Indignação

No ano passado, fomos brindados por um decreto do Supremo Tribunal Federal, na pessoa do seu presidente, o Exmo. Sr. Gilmar Mendes, que aboliu a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalismo. Para ele, o jornalista é um profissional como o cozinheiro, que não precisa de conhecimentos específicos para trabalhar – declaração dada pelo próprio, na época.

Junto com ele, votaram também os ministros Carmem Lúcia, Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Carlos Ayres Britto, Cezar Peluso, Ellen Gracie e Celso de Mello. O ministro Marco Aurélio votou contra e os ministros Joaquim Barbosa e Carlos Alberto Menezes Direito não estavam presentes. Muita gente vibrou com a decisão, incluindo jornalistas formados (ou não), alegando que tal exigência vinha dos tempos da Ditadura Militar, que muitos alunos saem despreparados da faculdade e blá, blá, blá…

Não pretendo discutir aqui essas questões, que já foram muito debatidas na ocasião. Houve inclusive uma “quase-jornalista” que escreveu em seu blog que, no dia do decreto, ela tinha uma prova na faculdade de jornalismo e que teve vontade de não ir fazer o teste, mas foi apenas para ‘se ver livre’ de uma vez daquele encargo e também para poder rir da cara do professor. Essa mesma fulana já estava contratada como estagiária de um famoso jornal de São Paulo e, inclusive, argumentava que o diploma nunca foi necessário, já que Clark Kent e Tintim não eram formados.

Excelentes exemplos de uma quase profissional da área. Sinal que, realmente, a faculdade não faz diferença. Muito menos a prática, já que ela já estava inserida no mercado, algo que muitos jovens estudantes com muito mais talento não conseguem. Antes, faltava-lhe um requisito básico que se aprende no berço: educação e respeito pelos profissionais por trás de TODAS as profissões, o professor. Mas prossigamos…

Fiquei muito desiludido na época, porque os argumentos favoráveis não estavam vislumbrando a falcatrua política por trás da aprovação deste decreto. Afinal, nunca na história do País as autoridades foram tão investigadas em CPIs como neste Governo. Claro que isso incomoda… e os jornalistas são os protagonistas. Tira-se o diploma dos profissionais qualificados, para viabilizar a entrada nos Meios de Comunicação de qualquer um que fale o que o Governo deseja falar. Teorias da Conspiração? O futuro dirá.

Página do site

Essa semana, navegando por um site indicado por um amigo, começo a perceber a falta que faz um diploma. Porque o Brasil, país do “jeitinho” e do modo econômico de contratar profissionais (jornalista qualificado cobra caro, sabe como é…), coloca numa página que tem a alcunha de ser um “Sistema de Comunicação”, com jornal, TV, rádio e Agência de Notícias, pessoas que mal têm noção de estrutura de textos.Estou falando do site “Sistema de Comunicação do Vale”, do Vale do Piqueri (http://www.sistemadovale.com.br).

As bizarrices já começam nas manchetes (na data do acesso, essa era a principal): “Policia (sem acento) fecha depósito crandestino de combustível”. O erro ortográfico dá medo, mas passaria batido se levarmos em consideração a correria, a pressão para colocar a notícia rápido no ar e os erros de digitação que comumente acontecem. Ok, também não sou perfeito, já escrevi muita coisa errada… Mas prosseguindo a leitura, percebe-se que o problema é de estrutura. O “jornalista” não sabe escrever. Ele (ou ela) é capaz de separar sujeito e predicado com vírgula, concordar verbo no particípio masculino com substantivo no feminino, repetir palavras constantemente (a expressão “no local” foi escrita tantas vezes que até incomoda o leitor) e dizer o óbvio, como “o depósito clandestino não possuía qualquer tipo de autorização para funcionamento”. Ora, se tivesse autorização, não seria clandestino! (Clique na imagem para ver maior)

Bizarro: erros gramaticais e ortográficos (V) e repetições (A).

Isso só para citar alguns erros primários que uma empresa séria teria dispensado o candidato no momento do teste de seleção. Profissional despreparado ocupando o lugar de outro, que ralou, se preparou, gastou muito dinheiro, perdeu noites estudando e sonhando com TCCs, deixou de se divertir para fazer um trabalho na casa de um amigo e não encontra seu espaço, porque o mercado está saturado de “jornalistas de beira de esquina”.

Nu com acento?!?!?

Ainda assim, sou uma pessoa compreensiva. Novamente achei que fosse uma matéria isolada, um texto feito de última hora, num dia em que o excesso de trabalho ocupou a maior parte dos profissionais mais preparados e pegaram um estagiário para escrever na última hora… Li outros artigos da “Agência de Notícias” e o problema estrutural continua. Cheguei ao limite da compreensão e atingi os píncaros da fúria.

Concordância verbal também foi abolida?

Questiono, já não diploma de jornalismo, mas o de ensino básico. E questiono também o critério de admissão para este “Sistema de Comunicação”. Será que os diretores desta empresa acham que escrever é suficiente? Não terá também o jornalista uma função social de ensinar, indiretamente, as normas da Língua Portuguesa? Ao menos, minha velha professora do primário sempre dizia que a leitura é importante para tomarmos familiaridade com a língua…

Apesar dos pesares, agradeço a todos os meus professores pelas preciosas lições que ensinaram. Estou feliz de ter conquistado meu diploma. Talvez ele não seja mais reconhecido, mas, muito mais do que enfeitar a parede, ele é um sinal que investi no melhor patrimônio que alguém pode ter: o conhecimento.

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