Era das trevas

Estreou domingo, como um quadro dentro do programa da Eliana, o novo reality show do SBT: Romance no Escuro. Trata-se de uma casa onde três homens e três mulheres passam alguns dias sem contato com os participantes do sexo oposto a não ser dentro de um quarto totalmente escuro. Somente as câmeras especiais enxergam o que acontece no quarto, mas os participantes não enxergam um palmo à frente do nariz. Como não podem contar com a visão, eles tentam encontrar similaridades entre si usando outros sentidos na esperança de engatar um romance. A ideia é atiçar a fantasia dos participantes, que idealizam o (a) parceiro (a) de acordo com suas percepções e questionar até que ponto a aparência é realmente importante.

O primeiro programa trouxe três quarentões bem apessoados (Dino, 48 anos, publicitário e jornalista; Lafayete, 43, professor de Educação Física e Clóvis, 44, advogado) à procura de uma parceira e, após o primeiro contato em grupo, surgiram as afinidades. Dino se envolveu com Magda, 40 anos, artista plástica; Lafayete gostou de Lina, 34, jornalista e Clóvis ficou com a mais jovem, Ana Paula (29), assistente acadêmica. O formato do programa é bem interessante… mas o jogo só provou o nível de futilidade e imediatismo que permeia os relacionamentos atuais. Até porque relacionamento não é propriamente um “jogo”, mas algo que se constrói aos poucos.

Time masculino

O grande problema é que os casais não pareciam estar tão interessados em construir nada, mas em pular etapas e ir logo aos finalmente. O mais saidinho, Lafayete, aproveitou o escuro para apalpar a pretendente nas partes traseiras, fingindo que estava ajudando-a a encontrar o caminho para sair da sala. Também preparou um jantar “romântico” a la Dama e o Vagabundo, usando o macarrão como um pretexto para beijar Lina. O resultado, porém, foi desastroso.

Dino, o publicitário, foi o que mais transmitiu sinceridade. Já provou seu romantismo logo no primeiro encontro à sós, ao lembrar de fazer um agrado à parceira levando uma bebida. Magda, por sua vez, entregou-lhe uma flor. Nos encontros seguintes, procurou criar um clima adequado para as coisas acontecerem normalmente. Clóvis, por sua vez, foi tranquilo. Nem muita pressa, nem calmo demais. Com isso, foi conquistando o coração de Ana Paula.

Mulheres à beira de um ataque de nervos

Do lado das mulheres, as conversas eram mais fantasiosas, talvez pela própria personalidade feminina, mais idealista e sonhadora. Magda foi a mais imatura: apaixonou-se logo de cara e ficou nas nuvens, mas demonstrou ser possessiva e ciumenta, querendo determinar que era a dona dos finais de semana de Dino e não escondendo sua frustração quando este afirmou que tinha um trabalho no sábado. Já Lina imaginou que, por ser professor de Educação Física, Lafayete seria um deus grego com o corpo perfeito. Não conseguiu esconder seu olhar de decepção quando, finalmente, conseguiu vê-lo às claras. Sim, porque o jogo começa e termina no mesmo dia – um ponto positivo, pois evita de que fiquemos semanas aturando um lenga-lenga infinito.

Ao final, o casal é colocado frente à frente e, numa encenação meio “conto de fadas”, cada um recebe um facho de luz sobre si, como se fossem seres encantados, rodeados de luz. Em seguida, os interessados em prosseguir o namoro se encontram na varanda da casa, caso contrário, iam embora sem olhar para trás. Magda foi a primeira a sair e deixar um desiludido Dino olhando-a de cima da sacada: para ela, o homem que ela havia idealizado não era aquele que tinha visto, por mais romântico e carinhoso que tivesse sido. Ela queria, talvez, um Clark Gable.

Como todo reality show, a casa é top em conforto.

O mesmo aconteceu com Lafayete, que decepcionou a jornalista com sua aparência truculenta. Até então, ela parecia bem interessada, mas quando o viu, afirmou que “ele não é sarado, ele é diferente do que eu pensava”, eufemismo para “Ele é gordo e não se parece em nada com os modelos da revista Cláudia”. O único que se deu bem foi Clóvis que despertou a curiosidade de Ana Paula. Ela considerou que o tempo em que passaram juntos foi pouco para que se conhecessem realmente e preferiu continuar juntos para explorar melhor o relacionamento. Atitude madura da mais jovem do grupo.

Para a próxima semana, as cenas prometem que o nível será bem inferior: gatinhas no estilo “cala-a-boca-e-beija-logo” e gatões que fazem a linha “sou-gostoso-porque-passo-o-dia-na-academia” estarão hospedados na casa e prometem esquentar o clima. O mais triste disso tudo é constatar que os relacionamentos continuam sendo banalizados em rede nacional, às claras. No escuro, só os casais.

Só o telespectador "enxerga" no escuro

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2 comentários

  1. O programa foi divertido…

    Como todo programa de TV com foco em relacionamentos, tem a tendência de somatizar conceitos fantasiosos ou “cinematográficos” como indicadores de felicidade entre casais.

    O pouco tempo de gravação e a ansiedade dos presentes para mostrarem (para todo o público e não só à pessoa que está querendo conquistar) o quanto se é interessante, aliado ao medo de ser descartado em rede nacional, fizeram que o programa cumprisse o papel de entreter (talvez este seu principal objetivo), deixando trás toda a questão de relacionamento humano efetivamente.

    Boa terça!

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