitação fraquinha. Original, só em Portugal.

Finalmente, com a era do DVD, adquiri também um disco com o desenho feito pela produtora Good Times, no qual Heidi é chamada de “Raid” (pronúncia que lembra um nome de inseticida) e sem a magia do original. Impossível contar, em 50 minutos, uma história tão rica e cheia de detalhes. De qualquer forma, é a única que existe, já que a animação japonesa não existe em DVD, pelo menos, não na versão brasileira. Há sim, uma versão lançada em Portugal, dublada com o português de lá, que circula pela Internet. Apesar do sotaque soar estranho, pode ser a única forma de (re) ver um desenho tão encantador, que marcou uma geração e despertou, não apenas em mim, mas em muitos outros, o interesse pela literatura e pelo conhecimento da cultura de países europeus.

Heidi em quadrinhos. Suíços.

Uma curiosidade: Na Suíça foi lançado, na mesma época do desenho, uma revista em quadrinhos baseada na animação. Em Portugal, além da coleção de DVDs, há uma série de outros produtos baseados na pequena órfã, incluindo um álbum de figurinhas. E no Japão, país original da animação, até hoje ainda são vendidos produtos com a imagem dos personagens estampados. Há, inclusive, pré-venda de calendários 2011. Sucesso total!

Calendário de 2011 por apenas 580 ienes (R$ 12).

 

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35 comentários

  1. Cara, espetacular esta matéria. Mas, me diz uma coisa: a qualidade da foto da capa do lp q vc postou é a qualidade da capa física do lp q vc tem ou fez alguma limpeza no photoshop? Quanto à digitalização, há estúdios/locadoras que fazem este trabalho e não cobram caro não. Acho que 10 ou 15 reais no máximo!

    • Oi, Rummenigge. Em primeiro lugar, obrigado pelo elogio. Fico feliz de saber que gostou do texto. Com relação à capa do disco, ela é a original escaneada, mas fiz uma pequena limpeza no photoshop apenas na área azul, para eliminar manchas do tempo, amassados etc. A parte acima dos passarinhos também teve uma limpeza, porque tinha a marca arredondada do LP. O disco não possui encarte e também não consta o nome da cantora, mas informa que as canções são de autoria de Eriko Kishida e Takeo Watanabe, com versões em português de Marcelo Duran. A tradução e adaptação da história é de Jonice Mahana. Não fiz a digitalização ainda em parte por comodismo e também por um pouco de receio de encontrar alguém que não tome o devido cuidado e acabe estragando essa raridade. Quando encontrar alguém confiável, certamente, vou digitalizar. Grande abraço!

  2. ^^ Brigadão pela resposta! Parabéns mais uma vez por resgatar de forma tão completa e gostosa este grande clássico. Apesar de não ter assitido me apaixonei pela sinopse (e pelo traço) deste anime ^^ Vc lembra do anime Marco? Poderia render uma matéria maravilhosa tmb!

  3. Oi, rapaz, olha eu aqui de novo. Vim tirar outras dúvidas contigo (se possível). Veja só: das 6 músicas cantadas que vc comentou haver no lp da Heidi, 1 é de abertura e as outras 5 são de inserção (usadas dentro dos episódios), é isso? Não havia encerramento para este anime? Grande 2012 pra vc!

    • Olá, Alvinho! É exatamente como você falou: uma música é de abertura (Vovozinho, diga-me), as outras são cantadas no meio da série: Canção de Ninar, Copo de Neve e Eu, Pedro e Eu, Hora de Dormir e Olha lá (que, se não me engano, era o encerramento da série aqui no Brasil). A letra era assim: “Olha o sol / quando nasce / faz brilhar toda montanha / A cabana ilumina e eu / com minhas cabritas correrei”. Como curiosidade, vale dizer que, dependendo do país em que a série foi exibida, a música da abertura mudava. A abertura original japonesa era com “Vovozinho, Diga-me”, mas na maior parte dos países, a música era outra, conforme pode ser vista no link abaixo:

      Esta canção era também o encerramento da série nesses países. Não se por qual motivo, essa música não tem uma versão brasileira. Abração pra você e um feliz 2012!

  4. Eu canto copo de neve. Pedro e eu e hora de dormir para meu filho quase todas as noites. Eu acabo sempre chorando. Foi uma das melhores epocas da minha vida. Vc esta de parabens. Pena vc nao ter postados as musicas. Sinto saudades daquelas melodias. Se acaso vc decidir postar. Nao demora. O tempo passar rapido demais…

  5. Nossa… chorei aqui lendo este artigo e o outro sobre o Marco. É uma pena que algumas coisas do final do século passado perderam-se tão facilmente… Será que nunca vamos resgatar para poder rever estes desenhos da forma como foram veiculados? Eu estava pensando em adquirir o DVD de Portugal mesmo, mas não sei se ele irá conter todos os episódios. Se vc ou alguém puder me tirar esta dúvida. Obrigado e parabéns pelo excelente texto, fotos e demais materiais.

  6. Gente, alguém lembra da letra da “Canção de Ninar”?

    Eu tenho o LP, que aliás era do tipo pequeno, mas tb não tenho aparelho para digitalizar e acabei perdendo o LP na bagunça aqui de casa…

    Queria achar as letras na íntegra, mas não acho em lugar nenhum na internet…

  7. Ola, estava vendo o original jpn com legendas em ing, e achei esse blog!!! Para quem pediu a letra da cancao de ninar, canto para meu filho todos os dias, pois ouvi o LP ate furar:
    Dorme, dorme em paz, anjo, dorme em paz
    Sonhe com cada flor, ja e primavera
    Sonhe com um gaviao, com blanquita
    Com a noite azul…
    Sonhara tambem com Diana, dorme feliz!
    Dorme Heidi… Dorme Heidi…
    Tambem tentei achar as musicas na net, mas nada… se alguem achar, me avise! bjs

  8. Estava pesquisando no Google pra ver se tinha alguém vendendo o disco original da série Heidi em português e achei seu blog. Esse desenho fez parte da minha infância. Tive o lp ,mas se perdeu. Canto pela metade porque infelizmente minha memória não ajuda, para minha filhinha. Queria muito que ela crescesse e tivesse lembrança dessa parte da minha infância. Vc já conseguiu digitalizar o lp? Eu pago pra vc. Queria muitoooooo essa gravação. Me ajuda, e muito importante pra mim. Valeu e obrigada

  9. Descobri Heidi pela versão 3D da Disney, e logo me encantei pela história. Logo depois não podia mais esperar o episódio seguinte e via pela versão de Portugal mesmo. Depois de ver todos os 39 episódios da série(que, infelizmente, na versão 3D existem apenas estes), fiquei bastante deprimida por o encanto ter acabado. Foi então que descobri a série original, a qual agora estou assistindo. É tão encantadora! Já encomendei meu livro pela Saraiva, e estou ansiosa!
    Meus pais e amigos dizem que eu devia parar de assistir isso, pois não sou mais “criança”(uma ova, tenho apenas 12 anos), todavia não ligo, se as crianças de hoje soubessem quão brilhante Heidi é, seriam mais felizes.

    • Ananda, não ligue pra “galera”. O importante é fazer o que a gente gosta, desde que não esteja prejudicando ninguém. As lições de vida contidas na história da Heidi servem até hoje como exemplo de respeito aos mais velhos, amizade, superação, não pré-julgar as pessoas (afinal, todo mundo falava mal do “velho da montanha” e, ao conhecê-lo bem, vemos que ele não era ranzinza e sim dócil e bondoso), paciência e, principalmente, simplicidade. Mostre a seus pais esses valores presentes na história e tenho certeza que vão mudar de ideia. Um abraço pra você.

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