Falta carisma ao novo Karate Kid

A nova versão de Karate Kid estreou na última sexta envolto em críticas negativas e pouca expectativa em torno do remake da clássica cinessérie dos anos 80, estrelada por Ralph Macchio e Noriyuki “Pat” Morita. Muita gente considerava desnecessário fazer a refilmagem e outros achavam um verdadeiro sacrilégio dar uma nova versão a um filme que conquistou tantos fãs.

Precisa comer mais feijão, Xiao Dre (Xiao = pequeno)

Há um tom de verdade nessa expectativa, mas também um pouco de exagero. Primeiro, porque toda releitura é um pouco sacrílega, se levarmos em consideração a aura de saudosismo que gira em torno da obra original, perfeita em sua concepção porque foi a primeira e porque causou um impacto inesquecível no coração das pessoas. É como se alguém quisesse, por exemplo, pintar outra Mona Lisa. Não dá pra superar a original, mas daí a dizer que a nova obra é ruim antes de vê-la pronta vai uma longa distância.

Balé é o #@%@@#!

Por outro lado, a expectativa das pessoas não era totalmente infundada. Falta ao novo filme um toque especial que o primeiro despertava logo nos primeiros minutos. Eu definiria esse “toque” como carisma. Jaden Smith não convence como Dre, o garoto frágil que é atacado pelos garotos maiores num país estranho. Ao ler nos créditos que Will Smith é o produtor do filme, dá pra entender porque o garoto está no papel.

Super gêmeos, ativar!

Jackie Chan também é apagado. Não tem a mesma aura de simpatia que tinha o saudoso Pat Morita. A amizade entre o velho Sr. Han e o menino também não consegue despertar empatia no público. Parece algo forçado, sem tempero. O que funciona bem no remake é a amizade de Dre com Meying (Wenwen Han), a linda chinesa que é fã de Bach e tem dificuldades em aprender que em música, as pausas também se tocam. O garoto Cheng (Zhenwei Wang) também consegue ser bem mais cruel e violento que Johnny Lawrence (William Zabka), apesar de ser mais jovem.

Não basta ser mãe, tem que torcer!

A participação da mãe de Dre, Sarah (Taraji P. Henson), também ganhou um destaque maior do que na primeira versão e ela é o toque humorístico da trama. O karate foi substituido pelo kung fu (uma incoerência que só se manteve para que o filme não perdesse a ligação com o original e, evidentemente, já tivesse metade de seu marketing garantido) e as aulas se resumem a um único exercício. Difícil engolir que com apenas um tirar e vestir de jaqueta se possa aprender todos os golpes da luta marcial. Karatê, pelo visto, é bem mais complicado, pois exigiu que se lavasse e encerasse o carro, lixasse o chão, pintasse a cerca e as paredes para que todos os golpes fossem assimilados.

Eu sou mau mesmo. Vai encarar?

As referências à série original são, basicamente, para mostrar que o novo filme é independente de seu antecessor e não cabe qualquer tipo de comparação. É como se o diretor Harald Zwart dissesse: “Ei, se trata de uma obra nova, então esqueça o que foi feito antes!”. A cena da mosca mostra bem essa “quebra” com o passado. Só esqueceram de avisar que as comparações são inevitáveis nesse caso.

Técnica da Garça? Não, essa é outra...

Apesar desses defeitos, Karate Kid é um filme que ainda funciona muito bem. A lição de vida que a história transmite é eterna, intocável e está lá, para quem quiser assimilar e colocar em prática. O filme tem seus momentos de humor, drama, ação e até romance – um tanto precoce, é verdade – entre Dre e Meying. Há também muito mais violência nas cenas de bullying (nos anos 80, esse termo mal passava pelas nossas cabeças), mostrando que os tempos são outros e a crueldade também aumentou.

No filme, final feliz. Na vida real, um mal que precisa acabar.

Karate Kid deveria ser passado em todas as escolas e utilizado pelos professores para discussão sobre respeito, honra, educação familiar, amizade, disciplina. São conceitos que nunca morrem e que estão sendo cada vez mais esquecidos. O mundo está cheio de maus “mestres” que espalham conceitos distorcidos, baseado em sua própria visão errada dos fatos e criam pequenos “monstrinhos” sem misericórdia, sem dor, sem perdão. Infelizmente, na história da vida, nem sempre há um final feliz.

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4 comentários

  1. Oieeee de volta á vida…
    Recebi seu recado, mas trabalhei o fim de semana inteiro, só o pó da rabiola. Até porque iria ver o Karatê Kid por sua causa, pois não me deu nenhuma vontade de ver, quando ví o trailler já tinha percebido a grande “cagada” que ia ser.
    Mas como você é um ótimo crítico de TV e CInema, faço minhas as suas críticas

  2. O saudosismo impede que vejamos e façamos comentários justos.Queremos e lutamos para que o produzido na nossa infância seja o melhor, seja insubstituivel. Não percebemos e não conseguimos conviver com o novo, pois na verdade, por maior esforço que façamos para nos comportarmos como a geração dos nossos filhos, netos, etc., ainda há dentro de nós um passado que reclama e impõe sua autoridade em vários aspectos da nossa vida. Quanto ao novo “Karatê Kid” , a equipe responsável pelo filme está de parabéns e que o próximo seja tão bom quanto, ou melhor, do que o Kung fu Kid, ou seja, o novo “Karatê Kid”. Viver chorando o passado é relutar em não querer viver e enxergar o presente

    • Inaldo, obrigado pelo seu comentário e pela sua opinião. Mas veja que, em nenhum momento, eu disse que o filme é ruim. Apenas disse que falta carisma aos personagens, algo que se percebia logo nos primeiros minutos do filme original. A química entre o Sr. Miyagi e Daniel nem chega aos pés do Sr. Ham e Dre. Talvez pelo fato de Jackie Chan funcionar melhor como personagem humorístico e Jaden Smith ser mais novo – e, portanto, ainda inexperiente – frente a Ralph Macchio. Considero as releituras (quando bem feitas) algo válido e sempre uma boa oportunidade de renovar – como você mesmo disse. Quem ganha é sempre o espectador, que pode ver novamente grandes clássicos do cinema ou ver pela primeira vez e poder vibrar tanto quanto a geração anterior vibrou com a primeira versão. Abração!

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