Heróis contra o preconceito

Além de combater invasões alienígenas, cientistas malucos que querem dominar o mundo e ladrões de banco, alguns super-heróis também estão engajados na luta contra outro tipo de crime, mais velado, mas nem por isso menos grave: o preconceito. Além de entreter, as histórias em quadrinhos também têm uma função social e, por isso mesmo, são usadas para passar uma mensagem de conscientização na sociedade de que ninguém é melhor ou pior do que qualquer pessoa e que todos somos iguais, independente da raça, cor da pele, sexo, religião, condição física, orientação sexual ou condição social.

Mulher-Maravilha: ícone feminista

A Mulher-Maravilha foi, talvez, a primeira heroina a levantar a bandeira contra a discriminação sexual. Na época, as mulheres nos quadrinhos eram relegadas a papel secundário, na maioria das vezes colocadas em perigo para que o herói, esse sim, viril, intrépido e corajoso, pudesse cumprir seu papel de salvador. Em 1941, o psicólogo e inventor William Moulton Marston criou a Mulher-Maravilha, cuja estreia se deu em All-Star Comics 8 e a personagem causou muita polêmica, tanto pelos seus trajes sumários, um escândalo para o conservadorismo dos anos 40, como pelo fato de suas histórias inverterem o conceito de heroísmo, colocando o homem em posição inferior – não raras vezes, eles eram amarrados pelo laço e obrigados a falar a verdade.
Apesar disso, a personagem serviu de inspiração para outras heroinas e mudou o conceito das próprias personagens que já existiam. A mudança na personalidade de Lois Lane, namorada do Superman, que era submissa e sempre em perigo, para uma repórter forte e decidida é um exemplo. E mais: as meninas também ganharam uma representante no mundo dos super-heróis em pé de igualdade com qualquer outro herói e as HQs deixaram de ser “coisa de meninos”

Edição de estreia do Pantera Negra

Outra revolução nos quadrinhos foi a criação do herói Pantera Negra, em 1966. Criado como coadjuvante das histórias do Quarteto Fantástico, o Pantera Negra é o líder da nação africana Wakanda, um país fictício, tecnologicamente mais avançado que qualquer nação do mundo e possui os poderes do felino que lhe empresta o nome, com sentidos aguçados, agilidade e sagacidade. Foi o primeiro super-herói negro criado pela Marvel para diminuir o preconceito racial e valorizar a beleza negra. Ele também foi o precursor de uma série de outros heróis negros, como o Falcão, parceiro do Capitão América e Luke Cage, o herói de aluguel.

Luke Cage: primeiro negro a ganhar um título próprio

Este último foi o primeiro herói negro a ter um título próprio, usado pela editora para passar uma forte mensagem antirracismo. O herói teve uma infância pobre no Harlem (EUA), bairro pobre e separatista do país, foi condenado por um crime que não cometeu e sofreu nas mãos de um carcereiro racista até que adquiriu superforça e pele dura como aço num acidente provocado para matá-lo. Na mesma época, a DC Comics criou um herói negro para a Tropa dos Lanternas Verdes, uma vez que o herói vivia uma fase de “aventuras sociais”, onde discutia temas como racismo, violência, drogas e ecologia. Porém, o Lanterna Verde John Stewart só veio a se tornar conhecido do grande público recentemente, com a estreia do desenho animado da Liga da Justiça.
Atualmente, ainda que de forma bastante sutil, há um crescimento no número de personagens gays. A sociedade ainda não vê com bons olhos a questão da homossexualidade, mas os quadrinhos já vem incluindo, há algum tempo, personagens gays para abrir os olhos da população que a condição sexual independe de escolha e está presente em todos os círculos sociais. O primeiro a “sair do armário” foi o herói Estrela Polar, do grupo canadense Tropa Alfa. Na época, a revelação foi tão polêmica que o personagem caiu no ostracismo e levou todo o grupo consigo, mas serviu de ponte para que outros personagens assumissem sua condição: o Flautista, inimigo do Flash, a capitã de polícia Maggie Sawyer, coadjuvante das aventuras do Superman, a policial Renée Montoya e a Batwoman, amantes declaradas, o Colossus do Universo Ultimate, o caubói Rawhide Kid, conhecido no Brasil como Billy Blue, o caçador de demônios Constantine e outros.

Estrela Polar é homossexual

Parece uma tendência que os novos grupos de super-heróis incluam um homossexual entre os seus, geralmente adolescente. Nos Jovens Vingadores, Hulkling e Wiccano (versões jovens do Hulk e do Thor) são namorados; nos Fugitivos, a personagem alienígena Lucy in the Sky tem um romance com uma skrull. O interessante é que os skrulls podem assumir qualquer forma e a personagem é ora um rapaz, ora uma moça. Lucy, no entanto, já declarou que prefere a versão feminina.

Hulkling e Wiccano: namorados

Até mesmo Mauricio de Sousa, que não tem nada a ver com super-heróis, mas tem a ver com inclusão social, faz questão de provocar discussões com seus personagens. Numa historinha da personagem Tina, ele apresenta Caio, que supostamente é gay. Assim que a história foi para as bancas, choveram críticas, mas Mauricio se defendeu dizendo que sempre tratou e sempre tratará as diferenças com respeito e delicadeza, sem ofender ninguém e sem levantar qualquer bandeira, a não ser a da dignidade humana. Que o digam o Humberto (mudo), a Dorinha (cega), o Jeremias (negro), o Tikara, a Keika e o Hiro (japoneses) e o Luca (cadeirante).

Talvez o preconceito nunca acabe, mas as histórias em quadrinhos podem se orgulhar de ser um meio que, além de divertir e nos levar ao mundo da fantasia, também nos mantém com o pé na realidade e nos mostram que ninguém é melhor do que ninguém, pois somos todos seres humanos e temos a mesma dignidade perante Deus e os homens.

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1 comentário

  1. Qualquer iniciativa com o objetivo de minimizar o preconceito na sociedade é bem vinda.

    Que venham outros heróis das mais diferentes minorias para se juntarem a estes em favor de um mundo mais inclusivo.

    Boa semana

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